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Trends 2025 – Psicologia

Um destes dias virei aqui escrever(-vos) a propósito da forma como penso o legado enquanto determinante fundamental do futuro (e das suas múltiplas possibilidades). Isso, e sobre como me parece fundamental resistirmos à humana tendência para nos focarmos (apenas) no presente e nos seus problemas/desafios, particularmente num momento em que a velocidade e permanência do acesso à informação, e a sua amplificação e repetição, nos convocam para um hiper-realismo e imediatismo que deixa pouco espaço para pensamento, perspectiva e acção a médio e longo prazo.

Talvez por isso – a juntar à ideia que tenho do forte contributo presente e futuro da psicologia nos principais desafios individuais e societais – que, desde há alguns anos e a cada início de ano, leio com atenção as “trends” para a psicologia que a American Psychological Association publica.

Talvez por isso as partilho, também e porque me parece essencial que, apesar dos desafios do dia-a-dia que muitas e muitos colegas psicólogas/os vivenciam, importa que as tenhamos presentes e que contribuamos para a construção do futuro, intencionalizando as nossas acções e tendo uma clara percepção do impacto que as nossas acções no presente têm nele, particularmente quando ganhos “agora e/ou individuais” podem não contribuir para ganhos “futuros e/ou colectivos”.

Sobre as 10 trends para 2025, enquadradas num “momento-chave nacional [EUA] e global marcado por mudanças políticas significativas e nas prioridades societais”, destaco:

a) a inteligência artificial e a forma como, a par de outras inovações tecnológicas, está a contribuir para o alargamento e redefinição da intervenção psicológica e para mudanças na sociedade que beneficiam do contributo da psicologia, nomeadamente a sua adopção em contextos educativos;

b) a importância da progressiva modernização e atratividade da profissão, do seu quadro de competências e formação (inicial e contínua) e a necessidade de desenvolver uma visão (e identidade, acrescento) global da psicologia num Mundo cada vez mais intercultural e partilhado;

c) a crescente importância do papel da psicologia na complexidade dos contextos de trabalho e no reforço das dimensões da equidade, diversidade e inclusão;

d) a nova “vida” da investigação (promissora) sobre a utilização de psicadélicos na intervenção psicológica e psicoterapêutica;

e) finalmente, e muito relevante, o reforço do papel de advocacia da profissão e das e dos profissionais pelo acesso a serviços de qualidade por todas (reforço, todas) as pessoas que deles necessitem e/ou possam beneficiar.

Identifico-me, totalmente. E procurarei, a partir do meu papel cidadão e profissional deixar, também, o meu singelo contributo neste caminho conjunto… Também porque não esqueço que as trends para 2018 tinham a que guardo sempre presente e viva em mim: que a psicologia caminhará para um “maior foco nos factores sociais que determinam a saúde”, a que acrescento e o bem-estar, individual e colectivo, e a coesão social.

 

10 Key Trends Psychology 2025 (APA)

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2025

Quem anteontem, após as 12h, ou ontem ao longo do dia, ligou a televisão ou acedeu a alguma rede social, viu certamente imagens de lugares onde dezenas ou centenas de milhares de pessoas se reuniram para estarem juntas no momento da passagem de ano e chegada a 2025. Às dos locais públicos juntaram-me mais uns muitos milhões de pessoas que, Mundo fora, como eu e nós fizemos, se reuniram em espaços privados com família e/ou amigas/os ou colegas de trabalho em contextos profissionais onde, juntas, passaram de ano. Juntas, em comunidade.

São, apesar de tudo, inspiradoras essas imagens. É realmente um paradoxo da actualidade a forma como pensamos e perspectivarmos a dimensão mais colectiva e comunitária. Tenho reflectido (e lido quem pensa e trabalha estes assuntos) bastante sobre como as formas que nos últimos anos mais utilizamos para aceder e partilhar informação e para comunicarmos, com especial destaque para as redes sociais, potenciam a criação e sedimentação de “grupos”, mas, simultaneamente, aparentam diminuir a “comunidade”.

Parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) individual do bem-estar quando há relevante percepção (e evidência) que mostra o quão interdependente é o bem-estar individual do bem-estar colectivo da comunidade onde a pessoa se insere. Ainda, parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) colectiva do erro e da culpa. Não o erro ou culpa de uma pessoa, antes a sua identificação colectiva. De políticas/os a povos. De religiões a grupos de pertença comunitária, tudo com impacto em fenómenos como a desconfiança, a polarização, o estigma ou mesmo a xenofobia e racismo. Tudo a influenciar violências diversas, o crescimento do autoritarismo e enfraquecimento das instituições democráticas e multilaterais. Tudo, finalmente, a desafiar o objectivo maior que parte do Mundo assinala a 1 de Janeiro – o Dia Mundial da Paz, em 2025 dedicado a como “podemos construir hoje uma paz duradoura”.

Certamente com mais comunidade. Com menos atribuição de culpas colectivas, mesmo em situações complexas e em que qualquer resposta simples será necessariamente simplista. Certamente, também, com mais acções bondosas e abnegadas como a do Raul Manarte que partilho – https://www.publico.pt/2024/12/28/mundo/entrevista/raul-manarte-ha-pausa-som-drones-helicopteros-bombardeamentos-ouvese-mar-gaza-2114841

Diz o Raul que “quando há uma pausa no som dos drones, dos helicópteros e dos bombardeamentos, ouve-se o mar em Gaza.” O mar de Gaza é o Mediterrâneo que une inúmeros e diversos países e povos, de Sagres a Gaza. Não esqueçamos o que nos une, o que cria comunidade e a forma como o nosso bem-estar individual também resulta (da possibilidade) do bem-estar colectivo. Disso, de construirmos Paz e de que todas e todos temos papel nesse processo, desde logo não contribuindo para a colectivização do erro ou culpa.

Que tenham um bom 2025. Que contribuamos, juntos, para um bom 2025 para todas as pessoas.

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“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

Esta afirmação consta de um trabalho que trata a forma como é fundamental – particularmente quando vivemos um período de desafio significativo nas questões da saúde mental – que as psicólogas e os psicólogos possam estimular, com o seu conhecimento, conversas informadas sobre saúde mental “em gelatarias, cabeleireiros, barbeiros e salões de beleza, restaurantes e outros lugares do nosso dia-a-dia”.

É uma afirmação de Ariana Hoet, directora executiva da “The Kids Mental Health Foundation”, uma fundação que se propõe contribuir para um Mundo em que a “saúde mental é parte vital do crescimento”, desenvolvendo nas pessoas adultas “competências para ajudarem as crianças a lidarem com os desafios da sua vida”.

Apesar do artigo tratar uma realidade distinta, creio existirem paralelos para outros países, incluindo Portugal, nas questões sobre como a formação prepara insuficientemente as e os profissionais para comunicar com diferentes públicos, disseminar a ciência e promover literacia e o viés existente para a comunicação mais académica / entre pares, bem como nos desafios que se colocam à saúde mental, particularmente de grupos específicos da população (crianças e jovens, pessoas em situação de exclusão e pobreza, …).

Também por isso tenho procurado contribuir para que se reflicta sobre um mais vasto contributo das psicólogas e psicólogos na disponibilização (e impacto) mais amplo da ciência psicológica, aproximando-a mais dos contextos de vida das pessoas, também a partir da influência conjunta com outras ciências, do trabalho com outros profissionais e com pessoas referência às vidas de outras pessoas. E faço-o a partir de quatro elementos que penso centrais da importância desse movimento:

a) Chegar a mais pessoas e a pessoas que dificilmente de outra forma procuram / conseguem aceder a serviços de psicologia;

b) Gerar mais capacidade de detecção precoce de problemas e, logo, maior possibilidade de intervenções mais próximas, custo-eficazes e que reduzam sofrimento;

c) Contribuir para a prevenção a partir de uma maior sensibilidade aos temas da saúde mental e da transformação societal em questões que concorrem para os desafios que hoje enfrentamos;

d) Fomentar conhecimento, literacia e ferramentas que permitam maior auto e heterocuidado nas comunidades.

