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Diálogos Cruzados: A responsabilidade social da psicologia

Hoje partilho umas palavras convosco, profundamente sentidas, escritas para uma pessoa que, creio, não as lerá. Não é seu hábito partilhar este espaço virtual connosco e não é minha intenção com ela as partilhar, directamente. Antes aqui as escrever, deixar e, quem sabe, um dia se cruze com elas ou alguém as partilhe com ela…

Convidou-me para ontem voltar à Universidade onde estudei e cresci, antes de mais como pessoa e cidadão, mas, também, como profissional. À Universidade, também, onde, depois e em parte também com ela, pude trabalhar e contribuir para a investigação e, sobretudo, formação de (futuros) colegas. À Universidade, finalmente, onde, também com ela, iniciei um processo que a envolvia que, por vicissitudes (boas, maioritariamente), não terminei e que parte do lamento que sinto por isso ter acontecido advém do quanto ela desejava que assim não tivesse sido e o quão era para si importante.

Fi-lo para falar sobre algo sobre o qual falamos muito e muitas vezes nos últimos 20 anos: a responsabilidade social da psicologia nos diversos momentos do país e do Mundo que vivemos. Fi-lo, também, porque ela tem uma capacidade (escrevo-o propositadamente) profundamente profunda a si de acreditar e confiar, não naturalmente sem se por vezes desiludir e frustrar. Junta-lhe a capacidade de reconhecer, muitas vezes muito além do que lhe é reconhecido.

Foi, é, uma pessoa fundamental no meu percurso. Não certamente por ser a professora com mais publicações, daquelas que valem muitos pontos em avaliações e CV, mas, nos bons e menos bons momentos lá estava. Sempre, comigo, connosco, dando valor à palavra relação naquilo que tem de melhor, mas também no que tem de desafiante e nos faz crescer. Partilhava com entusiasmo os novos textos, livros, o que sabia, não guardando para si e fazendo-o com o entusiasmo com que eu, anos antes, partilhava música com amigas/os. Fora sempre assim…

Estimulou-me a pensar a psicologia além da psicologia. Estimulou-me a pensar-la a contribuir para políticas públicas. A contribuir para uma sociedade e um Mundo melhor, para cada pessoa. É, por isso, parte fundamental do caminho que me trouxe à Fundação Mendes Gonçalves e do meu contributo, junto com o de outras pessoas, para a afirmação da missão, valores e da nossa forma de fazer: https://fundacaomendesgoncalves.org/a-fundacao/

Espero que se reveja. Espero que se orgulhe.

Características suas e uma dimensão mais activista e ligada ao movimento feminista e à cultura brasileira lembram-me uma frase que há dias me foi recordada por uma outra pessoa amiga: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso… Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

Uma frase da Clarice Lispector que devemos guardar, fundo, connosco, no que queremos e desejamos. Para nós e para as outras e outros.

Eu procuro fazê-lo. Como procuro não me esquecer de quem é muito importante e a quem estou muito grato.

Obrigado, Madalena Melo.

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23.04.2025 | Fundação Mendes Gonçalves

23 de Abril. Dia Mundial do Livro, Dia de São Jorge (nome do meu querido Pai) e, agora, da Fundação Mendes Gonçalves.

Na quarta-feira, 23 de Abril de 2025, exactamente um ano após a publicação do seu reconhecimento em Diário da República (Despacho n.º 4386/2024), lançamos e apresentamos publicamente a Fundação Mendes Gonçalves (FMG).

Um dia bonito. Um lugar especial. Um conjunto de pessoas incríveis. Um momento a apontar à eternidade, da Golegã para o Mundo.

E, um livro, uma rosa e uma Fundação…

Como estou grato. E como estou comprometido e empenhado nesta missão de Nutrir Futuros para Renegerar Legados e de Regenerar Legados para Nutrir Futuros.

Obrigado Carlos Goncalves, pela bondade de teres sonhado a Fundação, pela generosidade de a teres tornado possível e por todos (tantos) os contributos.

Obrigado a todas as pessoas que nos últimos meses, comigo, se envolveram na sua instalação, particularmente à Conceição Zagalo, presidente da Comissão Executiva da FMG e à Liliana Valpaços, Maria Beatriz Filipe, Quaiela Costa, Teresa Raquel Pereira e Andresa Oliveira.

