
Além do seu significado gramatical referente à flexão dos verbos, conjugar corresponde a unir de forma harmoniosa. A harmonia é tanto uma aspiração de cada um e uma de nós, quanto um exigente desafio verificável, entre outros, na dificuldade que temos em conjugar ou unir de forma harmoniosa diferentes interesses, escolhas ou papéis. Em conciliar, por exemplo, a nossa vida pessoal com a nossa vida profissional.
Se pensarmos a quantidade de tempo que nos últimos dias, semanas, meses e anos dedicamos a trabalhar; ou a quantidade de tempo que estivemos, mesmo que fora do contexto de trabalho, com pessoas a ele associadas (hoje nossas amigas, companheiras, familiares); ou quanto o nosso trabalho implicou e influenciou decisões de toda a natureza na nossa vida, consciencializaremos a centralidade e importância que assume. Que assume, assumiu e assumirá a par da sua importância na nossa saúde e no nosso bem-estar. Basicamente em como o trabalhar (primeira conjugação) nos faz caminhar em dois contínuos de verbos da segunda conjugação: adoecer–florescer; confranger–desenvolver.
Tem aumentado a reflexão em torno da “great resignation” [grande renúncia], expressão atribuída ao fenómeno que cresce desde o início em 2021 e que corresponde ao número elevado de saídas dos locais de trabalho e da indisponibilidade para determinados empregos de trabalhadoras/es nos EUA e que, tendo múltiplas, diversas e complexas causas, tem na questão da “qualidade do emprego” e na exigência por parte das pessoas de possibilidades de melhor conciliação entre vida pessoal e profissional, pontos cardeais à sua compreensão. Na Europa tem-se assistido a algo próximo, particularmente no que se refere ao emprego e mercado laboral jovem. Um estudo da YPulse estima que até 20% de jovens trabalhadoras/es tenha, entre 2020 e 2021, abandonado o seu trabalho, identificando como razões principais, logo a seguir ao salário, o impacto do trabalho na saúde mental (24% nas/os jovens até 24 anos) e a dificuldade no equilíbrio entre vida pessoal e profissional (20%). Mais expectativas e exigências das e dos trabalhadores, não apenas da camada mais jovem da população, por um “local de trabalho saudável”, avançando-se do trabalho como direito humano fundamental, tal qual previsto na declaração universal dos direitos humanos, para a promoção da possibilidade de florescer e nos desenvolvermos a trabalhar e respectiva necessidade de prevenção da possibilidade de adoecermos e de nos confrangermos a trabalhar. Tal não é apenas um desígnio ou um objectivo irrealizável. Antes, é realizável e há significativa evidência científica que o demonstra. É realizável e há profissionais preparadas/os e motivadas/os para participarem neste processo. É realizável e há práticas já instituídas que o demonstram, com ganhos para todas as partes envolvidas, desde a organização a trabalhadoras/es, incluindo lideranças e a sociedade como um todo.
A Agência Europeia de Segurança e Saúde no Trabalho [EU-OSHA], suportada na evidência científica crescente, também da ciência psicológica, tem colocado na agenda europeia a necessidade, premência e a mais-valia de se promoverem locais de trabalho saudáveis. Desde 2000 promove as campanhas locais de trabalho saudáveis, a partir de uma visão da saúde e bem-estar ampla que naturalmente considera as dimensões físicas e psicológicas e a necessidade de prevenção. Tem também insistido que um dos investimentos com maior retorno em questões como a produtividade, a redução do absentismo, o abandono laboral ou a redução de erros/acidentes laborais é a prevenção e a gestão dos riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente as questões do stresse, depressão e burnout [esgotamento].
Em Portugal, a DGS, através do Programa Nacional de Saúde Ocupacional, apresentou e disponibilizou em 2021 o guia técnico “Vigilância da saúde dos trabalhadores expostos a fatores de risco psicossocial no local de trabalho”, uma recomendação técnica de actuação de Serviços de Saúde e Segurança e de Saúde Ocupacional (SST/SO) no trabalho para promoção da “saúde mental e bem-estar”, identificando “medidas de prevenção, factores de risco psicossocial, instrumentos/metodologias para a sua avaliação, análise e gestão e determinando processos de identificação e referenciação” de trabalhadoras/es. Para tal lista o conjunto de profissionais que devem integrar estas equipas, com preparação e especialização adequada, ao referir a necessidade de se “estabelecer e fomentar processos de articulação e o trabalho integrado entre os diversos profissionais que integram os Serviços de SST/SO, nomeadamente médico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico (superior) de segurança do trabalho, psicólogo do trabalho e outros profissionais (ex. assistentes sociais, ergonomistas, entre outros)”.
