Categories
Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

13 de Julho…

Conforme este nosso planeta não pára de rodar em torno do seu próprio eixo e de girar à volta do Sol, o que se passa nele não pára de nos surpreender. De nos desafiar.

À dias lia como estudos mais aprofundados sobre um fóssil, apelidado de “Tina” e descoberto em 1989 na província de Valência, vêm demonstrado como uma criança Neandertal, cujo tempo de vida se estima situado entre os 273 e os 146 mil anos antes de Cristo, viveu no mínimo até aos 6 anos com Síndrome de Down. Ou seja, como recuando centenas de milhares de anos encontramos antepassados nossos que desenvolveram sentido de pertença, de comunidade, de altruísmo perante outras e outros, o manifestaram e como foram também esses sentidos e atributos que nos trouxeram aos seres humanos de hoje, aos dias de hoje.

Penso-o à luz de dois recentes e extraordinários 13 de Julho nos EUA que, à sua forma, serão também lembrados por dezenas ou centenas de anos (embora, talvez, não centenas de milhares de anos):

a) O de 2013 quando Alicia Garza, junto com companheiros, “cunhou” a hastag “#BlackLivesMatter”, a propósito da morte de um jovem e do processo de julgamento da pessoa por ela responsável. Concorde-se mais ou menos com a forma como todo o movimento que se seguiu foi e tem sido gerido (por vezes utilizado), é um momento (e movimento, depois) simbólico da afirmação do valor de todas as vidas, de todas as pessoas, e de um bem maior que trata o respeito da pessoa humana, qualquer que seja a sua história, origem ou conjunto de características;

b) O de 2024 quando numa acção de campanha, o ex-presidente dos EUA Donald Trump, a dias de ser formalmente indicado em convenção pelo Partido Republicano como novamente candidato às presidenciais de 2024, foi alvo de uma tentativa de assassinato que foi, por apoiantes e por adversárias/os, amplamente condenada como uma tentativa absolutamente inaceitável e intolerável de atentar contra uma vida humana e contra a ideia de democracia.

Numa mensagem de agradecimento ao apoio que justamente tem recebido, Donald Trump escreveu ontem na sua rede social que não deixará e deixarão “que o mal vença”. Por uma vez, estamos de acordo. Não deixar “que o mal vença”.

Não deixar que o mal vença os valores de pertença, comunidade e altruísmo que nos trouxeram aos dias de hoje. Não deixar que o mal vença a ideia de que cada ser humano é um ser com direitos, independentemente da sua história, origem ou conjunto de características. Não deixar que o mal vença um sistema de opinião e participação livre, de adversárias/os e não inimigas/os, de democracia.

Espero que possamos também concordar que, para tal, todos temos que fazer a nossa parte, mais ou menos singela, para criar condições e contribuir para objectivos, para um chão e para uma ideia de bem-comum e de possibilidade de compromisso entre pessoas que, naturalmente, podendo (e devendo) discordar, são parte de uma mesma sociedade.

Como à centenas de milhares de anos, hoje, olhando e contribuindo para o amanhã.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos (Ao redor…; 18.06.2024)

Uma cornucópia é um símbolo que representa, desde a mitologia grega e romana, ideias de fertilidade, riqueza e abundância. Foi o nome escolhido pela artista Björk para o seu último espectáculo, uma produção que envolve diversas artes performativas em torno dos seus álbuns “Utopia” e “Fossora”. Passou por Portugal, em Setembro, e é, à sua forma, uma manifestação da sua reflexão e activismo por um futuro com maior equidade e onde pessoas e ecossistemas coexistam de forma sustentável e produtiva.

Reflexão que será certamente resultado também da sua história e experiência. Björk nasceu em Reykjavík, cidade-capital da Islândia, uma ilha remota do Atlântico Norte, com apenas cerca de 1000 anos de ocupação humana, mas que tem feito caminho na eliminação total dos combustíveis fósseis, ousando fazer da energia gerada por uma ameaça letal (a actividade vulcânica) energia limpa e um recurso-chave para a qualidade de vida das pessoas e para a atratividade e competitividade do território. Apenas um de vários exemplos possíveis que fazem da Islândia um caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.

Apenas um exemplo de porque é que a Islândia é hoje olhada como um caso de sucesso de transformação que – a partir da motivação de ousar cooperar, criar e encontrar soluções criativas para fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses recursos – pode resultar em aumento de bem-estar.