Obrigado a todos os membros do Conselho de Administração e do Conselho de Curadores da Fundação Mendes Gonçalves (https://fundacaomendesgoncalves.org/orgaos-sociais/).

Obrigado a todo o Board, equipas e colegas da Casa Mendes Gonçalves e obrigado por tantas e tantos terem estado num primeiro momento de apresentação da Fundação, dois dias antes (21.4.2025), para a equipa da Casa.

Obrigado pela exemplar apresentação e gestão do evento Fernanda Freitas e obrigado a todas as pessoas que, comigo, no evento intervieram: Carlos Goncalves, Conceição Zagalo, Pedro Abrunhosa (que bonitas palavras, melodias e o “fazer o que ainda não foi feito”), Conceição Calhau, João Ferreira, Liliana Valpaços, Pedro Cunha, Karim Merali, Ana Avillez, Eduardo Marçal Grilo, presidente do Conselho de Curadores da FMG, e Fernando Alexandre, Ministro da Educação, Ciência e Inovação. Além, claro está, da bela e “responsabilizante” mensagem do Sr. Presidente da República ali partilhada e lida.

Obrigado a todas as pessoas que deram cor e calor aquele dia e aquele momento, com a sua presença e carinho. Obrigado Rute Dinis de Sousa.

Obrigado, ainda, a muitas e muitos que não tendo podido estar connosco naquele dia, não deixaram, à sua forma, de estar e de me e nos acompanhar e apoiar.

Obrigado.

Juntos. Pelo futuro de todos.

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Três Pontos” | Catástrofes ambientais e saúde mental

Podemos, ao menos algumas e alguns, procurar desconsiderá-lo… Podemos, mas todos sabemos e sentimos a crescente frequência e intensidade dos fenómenos climatéricos extremos. Em Portugal e no Mundo, temperaturas mais elevadas e extremadas, seca, incêndios, mas também inundações ou furacões, para dar apenas alguns exemplos, impactam, significativamente, a vida, a saúde, incluindo a saúde pública e mental, e o bem-estar de pessoas e comunidades, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Isto além do quanto desafiam economias, sociedades, sistemas políticos e ecossistemas, forçando a necessidade do rápido desenvolvimento de estratégias de adaptação para serem mitigados estes efeitos adversos. ​

Conforme aqui escrevi – https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_creio-prov%C3%A1vel-que-n%C3%A3o-tenham-existido-muitos-activity-7297174202934005761-c8xd?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAABUdsUoBSQRUD9nKHxubGYmf2eFYmTQWxqU – segundo o Global Risks Report 2025 do World Economic Forum, os eventos climatéricos extremos são mesmo considerados, hoje, um dos principais riscos globais (2º mais identificado) e o principal dos riscos ambientais.

É por via desta relevância (social) que saúdo a iniciativa da @Universidade Aberta de realizar um episódio do seu pod e videocast “Três Pontos” sobre a temática das catástrofes ambientais e saúde mental, agradecendo terem-me confiado esse contributo que aqui partilho convosco (em vídeo no link abaixo, em podcast aqui: https://open.spotify.com/episode/30RVfMUFqrpzOXWvVofpuc). Na entrevista, que permite este trabalho, respondo a 3 questões em concreto:

a) Como é que as catástrofes ambientes afectam a saúde mental?

b) Que estratégias comunitárias podem ser implementadas?

c) O que podemos fazer para evitar a exaustão emocional e a consequente apatia climática?

Convido-vos a ouvir, reflectir, eventualmente comentar. E convido-vos a terem sempre presente que há cada vez mais evidência científica que demonstra a forma como tendemos a subestimar o apoio colectivo às acções e transição climática. Dito de outra forma, tendemos a pensar que estamos mais isolados nesta defesa e na defesa de ações, medidas e políticas que apoiem a transição do que realmente estamos, tendo isso forte impacto nas nossas práticas e, inclusivamente, no grau de definição das próprias políticas (públicas) muito dependentes da percepção da sua aceitação/defesa por parte das populações.

