
Recuemos milhares de anos e imaginemo-nos a viver neste planeta, nesse momento. Não foi, não era, a força individual e isolada de cada ser humano que permitia enfrentar os principais desafios que se colocavam. Não foi, certamente, a força isolada de indivíduos que permitiu o desenvolvimento e que nos trouxe à sociedade dos dias de hoje. Antes foi a forma como os seres humanos desenvolveram formas complexas de cooperação e colaboração, baseadas na comunicação e na confiança. Formas de cooperação e colaboração que permitiram responder a desafios e crises, partilhar, inovar e desenvolver comunidades e a sociedade. Foram as relações interpessoais, o trabalho em equipa e a vida em comunidade que permitiram que atingíssemos níveis de desenvolvimento e bem-estar hoje, apesar de tudo, inimagináveis não há muito tempo.
Sabemo-lo. Mas…
Vivemos um momento histórico em que, segundo a ONU, quintuplicaram em 50 anos as catástrofes associadas a fenómenos naturais. Nesse período, “todos os dias, em média, um desastre meteorológico, climático ou hídrico retirou a vida a 115 pessoas e causou perdas 202 milhões de dólares”. A crise climática associa-se a outros desafios complexos do nosso tempo. Desafios que exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de colaboração entre cidadãos na prevenção de fenómenos/desastres, na capacitação da população para maior resiliência face aos mesmos e na mitigação dos seus impactos.
Sabemo-lo também. Mas…
Estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais, particularmente no Ensino Superior, momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?
Apesar de hoje falarmos mais sobre as competências sócio-emocionais e ter sido, inclusivamente, realizado um caminho para a sua integração e consideração do seu desenvolvimento na Educação até à escolaridade obrigatória, existe um caminho enorme a percorrer para a sua cabal consideração no contexto do Ensino Superior. Procuro, em seguida e em seis pontos, discutir eventuais explicações para tal e, nesse sentido, pistas para potenciais mudanças para reforço deste caminho. A saber:
a) A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa no Ensino Superior, resultante de causas diversas que incluem, entre outras, fenómenos como a hiperespecialização das/os docentes e investigadoras/es, a dispersão por departamentos/faculdades de pessoal não docente ou das e dos próprios estudantes por via da escassez de residências estudantis e da cada vez maior distância do alojamento possível nas grandes cidades face às instituições. Tudo a contribuir para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade. Importa reflectir sobre estes fenómenos e intervir no sentido da prevenção e mitigação da atomização e fragmentação, desde logo nas e nos estudantes, procurando reforçar o seu envolvimento com a comunidade educativa e a sua possibilidade de participação, bem como reforçar a identidade, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições.
b) O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico. O momento da transição e da integração no Ensino Superior, também porque habitualmente coincidente com um período de alterações significativas (relacionadas com a idade, mudança de local de residência, de grupo de amigas/os, …) é um momento especialmente relevante para a saúde e bem-estar das/os estudantes, para o seu desempenho académico (persistem níveis significativos de abandono no 1º ano de curso) e para as relações interpessoais, sendo fundamental o desenho de estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria, incluindo por pares.
c) O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes. Há hoje mais jovens que entram e frequentam o Ensino Superior com dificuldades no âmbito da ansiedade, depressão ou de desafios na gestão do stresse que acrescem, também, ao aumento destes problemas na restante comunidade educativa. Apesar dos recentes investimentos, particularmente com o Programa Nacional de Promoção da Saúde Mental e a medida “Cheque Psicólogo”, as problemáticas persistem e provocam sofrimento às pessoas, não lhes permitindo “estar bem”, “cumprirem-se” e, dessa forma, ter condições para melhores relações interpessoais e bem-estar. É urgente investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção.
d) A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas. Particularmente num momento em que um conjunto de tarefas e o desenvolvimento de competências técnicas podem e serão delegadas ou apoiadas pelos avanços tecnológicos e pela inteligência artificial generativa, é de crucial importância que os currículos formais e informais do Ensino Superior apontem ao desenvolvimento deste tipo de competências e usem da ciência na definição de estratégias e intervenções suportadas em evidência científica. Esta aposta apoiará a formação de profissionais que aliem às competências técnicas, valores e competências sócio-emocionais que os tornem pessoas e profissionais mais capacitados e mais abertos e predispostos às relações interpessoais, à colaboração e ao trabalho em equipa.
e) A não-valorização e não-intencionalização da colaboração. Sendo coerentes com o quão estratégicas podem ser estas acções, devemos ser capazes de inscrever e valorizar, nos processos internos das instituições, as dimensões da colaboração e monitorizar e auto-avaliar estas acções. Será relevante a sua inclusão enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho.
f) A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças. No Ensino Superior, como em toda a Administração Pública, devemos abandonar o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” de um/a profissional. As competências de liderança vão muito além das específicas competências técnicas na área em que se lidera. Considerá-lo, mais, no acesso aos cargos de liderança e no desenvolvimento profissional nos mesmos, será um contributo decisivo para a internacionalização do atrás referido e para a promoção de mais e melhores relações e práticas de colaboração.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, importa que na formação das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios, também, do presente e do futuro. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos. Que nele participemos, juntos e por todos.
Tiago Pereira
O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais
in Sábado (Ao redor…); 10.09.2024
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-ensino-superior-e-a-promocao-das-relacoes-interpessoais