Na Islândia, enquanto país, mas também nos seus habitantes. Conforme escreveu o jornalista Mário Rui Vieira, no final do ano passado, quando em 1993 a Björk apresentou “Debut”, o seu primeiro álbum, “a Islândia era um território bem mais enigmático do que é hoje”. Diferente, muito diferente, acrescento eu. Foi, também, por pessoas como ela que a transformação ocorreu. Nessa entrevista, Björk afirma que se “tivesse escutado aquilo que a Islândia queria [para ela], teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que fez. Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país.

Como felizmente muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva. Cedo mitigam uma procura por cumprir valores, ambições e sonhos e toldam a autenticidade, fundamental a uma vida de e com propósito e à nossa saúde, sobretudo mental, e bem-estar.

Existem, porém, e como dizia, muitas histórias de não conformidade. Umas públicas e por todas e todos reconhecidas, como a da Björk ou do Nobel da Literatura português, José Saramago. Pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica para se cumprirem sempre a partir, todavia, de um conjunto de acasos felizes, que também se procuram e constroem com abertura às outras pessoas e interesse pelo que nos rodeia. Pessoas que o conseguem, desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.

Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (casos excepcionais de sucesso – do jogador de futebol extraordinário a uma incrível empreendedora) do que a grande maioria das pessoas que não chegam a essas posições, “desaparecendo” (não sobrevivendo) no caminho. Tendemos, portanto, a considerar este tipo de sucesso como algo mais comum do que realmente é.

Este fenómeno tem duas consequências importantes. A primeira relativa à forma como esta situação pode gerar processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns. Outra, não menos importante, a forma como podemos negligenciar os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso, factores múltiplos e muitas vezes muito precoces em termos do desenvolvimento. Efectivamente não partimos todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas.

Aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade. São, ainda, garantia de mais auto e heterocuidado, sentido de pertença e de abertura às e aos outros e, nesse sentido, de mais desenvolvimento e prosperidade para as comunidades e países. Foi o que a Islândia, ao longo das últimas décadas e com uma eficácia tremenda, foi capaz de fazer, sendo hoje um dos países do Mundo com menor taxa de (risco) pobreza, menor desigualdade entre pessoas com mais e menos rendimentos e, há mais de 10 anos, o país com menor desigualdade, nomeadamente salarial, entre Homens e Mulheres.

Por estes dias visitei a exposição do, também extraordinário, Siza Vieira, na Fundação Calouste Gulbenkian. Além de nos proporcionar uma visão ampla sobre o seu não-conforme trabalho na arquitectura, apresenta-nos os pilares desse trabalho, nomeadamente o conjunto de valores que o sustenta e o seu gosto pelo espaço e pelo desenho. A certa altura, uma citação: “Nenhum desenho me dá tanto prazer como estes: desenhos de viagem.” Desenhos, acrescento, de momentos em que nos confrontamos com diferentes estímulos, culturas, papéis, formas de fazer… Em que imaginamos, em que buscamos e em que trazemos connosco. Nestes próximos dias vou viajar e…

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflectirei sobre como certas mudanças podem não apenas melhorar vidas, individuais, mas servir de catalisador para a transformação social. Como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país. Como podemos, ainda, ser facilitadores da criação de oportunidades para que outras pessoas o possam fazer. No fundo, como podemos fazer o melhor possível com os recursos que temos, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos.

 

 

Tiago Pereira

Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos

in Sábado (Ao redor…); 18.06.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/podermos-ser-o-que-queremos-ser-e-nao-apenas-o-esperado-que-sejamos

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Relaciono-me, logo existo

Ontem comemorei o aniversário de um “primeiro dia do resto da tua vida” e, conforme a letra da música do Sérgio Godinho com este título, veio-me “à memória uma frase batida”: as relações são, mesmo, o mais importante da nossa vida. Deixo, a este propósito, duas sugestões de início de semana:

a) Um artigo, curiosa e simbolicamente (para mim) ontem publicado no The New York Times, da colega Darby Saxbe em torno da forma como a paternidade transforma o cérebro e o corpo dos homens, dotando-os de ferramentas neurobiológicas para a parentalidade (ferramentas, geralmente, “atribuídas” às mães) que impactam a relação pais-filhas/os e comportam desafios, nomeadamente nas dimensões da saúde, sobretudo mental, e bem-estar: “Dad Brain Is Real, and It’s a Good Thing” | https://www.nytimes.com/2024/06/16/opinion/dad-brain-fatherhood-parenting.html

b) Uma conversa que tive com o Rui Marques, referência maior na área da relação entre pessoas e povos, para um podcast de um projecto que coordena – Relational Lab. O podcast chama-se “Relaciono-me, logo existo” e no episódio falamos, naturalmente, sobre relações em diversos contextos, sobre e relação em diversos momentos da minha actividade profissional e em processos de tomada de decisão.