Faço-o por aqui. Faço-o por aí. Fi-lo, por exemplo, em participações recentes em eventos próximos de comunidades e diferentes profissionais: em Albufeira, reflectindo sobre “Equidade e justiça social na Saúde Mental” (com a Carla Fernandes com moderação da Cláudia Cristina Dias Guedelha); em Aveiro, sobre ciclos de pobreza e o papel da parentalidade e sucesso educativo (com a Maria João Marques, a Carla Sousa, a Andreia Carvalho e a Sandra Araújo com moderação da Catarina Isabel Reis Neves).

Um pequeno contributo meu, nosso. De um tanto que há a fazer…

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Ainda o 6º Congresso OPP/XIII FIAP

O 6º Congresso da OPP/XIII da FIAP terminou há uma semana mas continua aqui. Associo-me a esse belo movimento com uma mensagem última em forma de agradecimento(s):

. Ao Francisco Miranda Rodrigues por ter confiado e me ter convidado a presidir à sua Comissão Organizadora e, nele, a todas as largas dezenas de psicólogas/os com diferentes papéis na Ordem dos Psicólogos Portugueses pelos seus múltiplos contributos para o sucesso do congresso;

. À Clara Silva e nela a toda equipa de trabalhadoras/es da OPP que formam, particularmente quando perante exigências complexas, uma força coesa, empenhada, criativa e segura. São inexcedíveis e são ainda capazes de agregar outras pessoas, no caso do Congresso o grupo de voluntárias/os (a quem também agradeço) que são a base (e que importante é a base) para que tudo funcione;

. À comissão científica excepcionalmente liderada pela Isabel Soares que teve um papel determinante da preparação da recepção das mais de 7 centenas de submissões à organização e moderação das sessões de comunicações, pósteres digitais e espaço jovem (especial agradecimento à Carolina Oliveira, força motriz desta iniciativa). Incrível trabalho.

. Ao João Reis, com quem tive uma impactante (pelo menos para mim) conversa sobre “um só planeta”; à Raquel Corval , Leonor Carvalho, Sandra Araújo e Isabel Soares com quem conversei sobre os primeiros mil dias (e que orgulho serem tema no congresso da OPP); à Ana Rita Gomes, Inês Pimenta de Castro, Andresa Oliveira, João Salgado, Maria João Mosca e Daniel Maia com quem conversei sobre a intervenção psicológica à distância e seus desafios e oportunidades. Neles agradeço às quase 5 centenas de oradoras/es e às/aos restantes quase 2500 participantes;

. Aos patrocinadores e stands que confiaram no congresso para associarem as suas marcas e produtos e que co-construiram a sua experiência, também fora das salas de sessões;

. Às organizações internacionais participantes, nomeadamente do espaço ibero-americano, países língua oficial portuguesa e à EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), American Psychological Association e COP.

A todas e todos agradeço o sentido de comunidade, o espaço de celebração.

“…e este percurso”, disse o Sr. Presidente da República na sessão Solene falando do processo de afirmação da psicologia e da valorização do contributo das psicólogas e psicólogos na sociedade portuguesa, “foi um percurso que explica estes congressos. Quem chega aqui aos congressos a sensação que tem é que este duplo congresso [OPP/FIAP] é uma festa. Não é o cumprimento de um dever, de uma obrigação, é uma festa. Se quiserem, uma festa de autodeterminação”.

A celebração da autodeterminação e da procura incansável da promoção da sua possibilidade para todas as pessoas por parte de 28.000 psicólogas/os, dia após dia, nos mais variados contextos. 28.000 psicólogas/os, cidadã(o)s.

Foi uma honra ter tido esta oportunidade e ter podido dar este meu contributo para este nosso Congresso.

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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais (Sábado; Ao redor…; 10.09.2024)

Recuemos milhares de anos e imaginemo-nos a viver neste planeta, nesse momento. Não foi, não era, a força individual e isolada de cada ser humano que permitia enfrentar os principais desafios que se colocavam. Não foi, certamente, a força isolada de indivíduos que permitiu o desenvolvimento e que nos trouxe à sociedade dos dias de hoje. Antes foi a forma como os seres humanos desenvolveram formas complexas de cooperação e colaboração, baseadas na comunicação e na confiança. Formas de cooperação e colaboração que permitiram responder a desafios e crises, partilhar, inovar e desenvolver comunidades e a sociedade. Foram as relações interpessoais, o trabalho em equipa e a vida em comunidade que permitiram que atingíssemos níveis de desenvolvimento e bem-estar hoje, apesar de tudo, inimagináveis não há muito tempo.

