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Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos (Ao redor…; Sábado)

Construirmos mais Paz. Promovermos mais bem-estar para todas e todos. Um país mobilizado contra a violência doméstica. Foram estes os desejos que, aqui, partilhei e sobre os quais reflecti com quem me lê (leu) para 2022, 2023 e 2024, respectivamente. Para 2025? Para 2025 desejo que possamos mobilizar-nos para protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos.

No dia 10 de Dezembro passaram 76 anos sobre a Assembleia Geral das Nações Unidas que ratificou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Declaração que estabelecia e continua a estabelecer, com as alterações entretanto introduzidas, princípios universais de garantia da dignidade, segurança, liberdade e igualdade para todas as pessoas e que surgia como uma resposta, mesmo que não vinculativa, ao que representou de terrível a Segunda Guerra Mundial e como um manifesto com vista à tentativa de prevenção de que algo semelhante ou próximo pudesse acontecer.

A declaração, particularmente na sua transposição para princípios e valores de um conjunto de Estados, acabou por reconhecer a importância dos Direitos Humanos enquanto base para a prevenção da guerra, para a justiça social e equidade e para a liberdade. Base, portanto, para construirmos mais Paz, promovermos mais bem-estar para todas e todos e prevenirmos todas as formas de violência, incluindo a violência doméstica. Base, ainda, para mais coesão social e para maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas.

Mas a declaração era, é e será, nas formas que venha a assumir, como que um “diamante em bruto”. Sobretudo aspiracional e, necessariamente, à espera de, dia-a-dia e comunidade a comunidade, ser cumprida. E se durante algumas décadas o caminho foi sendo, embora paulatino e lento, nesse sentido, particularmente em alguns países e regiões, existem hoje um conjunto de indicadores que apontam para uma regressão, já de alguns anos e que parece tender a intensificar-se e aprofundar-se, da defesa cabal e intransigente da universalidade dos Direitos Humanos. A esta mudança e a este movimento não é alheio o aumento do autoritarismo no Mundo (e respectivo retrocesso nas Democracias plenas), o individualismo e a polarização, a quebra do multilateralismo, de coesão social e um conjunto de determinantes sociais e alterações sócio-económicas e de organização da sociedade, incluindo tudo o que se relaciona com o acesso e partilha de (des)informação e as novas tecnologias.

Mais, não é alheio o não cumprimento de alguns anseios e expectativas da população, nomeadamente de bem-estar e perspectivas de futuro de alguns grupos populacionais, o agravamento da desigualdade e das iniquidades e uma quebra generalizada, em países onde se inclui Portugal, da confiança nas instituições, governos e, possivelmente, até nas outras pessoas que muito fragiliza a sociedade e a coesão social. Para tudo isto muito contribui um tempo propicio à emergência de pessoas providenciais, normalmente bastante autocentradas, que aparentam pouca capacidade de empatia e compaixão e que prometem resolver os desafios mais complexos com soluções imediatas e simplistas, apelativas a muitas pessoas mas que invariavelmente têm uma constante: são contrárias à ideia de direitos humanos, seja porque retrocedem na igualdade de género e nos direitos das meninas, raparigas e mulheres, seja porque fragilizam a situação de populações deslocadas, refugiadas ou migrantes, seja porque interferem com direitos de pessoas com diferentes orientações sexuais, religiões ou pertenças comunitárias.

Acontece que parte da complexidade do nosso Mundo vive das situações paradoxais da nossa existência. A nossa pulsão, por via da forma como processamos informação, tomamos decisões e dos nossos vieses, para o mais imediato, negativo e individual conflitua com o que sabemos sobre o quão a possibilidade de bem-estar individual depende da possibilidade de bem-estar colectivo. E, sendo isso verdade para o bem-estar, é-o também para a educação, para a saúde (pense-se a saúde pública) e para um sem número de áreas, tornando-nos pessoas e sociedades interdependentes em que a parte influencia o todo e é por ele influenciada e em que mais pessoas terem maior qualidade de vida resultará, sempre, em termos todos mais qualidade de vida potencial.

