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1 em cada 4

“1 em cada 4 – Falar sobre Saúde Mental” foi o título que o Município de Caldas da Rainha escolheu para uma iniciativa que, em outubro passado, a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, visou a criação e divulgação de 4 episódios de um podcast com este nome.

Sim, “1 em cada 4” para nos recordar que, à elevada prevalência de problemas na área da saúde mental em Portugal e à forma como os dados portugueses comparam muito mal com os dados da grandíssima maioria dos países europeus, normalmente não corresponde um nível de comunicação e interesse público (e, já agora, dos decisores) em linha com estes indicadores, nem, infelizmente, níveis elevados (por vezes sequer razoáveis) de literacia da população nesta área.

Também por isso, creio ser muito relevante que as autarquias, em maior proximidade com as pessoas e comunidades impactadas significativamente por estes problemas, promovam iniciativas que permitam a discussão (informada) destes temas, com a participação das pessoas e que visem a melhoria da literacia da população na área da saúde mental.

Este podcast de que vos falo visou exatamente esse propósito e permitiu o debate sobre Saúde Mental vs. Doença Mental, Doença Mental Grave, Acesso aos cuidados de Saúde Mental e respostas locais, além do episódio para o qual fui convidado e dei um contributo – e que convosco aqui partilho: https://youtu.be/gl4Bvs3xlto?si=EAayJClYRJm79WyK – em torno da Comunicação sobre Saúde Mental: A importância e as boas práticas.

Fi-lo a convite e com a Adriana Oliveira Brites, a quem volto a agradecer a confiança, numa conversa que versou a importância de falar abertamente sobre saúde mental na sociedade atual, as barreiras que se colocam a que se fale mais sobre estes temas, o papel dos media e das redes sociais, bem como as boas (e menos boas) práticas de comunicação num momento de transformação da forma de acesso à informação e de maiores possibilidades de partilha de (des)informação.

Um pequeno contributo que partilho para um importante tema que diz respeito a todos. Falar sobre saúde mental, com informação séria e com cuidado, é uma das melhores formas de reduzir o estigma, aumentar a compreensão e literacia nesta área e de suscitar, junto da sociedade civil e decisores políticos, a urgência que o tema merece, porquanto condiciona e impede o pleno florescimento e o bem-estar, no presente e para o futuro, de um número muito significativo de pessoas, famílias e comunidades.

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Dia Mundial da Saúde Mental e dia da atribuição do Prémio Nobel da Paz

Hoje é Dia Mundial da Saúde Mental. Dia que sublinha a importância da saúde mental na possibilidade autodeterminação, de bem-estar individual e colectivo e de desenvolvimento e coesão social. Dia, também, de lembrarmos que “há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário” e que “assim é com a saúde mental”.
“Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental (…) [porém] a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global.”
Este ano a data coincide com a atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2025 pelo que recupero um texto que escrevi e publiquei na Revista SÁBADO a 30.12.21 intitulado: “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”.
Faço-o porque – tendo nas últimas horas surgido notícias promissoras face à terrível situação de Gaza e à libertação dos reféns que persistem dos horríveis atentados do 07.10.23 – não me recordo de outro ano onde tanto se falou sobre quem poderia receber o Prémio Nobel da Paz nos dias anteriores à atribuição.
Faço-o, também e como para a saúde mental, para sublinhar, ainda antes de conhecermos a/o ou as/os vencedoras/es, que a Paz é mais do que a ausência de guerra. Que o “próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente um conjunto de países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “Paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) (…) e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a Paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros).”
Apesar de escrito no final de 2021 e do Mundo ter mudado incrivelmente, convido à sua leitura e convido, neste dia, a que reflictamos sobre o conceito de saúde mental, enquanto mais que a ausência de doença mental, e sobre o conceito de Paz, enquanto mais que a ausência de guerra. Que reflictamos neles, na relação entre eles e no que podemos para eles contribuir… Individual e colectivamente.
É que “na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 [e 2025] é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.”
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12.06.2012, gestão do bem-comum e inovação social

Recuemos ao dia 12 de Junho de 2012. Comemorava-se mais um Dia Nacional da Rússia e centenas, senão milhares, de adeptos da Rússia marcharam em comemoração deste dia em plena capital da Polónia, situação que resultou em confrontos com adeptos da Polónia. Mais tarde jogar-se-ia um Polónia-Rússia do Europeu de Futebol de 2012 e, mais uma vez, o o futebol cruzava-se com tensões políticas históricas e com desafios societais complexos. Também neste dia o Mundo perdia Elinor Ostrom.