Sabemo-lo. Mas…

Vivemos um momento histórico em que, segundo a ONU, quintuplicaram em 50 anos as catástrofes associadas a fenómenos naturais. Nesse período, “todos os dias, em média, um desastre meteorológico, climático ou hídrico retirou a vida a 115 pessoas e causou perdas 202 milhões de dólares”. A crise climática associa-se a outros desafios complexos do nosso tempo. Desafios que exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de colaboração entre cidadãos na prevenção de fenómenos/desastres, na capacitação da população para maior resiliência face aos mesmos e na mitigação dos seus impactos.

Sabemo-lo também. Mas…

Estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais, particularmente no Ensino Superior, momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

Apesar de hoje falarmos mais sobre as competências sócio-emocionais e ter sido, inclusivamente, realizado um caminho para a sua integração e consideração do seu desenvolvimento na Educação até à escolaridade obrigatória, existe um caminho enorme a percorrer para a sua cabal consideração no contexto do Ensino Superior. Procuro, em seguida e em seis pontos, discutir eventuais explicações para tal e, nesse sentido, pistas para potenciais mudanças para reforço deste caminho. A saber:

a) A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa no Ensino Superior, resultante de causas diversas que incluem, entre outras, fenómenos como a hiperespecialização das/os docentes e investigadoras/es, a dispersão por departamentos/faculdades de pessoal não docente ou das e dos próprios estudantes por via da escassez de residências estudantis e da cada vez maior distância do alojamento possível nas grandes cidades face às instituições. Tudo a contribuir para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade. Importa reflectir sobre estes fenómenos e intervir no sentido da prevenção e mitigação da atomização e fragmentação, desde logo nas e nos estudantes, procurando reforçar o seu envolvimento com a comunidade educativa e a sua possibilidade de participação, bem como reforçar a identidade, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições.

 

b) O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico. O momento da transição e da integração no Ensino Superior, também porque habitualmente coincidente com um período de alterações significativas (relacionadas com a idade, mudança de local de residência, de grupo de amigas/os, …) é um momento especialmente relevante para a saúde e bem-estar das/os estudantes, para o seu desempenho académico (persistem níveis significativos de abandono no 1º ano de curso) e para as relações interpessoais, sendo fundamental o desenho de estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria, incluindo por pares.

c) O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes. Há hoje mais jovens que entram e frequentam o Ensino Superior com dificuldades no âmbito da ansiedade, depressão ou de desafios na gestão do stresse que acrescem, também, ao aumento destes problemas na restante comunidade educativa. Apesar dos recentes investimentos, particularmente com o Programa Nacional de Promoção da Saúde Mental e a medida “Cheque Psicólogo”, as problemáticas persistem e provocam sofrimento às pessoas, não lhes permitindo “estar bem”, “cumprirem-se” e, dessa forma, ter condições para melhores relações interpessoais e bem-estar. É urgente investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção.

 

d) A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas. Particularmente num momento em que um conjunto de tarefas e o desenvolvimento de competências técnicas podem e serão delegadas ou apoiadas pelos avanços tecnológicos e pela inteligência artificial generativa, é de crucial importância que os currículos formais e informais do Ensino Superior apontem ao desenvolvimento deste tipo de competências e usem da ciência na definição de estratégias e intervenções suportadas em evidência científica. Esta aposta apoiará a formação de profissionais que aliem às competências técnicas, valores e competências sócio-emocionais que os tornem pessoas e profissionais mais capacitados e mais abertos e predispostos às relações interpessoais, à colaboração e ao trabalho em equipa.

 

e) A não-valorização e não-intencionalização da colaboração. Sendo coerentes com o quão estratégicas podem ser estas acções, devemos ser capazes de inscrever e valorizar, nos processos internos das instituições, as dimensões da colaboração e monitorizar e auto-avaliar estas acções. Será relevante a sua inclusão enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho.

