Chegamos às últimas (difíceis) horas de um 2021 desafiante para todas e todos, dificílimo para muitas e muitos. Muitas vezes, ao longo do ano, aqui, convosco, procurei sublinhar que a saúde mental é muito mais que a ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e bem-estar global. Termino o ano a pensar que em 2022 o farei com a paz, sublinhando ser muito mais que a ausência de guerra, representando a harmonia, civilidade entre pessoas e comunidades e serenidade e que compreendê-lo é fulcral para a promovermos.
“Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”, 23º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata a necessidade da promoção da paz, não apenas na Síria ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia, mas em Portugal ou nos EUA. Reflecte sobre o fosso no posicionamento de Portugal nos índices de Paz Global/Negativa (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra; 3ª posição em 2020 e 4ª em 2021) e Paz Positiva (civilidade, cooperação e cuidado com outras e outros; 13ª em 2020). Também sobre um 2022 de condições desafiantes da paz em Portugal, pelo agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade da resposta dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições. Não espero que possamos “cair” em guerra, mas creio pudermos “cair” em paz, involuindo em dimensões que a sustentam pelo não investimento na promoção da paz e não assunção do “nosso contributo individual (pessoa) e colectivo (comunidade e sociedade).
No artigo penso a forma como a quebra de confiança, cá como noutras partes do Mundo, contribuirá para o acelerar da degradação dos mediadores sociais e como, em conjugação com a forte e crescente polarização social, isso nos “empurra para um ambiente de (potencial) tensão civil”, com impacto no comportamento das autoridades, incluindo de segurança, decisoras/es e num dado inquietante: 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.
Também por isso, em 2022, precisamos de construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Precisamos de desenvolver a partilha e a pertença, de gratidão e de pensar que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrar que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e governos. De investir na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco.
Estou-vos grato por me lerem, questionarem e por conferirem propósito e significado ao que procuro reflectir e contribuir.
Que 2022 seja tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz, juntas e juntos. Tudo de bom.