Da sequenciação da nova variante do SARS-CoV-2 à morte de Desmond Tutu, passando pela fuga de um cidadão português, a África do Sul tem estado em foco no nosso país. Foi assim neste Natal, com o agravamento da incidência e transmissibilidade atribuído, em parte, à variante Ómicron e com muitas pessoas e famílias a verem alterados os seus planos e a não cumprirem a expectativa criada.
A 24.12 conversei com a Marta Atalaya (@SICNoticias) sobre o significado de viver este momento numa situação de isolamento. Oportunidade para reflectir sobre o cansaço das pessoas face a tantos meses de uma incerteza que desafia a capacidade (grande, mas não ilimitada) de adaptação das pessoas, particularmente das expostas a maiores vulnerabilidades. Oportunidade para procurar estimular a naturalização possível do momento, particularmente face a tantas pessoas nossas próximas a viver uma situação semelhante em Portugal ou em países com quem temos fortes relações (a França e o Reino Unido por exemplo que dia após dia têm ultrapassado máximos de casos diários de infecções). Oportunidade para recordarmos quem, ano após ano, por outros motivos, vivencia o seu Natal de forma mais isolada e sofre com a solidão e/ou exclusão, problemas gravíssimos de saúde pública que temos entre nós e com os quais nos devemos sintonizar (e sobre eles actuar) 365 por ano, todos os anos.
Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E lembremos a importância de garantirmos o controlo, segurança e a previsibilidade (possíveis) em diversos aspectos da nossa vida, como a relação/conexão com outras e outros. Podemos fazê-lo promovendo novas formas de encontro, como é exemplo uma caminhada com alguém de quem gostamos, realizando actividade física e contactando com a natureza, factores importantes ao nosso autocuidado. Podemos fazê-lo promovendo novos momentos de celebração, intencionalizando a comemoração não apenas de datas mas também de realizações (um novo projecto/trabalho, o fim da pandemia), aumentando a nossa percepção de controlo e, pela partilha, o sentimento de pertença.
Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E pensemos que um ano de transição, conforme o apelo do Sr. Presidente da República para 2022, depende de nos projectarmos no futuro e projectarmo-nos no futuro da nossa saúde mental. Na conversa discuto como os problemas de saúde psicológica nos encurralam a um presente amarrado pelo olhar constante ao passado. Como o futuro depende de apoiar pessoas em sofrimento e com problemas de saúde psicológica, nomeadamente com programas específicos de prevenção e intervenção na ansiedade e depressão nos cuidados de saúde primários (próximos das pessoas e contingentes aos seus problemas), junto das 3 em cada 10 pessoas que se estima que dessa intervenção beneficiariam.
“A minha humanidade está ligada à sua pois só juntos podemos ser humanos”, disse D. Tutu. Verdade ontem, hoje e em 2022. Verdade base da nossa possibilidade de vencermos esta pandemia e concretizarmos esta fundamental transição.