 

f) A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças. No Ensino Superior, como em toda a Administração Pública, devemos abandonar o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” de um/a profissional. As competências de liderança vão muito além das específicas competências técnicas na área em que se lidera. Considerá-lo, mais, no acesso aos cargos de liderança e no desenvolvimento profissional nos mesmos, será um contributo decisivo para a internacionalização do atrás referido e para a promoção de mais e melhores relações e práticas de colaboração.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, importa que na formação das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios, também, do presente e do futuro. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos. Que nele participemos, juntos e por todos.

 

Tiago Pereira

O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

in Sábado (Ao redor…); 10.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-ensino-superior-e-a-promocao-das-relacoes-interpessoais

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Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

A fuga do Estabelecimento Prisional de Vale Judeus foi o acontecimento mediático da semana passada. Sendo um acontecimento necessariamente significativo, temo que esta atenção resulte no que resultou o sobressalto após a fuga do EP de Caxias de 2017: poucas alterações substantivas ao sistema judicial e prisional; pouco debate sobre as condições da reclusão e dos processos de prevenção da (pequena) criminalidade e de reinserção e reintegração.

Vejamos. Portugal é o 7º país mais seguro do Mundo e o 7º país da União Europeia (UE) com menor taxa criminalidade violenta. Tem, em simultâneo, um número de reclusas/os acima da média na UE e é o país da UE com penas de prisão médias mais longas.

Um paradoxo? Sim, certamente… Pequenos comentários sobre ele:

 

a) Um trabalho da “The Psychologist” de 10.09 trata o tema e parte de uma ideia sobre a qual creio devermos reflectir: a necessidade de inscrevermos que “as pessoas estão detidas como punição e não para serem punidas”;

 

b) Reforça, depois, o papel da pobreza e da exclusão como trajectórias para a (pequena) criminalidade e o ciclo de, após uma detenção, a dificuldade de integração social (trabalho, habitação, …) potenciar a reincidência. Algo especialmente factual em Portugal onde a população reclusa é maioritariamente marcada pela pertença comunitária não maioritária e/ou pela pobreza. Onde a taxa de reincidência é muito elevada;

 

c) O populismo, ontem mais latente que hoje na população portuguesa, mas que sempre influenciou (influencia) decisoras/es e partidos “catch all”, muito contribuiu (contribui) para inexistência de pressão da sociedade civil para a garantia de melhores condições para reclusas/os e para profissionais que trabalham no sistema prisional, quer sejam as/os que garantem a segurança de reclusas/os e sistema, quer quem se foca na promoção da educação, saúde, trabalho (reinserção social). Fazem-no pela utilização do exemplo, factual por vezes, não factual noutros, contra dados oficiais e pelo exacerbar do revanchismo e medo como estímulo para políticas públicas claramente contracíclicas face à ciência e às boas práticas nos direitos humanos.

Que este seja um tempo de pensarmos em transformações que, sendo complexas, são possíveis. Que atendemos às e aos profissionais. Que empoderemos as comunidades para a inclusão. Que pensemos as condições, a saúde (incluindo a saúde mental) e o bem-estar da população reclusa. Que previnamos as condições sociais que determinam as trajectórias e diminuamos a reincidência. Tudo investimentos de retorno económico significativo e de promoção de bem-estar e coesão social.

Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

Ps. Imagem captada pelas câmaras de videovigilância do EP de Vale Judeus partilhada por diversos órgãos de comunicação social depois de disponibilizada numa rede social do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (!).

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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

Quase 50.000 jovens iniciam por estes dias o seu percurso no Ensino Superior. Tempo para perguntar se “estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais [neste] momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

“O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais”, 90º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) traz estas questões quando a crise climática, a par de outros desafios sociais complexos, “exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de cooperação entre cidadãos”.

O artigo discute porque a resposta às primeiras perguntas é “não, não o estamos a fazer suficientemente”. Fá-lo em 6 pontos que sustentam possíveis explicações e pistas para uma mudança no sentido do reforço deste caminho:

a) “A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa” e o seu contributo “para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade” e como devemos “reforçar o envolvimento e possibilidade de participação, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições”;

b) “O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico” e a importância de se desenharem “estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria”;

c) “O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes” e o quão urgente é “investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção”;

d) “A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas”;

e) “A não-valorização e não-intencionalização da colaboração” e o caminho a percorrer para a inclusão de acções de colaboração “enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho”;

f) “A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças” abandonando o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” e considerando as competências de liderança e a possibilidade do seu desenvolvimento.