 

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Heckman

Este é apenas um exemplo… Alicia, filha de Alfredo Quintana, guarda-redes de Andebol do FCPorto e da selecção nacional falecido há 4 anos, brinca com Gustavo Capdeville, guarda-redes do SLBenfica e da selecção nacional depois de um FCP-SLB. Vem ela propósito de ontem ter visto uma imagem de um jogador da selecção de rugby do País de Gales com um/a bebé ao colo, logo após um jogo intenso, e dois jogadores adversários de Inglaterra a brincar/interagir com a/o bebé. Mas podia vir a propósito, também e num sentido menos positivo, de Alan Kurdi, o menino sírio da camisola vermelha que morreu há quase 13 anos e cuja imagem, caído numa praia da Turquia, quem viu não mais esquecerá.

Nem rivalidades desportivas, nem frases/pensamentos tipo “vai para a tua terra” sobrevivem, geralmente (sublinho, geralmente), a bebés/crianças, tal é o nosso instinto protector e de carinho e cuidado. Do mais bonito que o Mundo nos dá.

Mas, se assim é face a situações particulares, temo que um conjunto de forças e dinâmicas actuais (políticas e sociais) possam obstaculizar a uma visão da importância de investirmos, hoje, nos bebés/crianças para, hoje e amanhã, todos beneficiarmos enquanto comunidade e sociedade desse investimento.

Podia enumerar diversas e variadas forças/dinâmicas. Destaco quatro:

a) O crescimento do populismo e, com ele, de um estímulo a políticas tendentes a ganhos mais imediatos e tangíveis, retirando foco/prioridade ao investimento significativo nos primeiros anos de vida, com resultados a médio/longo prazo;

b) A crescente desconsideração da ciência face a percepções e visões mais “puramente” ideológicas e/ou assentes numa suposta meritocracia, algo que periga a utilização dos recursos onde e quando se mostram mais eficientes e eficazes;

c) O enfraquecimento do conceito de direitos humanos universais e uma menor atenção à procura da promoção da equidade e da possibilidade de autodeterminação, com intervenções robustas junto das/os bebés/crianças em situação de maior vulnerabilidade;

d) A quebra da confiança, a maior dificuldade de diálogo e colaboração entre decisoras/es políticos e de continuidade de políticas fragilizam investimentos a médio/longo prazo;

Razões que, creio, nos devem preocupar e fazer regressar a Heckman, prémio Nobel de Economia e que na sua célebre equação refere: “A maior taxa de retorno do desenvolvimento na primeira infância ocorre quando se investe o mais cedo possível, desde o nascimento até os cinco anos de idade, em famílias vulneráveis. Começar na idade de três ou quatro anos é um pouco tarde demais, pois significa não reconhecer que habilidades geram habilidades de uma forma complementar e dinâmica. Os esforços devem concentrar-se nos primeiros anos em busca de maior eficiência e eficácia.”

Regressemos a Heckman e – apesar do tempo, do dia-a-dia muito complexo e das forças que nos arrastam para o que de mais imediato existe – não esqueçamos de a cada dia prepararmos, enquanto comunidade e sociedade, o futuro.

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Dois e quinhentos…

Lembram-se da moeda de dois e quinhentos? Pela dimensão e pelo valor (baixo) era a que mais usávamos para fazer os fios que trazíamos ao pescoço. Íamos, normalmente de bicicleta, até às proximidades das estações dos Riachos ou Entroncamento (preferencialmente) e avaliávamos pela localização (antes ou depois da paragem) o melhor local para as colocar na linha para que, depois, o comboio passasse sobre elas, não as projetando para onde não as encontrássemos. Desse encontro (moeda na linha-comboio) resultava a moeda espalmada que, um furinho depois, virava esse fio com história própria, pelo tipo de comboio, velocidade, lugar. Não havia duas moedas espalmadas iguais. Dois fios iguais.

Tínhamos uma relação especial com o comboio. Levava-nos a Lisboa. A Coimbra. Ao Porto. Não mais saiu do meu imaginário. Em Portugal. Fora de Portugal. Também por isso, quando penso numa associação entre transportes e Casa Branca, penso na estação-interface que conecta as linhas ferroviárias de Évora e Beja. Nos últimos dias, porém, vi Casa Branca associada ao transporte rodoviário e enquanto stand de veículos de uma marca específica e um Presidente da República dos EUA vendedor (e comprador) de carros.