Elinor Ostrom, além de ter sido a primeira mulher a receber o prémio Nobel da Economia (em 2009, a par de Oliver Williamson), estudou e reflectiu durante décadas sobre a gestão do bem-comum (ou dos bens comuns). No seu discurso de aceitação desse Nobel – intitulado “Beyond Markets and States: Polycentric Governance of Complex Economic Systems” [Para além dos Mercados e do Estado: Governança Policêntrica de Sistemas Económicos Complexos] e cuja leitura muito aconselho – sublinha a necessidade de desenvolvermos abordagens colaborativas e baseadas na inovação para a resolução dos desafios mais complexos, defendendo que a gestão eficaz dos recursos comuns e a resposta a problemas sociais complexos exigem sistemas de governo policêntricos, com diferentes camadas de tomada de decisão que envolvam diferentes pessoas e as comunidades locais e organizações não governamentais a par dos governos.

Partilho-o a propósito de uma reflexão que considero muito relevante e que li, em artigo no Público da autoria da Sofia Lai Amândio e Jürgen Howaldt e cuja leitura também aconselho, intitulado: “Vinte anos de políticas de inovação social na Europa em risco” (https://lnkd.in/d8mEqBEz).

Artigo que, fazendo uma resenha histórica do caminho percorrido nos últimos anos na área da inovação social na União Europeia, reflecte sobre os riscos de regredirmos nos estímulos e suporte conferidos à co-criação e à participação mais ampla na reflexão e desenho de respostas para os desafios societais complexos que vivemos: “A experiência dos últimos 20 anos prova que a inovação social não é acessória. É indispensável para enfrentar desafios societais, fomentar coesão e abrir caminho a um futuro sustentável.”

Enfrentar desafios societais, fomentar coesão e abrir caminho a um futuro mais sustentável com co-criação, inovação social e com modelos policêntricos de gestão e preservação do bem-comum.

Que não desistamos… Pelo presente. Pelo futuro de todos.

Ps. O Polónia-Rússia desse dia terminou 1-1.

Ps2. Nesse Europeu, co-organizado pela Polónia e Ucrânia, Portugal foi eliminado nas meias-finais, em grandes penalidades, pela Espanha (que o venceria). Esse jogo aconteceu na cidade de Donetsk, num estádio que, tendo sido inaugurado em 2009, desde 2014 não recebe qualquer jogo, em resultado de uma Guerra com já mais de uma década que nos últimos 3 anos e meio se agudizou e tomou proporções que em 2012 dificilmente se imaginariam.

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Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global

Ainda a propósito da minha última partilha que começava com 2 bebés que terão hoje 4 dias, volto com outro recurso que complementa – porque amplifica a outros desafios societais – o texto da passada 2ªF que se referia principalmente à desigualdade/iniquidade.

Falo de uma publicação que parte da colaboração entre a American Psychological Association e as United Nations, da responsabilidade de Odile Frank intitulada: “Psychological aspects of multilateral social development policy and the global development agenda” [Aspectos psicológicos das políticas multilaterais de desenvolvimento social e a agenda de desenvolvimento global] | https://www.apa.org/international/united-nations/social-development-policy.pdf

Documento que parte da identificação de 3 dimensões psicológicas importante ao momento actual de progresso (ou da ausência de progresso ou mesmo do retrocesso) em vertentes da agenda global de desenvolvimento:

. O impacto da pobreza e exclusão no bem-estar e o que podemos fazer para o prevenir;

. A compartamentalização de disciplinas científicas (quando os desafios societais complexos carecem de abordagens interdisciplinares) e a centração em ideias (por vezes preconceitos) e modelos conceptuais de intervenção que nem sempre são os mais custo-eficazes, condicionando o progresso;

. A nível global as tensões mais hedoinistas de maximização e, consequente, concentração da riqueza e algum desequilibrar da balança para mais empatia que altruísmo – a empatia é importantíssima, não me entendam mal, mas, por si só, insuficiente à mudança.