É neste sentido que venho apelar a que possamos, em 2025 e sempre, fazer a nossa parte para protegermos a universalidade dos Direitos Humanos. E fazer a nossa parte depende de os cumprirmos, através das nossas acções, contributo para acções de quem nos rodeia e para instituições que assentem nesses valores e que tenham a confiança da população para os prosseguirem, mesmo nos períodos em que isso possa ser mais difícil e desafiante. Depende da nossa responsabilidade em não contribuir para a degradação e enfraquecimento das instituições e para a criação de contextos de (percepção de) insegurança ou de (percepção de) desorganização, bastante propícios ao surgimento de figuras – quase sempre as maiores contribuidoras para a criação desses contextos e que só neles ou deles podem emergir – que se propõem salvar a instituição que ajudaram a degradar, quando não o país ou o Mundo. Não precisamos de pessoas salvíficas, precisamos de juntos cumprir e contribuir para o cumprimento da universidade dos Direitos Humanos e de confiar, mais. Precisamos de um compromisso e de uma responsabilidade individual e colectiva, moral e ética, particularmente quando, repito, cumprir os Direitos Humanos é mais difícil e desafiante. Porque o quisemos e queremos para nós. Porque o quereremos para as nossas e nossos filhos e netos.

Terminei o primeiro destes meus 98 artigos da rúbrica “Ao redor” escrevendo: “Aqui e ali, no Mundo, há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o. Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e publiquei-o em Fevereiro de 2021. Evoco-o hoje, simbolicamente. Determinemos este nosso “ao redor” para por ele sermos impactados. Determinemo-lo a partir dos princípios e valores dos Direitos Humanos para por esses princípios e valores sermos impactados. Não por outros. Para, com eles e através deles, sermos mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.

Eu por aqui o procurei e procuro fazer. Eu por aí o procuro e procurarei fazer.

 

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos

in Sábado (Ao redor…); 17.12.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2025-protegermos-e-cumprirmos-a-universalidade-dos-direitos-humanos

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Acasos curiosos…

Como bem sabem, a nossa vida – e o que se passa na nossa vida – também resulta de um conjunto de acasos. Alguns particularmente felizes, como não há muito pude experimentar. Outros, infelizmente, menos felizes. Outros, ainda, apenas curiosos…

Há dias confrontei-me com um destes. A relação entre dois artigos de uma pequena newsletter que regularmente leio e o momento que vivemos e vivo.

Um a reafirmar algo que, conhecendo relativamente bem (no que aos estudos científicos diz respeito, mas também ao olhar empírico sobre a realidade), não deixa de ser curioso face ao momento actual… O artigo sublinhava que, geralmente, “as pessoas acreditam que a informação que possuem é suficiente para permitir que tomem boas decisões” e que outras pessoas “concordariam com elas, caso tivessem a mesma informação”, mesmo quando são confrontadas com realidades que rejeitam ambas as situações. A saber, que a informação é suficiente; ou que as pessoas decidem todas da mesma forma quando com a mesma informação.

O outro estudo versando sobre a forma como, apesar do levantamento de todas as restrições decorrentes da pandemia, continuarmos, hoje, a despender “menos tempo a realizar actividades fora de casa”, mantendo-se, em algumas áreas e comportamentos, “alterações significativas” próximas das que decorreram das medidas de proteção da população, ainda que mereça que se sublinhe que esta tendência (menos tempo/actividades fora de casa) se iniciou ainda antes da pandemia. Concluem as/os autores, “mesmo tendo sido eliminados os efeitos mais sérios, a COVID-19 continua a impactar as nossas vidas e o nosso quotidiano.”

Sem dúvida. Continua a influenciar a forma como nos relacionamos com as outras pessoas, com a informação disponível e, nesse sentido, com a forma como tomamos decisões e os resultados das mesmas. E continua a interagir com alterações sociais entretanto verificadas e com o acesso, as possibilidades e os impactos das novas tecnologias, por exemplo no acesso e disseminação de (des)informação e na tomada de decisão.

Também por isso, as/os autores do primeiro estudo concluem apelando a que usemos mais humildade, “assumindo que não sabemos tudo” e que manter a “curiosidade sobre as lacunas no nosso conhecimento pode resultar em processos de tomada de decisão mais informados e integrados para todas e todos.”

Isto é tão mais relevante quanto será importante que, juntos, trabalhemos pela consolidação, afirmação e desenvolvimento da psicologia e pela confiança na mesma enquanto ciência (pelo valor aqui demonstrado) e enquanto prática (como tantas e tantos bem sabemos).

Juntos devemos contribuir para um reconhecimento maior da psicologia na sociedade e pela importância, para cada pessoa, de evoluirmos – conforme Ian Walker defende – do actual STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) para um PSTEM, que inclua a psicologia e que faça justiça à sua relevância em tudo quanto envolva pessoas, o seu comportamento e a tomada de decisão. O Mundo, portanto.

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O Bem-estar, idiota

À boleia de Trump e do que significa na ascensão de “vozes e partidos iliberais e autoritários”, voltamos à expressão “The economy, stupid” [A economia, idiota], cunhada por Carville, quando a distribuiu pela sede de campanha de Clinton, aquando da sua candidatura às presidenciais de 1992”.