Não vivi – aqui em Portugal, no meu tempo de vida – um processo de passagem de uma democracia (mesmo com desafios) a uma autocracia, como outras pessoas com outra idade viram em Portugal e outras pessoas da minha idade vive(ra)m noutros países. Sei, porém, e pelo que hoje vamos vendo e sabendo deste Mundo, que neste processo tendemos, enquanto seres humanos, a colocar sucessivos limites, dizendo para nós próprios que dali não passam, que aquilo é o limite inultrapassável. Parte disto é explicado por um viés cognitivo, o viés da normalidade que, grosso modo, determina que tendamos a normalizar situações, mesmo quando mais extremas. Viés que resulta da dificuldade do nosso cérebro em processar mudanças abruptas e imprevisíveis, o que conduz à sua negação e/ou desconsideração de riscos/sinais.

Muitas e muitos pensam-no hoje sobre Trump ou os avanços de algumas forças políticas na Europa que, dizendo-se salvíficas, não mais pretendem que alterar os pressupostos da sociedade para que possam beneficiar do caos e prosperar no imediato, mesmo que isso signifique destruir um caminho de procura de maior equidade e dignidade de todas as pessoas e a coesão social a médio/longo prazo.

A este viés associa-se muitas vezes o do optimismo… A crença, não raras vezes irracional, de que o de menos bom é mais provável noutras pessoas/contextos do que connosco/no nosso país.

Estamos num tempo em que inacreditáveis acontecem todos os dias. Ontem, hoje, amanhã, certamente. Reconheçamos os nossos vieses e não naturalizemos os inacreditáveis. Reconheçamos os nossos vieses e não consideramos que a nós/cá não chegará. Reconheçamos os nossos vieses e mobilizemo-nos para, juntos, resistirmos e defendermos a democracia e uma sociedade coesa e de direitos. Hoje, amanhã, pelo futuro de todos.

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Curtoprazismo e Individualismo

Este Sábado tive uma (boa) conversa com o Miguel Ricou e com um conjunto de pessoas, incluindo amigas/os, que dedicaram um final de tarde de fim de semana para estar connosco e connosco discutir. Falamos sobre democracia, confiança e futuro. Falamos sobre a psicologia em tudo isto e sobre potenciais contributos dos e das psicólogas, enquanto profissionais e enquanto cidadã(o)s, nestes fenómenos. Falamos porque democracias enfraquecidas correspondem a riscos, por vezes significativos, para os direitos humanos, para a equidade e para a possibilidade de bem-estar para todas as pessoas. No presente e para o futuro.

 

Falamos, além de consequências, de causas e do papel das políticas públicas e de cada pessoa na prevenção da preocupante (caracterização minha) tendência que hoje se pode observar. A este propósito, queria partilhar convosco algumas considerações e um interessante exemplo.

 

As considerações versam o papel da conjugação da vertigem para o “curtoprazismo” com um certo individualismo contemporâneo para este processo de enfraquecimento. Tendencialmente explicáveis por uma certa ideia de sucesso e mérito inscrita na sociedade (retorno e afirmação individual), por uma cultura assente no imediatismo (também à boleia das redes sociais e no crescimento voraz), na perda de laços e vínculos comunitários de base mais fundacional. Isto, além da crescente desconfiança e na dificuldade de se assumirem compromissos e planos de médio e longo prazo num contexto de incerteza e imprevisibilidade.

 

São políticas públicas que ousam inovar/experimentar, co-construidas, bem-sucedidas e centradas nas pessoas, no seu bem-estar e no bem-comum, que melhor podem contrabalançar estas forças. Um extraordinário exemplo foi-nos mostrado pelo Público e versa o projecto de Bjørvika, uma intervenção no espaço urbano de Oslo. Um trabalho dos estudantes Gabriel Miraldo e Maria Maia (as maiores felicidades) que convido a conhecerem. A certa altura… “Hoje, Sofie reconhece Bjørvika como um bairro que “funciona para as pessoas”, incluindo estruturas que garantem uma comunidade local activa.” E… “Muitas vezes nós pensamos que os políticos vêm sempre atrás, mas eu acho que aqui há mesmo esta vontade da parte política.”