Convido, pois, à sua leitura e a reflectirmos sobre:

. Como pode o desenho de políticas atender mais significativamente às questões sociais, valorizando o impacto nas pessoas e comunidades das necessárias decisões de base económica;

. Como podemos co-construir e desenvolver de forma eficaz e ampla a segurança económica de todos, a partir de redes de proteção mais inclusivas;

. Como podemos renovar e actualizar os princípios de solidariedade entre pessoas, comunidades e gerações, a partir do fortalecimento dos laços e da coesão social e intergeracional e da confiança nas instituições, visando sociedades e um Mundo mais resiliente e com futuro.

É difícil? Certamente.

Os temos ajudam? Nem por isso…

Mas ignorar que o necessitamos de fazer enfraquecerá, sempre e mais ainda, as instituições e a agenda de desenvolvimento global, com repercussões que imagino duras e que historicamente conhecemos com o sofrimento e sacrifício de muitas pessoas. Já fazer destes desafios desígnio, pode dar-nos um propósito, primeiro individual, depois de comunidade e, finalmente, global que estimule uma sociedade mais justa, equitativa e melhor equipada para o presente e futuro.

Farei por isso. Faremos por isso.

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2 bebés. 2 Mundos.

Hoje nascerão certamente dois bebés, sem problemas de saúde, cuja família vive em Birmingham. Espera-se, no entanto, que daqui a 5 anos um deles possa ter mais de 4 meses de atraso em termos desenvolvimentais e 4 a 5 vezes mais probabilidade de desenvolver um problema de saúde mental que o outro. A diferença? Um destes bebés nascerá em contexto de pobreza e o outro não. Hoje (2025!), nada mudando, é o que os espera no Reino Unido (UK).

A desigualdade é, certamente, uma das causas maiores das camadas de ressentimento, desconfiança e desesperança que pairam sobre um UK que, pós-Brexit, parece caminhar para que Nigel Farage, um dos seus mais radicais e sinistros obreiros – porque optou por declaradamente ludibriar, se não mentir, aquando da campanha do referendo – possa vir a ser o seu primeiro-ministro.

Nessa Birmingham, na convenção do Reform UK (o seu partido de direita populista/radical, já líder na maioria das sondagens), Farage anunciou a adesão ao partido de Nadine Dorries, ex-ministra da cultura de Boris Johnson e outrora sua grande apoiante que defende hoje que Partido Conservador está “morto” e que só Farage pode “mudar o UK”.

Infelizmente conhecemos cada vez melhor esta proposta de mudança que “varre” a Europa e as Américas do Norte e do Sul e como se foca em políticas de curto prazo, de questionamento de direitos humanos que muitas/os consideramos universais e de fragilização das instituições democráticas e da política baseada em factos e evidência (científica).

Ora, as desigualdades que atrás menciono persistirão se nada de significativo for feito para prevenir a exposição de bebés e crianças a situações de pobreza e exclusão e, particularmente, para os que nascem em alguns contextos considerando que os valores e princípios destas políticas ao invés de os protegeram, tendem a vulnerabilizá-los mais, com graves consequências para o seu desenvolvimento e possibilidade de bem-estar futuros e para o contrato e coesão social.

O “Child Poverty Action Group” publicou este ano o relatório “Building Blocks – How to deliver a child poverty strategy” cuja leitura recomendo. Dele, com o meu viés, destaco:

. A importância de definir metas/objectivos e serem publicamente assumidos;

. Uma reforma dos diversos apoios sociais informada pela ciência;

. Expandir refeições escolares gratuitas, habitação social e creches (de qualidade);

. Garantir responsabilização através de uma monitorização independente dos resultados das políticas;

. E, finalmente, investir nos primeiros 1000 dias de vida, quando comprovadamente as políticas de equidade têm maior impacto e custo-efectividade, se perspectivadas a médio/longo prazo.

Vamos a isso?

Ps. O presente texto poderia ser totalmente sobre Portugal se alterando – apenas – a menção a uma cidade, o nome de um partido, do seu líder, de um/a sua/seu apoiante e de alguns (poucos) números.

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FMG Fundação Mendes Gonçalves Política

Da Golegã para o Mundo…

Recentemente o Notícias do Sorraia veio conhecer mais aprofundadamente a história e propósito da Fundação Mendes Gonçalves. Conhecer, visitar os espaços, conforme são no presente e se perspectivam para o futuro, e conversar com o Carlos Goncalves, com a Conceição Zagalo e comigo.