Ainda em Portugal, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), em colaboração com a EU-OSHA e a ACT, com alto patrocínio dos Ministérios da Saúde e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e com apoio as principais confederações representativas de trabalhadoras/es e associações de empregadoras/es, tem, desde 2015, no âmbito do “Prémio Healthy Workplaces – Locais de Trabalho Saudáveis”, reconhecido micro e pequenas, médias e grandes organizações públicas, do sector social e/ou privadas, com empenho na gestão dos riscos psicossociais e da saúde ocupacional e com práticas relevantes de gestão promotoras da segurança, saúde e do bem-estar no trabalho. A quarta edição deste reconhecimento tem, por ora e até ao próximo dia 18 de Fevereiro, candidaturas (gratuitas) abertas no portal maisprodutividade.org, que disponibiliza, além do regulamento e da checklist de candidatura (que funciona como um referencial de boas práticas), informação sobre saúde psicológica no trabalho – para organizações, trabalhadoras/es e psicólogas/os do trabalho – e uma calculadora que estima custos associados à perda de produtividade resultante de problemas de saúde psicológica e do absentismo e “presentismo” deles decorrentes.
Discutimos, recentemente, propostas diversas de diferentes partidos políticos que convergem na identificação de desafios prementes do país: assegurar e reforçar a resposta do nosso sistema de saúde, garantindo a sustentabilidade do serviço nacional de saúde; assegurar e reforçar a sustentabilidade da segurança social e o seu importante papel na coesão social; aumentar a produtividade e a competitividade das nossas organizações, estimulando um crescimento económico mais inclusivo. Discutimos, ainda e embora menos, como utilizar verbas do Next Generation EU (Plano de Recuperação e Resiliência) e do PT2030 ou de como e em que condições realizar alterações à matriz fiscal hoje vigente. A prevenção e gestão de riscos psicossociais e a construção de locais de trabalho saudáveis é, com toda a certeza, uma das formas possíveis de investir nos três desafios atrás salientados, prevenindo custos em doença física e psicológica que, resultando do trabalho, chegam ao sistema de saúde; prevenindo perdas na segurança social baseadas não apenas em “baixas” e em reformas antecipadas, mas também no não cumprimento do potencial de trabalhadoras/es em virtude de problemas de saúde psicológica; e, finalmente, prevenindo perdas de produtividade e competitividade do país. A prevenção e gestão de riscos psicossociais e a construção de locais de trabalho saudáveis pode e deve ser incentivada, também, pelo recurso aos fundos da União Europeia que visam “não apenas a recuperação”, mas a “transformação de economias e das sociedades europeias”, bem como pode ser um dos investimentos que permitam acesso a incentivos fiscais pelas organizações, em claro benefício de todas/os.
Num dos, para mim, sempre importantes dias 23 de Dezembro (o de 2008) encerrou em Dayton uma grande fábrica automóvel que empregava 10.000 pessoas, muitas delas pertencentes aos mesmos agregados familiares. A sua reconfiguração em 2014 numa fábrica de uma empresa chinesa está na base do “Fábrica Americana”, vencedor do Óscar de melhor Documentário (2020), e trouxe, além de esperança à comunidade, grandes exigências pessoais e profissionais de conformação a uma nova realidade de trabalho (e de papel/reconhecimento profissional) pautado pela procura de um “chão comum” entre culturas de trabalho. “Fazer a mesma coisa vezes sem conta acaba por nos desgastar. Corpo, mente… De vez em quando pensamos porque faço isto? Pensamos se teremos a resistência e a vontade para fazer este tipo de trabalho”, confessa um trabalhador no documentário, cuja produção foi apoiada por Barack e Michelle Obama que, numa conversa com a sua realizadora e o seu realizador, reforçam a “importância do propósito e do significado na relação”. Do propósito e do significado no cumprimento e na conciliação dos nossos diferentes papéis de vida. Do propósito e do significado no florescimento e desenvolvimento.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde mental tem ganho preponderância e relevância e existe uma crescente exigência de pessoas e sociedades por maior possibilidade de bem-estar, particularmente a partir dos locais de trabalho. Estando as organizações cada vez mais despertas para esta realidade, será fundamental que as suas estratégias neste sentido sejam integradas e suportadas em evidência e não baseadas em acções esporádicas e não cientificamente sustentadas. Que estas estratégias se suportem em mudanças na cultura, nas lideranças, na confiança, nas práticas e nas normas (formais e informais) da organização. Assim, com benefícios para a organização, para o/a trabalhador/a e para a sociedade, caminharemos, insisto, do trabalho como direito para a dignidade e propósito no trabalho como direito, contribuindo para maior produtividade, desenvolvimento, prosperidade, sustentabilidade dos serviços públicos e coesão social. Contribuindo para maior possibilidade de bem-estar para todas e todos.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 07.02.2022