 

Vontade que deve complementar a agência de cada pessoa. Na tertúlia de Sábado procurei estimular que reflictamos sobre o que estamos dispostos a abdicar… Decidir de forma diferente da que decidiríamos sem pensarmos no futuro. Decidir para não ganhar (tanto) hoje, contribuindo para uma melhor sociedade a médio/ longo prazo para todas as pessoas.

 

Façamos este exercício. Ajuda-nos, creio, a perceber, até pela dificuldade do mesmo, porque aqui chegamos. Ajuda-nos, pela consciência, a termos mais agência e a podermos fazer algo, mais. E, quem sabe, se essas eventuais mudanças e diferentes decisões, menos “curtoprazistas” e individuais não resultarão melhor(es), não apenas para o que nos rodeia e para todas e todos, mas, também e principalmente, para nós próprios.

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Tertúlias de Psicologia

Hoje é dia 24 de Fevereiro de 2025. Proponho que recuemos 18 anos, uma “maioridade”. Se a 24 de Fevereiro de 2007, quando faltavam 4 meses para a apresentação do primeiro Iphone, por aí escrevesse que 18 anos depois assinalaríamos o 3º aniversário da invasão em grande escala da Federação Russa aos territórios da Ucrânia, com um Trump num segundo mandato presidencial nos EUA, e que, no dia anterior, tinham acontecido eleições legislativas na Alemanha e que um partido de extrema direita com um discurso sinistro e assustador tinha duplicado votos, atingindo mais de 20%, sendo a segunda força política e tendo dividido o mapa da Alemanha (vejam a imagem e toda a “ressonância” e simbolismo que comporta), talvez não fosse levado muito a sério. Mas, mais importante, se o fizesse há 8 anos também não. Ou, talvez, há cinco, quatro, …

 

Daqui resultam duas reflexões. Uma, que cada vez menos temos (teremos?) possibilidade de prever com segurança o futuro a médio e longo prazo e que, talvez, também por isso e pelos exemplos recentes, valha a pena não desconsiderar (como tanto fazemos) cenários e possibilidades que nos inquietam relativas a regimes políticos, conflitos armados e retrocessos nos direitos civis e humanos, também na Europa. Outra, que é tempo de tornar prioridade a definição do que enquanto cidadãos e comunidade podemos contribuir para que tal não aconteça (e o compromisso com isso), com a certeza de que o momento que vivemos não permite limbos, porque a cada validação de um determinado discurso (uns “vez…”, “mas…”, “são todos iguais”) e/ou de uma determinada política, caminharemos um caminho de possibilidades inquietantes.

 

Trago-vos isto, também, no dia em que passam 4 anos de ter escrito o 1º de 98 artigos de uma rúbrica que chamei “Ao redor” (Revista SÁBADO). No último escrevi:

 

“

Aqui e ali, no Mundo, há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o. Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e publiquei-o em Fevereiro de 2021. Evoco-o hoje, simbolicamente. Determinemos este nosso “ao redor” para por ele sermos impactados. Determinemo-lo a partir dos princípios e valores dos Direitos Humanos para por esses princípios e valores sermos impactados. Não por outros. Para, com eles e através deles, sermos mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.

”

 

É também por isto, por tudo isto, que Sábado me junto a uma pessoa que muito admiro e de quem tenho a sorte e o enorme privilégio de ser grande amigo (o Miguel Ricou) e a quem a nós se queira juntar para, como ele diz “conversarmos sobre algo que nos preocupa, de alguma forma, a todos: a desinformação, a polarização, a confiança e a democracia!”

 

Juntam-se a nós? Na conversa e no compromisso? Se não na conversa, no compromisso?

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ESG

Creio provável que não tenham existido muitos momentos históricos em que fosse tão presente uma verdade inquestionável: que a ideia de futuro, ou de futuros possíveis, comporta sempre consigo uma carga imensa de imprevisibilidade.

 

Parte desta consciência (colectiva) assenta, naturalmente, na forma como estamos hoje mais conectados e a informação circula. Mas essa consciência provém, também, da profunda complexidade e incerteza que resulta da interacção de diversos factores – económicos, ambientais, geopolíticos, societais ou tecnológicos – e de como isso desafia a possibilidade de se “prever” com segurança o futuro.