Gostava, hoje, agradecendo o trabalho e o cuidado nele colocado, partilhá-lo e destacar deste três dimensões:

a) “Queremos transformar esta resposta numa referência nacional e demonstrar que, com o devido acompanhamento, é possível garantir um ambiente seguro, estimulante e afetivo fora das creches convencionais”, explicou Tiago Pereira. O modelo prevê a criação de mecanismos de supervisão contínua, formação especializada e avaliação de impacto, com vista à sua replicação noutros territórios e eventual integração como política pública”. Passagem em torno do projecto piloto relativo às Amas (Cuidar em Rede), cuja primeira fase de inscrições se iniciou no final da passada semana e que visa reforçar a oferta e a qualidade da oferta 0-3, complementar aos berçários e às creches, considerando a procura que existe para este tipo de respostas, a sua pertinência em alguns contextos (por exemplo em freguesias mais isoladas e/ou de menos dimensão) e o facto do crescimento da oferta de creche não conseguir ainda acompanhar as necessidades/procura, com claro prejuízo das famílias com menores níveis sócio-económicos;

b) “Conceição Zagalo, presidente do Conselho Executivo da Fundação, sintetiza o espírito da missão nos “três F’s”: fundamento, fertilidade e futuro. “Fundamento, porque partimos de uma base sólida de valores. Fertilidade, porque queremos multiplicar impacto. Futuro, porque temos a obrigação de garantir que o sonho que nos foi confiado não se esgota em nós.” Frase que sintetiza, claramente, a forma com nos posicionamos e como queremos, a partir do respeito e compromisso histórico e de legado com o passado, estruturar estrategicamente o presente para um futuro de e com impacto a partir da missão da Fundação Mendes Gonçalves;

e

c) “Queremos provar que é possível construir, no chamado interior, um modelo de desenvolvimento que sirva verdadeiramente as pessoas”, afirmou o fundador [Carlos Goncalves]. “O nosso objetivo é criar aqui condições para que cada criança, cada jovem e cada adulto possa realizar os seus projetos de vida.” No fundo, agir pelo futuro de todos…

Link para notícia completa aqui: https://noticiasdosorraia.sapo.pt/da-golega-para-o-mundo-fundacao-mendes-goncalves-quer-ser-motor-de-uma-sociedade-melhor/

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Uma bala de prata para as políticas públicas de promoção da equidade

Pensemos os primeiros 1000 dias de vida. É neste período, dos nove meses de gestação aos primeiros dois anos de vida extrauterina, que o nosso cérebro sofre um maior e mais rápido desenvolvimento. Nesse sentido, além de ser uma janela importantíssima de oportunidade, esse período é também tempo de vulnerabilidade, devendo, pelo impacto que se revela nesse início de vida e pelas consequências inegáveis para o futuro, merecer uma especial atenção por parte das políticas públicas que visem a equidade.

Conjugando estas evidências com o conjunto de estudos sobre a maior eficiência e custo-eficácia (melhores resultados com menores custos) das políticas públicas neste período – bem demonstradas, entre outros, pelo prémio Nobel da Economia James Heckman – talvez tenhamos mesmo uma bala de prata para a promoção da equidade. Desde logo, através de políticas com eficácia e eficiência que, no período da gravidez e primeiros três anos de vida, reduzam a exposição dos bebés e crianças ao stresse resultante situações de escassez, exclusão e/ou pobreza e providenciem suporte emocional, desenvolvimento de competências parentais e condições visando comportamentos parentais de maior segurança e promoção de desenvolvimento. Políticas que, com eficácia e eficiência, revitalizem e robusteçam em recursos o modelo de intervenção precoce na infância e o conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde para responder, precocemente e de forma contingente, às primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias. Políticas que, com eficácia e eficiência, generalizem a possibilidade de acesso à educação dos 0-3 e a incluam, definitivamente, como parte essencial do sistema educativo, pensando-as não apenas na importante dimensão do cuidado e da segurança, mas como focos essenciais de promoção de desenvolvimento e equidade, pela sua qualidade educativa também resultante de uma formação mais sensível a estas idades e comprometida com a redução das desigualdades dos profissionais de educação.