Termino apelando a que na formação “das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos.”

Que nele participemos, juntos e por todos.

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental) (Ao redor…; 15.08.2024)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos Estados Unidos da América aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada da newsletter “The Morning” do “New York Times” de 8 de Agosto. Gira em torno de um conjunto de dados, incluindo os de auto-reporte do questionário “Household Pulse”, sobre sintomas de ansiedade e depressão na população dos EUA. Dados que demonstram o aumento significativo de 11% pré-pandemia para 42,6% em Novembro de 2020, mas, essencialmente, que a descida pós-pandemia não aproximou os dados dos valores pré-pandemia, fixando-se actualmente nos 20,7%. A newsletter explora estes números para detalhar a forma como para eles em muito contribui a população mais jovem, sublinhando que “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vinha a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, que assim se manteve durante toda a pandemia e [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias] “não diminuiu rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

Infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática e ampla deste tipo de dados. Apesar disso, temos cada vez mais indicadores, incluindo empíricos, de que a realidade, particularmente no que se refere à população mais jovem, será próxima da aqui relata. Próxima, nos valores que se encontram. Próxima, nas potenciais causas cuja newsletter também discute: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”. Acrescento a perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade e de relação com as pessoas e o meio ao redor. Acrescento, ainda, uma tentativa de síntese para estes factores – a maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança, essenciais a esta etapa de vida. Mas deter-me-ei na turbulência política.

Creio que quem acompanha minimamente a política e reflecte sobre a sociedade americana e, simultaneamente, conhece ou experiencia a realidade portuguesa, sabe que a turbulência política mencionada tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal e, nesse sentido, impactos distintos em sociedades também elas bastante distintas. Sabemos, porém, que existem duas constantes: que o impacto dessa turbulência é mais severo junto dos grupos populacionais com maiores vulnerabilidades, sejam elas relacionadas com o estatuto sócio-económico, com expectativas sociais ou de papel ou com a pertença a um grupo ou comunidade minoritária; que o impacto é particularmente sentido na população mais jovem, considerando que as suas consequências habitualmente se reflectem nas e nos mais jovens de forma desproporcional e por períodos temporais mais significativos.

É por isso que, não acontecendo em Portugal o que aconteceu nos últimos anos nos EUA, importa que em Portugal não deixemos de o pensar e de sobre isso reflectir. Desde logo pensar o impacto de situações como a proibição de programas e actividades no âmbito das competências sócio-emocionais em Escolas, a proibição do ensino de vertentes da ciência relacionadas, por exemplos, com as teorias da evolução ou o recuo no direito à interrupção voluntária da gravidez nas Mulheres em diversos Estados dos EUA, que resultou num reporte mais significativo de sintomas de ansiedade e depressão nas jovens desses Estados face a jovens meninas e raparigas de outros Estados e face aos jovens meninos e rapazes do mesmo Estado. Mas, também, porque tem surgido e ganho espaço mediático, um pouco por toda a Europa, e também em Portugal, um discurso que se pode definir contra direitos humanos para todas as pessoas e abertamente contra o movimento relacionado com os objectivos do desenvolvimento sustentável que, necessariamente, vulnerabiliza as pessoas e comunidades mais expostas à desigualdade e à discriminação e que tende a validar determinadas atitudes e comportamentos que até há bem pouco não eram publicamente validados. Todas e todos sabem do que falo, todas e todos o vimos e sentimos. Finalmente, porque também em Portugal já se discutem propostas de tomadas de decisão que merecem ser refectidas, a este nível e bastante ponderadas.

Pensemos, pois, na atribuição de culpas colectivas e na generalização de características e comportamentos a determinadas comunidades ou em apoteóticas propostas de confinamento de comunidades em Portugal, aquando da pandemia. Pensemos, ainda, em propostas anti-científicas de penalizar bebés e crianças, por exemplo no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai, em processos, não raras vezes, de dupla culpabilização de bebés, crianças e jovens cuja condição deveria ser protegida, sempre e em qualquer circunstância, pela comunidade e pelo Estado.