Talvez hoje “Carville lhe acrescentasse uma palavra – percepção. Mais decisivo que o estado da economia, é a percepção pelas pessoas do estado da economia. E, acrescento eu, mais decisivo que o estado da economia e do que a percepção do estado da economia, embora significativamente impactada por estas dimensões, é a avaliação que cada pessoa faz da sua vida, do seu bem-estar e, particularmente, a comparação que faz entre o que sente e o que sente que poderia sentir e entre o que sente e o que sente que outras pessoas sentem.”

“O Bem-estar, idiota”, 95º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) reflecte sobre como “não apenas quem vota/votou está à procura de ganhos de bem-estar para si, aproximando-se do que imagina como sendo o seu bem-estar potencial, como procura alterações no resultado da comparação que faz com outras pessoas, pessoas que algumas sentem não merecer o nível de bem-estar que aparentam. Daqui resulta que existirão pessoas que estarão até disponíveis para que o seu nível de bem-estar não aumente desde que a diferença face a outras e outros possa aumentar.”

Ora alguns indicadores apontam para “estagnação, por vezes quebra e, principalmente, para o enraizamento de uma percepção de que as novas gerações, particularmente em alguns países da Europa e nos EUA, enfrentarão um declínio no bem-estar. Esta percepção é, por si só, geradora de stresse e angústia, mas, também, de raiva e ressentimento, hoje emoções apontadas por estudos de opinião como profundamente preponderantes na tomada de decisão política e na escolha de pessoas/partidos”.

“É por isso que é fundamental que privilegiemos a possibilidade de bem-estar e que, enquanto sociedade, nos sobressaltemos com o facto das nossas crianças e jovens – sim, as crianças e jovens em Portugal – terem hoje indicadores de bem-estar ou de saúde mental bastante piores face aos seus pares há alguns anos, pares estes hoje jovens adultas e adultos com indicadores de bem-estar ou de saúde mental bastante piores face a quem teve estas idades há já alguns anos.”

“Com base nestes indicadores é estranho que, nas inúmeras e longas reflexões que vejo serem realizadas sobre a quebra de resultados escolares das crianças e adolescentes em indicadores internacionais ou em provas de aferição, raras vezes se discutam os níveis de bem-estar e o impacto que têm no seu envolvimento, motivação, nas aprendizagens e no seu desempenho. Nos resultados escolares como nos níveis de práticas agressivas e violência, na não-autonomia, na não-participação cívica…”

“Impõe-se, nesse sentido, que contribuamos e advoguemos por uma nova centralidade do bem-estar sob pena de entrarmos mesmo num ciclo que confirme o tal declínio.”

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“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

Esta afirmação consta de um trabalho que trata a forma como é fundamental – particularmente quando vivemos um período de desafio significativo nas questões da saúde mental – que as psicólogas e os psicólogos possam estimular, com o seu conhecimento, conversas informadas sobre saúde mental “em gelatarias, cabeleireiros, barbeiros e salões de beleza, restaurantes e outros lugares do nosso dia-a-dia”.

É uma afirmação de Ariana Hoet, directora executiva da “The Kids Mental Health Foundation”, uma fundação que se propõe contribuir para um Mundo em que a “saúde mental é parte vital do crescimento”, desenvolvendo nas pessoas adultas “competências para ajudarem as crianças a lidarem com os desafios da sua vida”.

Apesar do artigo tratar uma realidade distinta, creio existirem paralelos para outros países, incluindo Portugal, nas questões sobre como a formação prepara insuficientemente as e os profissionais para comunicar com diferentes públicos, disseminar a ciência e promover literacia e o viés existente para a comunicação mais académica / entre pares, bem como nos desafios que se colocam à saúde mental, particularmente de grupos específicos da população (crianças e jovens, pessoas em situação de exclusão e pobreza, …).

Também por isso tenho procurado contribuir para que se reflicta sobre um mais vasto contributo das psicólogas e psicólogos na disponibilização (e impacto) mais amplo da ciência psicológica, aproximando-a mais dos contextos de vida das pessoas, também a partir da influência conjunta com outras ciências, do trabalho com outros profissionais e com pessoas referência às vidas de outras pessoas. E faço-o a partir de quatro elementos que penso centrais da importância desse movimento:

a) Chegar a mais pessoas e a pessoas que dificilmente de outra forma procuram / conseguem aceder a serviços de psicologia;

b) Gerar mais capacidade de detecção precoce de problemas e, logo, maior possibilidade de intervenções mais próximas, custo-eficazes e que reduzam sofrimento;

c) Contribuir para a prevenção a partir de uma maior sensibilidade aos temas da saúde mental e da transformação societal em questões que concorrem para os desafios que hoje enfrentamos;

d) Fomentar conhecimento, literacia e ferramentas que permitam maior auto e heterocuidado nas comunidades.