Esta é uma missão coletiva onde a sociedade civil, logo cada um de nós, tem um papel de advocacia, de pressão e de cidadania amplo. Porque sem mais equidade e porque sem mais possibilidades de futuro para todos limita-se a mobilidade, a justiça e a coesão social. Limita-se a possibilidade de bem-estar individual e, assim, a possibilidade de bem-estar da comunidade.

 

Tiago Pereira

Uma bala de prata para as políticas públicas de promoção da equidade

JN, 30.07.2025

https://www.jn.pt/opiniao/artigo/uma-bala-de-prata-para-a-promocao-da-equidade/17856531

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Nuno Portas, tolerância, liberdade, ternura

“Camila Sosa Villada, escritora, actriz, travesti”, escreveu Isabel Lucas em Abril deste ano para titular a sua entrevista para o Ipsilon (Público) a Camila Villada acentuado, a seguir, uma frase sua: “Cada dia era o último dia”.

Este “cada dia era o último dia” é uma descrição de Camila do que refere ser o facto das pessoas travestis estarem, a cada dia, perante um abismo. Escreve-o e descreve-o, com profundidade e intensidade, no seu primeiro livro – “As Malditas”.

História em parte autobiográfica, que acabo de ler num momento particularmente sensível do nosso país onde a intolerância, a reacção hostil ao diverso e a invisibilidade parecem cavalgar um território não imune ao ressentimento, onde a vergonha (de insultar, inventar, mentir, lubridiar e de assumir publicamente os instintos mais básicos) parece ter desaparecido e extremamente permeável aos discursos e narrativas simplistas e de facção (nós vs. outras/os) e à balada da (des)informação das redes sociais.

Que acabo de ler, também, no momento do desaparecimento de Nuno Portas, figura e pessoa maior de um tempo que, em parte, pude viver e de um tempo em que benefício significativamente do seu trabalho, pensamento e, por vezes abnegação. Seu e de seus companheiros de tempo, mesmo quando uns e outras/os, naturalmente, não concordavam em tudo.

Também no Público na homenagem de Paulo Portas (e da família) ao Pai leio: “o nosso Pai [Nuno Portas] viveu a vida que quis viver e não me lembro de o ouvir falar pelos outros, ou por nós. É um homem inteiramente livre e ensinou-nos a viver apenas como a nossa liberdade determinasse. Numa família tão plural, essa lição de tolerância e ternura está guardada nos nossos corações.”

De tolerância e de ternura, que se guarda, que se inscreve, nos corações dos que toca e dos que o rodeiam e nele se inspiram. Uma lição que contrasta com a frase final (pequeno mas inócuo spoiler, desculpem) do livro de Camilla Villada: “Nós, as esquecidas, já não temos nome. É como se nunca tivéssemos estado ali.”

Que não nos esqueçamos, nunca. Do e do que representa Nuno Portas. De todas as pessoas.

E que não esqueçamos que, por vezes, pequenas lutas (eventuais vitórias) no presente têm significativos e não previstos impactos no futuro. E que não esqueçamos que por vezes, pequenas lutas programáticas ou ideológicas (eventuais vitórias) no presente têm reais e não previstos impactos na vida de pessoas reais, concretas. As ou os sem nome são, afinal, muitos nomes, muitas vidas, muitas histórias, não raras vezes de muito empenho, sacrifício e sofrimento de pessoas. De pessoas como cada um/a de nós.

Parte, portanto, de nós.

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FMG Fundação Mendes Gonçalves Pobreza e Desigualdade Política

Pela não-normalização da ideia de interior. Pelo futuro de todos

Da crescente utilização de tecnologias no nosso dia-a-dia ao que vivemos aquando da pandemia por COVID-19. Do espectro da guerra na Europa a mudanças no quadro sociopolítico que nos pareciam impossíveis não há muitos anos. Enquanto seres humanos, tendemos a naturalizar quase tudo. Fizemo-lo, no país, com a ideia e, particularmente, com o que resulta da ideia, de interior.

Mas, se a tendência para a normalização decorre da condição humana, para a polarização é muito influenciada pelo contexto social. Das condições de vida à forma como as redes sociais determinam, hoje, o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e identidades, tendemos para a criação de um nós versus outros e a afastar-nos, a polarizar. Fizemo-lo, no país, com uma progressiva clivagem litoral-interior e, particularmente, com o que dela resulta.