É por tudo isto que, tal como não aceitaríamos, enquanto sociedade, que a segurança de um bebé e de uma criança quando viajam de automóvel fosse discutida apenas considerando a qualidade da resposta das equipas de emergência após um acidente e não também pela necessidade de sistema de retenção que possam prevenir problemas mais complexos em caso de acidente, não podemos não debater o processo em curso e os seus impactos. Não podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção. Algo só possível, também, com maior informação da ciência, incluindo ciência psicológica, a este desenho para uma mais decisiva e eficaz resposta aos anseios e expectativas das pessoas e aos desafios da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada segundo conta. Verdadeiramente. Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental reconheceremos, validarmos e respeitarmos as necessidades das outras e dos outros. A ciência, incluindo a ciência psicológica pode ajudar a lembrá-lo, a cada dia. Pode ajudar a fazer deste valor e do valor maior da equidade e dos Direitos Humanos para todas e todos, valores centrais na política pública, na vida das pessoas, na nossa sociedade. Hoje e amanhã.

 

 

Tiago Pereira

A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

in Sábado (Ao redor…); 15.08.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-politica-e-os-determinantes-sociais-da-saude-mental

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos EUA aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada de uma recente newsletter do “New York Times” que justifica estes dados no facto de “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vir a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, de assim se ter mantido durante toda a pandemia e, [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias], “não ter diminuído rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

“A política e os determinantes sociais da saúde (mental)”, 89º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes indicadores para, afirmando que “infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática destes dados”, discutir a proximidade das potenciais causas para eles apontadas: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”.

Do artigo que partilho destaco 3 elementos a este propósito, nele detalhados: a) que os factores que sintetizo numa “maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança” são comuns às e aos jovens portugueses; b) que penso faltar a “perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade”; e c) que a turbulência política mencionada “tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal”, mas penso importante não ser desconsiderada, particularmente porque o seu impacto “é mais severo junto de grupos populacionais com maiores vulnerabilidades” e “é desproporcionalmente sentido na população mais jovem”.

Deixo depois alguns exemplos dos EUA com ressonância em países na Europa (e tentativas em Portugal), desde a proibição de programas na área das competências sócio-emocionais, do ensino da ciência relacionada com a evolução ou relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Mas sublinho portugueses, das “culpas colectivas e na generalização de comportamentos a determinadas comunidades”, a propostas de “confinamento de comunidades” ou outras “anti-científicas de penalizar bebés e crianças no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai”.

Concluo afirmando que não “podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção”, também pela saúde (mental) no presente e no futuro.

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Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal (Ao redor…; 17.07.2024)

“A mensagem principal é dizer aos jovens que vale a pena viver em Portugal (…) Precisamos dos jovens portugueses em Portugal, para termos todos mais futuro”. Estávamos em Maio e foi com estas palavras que Luís Montenegro apresentou e enquadrou as decisões de um Conselho de Ministros voltado para a população mais jovem. Um conjunto de medidas em áreas diversas como a habitação, a fiscalidade, a saúde (com destaque para a saúde mental) ou o alojamento e bolsas de estudo para estudantes. Tudo propostas que, concordando-se mais ou menos, particularmente no detalhe, focam áreas-chave do desafio que se coloca ao nosso (mas não apenas ao nosso) país. Tudo propostas que, creio, serão potencialmente mais eficazes e eficientes se acompanhadas por uma mudança nas organizações, públicas e privadas, no sentido de um maior envolvimento e vinculação da população mais jovem, mudança este que poderia ser impulsionada a partir de estímulos concretos ao reforço dos princípios de equidade, diversidade e inclusão nas organizações.

