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Diálogos Cruzados: A responsabilidade social da psicologia

Hoje partilho umas palavras convosco, profundamente sentidas, escritas para uma pessoa que, creio, não as lerá. Não é seu hábito partilhar este espaço virtual connosco e não é minha intenção com ela as partilhar, directamente. Antes aqui as escrever, deixar e, quem sabe, um dia se cruze com elas ou alguém as partilhe com ela…

Convidou-me para ontem voltar à Universidade onde estudei e cresci, antes de mais como pessoa e cidadão, mas, também, como profissional. À Universidade, também, onde, depois e em parte também com ela, pude trabalhar e contribuir para a investigação e, sobretudo, formação de (futuros) colegas. À Universidade, finalmente, onde, também com ela, iniciei um processo que a envolvia que, por vicissitudes (boas, maioritariamente), não terminei e que parte do lamento que sinto por isso ter acontecido advém do quanto ela desejava que assim não tivesse sido e o quão era para si importante.

Fi-lo para falar sobre algo sobre o qual falamos muito e muitas vezes nos últimos 20 anos: a responsabilidade social da psicologia nos diversos momentos do país e do Mundo que vivemos. Fi-lo, também, porque ela tem uma capacidade (escrevo-o propositadamente) profundamente profunda a si de acreditar e confiar, não naturalmente sem se por vezes desiludir e frustrar. Junta-lhe a capacidade de reconhecer, muitas vezes muito além do que lhe é reconhecido.

Foi, é, uma pessoa fundamental no meu percurso. Não certamente por ser a professora com mais publicações, daquelas que valem muitos pontos em avaliações e CV, mas, nos bons e menos bons momentos lá estava. Sempre, comigo, connosco, dando valor à palavra relação naquilo que tem de melhor, mas também no que tem de desafiante e nos faz crescer. Partilhava com entusiasmo os novos textos, livros, o que sabia, não guardando para si e fazendo-o com o entusiasmo com que eu, anos antes, partilhava música com amigas/os. Fora sempre assim…

Estimulou-me a pensar a psicologia além da psicologia. Estimulou-me a pensar-la a contribuir para políticas públicas. A contribuir para uma sociedade e um Mundo melhor, para cada pessoa. É, por isso, parte fundamental do caminho que me trouxe à Fundação Mendes Gonçalves e do meu contributo, junto com o de outras pessoas, para a afirmação da missão, valores e da nossa forma de fazer: https://fundacaomendesgoncalves.org/a-fundacao/

Espero que se reveja. Espero que se orgulhe.

Características suas e uma dimensão mais activista e ligada ao movimento feminista e à cultura brasileira lembram-me uma frase que há dias me foi recordada por uma outra pessoa amiga: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso… Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

Uma frase da Clarice Lispector que devemos guardar, fundo, connosco, no que queremos e desejamos. Para nós e para as outras e outros.

Eu procuro fazê-lo. Como procuro não me esquecer de quem é muito importante e a quem estou muito grato.

Obrigado, Madalena Melo.

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