Hoje basta sairmos dos grandes centros urbanos para que a ideia de interior se comece a impor, como se passássemos uma fronteira física a caminho de uma outra realidade. O discurso no espaço mediático, as diversas categorizações da ruralidade aos territórios de baixa densidade, muitas das quais “bem-intencionadas”, reforçam uma certa diferença, um “uns” e “outros”, de maiores ou menores possibilidades e oportunidades, que não deveria ter e ser sentido, mais num país relativamente pequeno do continente europeu, como é Portugal.

Mas, se a ideia de interior, verdadeiramente, começa na nossa cabeça, é inegável que temos um exigente caminho pela frente, sobretudo na construção de um futuro equitativo, sustentável e com mais possibilidade e oportunidade de bem-estar para todas as pessoas. Uma ação colaborativa, entre diferentes entidades e atores, de diversos setores, público, social e privado, é essencial para atingir este fim, comunidade a comunidade, território a território.

Queremos para isso contribuir na Golegã e, a partir da Golegã e da região ao seu redor, co-construir e inspirar outros a fazerem-no noutras cidades, vilas e lugares. Queremos fazê-lo aqui, numa Golegã a pouco mais de uma hora de distância de Lisboa e duas do Porto, onde cresce o sonho e floresce a ideia de cuidar das pessoas e dos ecossistemas. Do que nasce, cresce e se regenera. Cuidar é cultivar o potencial das ideias, das pessoas, das famílias e da comunidade. Com “inquie-tudo”. Com ética, transparência e integridade, sabendo que há sempre mais para aprender, melhorar, contribuir e transformar.

A Fundação Mendes Gonçalves nasce do compromisso da Casa Mendes Gonçalves e do seu fundador, Carlos Mendes Gonçalves, com o cumprir deste objetivo, agindo localmente, mas colaborando e inspirando globalmente. A partir verbos “educar”, “regenerar” e “nutrir” definiremos e concretizaremos a nossa ação, procurando revitalizar uma filantropia comunitária ou de proximidade, pelo futuro de todos.

A ciência demonstra que investir nos primeiros anos de vida tem um impacto duradouro na saúde, aprendizagem e bem-estar individual, bem como na produtividade, equidade e coesão social. Heckman, prémio Nobel de Economia, define numa célebre equação que o melhor “retorno em desenvolvimento na primeira infância ocorre quando se investe o mais cedo possível”, principalmente “desde o nascimento e até os cinco anos de idade e em famílias com maiores vulnerabilidades”. Devemos, assim, concentrar-nos nos primeiros anos para uma maior eficiência e eficácia do investimento, reforçando, desde logo, a qualidade em educação que depende de relações seguras, práticas pedagógicas baseadas em evidência científica sólida, do envolvimento das famílias e da comunidade, bem como do contacto com a natureza. Queremos fazê-lo a partir do Centro Educativo (Berçário, Creche, Jardim-de-infância e EB 1º ciclo) que construiremos, que ambicionamos que integre a rede pública na Golegã e das colaborações que dele resultarão na criação e transferência de conhecimento.

Os princípios da produção e da agricultura regenerativa propõem uma mudança de paradigma fulcral: não apenas proteger, mas, antes, regenerar. Regenerar o solo, aumentar biodiversidade e os sistemas vivos. Isto minimizando a perturbação do solo, mantendo a cobertura vegetal, valorizando a biodiversidade, integrando, intencionalmente, animais e, principalmente, compreendendo e respeitando o contexto local. É uma visão que será por nós advogada, de cooperação com a natureza, de cuidado coletivo e de construção de resiliência e de futuro para as gerações que se nos seguem.

Hábitos de nutrição saudável e segurança alimentar contribuem para prevenir ou adiar o surgimento de doenças não transmissíveis, algumas crónicas e hoje responsáveis maiores pela perda de anos de vida com qualidade no nosso país, como são exemplo as doenças cardiovasculares, a diabetes ou a obesidade. Paralelamente, e porque relacionada com o bem-estar, uma nutrição saudável surge associada a menores níveis de ansiedade, depressão e declínio cognitivo, diminui gastos em saúde, aumenta a produtividade, melhora o comportamento e desempenho escolar das crianças, bem como o seu desenvolvimento cerebral e imunitário. Mais, facilita a adoção de outros comportamentos parte de um estilo de vida saudável, nomeadamente a cessação ou menor consumo de tabaco e álcool e a prática de atividade física, mitigando desigualdades sociais e de saúde. É, portanto, fulcral a um pensamento e investimento de futuro, equidade e desenvolvimento.