Falamos sobre como as redes sociais impactam as relações, mas imaginando como o controlo do “fogo”, há muitos milhares de anos, também impactou. De velocidade da mudança, hoje, da incerteza, do paradoxo da escolha, da individualidade e da perda de alguns referenciais comunitários e valores partilhados, nas últimas décadas. Falamos de aceitação, de partilha, mas, também, de desinformação, da propagação de mensagens de ódio e de polarização e tribalização.

Falamos de tempo. De como caminhar “de uma cultura da felicidade para uma cultura de bem-estar”, título do episódio, e de como isso pode contribuir para a qualidade relacional. Falamos da pandemia por COVID-19, das manifestações incríveis de cooperação e colaboração, particularmente na sua primeira fase e “pré-fadigas diversas”, e do ajustamento, necessidade de recuperação das perdas e reparação. Falamos de educação e do quão cada vez mais central será a relação nela e do caminho que Portugal tem percorrido. Falamos de capital relacional, da resiliência individual e comunitária, da necessidade de combater a pobreza e a crise climática e promover equidade e agência, tendo em vista mais e melhor participação. Falamos de psicologia, da sua história em Portugal e do seu potencial contributo, particularmente se em conjunto com outras áreas do saber e profissionais. Do meu “optimismo” e de como o situo na história e no que nos rodeia.

No fundo pensamos “o que temos, ao mesmo tempo, de mais bonito, mas também de mais complexo nas nossas vidas: as relações”, conforme comecei.

“E é então que amigos nos oferecem leito; entra-se cansado e sai-se refeito”, diz também a letra da canção. Assim foi. Obrigado Rui. Pelo convite e confiança. Pelo projecto.

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

One Health to Planetary Health

O Dia da Criança é comemorado em diferentes datas de país para país. Em Portugal, celebramos esse (poder) ser criança a 1 de Junho, continuando a cumprir, por essa via, o apelo que resultou da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças, que decorreu em Genebra num 1º dia de Junho: reconhecer, globalmente, a importância dos Direitos das crianças e do seu bem-estar.

Estávamos em 1925 e seria tão ousado pensar os Direitos e o bem-estar das crianças conforme eu e, provavelmente, quem me lê os pensamos, conforme talvez será hoje pensar a saúde, a partir dos sistemas de saúde dos países, a partir dos modelos “One Health” [Uma (só) Saúde] e “Planetary Health” [Saúde Planetária].

Neste 1 de Junho de 2024, a partir dos relevantes contributos da literacia em saúde, eu, a Ana Cadete, a Maria João Baptista, o Pedro Teixeira, a Susana Fonseca e o Xavier Teles Canavilhas, com coordenação da Cristina Vaz de Almeida, propomo-nos ousar pensar em como podemos caminhar para a “inscrição” destes conceitos nos sistemas de Saúde, no nosso sistema Saúde.

Fazêmo-lo num tempo em que (ainda) sentimos desafios imensos ao aprofundamento do investimento em prevenção da doença e promoção da saúde em Portugal e à assunção, clara e clarividente, do impacto da degradação dos ecossistemas, da crise climática ou da pobreza e das iniquidades económicas e sociais na saúde e no bem-estar.

Discuti-lo-emos num painel integrado no Cascais International Health Forum, organizado pelo FÓRUM SAÚDE XXI através de uma equipa liderada pelo Adalberto Campos Fernandes.

Que, exactamente 99 anos depois da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças de 1925, esta nossa conversa possa inspirar-nos e, eventualmente, inspirar alguém mais, para contribuir(mos) para um planeta sustentável e para um Mundo de Direitos, de saúde e de bem-estar. Para as crianças, todas as crianças. Para todas e todos.

Venha daí e participe, também, nesta conversa e neste contributo.

Mais informações e inscrições (gratuitas, mas obrigatórias) aqui.