Faço-o por aqui. Faço-o por aí. Fi-lo, por exemplo, em participações recentes em eventos próximos de comunidades e diferentes profissionais: em Albufeira, reflectindo sobre “Equidade e justiça social na Saúde Mental” (com a Carla Fernandes com moderação da Cláudia Cristina Dias Guedelha); em Aveiro, sobre ciclos de pobreza e o papel da parentalidade e sucesso educativo (com a Maria João Marques, a Carla Sousa, a Andreia Carvalho e a Sandra Araújo com moderação da Catarina Isabel Reis Neves).

Um pequeno contributo meu, nosso. De um tanto que há a fazer…

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Empatia rima com Democracia (Ao redor…; Sábado)

Quando escrevo não conheço os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos Estados Unidos. Estas eleições são, porventura, das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas e com maiores consequências a propósito dos seus resultados e do impacto do resultado nas candidaturas e apoiantes. A este propósito, não conheço, também, se já haverá, sequer, resultados oficiais definitivos quando ele puder ser por vós lido. Não conheço, ainda, se, havendo já esses resultados oficiais definitivos, a candidatura derrotada aceitou os resultados. A democracia é complexa, bem sabemos, mas é, não sem espanto para mim e para muitas pessoas, que chegamos a este ponto da sociedade, primeiro, e da democracia nos EUA e noutros locais da Europa e do Mundo, em 2024.

Nos últimos anos li dois livros, aparentemente – mas só aparentemente – muito diversos, do filósofo francês Frédéric Gros. O primeiro chamado “Desobedecer”, trata o fenómeno da insubmissão e das forças individuais, particularmente a consciência, e colectivas que a estimulam. O segundo chamado “Caminhar”, trata a arte “de pôr um pé à frente do outro” enquanto experiência física e psicológica de encontro, compreensão e participação com o que nos rodeia. Consciência, individual e colectiva. Compreensão e encontro com o que nos rodeia. E, conforme Gros refere diversas vezes no “Caminhar” e sublinha com a certidão de óbito de Rimbaud, um caminhante permanente – “Nascido em Charleville, de passagem em Marselha. De passagem. Só ali foi para partir” – a ideia maior de que somos parte do Mundo no momento, que há passado antes da nossa passagem e futuro após ela e como isso acrescenta uma responsabilidade intergeracional e de legado, de reconhecimento do passado e de contributo para um futuro potencialmente melhor para todas as pessoas.

Ora, se pensarmos na empatia enquanto um processo que implica a compreensão de “uma outra pessoa a partir de seu quadro de referência e não do nosso próprio” e que, nesse sentido, implica a possibilidade de “experimentarmos indiretamente sentimentos, percepções e pensamentos” de outra pessoa, podemos entender o quão importante são a consciência, a percepção do que nos rodeia e, também, do nosso papel momentâneo no Mundo para a nossa empatia com as e os outros e com o que nos rodeia. Mas, mais, se observarmos a tal definição da American Psychological Association que sublinha também que, pese embora, “não implique, por si só, motivação para suportar”, a empatia pode resultar “em simpatia ou sofrimento pessoal” e, nesse sentido, influenciar “a acção”, podemos facilmente perceber o quão relevante é nos processos democráticos e nas decisões de participação e na forma de participação individual e colectiva.

Tudo isto está e é profundamente influenciado por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, das redes sociais e da inteligência artificial. Falo, principalmente da utilização e politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento. De como são utilizados com fins políticos os vieses que enquanto seres humanos temos. Por exemplo os que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos (por vezes “trágicos”), hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são. Ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico (um crime, um erro, …), por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista e em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas, de profissionais e de comunidades.

Estes mecanismos, a par de desafios sociais globais de enorme complexidade, como são a pobreza e a desigualdade, os conflitos armados e guerra ou as migrações, e de outros fenómenos sociais como a solidão, a ausência de sentimentos de pertença e de envolvimento em grupos e comunidades e a maior vulnerabilidade das instituições, criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos, ao aumento do autoritarismo no Mundo nos últimos já largos anos e a uma polarização societal e política mais acentuada, particularmente nas democracias da Europa e na dos EUA, para focar nestes países. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.