 

Por isso falamos cada vez mais de antecipação (estratégica) e dela não procurar “prever”, antes explorar futuros possíveis e plausíveis, informados por trajectórias e mudanças emergentes.

 

Esta mudança é relevante quando se conjuga com tendências da sociedade. Vejamos a evolução anual do quadro da percepção dos riscos globais do World Economic Forum. O relatório de 2024, no top-10, identifica para os próximos 2 anos 2 riscos tecnológicos (a má-informação / desinformação é mesmo o n.º 1), 2 ambientais, 1 geopolítico e 2 económicos. Mas, talvez mais determinante seja pensar que o mesmo relatório, para os próximos 10 anos, não apresenta nos 10 primeiros quaisquer riscos económicos ou geopolíticos, tendo 5 ambientais (4 dos quais nos 4 primeiros lugares), 3 tecnológicos e 2 societais.

 

Isto sublinha a premência de se abordarem as dimensões de ESG (ambientais, sociais e de governança) das organizações e empresas. Sublinha que o devemos fazer de forma mais activa, intencional e particularmente tendo presente que será sempre limitado o espaço de florescimento e prosperidade de uma organização a médio/longo prazo quando o seu entorno (e a sociedade como um todo) não tenha, também, esse espaço de florescimento e prosperidade.

 

É desta visão e compromisso da Casa Mendes Gonçalves e do Carlos Goncalves que, também, surge a Fundação Mendes Gonçalves. É do seu espírito de contributo e estímulo que surge a parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira e a Opera Education para a co-organização do Seminário Transformação ESG. Nele participarei, no seu 2º dia, com o Carlos Goncalves, a Giovana Bratti, o Charles Tokarski, o Cesar Blanco, o João Ferreira e o Mauro Peres intervindo sobre “Liderança e Impacto Social”.

 

Espero ter oportunidade de discutir a importância e o papel das organizações e lideranças no bem-estar (individual e colectivo), no reforçar das dimensões da equidade, diversidade e inclusão (neste momento em particular) e, ainda, o quão determinante pode ser para os futuros possíveis o contributo das organizações, também filantrópico, para transformações sistémicas a partir das comunidades de que são parte.

 

Venham daí.

 

Informações: https://ccilb.pt/eventos/transformacao-esg-a-revolucao-necessaria-para-o-futuro-empresarial-sustentavel-e-lucrativo/

 

Inscrições (gratuitas): https://marketing.egoi.page/5eAe6gpf/inscricao

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Pobreza Energética

Hoje, como ontem, diversas regiões de Portugal enfrentam um conjunto de fenómenos meteorológicos que trazem riscos à população. Resultam da depressão Hermínia (nome significativo para mim) que, conforme outros fenómenos climatéricos, atinge de forma desproporcional pessoas e famílias com habitações mais vulneráveis, parte significativa vivendo em situação de “pobreza energética”.

Este conceito corresponde à falta de acesso a serviços energéticos essenciais a níveis básicos de qualidade de vida e saúde (dito de outro modo, a (in)capacidade de manter imune a humidades significativas, aquecida durante o inverno e/ou arrefecida durante o verão) e, em Portugal, segundo um relatório recente da Comissão Europeia, são 20,8% os agregados a viver em pobreza energética e somos, com Espanha, os países pior cotados numa UÉ onde, em 2020, existiam 50 milhões de pessoas com esta condição.

Foi sobre a pobreza energética o 2º episódio da nova temporada do podcast “Toda a Energia” da ADENE – Agência para a Energia, produzido e divulgado pela Antena 1. Uma interessante conversa em que participei, com o Rui Alves de Sousa e a Susana Peralta que aqui partilho: https://www.rtp.pt/play/p14446/e822414/toda-a-energia

Saudando a escolha do tema abordamos na conversa temas como a relação da pobreza económica/monetária com a pobreza energética/privação, as suas causas e consequências, a literacia da população ou as políticas públicas e a sua eficácia neste âmbito.

Entre outros, a Susana Peralta, sublinhou que o tema não trata, apenas, a manutenção da casa adequadamente aquecida, mas toca importantes dimensões da intimidade das pessoas como a capacidade das pessoas/famílias terem as suas refeições quentes ou cuidarem da sua higiene, com os profundos e devidos impactos nas suas relações laborais e/ou sociais.