Se olharmos ao nosso redor podemos ver e perceber. Temos, hoje, em Portugal, uma população jovem, não apenas com mais e mais especializada formação, mas mais diversa, fruto do aumento da mobilidade global e de um certo tipo de migração nos últimos anos. Uma população jovem, empoderada, que prioriza o propósito na vida e no trabalho, que se orienta por valores, pela procura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pela promoção do bem-estar. Mercê alterações societais, algumas muito influenciadas pelas novas tecnologias, temos também hoje um desfasamento significativo entre gerações e, por vezes, maior dificuldade nos diálogos e na compreensão intergeracional. Temos, por outro lado, uma inversão relevante da pirâmide etária e, por isso, cada vez mais pessoas com maior capacidade e, algumas, com vontade e intenção de trabalhar mais anos e de manter posições de decisão e responsabilidade nas organizações.

Dizia que a população mais jovem prioriza o propósito na vida e no trabalho e o bem-estar. Fá-lo, no presente, mas considerando sempre o futuro e, particularmente, fazendo-o a partir da criação de um caminho, de uma perspectiva. Procura, portanto, previsibilidade e segurança em tempos de incerteza e de maior volatilidade. Procura algum controlo que pode resultar, também, da agência que sente na construção desse caminho e no desejo de ser parte activa e considerada. A população jovem quer, por isso, fazer e ser parte dos processos, da política às instituições da sociedade civil, passando, necessariamente, pelas organizações. Quer, mas, invariavelmente, não consegue. Não acede, não participa de forma abrangente e generalizada.

Neste contexto e com este enquadramento, penso fundamental que as organizações tenham presente referenciais que assumam os valores da equidade, da diversidade e da inclusão como centrais na sua estratégia. Valores capazes de influenciarem a cultura da organização no sentido da maior diversificação das suas pessoas e das pessoas envolvidas nos processos de gestão e tomadas de decisão estratégicas. De influenciar, também, no sentido de serem mais inclusivas na diversidade de experiências e proveniências, incluindo académicas/formativas, de capacidades, de culturas, de géneros, de gostos, de idades. De garantir maior equidade, a partir de oportunidades para todas e todos. Tudo no sentido de que mais pessoas, e mais pessoas mais jovens, sintam espaço de envolvimento, de segurança e de participação nos processos de decisão e condução das organizações, vinculando-se e contribuindo para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e futuro. Seu, da sua organização, do país e do Mundo, num quadro de valores e propósito.

Várias organizações têm nos últimos anos assumido este ou referenciais próximos, cuja evidência científica tem demonstrado serem relevantes quer relativamente aos processos internos, quer na melhor resposta das organizações às necessidades das pessoas que servem e da sociedade em que operam. Das melhorias no clima organizacional, na flexibilidade, na inovação e criatividade, ao aumento da segurança psicológica e redução de conflitos, passando, necessariamente, pela maior responsividade às necessidades de clientes e maior capacidade de adaptação a mudanças de contexto e na sociedade, são inúmeros, amplos e significativos os impactos potenciais do reforço destes referenciais e vão muito além do importante papel de responsabilidade social para que concorrem.

“Não apenas é fazermos o que é correcto, é fazermos o que é mais inteligente”, ouvi há anos um CEO referir quando apresentava o referencial Equidade-Diversidade-Inclusão como um dos pilares fundamentais em todas as decisões estratégicas da sua organização. Acrescento, não apenas é fazermos o correcto e mais inteligente nas organizações como, ao fazê-lo, estaremos certamente a contribuir para uma sociedade que vive melhor a sua diversidade, logo mais inclusiva, mais equitativa e com maior possibilidade de bem-estar e de futuro para todas as pessoas, incluindo a sua população mais jovem.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os desafios do envolvimento da população mais jovem nas organizações implicarão mudanças, progressivas e participadas, nas próprias organizações. É por isso relevante que programas que visem a vinculação das e dos mais jovens jovem ao país visem medidas junto da população mais jovem, mas, complementarmente, estímulos concretos e decisivos que apontem a um caminho de maior diversidade, equidade e inclusão nas organizações. Um caminho que deve ser desejado e acarinhado pela própria sociedade civil e que pode, positivamente, apoiar a inovação, a transformação, o desenvolvimento e a sustentabilidade das organizações e da sociedade.

 

 

Tiago Pereira

Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal

in Sábado (Ao redor…); 17.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-para-envolver-e-vincular—as-organizacoes-e-os-jovens-em-portugal