Os Estados Unidos e os seus períodos eleitorais nos últimos anos, particularmente os três que envolvem Donald Trump, são um profundo exemplo do impacto da empatia. Por um lado, pelo impacto potencial – por ser difícil estabelecer nexos causais – das expressões associadas ao conjunto de pessoas “deploráveis” que votavam Trump em 2016, da responsabilidade de Hillary Clinton, ao “lixo” num comício de Trump nos últimos dias dirigido às e aos Porto Riquenhos. Por outro, porque se tende a aprofundar um afastamento entre uns e outros que é essencialmente de percepção porque a maioria dos estudos demonstra que existem muitas dimensões em que a percepção de afastamento é significativamente maior face ao real afastamento, com tudo o que isso implica.

Empatia, portanto. E confiança. Como a polarização, a confiança em nós, nas outras e outros e nas instituições é fulcral à saúde, bem-estar e coesão social, conforme cada vez mais e mais robusta evidência demonstra a partir, por exemplo, da análise de diversos processos que vão da vacinação à forma como nos preparamos e lidamos com catástrofes e emergências. A confiança é elemento fulcral da democracia e de todos os processos democráticos, nomeadamente do mais básico – aceitar e respeitar o voto e a sua expressão.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, num momento de profundo desafio e de uma propensão para nos focarmos no que corre mal, sobrando muito pouco espaço para o que corre bem, importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros, através de múltiplos ângulos e perspectivas. Que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez” e ausência de reciprocidade. É pouco compatível com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora (ou pelo menos para as e os iguais a mim, agora), tendo-se, pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e dos outros, hoje e para o futuro. Tendo-se pouco presente que empatia rima com democracia. Voltemos à empatia. Reforcemos a democracia e a possibilidade de auto-determinação.

Tiago Pereira

Empatia rima com Democracia

in Sábado (Ao redor…); 06.11.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/empatia-rima-com-democracia

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Saúde mental no Trabalho – Fact Check da Saúde

Tenho reflectido muito sobre o aparente paradoxo de, em parte significativa do Mundo existir, hoje, uma discussão ampla sobre a importância da saúde mental e bem-estar e, até, acções mais significativas de suporte às populações neste âmbito, mas, simultaneamente, os indicadores nesta área apresentarem números crescentemente preocupantes e a percepção da população sobre o apoio nesta área ser muito baixa.

Há um conjunto de razões que, creio, apoiam a compreensão deste aparente paradoxo que se reflecte em diversas áreas, da saúde mental da população jovem à saúde mental e bem-estar no trabalho. Um recente trabalho da Gallup assinalava que, apesar da maior “preocupação com a saúde mental” e do crescimento de “iniciativas de bem-estar e programas de assistência”, a “percentagem de trabalhadoras/es que concordam fortemente que a sua organização se preocupa com o seu bem-estar geral atingiu um recorde negativo de 21% no início de 2024”. Este foi o valor mais baixo dos últimos 15 anos.

Apesar das limitações do estudo creio interessantes as propostas que apresenta às organizações para mitigar o tal paradoxo: avaliarem o impacto das acções e recursos que disponibilizam; expandir as estratégias de bem-estar para abarcarem os diversos elementos do bem-estar e a cultura da organização; e integrar o bem-estar nas “conversas”, em particular das lideranças.

Sobre esta necessidade partilhei convosco há cerca de um mês uma conversa com a Diana Bouça-Nova, aquando do Dia Mundial da Saúde Mental, este ano dedicado à saúde mental no trabalho.

Hoje, num outro exercício com o mesmo objectivo maior – reforço da literacia, da compreensão sobre estes fenómenos e sobre o seu impacto e sobre o que, de acordo com a melhor evidência científica disponível, pode ou não pode funcionar e porquê – partilho um episódio do “Fact Check da Saúde” – Canal S+

Versou a saúde mental no trabalho e com a Filipa Palha, sob moderação do Vasco Domingos e convite do João Maria Condeixa (a quem agradeço a confiança), coube-me abordar a relação dos factores profissionais com a saúde mental, as dimensões da conciliação entre vida pessoal e familiar e profissional ou o retorno potencial de iniciativas baseadas na evidência no bem-estar, produtividade e desenvolvimento organizacional.

Convido-vos a ver. Convido-vos a participar nesta reflexão e conversas que devem, a bem de todas e todos creio, ser aprofundadas.

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Empatia rima com Democracia

Dizia eu no início do artigo que, quando o escrevia, não conhecia “os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos EUA.” De umas eleições que, dizia também, são “porventura das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas.”