O desafio que abraçamos é grande, ainda que o ponto de partida seja um território com apenas um pouco mais de 80km2 e 5000 habitantes. Mas contribuiremos mesmo para uma educação de qualidade, capaz de gerar mudança. Contribuiremos mesmo para a regeneração dos solos e para modos produção e consumo mais inclusivos e sustentáveis, que desenvolvam os ecossistemas e preservem o planeta. Contribuiremos mesmo para uma nutrição e estilos de vida saudáveis como fontes de bem-estar e florescimento.

Contribuiremos. No plural. Com todas e todos e para todas e todos. Pela cocriação, através de alianças estratégicas que empoderem comunidades. Pela promoção da literacia e transferência de conhecimento. Advogando e comunicando, para influenciar políticas públicas, inspirar e disseminar boas práticas. Validando cientificamente e monitorizando o impacto.

Juntos, concretizaremos a nossa missão: Nutrir Futuros, Regenerar Legados. Da Golegã para o Mundo.

 

Tiago Pereira

Pela não-normalização da ideia de interior. Pelo futuro de todos.

in Eco; 06.05.2025

https://eco.sapo.pt/opiniao/pela-nao-normalizacao-da-ideia-de-interior-pelo-futuro-de-todos/

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Pela não-normalização da ideia de interior. Pelo futuro de todos.

“Hoje basta sairmos dos grandes centros urbanos para que a ideia de interior se comece a impor, como se passássemos uma fronteira física a caminho de uma outra realidade”, digo.

“O discurso no espaço mediático, as diversas categorizações da ruralidade aos territórios de baixa densidade, muitas das quais “bem-intencionadas”, reforçam uma certa diferença, um “uns” e “outros”, de maiores ou menores possibilidades e oportunidades, que não deveria ter e ser sentido, mais num país relativamente pequeno do continente europeu”, digo também.

O ECO publicou recentemente o 1º artigo que escrevi na minha nova condição na nova Fundação Mendes Gonçalves: “Pela não-normalização da ideia de interior. Pelo futuro de todos”.

Nele enquadro o que atrás refiro nas tendências humanas de naturalização (de quase tudo, logo também da ideia de interior) e societais de polarização (de quase tudo, logo também da clivagem litoral-[suposto] interior).

Afirmo, depois e no entanto, que se “a ideia de interior, verdadeiramente, começa na nossa cabeça, é inegável que temos um exigente caminho pela frente, sobretudo na construção de um futuro equitativo, sustentável e com mais possibilidade e oportunidade de bem-estar para todas as pessoas. Uma ação colaborativa, entre diferentes entidades e atores, de diversos setores, público, social e privado, é essencial para atingir este fim, comunidade a comunidade, território a território.”

“Queremos para isso contribuir na Golegã e, a partir da Golegã e da região ao seu redor, co-construir e inspirar outros a fazerem-no noutras cidades, vilas e lugares” (…) A Fundação Mendes Gonçalves nasce do compromisso da Casa Mendes Gonçalves e do seu fundador, Carlos Goncalves, com o cumprir deste objetivo, agindo localmente, mas colaborando e inspirando globalmente. A partir verbos “educar”, “regenerar” e “nutrir” (e, conceptualmente, como resumidamente descrevo no artigo) definiremos e concretizaremos a nossa ação, procurando revitalizar uma filantropia comunitária ou de proximidade, pelo futuro de todos.”

“O desafio que abraçamos é grande, ainda que o ponto de partida seja um território com apenas um pouco mais de 80km2 e 5000 habitantes. Mas contribuiremos mesmo para uma educação de qualidade, capaz de gerar mudança. Contribuiremos mesmo para a regeneração dos solos e para modos produção e consumo mais inclusivos e sustentáveis, que desenvolvam os ecossistemas e preservem o planeta. Contribuiremos mesmo para uma nutrição e estilos de vida saudáveis como fontes de bem-estar e florescimento.”

“Contribuiremos. No plural. Com todas e todos e para todas e todos. Pela cocriação, através de alianças estratégicas que empoderem comunidades. Pela promoção da literacia e transferência de conhecimento. Advogando e comunicando, para influenciar políticas públicas, inspirar e disseminar boas práticas. Validando cientificamente e monitorizando o impacto.”