Falar ou não falar sobre guerra com crianças, incluindo as mais pequenas?
Creio devermos falar e que falar, pode ajudar.
Desde logo porque na sociedade actual, independentemente de falarmos ou não, as crianças estão expostas a informação sobre a guerra e, logo, ao potencial mal-estar, medo, ansiedade ou sofrimento associados, sendo fundamental que as e os adultos em que confiam (sejam mãe ou pai ou outras/os cuidadoras/es) falem e transmitam informação, de forma ponderada e personalizada. Também porque não falarmos pode aumentar a sua preocupação (porque não falam eles comigo?), não nos permite aceder ao que sabem e sentem sobre o assunto (dando-nos espaço ao esclarecimento e reparação) e não permite abrir um canal de comunicação fundamental: “quando precisares ou quiseres falar sobre isto, aqui estou”.
30 horas dificilmente imagináveis que levaram a que ontem participasse em trabalhos da Carla Ribeiro | PÚBLICO e Ana Marques | Observador onde reflicto sobre como abordarmos esta situação com crianças, destacando: a necessidade de preparação da conversa (estabelecendo objectivos e avaliando o momento e o nosso estado emocional no sentido de transmitir verdade/segurança); adequação da comunicação às crianças (idade mas também dimensões emocionais e experiências – tem ou não amigas/os destes países ou que viveram em contexto de guerra?); a (tentativa de) explicação do propósito da guerra, mesmo quando “insana”, prevenindo generalizações abusivas (“pode ser aqui amanhã”, por sem razão aparente); importância de validar sentimentos, também pela partilha segura dos nossos receios; de dar esperança, porque as guerras terminam e há formas não violentas de resolução de conflitos e vários caminhos para a paz (nos quais muitas pessoas estão empenhadas); importância de se prevenirem mensagens tipo “bons e maus” que polarizaram e que levam as crianças a considerar que o fim depende de um “vencedor”; a promoção da compaixão e empatia e, quando possível, utilizá-las para dar propósito à situação (escrever uma carta/fazer um desenho a alguém mais particularmente envolvido).
Quanto a nós, depois de 2 anos de uma pandemia que nos impactou significativamente, é natural que nos sintamos tristes, inseguras/os e ansiosas/os. “Não faz de nós fracos”, disse à Mariana Durães | PÚBLICO noutro trabalho onde discuto formas de assegurar controlo sobre este nosso sentir, prevenindo maior sofrimento. Uma delas, encontrar propósito e significado para o que se está a viver a partir de algo que nos faça sentido: uma manifestação de apoio, participação numa acção humanitária, …
Eu, entre outros, falo com o meu filho e procuro dar estes pequenos contributos. Não sei se o ajudo (creio que sim) e se ajudo alguém (espero que sim) mas sei que me ajuda. Ajudemos outras pessoas. Ajudemo-nos.