Agora já sei. Já sabemos. E os resultados, particularmente no contexto do qual decorrem, exigem uma profunda reflexão de quem, como eu, defende vigorosamente os valores dos direitos humanos universais, da justiça intergeracional e da procura de uma sociedade justa, equitativa e tendente à possibilidade de auto-determinação de todas as pessoas.

Uma reflexão e a mobilização de quem partilha estes valores, independentemente das potenciais discordâncias, implicando isso que pensemos como nos posicionamos em sociedade… Como contribuímos (ou não) para debates construtivos, como somos capazes de nos descentrarmos de nós e das/os nossas/os quando isso importa para a preservação da confiança nas instituições e nas/os outras/os e/ou construção de soluções… Como somos capazes de abdicar em prol do bem-comum e maior… De pensar em quem nos rodeia e se nos seguirá. Como retomarmos um caminho de maior empatia e de como a empatia rima como democracia.

“Empatia rima com Democracia”, 94º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) pensa a empatia, a sua definição e papel e como é “profundamente influenciada por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, redes sociais e da IA. Da politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento; à utilização com fins políticos dos vieses que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos, hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico, por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas.

Estes mecanismos, a par dos desafios sociais globais de enorme complexidade “criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos e ao aumento do autoritarismo. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.”

“Importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros (…) Que pensemos que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez”, ausência de reciprocidade e com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora, tendo-se pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e outros, hoje e para o futuro.

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Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar (Ao redor…; Sábado)

Quem, com mais alguns anos que eu ou mais ou menos da minha idade, assistiu à emergência do fenómeno das televendas, não esquece os inúmeros e pomposos anúncios a produtos que prometiam mudanças profundas da nossa vida. Não sabendo porquê, recordo especialmente os extraordinários sprays que se propunham compensar a calvície. Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar.

Hoje, outro passo tem sido dado. A reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, estamos hoje perante um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento, com dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos Estados Unidos, principal mercado na criação (e de clientes) do Mundo (o segundo, a oncologia representava em 2022 cerca de 40% menos investimento face à saúde mental). Esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono das aplicações muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm quaisquer estudos sobre os seus reais impactos), tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter em dimensões de promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e da equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.

Mas, mais, esta forte expansão, quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados, determina que milhões de pessoas, algumas delas em situações especialmente vulneráveis (por exemplo com problemas diversos de saúde mental), com maior ou menor consciência, partilhem pensamentos, emoções e dados biométricos com aplicações, muitas vezes sem a devida salvaguarda de segurança e confidencialidade. Há diversos exemplos destas práticas, um deles particularmente mediatizado. Trata-se da BetterHelp’s, uma plataforma que “liga” clientes a prestadores de serviços na área da saúde mental e que recentemente acordou um pagamento de 7,8 milhões de dólares a 800.000 clientes por ter reconhecido que, sem autorização expressa, cedeu a plataformas como o Facebook ou Pinterest os seus dados de informação, de rotinas, de questionários e de contacto, permitindo que estas plataformas identificassem “potenciais clientes” por similitudes de práticas e comportamentos nestas redes, podendo dessa forma criar, dirigir e personalizar os anúncios e rentabilizando / monetizando significativamente essas informações .

Ainda, esta expansão, a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups que desenvolvem tendem a dois tipos de movimentos: a) de simplificação (pela criação de algoritmos que, muitas vezes de forma abusiva e descontextualizada, transformam fenómenos muito complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) de generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, algo que resulta, muitas vezes, numa menor identificação, utilização e eficácia em comunidades de pessoas com menor educação e/ou literacia ou mesmo em países com organizações sociais e práticas sociais e culturais distintas das dos países onde são desenvolvidas ou das pessoas que as desenvolvem, sendo importante que recordemos que, apesar da investigação e criação de resposta em saúde mental estar maioritariamente cingido aos países tradicionalmente apelidados de “ocidentais”, 80% da população global habita em países “não ricos”, estimando-se que nesses países esteja também 80% da população do Mundo que vive com doença mental, países onde habitualmente até 3 em cada 4 pessoas não têm acesso a qualquer tipo de serviço/tratamento nesta área.

A carência de mais e melhor ciência no desenho das aplicações e na avaliação do seu impacto; a forma como, infelizmente, se tende para universalização ao invés da personalização das e dos seus utilizadores; e o não respeito e priorização das questões associadas aos direitos, segurança e privacidade de quem utiliza estão a contribuir decisivamente para que os elementos centrais na maior saliência das questões da saúde mental hoje – o direito de acesso a serviços nesta área e a necessidade de caminharmos para uma verdadeira equidade nesse acesso – não estejam a ser respeitados e promovidos e a tecnologia e o seu potencial mobilizado para apoiarem mais significativamente na resposta a este desafio.