Eu destaco os anos de vida com qualidade perdidos por via da pobreza energética e, como sermos um dos piores países da UE nesta matéria, é um exemplo concreto de como as políticas públicas (e até a filantropia, com honrosas excepções) ainda não são responsivas à evidência científica que demonstra o seu forte impacto na saúde, incluindo na saúde mental, no bem-estar e nos ciclos de pobreza e exclusão.

Como digo, é um debate importante (…) para que se desfaça a ideia de que a pobreza energética impacta apenas a doença física, por via das doenças respiratórias por exemplo, mas se pense a sua associação com questões como a ansiedade, depressão, stresse ou problemas com o sono e de como, desproporcionadamente, afecta as pessoas que paradoxalmente mais precisariam de encontrar nas suas habitações espaço de conforto, segurança e previsibilidade.

Falemos mais sobre pobreza energética. Façamos mais. E melhoremos mais – mais rápido – promovendo a qualidade de vida das pessoas, prevenindo consumos energéticos desnecessários e prevenindo gastos em saúde pública e sociais.

Ps. Passam hoje 80 anos do dia de libertação de Auschwitz. Nunca o esqueçamos… Nunca o esqueçamos.

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Trends 2025 – Psicologia

Um destes dias virei aqui escrever(-vos) a propósito da forma como penso o legado enquanto determinante fundamental do futuro (e das suas múltiplas possibilidades). Isso, e sobre como me parece fundamental resistirmos à humana tendência para nos focarmos (apenas) no presente e nos seus problemas/desafios, particularmente num momento em que a velocidade e permanência do acesso à informação, e a sua amplificação e repetição, nos convocam para um hiper-realismo e imediatismo que deixa pouco espaço para pensamento, perspectiva e acção a médio e longo prazo.

Talvez por isso – a juntar à ideia que tenho do forte contributo presente e futuro da psicologia nos principais desafios individuais e societais – que, desde há alguns anos e a cada início de ano, leio com atenção as “trends” para a psicologia que a American Psychological Association publica.

Talvez por isso as partilho, também e porque me parece essencial que, apesar dos desafios do dia-a-dia que muitas e muitos colegas psicólogas/os vivenciam, importa que as tenhamos presentes e que contribuamos para a construção do futuro, intencionalizando as nossas acções e tendo uma clara percepção do impacto que as nossas acções no presente têm nele, particularmente quando ganhos “agora e/ou individuais” podem não contribuir para ganhos “futuros e/ou colectivos”.

Sobre as 10 trends para 2025, enquadradas num “momento-chave nacional [EUA] e global marcado por mudanças políticas significativas e nas prioridades societais”, destaco:

a) a inteligência artificial e a forma como, a par de outras inovações tecnológicas, está a contribuir para o alargamento e redefinição da intervenção psicológica e para mudanças na sociedade que beneficiam do contributo da psicologia, nomeadamente a sua adopção em contextos educativos;

b) a importância da progressiva modernização e atratividade da profissão, do seu quadro de competências e formação (inicial e contínua) e a necessidade de desenvolver uma visão (e identidade, acrescento) global da psicologia num Mundo cada vez mais intercultural e partilhado;

c) a crescente importância do papel da psicologia na complexidade dos contextos de trabalho e no reforço das dimensões da equidade, diversidade e inclusão;

d) a nova “vida” da investigação (promissora) sobre a utilização de psicadélicos na intervenção psicológica e psicoterapêutica;

e) finalmente, e muito relevante, o reforço do papel de advocacia da profissão e das e dos profissionais pelo acesso a serviços de qualidade por todas (reforço, todas) as pessoas que deles necessitem e/ou possam beneficiar.

Identifico-me, totalmente. E procurarei, a partir do meu papel cidadão e profissional deixar, também, o meu singelo contributo neste caminho conjunto… Também porque não esqueço que as trends para 2018 tinham a que guardo sempre presente e viva em mim: que a psicologia caminhará para um “maior foco nos factores sociais que determinam a saúde”, a que acrescento e o bem-estar, individual e colectivo, e a coesão social.

 

10 Key Trends Psychology 2025 (APA)