
Hamburgo é a segunda maior cidade da Alemanha. Conta com um importante porto, um dos maiores da Europa, e é habitualmente percebida como centro financeiro e económico da Alemanha. É, no entanto, concomitantemente, uma cidade com uma educação, ciência e cultura vibrantes, com magníficas salas de espetáculo e museus. Um deles (MK&G) recebeu este ano uma exposição intitulada “A escola da inconsequência”, resultante de um projecto que, em 2020, atribuiu as Bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] da Universidade de Belas Artes de Hamburgo, às três pessoas que, de acordo com o júri, responderam com as ideias mais relevantes a quatro questões: “O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer?”. As originais bolsas, assentam na perspectiva de desafiar a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionar a percepção social do sucesso.
Ao contrário da obsolescência programada, por estes dias combatida no seio da União Europeia e que visa tornar obsoleto e por isso não funcional um determinado produto, esta ociosidade programada, estimulada e activada, visa a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”. Algo que nos confronta, que nos pode inclusivamente “soar estranho”, por ser divergente. Diria, por ser duplamente divergente, se pensarmos que as bolsas são atribuídas por uma Universidade.
Esta não-conformidade, simbolicamente, elucida um possível binómio entre conformismo e originalidade. Entre o conformismo de fazer, continuando a fazer, e a originalidade de não fazer, não continuando a fazer. Permite-nos reflectir sobre como aceitar que não fazer algo pode ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar. Como esta originalidade pode ter valor face a um conformismo que nos mantém, imperturbáveis, a fazer, fazer e fazer, não guardando oportunidade para ousar mudar. Como o nada fazer pode gerar instabilidade, por oposição a inércia (que de tão humana se reforça a si própria) e criar condições, pelo pensamento, pela reflexão e pela transformação, para a originalidade, a liberdade, a junção, passo a passo, do que permite e contribui para a possibilidade de sermos criativos, de construirmos criatividade e de lhe darmos significado.
De múltiplas formas, o momento que vivemos demonstra-nos a sua importância. Porque, nas crianças, obstaculiza há muito o brincar e a sua expressão livre, não dirigida e espontânea, fundamental à possibilidade de imaginação e construção de cenários alternativos e de se colocar em papéis diferentes. Porque a criatividade beneficia da abrangência de interesses e de experiências e o momento que vivemos propicia menos diversidade e mais “encerramento”. Porque, sendo cada vez mais óbvia a importância da pausa e da (boa) conciliação entre diferentes papéis de vida, esse conhecimento não é por si suficiente, sendo necessária a sua prática, bem como a sua promoção e estimulação.
Também aqui, esta necessidade de parar (e do momento e forma de parar) depende, não apenas, de pessoa para pessoa no que toca às suas características e interesses, como principalmente depende das suas condições para tal e, a partir delas, da possibilidade de desenvolver capacidades criativas e reflexivas associadas. Estas condições, que mais que nunca devem ser investidas (nas e pelas famílias; na educação pelos e pelas educadoras; nas organizações e instituições pelas suas lideranças), podem ser organizadas em torno de quatro dimensões: 1) importância de estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto, pois a criação e a reflexão é condicionada em situações de escassez ou incerteza que impactam na dimensão emocional e cognitiva das pessoas; 2) importância da existência de contextos encorajadores da criação e reflexão, lugares cuja dimensão material o estimule e cuja dimensão imaterial o promova, nomeadamente redes e organizações que funcionem como ambientes seguros onde o erro é possível e onde as relações e as lideranças suscitem oportunidades de reflexão, de co-criação e de resolução criativa de problemas e desafios; 3) importância do desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências, também pelo treino e prática, de criação que, entre outros, incluam a capacidade de sonhar[i] e de se projectar no futuro; 4) importância da saúde psicológica, da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência, de capacidades e oportunidades de relação com as outras e os outros e com o que nos rodeia e de autocuidado.
Ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento (como ser criativa/o muito tempo se nos sentirmos sempre em sofrimento?) e do não esgotamento de recursos, nomeadamente emocionais. A criação não acontece na ausência de condições, mas criando condições para ela, garantindo a possibilidade de equilíbrio entre a disrupção necessária à inovação e originalidade com a concentração e foco fundamental ao selecionar do essencial para concretização ou operacionalização. Mesmo aquando da excepcionalidade associada à genialidade de artistas, desportistas ou cientistas creio legitimo que nos perguntemos não apenas se Cobain, Munch, Plath, Biles ou Newton poderiam ser quem foram/são noutras condições, mas também no que (ainda) mais poderiam ter dado/dar ao Mundo com outras condições e com mais saúde e saúde psicológica.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, conforme afirma Natalia Ginzburg, “quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”. Nada fazer pode não ser fácil, pode ser contraintuitivo, pode até não merecer atenção ou granjear prestígio social e ainda assim ser um caminho para maior possibilidade de bem-estar e para fortalecer a nossa fantasia, a nossa capacidade de sermos criativos e, por nos permitir o exercício e usufruto da nossa liberdade, a nossa autodeterminação. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.
[i] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sonhar
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 13.12.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-valor-de-nada-fazer