Neste sentido, e para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações digitais podem ter além das sessões e consultas online, práticas, apesar de tudo, mais utilizadas, desenvolvidas e estudadas nos últimos anos. Importa que, enquanto cidadãos utilizadores, profissionais, investigadoras/es ou decisoras/es participemos no debate sobre as aplicações digitais e o seu enquadramento, nomeadamente em como será fundamental, a partir da tecnologia, potenciar a saúde e as suas intervenções, a recolha de dados fundamentais e a disponibilidade contínua e mais próxima. Nisto e, também, na importância do desenvolvimento de alguma regulamentação que permita e estimule a continua inovação, mas, em simultâneo, contribua segurança, privacidade e saúde pública.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde e saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e da melhoria da eficácia das suas intervenções. Tal não é apenas possível, pode, verdadeiramente, mudar para melhor a vida de muitas pessoas. Contribuir para mudar para melhor o Mundo.

 

 

Tiago Pereira

Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

in Sábado (Ao redor…); 22.10.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/das-televendas-as-aplicacoes-digitais-o-negocio-a-volta-da-vulnerabilidade-e-do-bem-estar

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Envelhecimento activo e vida saudável

Ontem, no “Factos que Contam” da SIC Notícias, o Gonçalo Saraiva Matias trouxe-nos uma reflexão informada sobre uma realidade por todas e todos percepcionada e, creio, aceite – as profundas transformações demográficas em Portugal das últimas décadas e o significativo envelhecimento da população. Trouxe, ainda, uma outra talvez não aceite por todas as pessoas – o importantíssimo contributo da população imigrante para a mitigação desta realidade, para a prosperidade e desenvolvimento do país e sustentabilidade dos seus serviços.

Fê-lo suportado num conjunto amplo de dados dos quais destaco dois: em 2050 prevê-se que 27% do PIB em Portugal seja dedicado ao que apelidou de “custos do envelhecimento” e que inclui valores associados a pensões, saúde ou aos cuidados continuados; que hoje 1 milhão de pessoas vive só, metade delas com mais de 65 anos contribuindo este dado para relevantes problemas de solidão e isolamento, não sendo expectável que esta situação se possa rapidamente interverter nos próximos anos.

Cenários que configuram um desafio tremendo para o país e que implicam políticas públicas multissectoriais e integradas que, com eficácia, respondam a diversas dimensões que para ela contribuem (políticas de juventude, de emprego, …) e, simultaneamente, para mitigar as suas consequências (políticas de promoção do envelhecimento activo e saudável; de combate ao isolamento, …).

Também, e mais conceptualmente, que na sociedade como um todo se reforce a literacia sobre os processos de envelhecimento e a necessidade de pensarmos que, independentemente da nossa idade e papel, todas e todos devemos participar e envolver-nos na discussão e advocacia sobre este tema e pensar o envelhecimento como uma processo ao longo de toda a vida… E como isso poderá significar maior possibilidade de se viver mais anos com maior qualidade de vida e mitigar alguns dos desafios acima identificados.

A convite da Médis participei recentemente numa conversa com a Margarida Dias da Graça Santos (uma extraordinária comunicadora) exactamente sobre estes temas. Faço-o a propósito da relação com o que atrás sublinho mas, também, porque foi – para mim – um momento muito interessante. O mote foi o “envelhecimento activo e vida saudável” e caminhamos, juntos, pela forma como (e quando) decorre o tal processo de envelhecer (já envelheceu ao ler este texto, até esta frase), o que pode significar o tal “envelhecimento activo” e como podemos promovê-lo, o papel das relações e da comunidade nestes processos e como os nossos diferentes papéis os podem influenciar.

Sempre, sempre, numa conversa fluída e leve e com um toque permanente para as questões da desigualdade / equidade, para a necessidade de políticas públicas mais efectivas e para os impactos destes processos na saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e coesão social.

Convido-vos a ver, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=EM-X9mEhuPY&embeds_referring_euri=https%3A%2F%2Fwww.medis.pt%2F

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Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação (Ao redor…; Sábado)

Comecemos hoje com um pequeno quiz:

O que é que os seguintes nomes: António Brochado Correia, Bernardo Trindade, Carlos Abade, Carlos Moura, Fernando Nunes da Silva, Filipe Anacoreta Correia, Francisco Calheiros, Gonçalo Oliveira, Hugo Moreira Luís, José Luís Arnaut, Luís Amado, Luís Marques Mendes, Luís Montenegro, Luís Rodrigues, Mário Centeno, Miguel Maya, Paulo Portas, Pedro Machado, Pedro Reis, Roberto Antunes e Fernando Nunes da Silva…

Têm que ver com estes nomes: Alexandre Lote, André Pinotes Batista, Armando Mourisco, Benjamim Rodrigues, Brian Silva, Francisco César, Gonçalo Lopes, Hugo Costa, Hugo Oliveira, João Portugal, Luís Dias, Luís Graça, Luís Moreira Testa, Nelson Brito, Nuno Araújo, Paulo Cafôfo, Ricardo Leão, Rui Santos, Victor Hugo Salgado, Vítor Paulo Pereira e Vítor Pereira?

Ambos os grupos terem 21 nomes? Terem esses 21 nomes organizados por ordem alfabética? Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens.

São, também, e respectivamente, os nomes de todos os 21 oradores da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela Confederação do Turismo de Portugal e apresentada como “um evento que reúne importantes líderes e personalidades políticas e empresariais” que pretende “apelar à reflexão e ao debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal”. Um debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais.

Debate que, coincidentemente, aconteceu a 27 de Setembro, dia em que o Partido Socialista (PS) elegeu os novos 19 líderes das federações distritais que se juntam aos 2 líderes anteriormente eleitos das regiões autónomas, corporizando os seus agora 21 líderes federativos e regionais atrás listados. Todos homens. Um processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais.

Mas, se parece existir alguma coerência relativamente ao evento e ao facto de todo o Conselho Directivo da Confederação do Turismo de Portugal que o organiza ser, hoje, constituído por homens (10) que, por sua vez, lideram Associações ou Grupos Empresariais ligados ao Turismo, já parece mais incoerente que a liderança de todas as estruturas federativas e regionais, de um partido em que o seu Secretário-Geral foi eleito com uma moção apelidada de “Portugal Inteiro”, caiba apenas a homens. Moção essa que afirma como 1ª missão que o PS se deve assumir como “um partido reformista e progressista para uma social-democracia moderna”, detalhando dever ser “um partido transformador e progressista”, promover “reformas para melhorar a vida das pessoas” e ser “portador de sentido de justiça, esperança e de ambição para chegar mais longe”.

Talvez este sentido de justiça, esperança e de ambição obrigasse a uma reflexão profunda sobre como podem estar representadas as mulheres (segundo os últimos dados públicos, cerca de 37% do total de militantes do PS) nas lideranças locais e de proximidade e quais as razões que levam à absoluta desproporção nas candidaturas (nas 19 eleições houve apenas duas candidatas, ambas derrotadas, face a 21 candidatos Homens) e como pode essa desproporção, a bem de todas e todos, ser mitigada. Talvez esta reflexão trouxesse uma outra coerência. Talvez pudesse pensar-se que, tal qual um conselho diretivo só de homens mais facilmente organiza um evento em que só homens são oradores, em eleições internas dos partidos políticos, onde as estruturas são maioritariamente lideradas por homens, estes tendem a mobilizar-se e movimentar-se mais, perpetuando-se e determinando, ou pelo menos influenciando com o mesmo viés, as escolhas futuras.

É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.

Isto, naturalmente, se não quisermos que o “debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal” e as bases do partido português que se assume progressista, reformista e “portador de sentido de justiça, de esperança e de ambição para chegar mais longe” sejam consequentes com a reflexão do Ministério Público para o seu relatório de actividades de 2023, partilhada pela Sr.ª Procuradora Geral da República, referindo que uma proporção significativa de mulheres jovens (“especialmente abaixo dos 30 anos”) na instituição resulta num “agravamento de constrangimentos” nos seus trabalhos em virtude de “situações de gravidez, de gravidez de risco, de baixa para assistência a filhos menores, gozo de licença parental e ausência para efeitos de amamentação”. Um péssimo contributo para a informação e debate público proveniente de uma instituição com especiais responsabilidades com a agravante das mulheres com menos de 30 anos representarem apenas 1,6% do seu universo de trabalhadores.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências. Penso-o relativamente a partidos, eventos, estruturas e organizações da administração pública, privada ou do sector social. Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. Certamente se o fizermos caminharemos no sentido da promoção de maior segurança psicológica, de maior coesão social e da prevenção de retrocessos que hoje nos parecem tão absurdos quanto pensávamos absurdo, há anos, que um ex-presidente e novamente candidato a presidente dos EUA afirme que se ganhar a eleição poderá ser a última vez que as/os eleitoras/es votam. Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.

 

Tiago Pereira

Um tema em que as bases do Partido Socialista e o Turismo de Portugal parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

in Sábado (Ao redor…); 09.10.2024

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