Categories
Behavioural Insights COVID-19 Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Violência nas Escolas

Por estes dias, embora não pelos melhores motivos e até sem o melhor e, porventura, mais factual, enquadramento, discutiu-se a temática das práticas agressivas e da violência na Escola. Algo que, por si, tem já um enorme valor pela importância que tem para a prevenção e mitigação destes fenómenos a afirmação cabal da não complacência das Escolas e da sociedade com estas situações e o sublinhar da não inevitabilidade das mesmas.

Na passada quinta-feira, a @Antena 1 dedicou mesmo o seu programa Antena Aberta a este tema e, tendo tido oportunidade de nele participar (contributo que abaixo partilho), procurei:

 

a) Sublinhar o que atrás refiro notando, também, que a violência em contexto escolar, aliás como a doméstica, não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas, dando-lhes uma atenção mais signficativa face a aspectos mais positivos e/ou antigos), procurando rebater uma ideia que havia sido levantada numa intervenção anterior que procurava defender que há 4 ou 5 décadas não existia violência no namoro e na Escola como hoje, infelizmente, existe;

b ) A necessidade de progressivamente se caminhar para uma alteração na forma como a sociedade olha, pena e classifica a Escola e a sua actuação. “Além do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), a escola tem de preparar as crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a abertura ao outro e para a empatia”, e isso é um trabalho das Escolas que tem que ser reconhecido, contribuindo esse reconhecimento para maior envolvimento das Escolas na resposta, na ctuação e na prevenção dos fenómenos de violência;

c) Também o quão fundamental é, para a prevenção destas situações, a forma como a Escola pode (deve) contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;

d) Ainda, que a Escola é hoje, felizmente e ao contrário de outros momentos históricos, para todas e todos, algo que necessariamente comporta desafios pela menor motivação de envolvimento de alguns/algumas estudantes ou pela necessidade de espaços e práticas mais inclusivas, dando apenas dois exemplos.

Finalmente, algo que acabei por não poder referir, mas cuja importância creio relevante. A par de docentes e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, devemos intencionalizar a participação e o papel do pessoal não docente nestas matérias. Mas, para isso, temos também e enquanto sociedade, de valorizar mais e mais esta função e papel – a todos os níveis – e, particularmente, empoderar estas pessoas para um complemento a cada dia mais essencial numa Escola em profunda transformação.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A vergonha e a “expressão saudável das emoções” (Ao redor…; 08.05.2024)

A espaços estou a rever a série “Daniel Tigre” que há alguns anos descobri com o meu filho mais velho. Hoje vejo-a com o meu filho mais novo, interessado que está nestes desenhos animados e nas suas músicas que pede que coloquemos, particularmente aquando das nossas deslocações de carro. O argumento da série faz uma síntese honesta entre uma apenas aparente simplicidade e uma total intencionalidade no que pretende fazer sentir, reflectir, transmitir. Faz jus à pessoa e ao programa base da sua génese.

O filme “Um amigo Extraordinário” é uma interessante forma de conhecer essa pessoa e esse programa. Realizado por Marielle Heller, narra a criação e desenvolvimento de uma amizade improvável de um jornalista (Lloyd Vogel), convidado pela Esquire para realizar uma peça perfil sobre Fred Rogers e o seu “Mister Rogers Neighborhood”, programa infantil da televisão americana, extremamente popular na década de 1960. O filme retrata esta improvável amizade entre ambos, que surge a partir dos contactos e entrevistas iniciais de Lloyd a Fred Rogers e mostra-nos, logo no início, uma passagem onde Fred Rogers refere que o seu trabalho e o seu programa pretendem “propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. Este programa inspira o mais recente “Daniel Tigre” que procura ajudar crianças, como os meus filhos, mas não apenas crianças, a entenderem e expressarem as suas emoções de forma mais saudável.

No meu último artigo nesta rubrica – Propósito e os 50 anos do 25 de Abril – referi-me a um certo e inquietante “vazio”, também de comunidade e propósito, que tende a “ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo.” Grupos e ideais que proclamam estes vazios, vivendo deles, e que, não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.

Por estes dias temos vivido, a maioria de nós creio com significativa apreensão, os inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, onde um conjunto de pessoas se reuniram para, violentamente, agredirem um conjunto de outras pessoas que em comum, aparentemente, tinham apenas a condição de habitarem na mesma casa e serem imigrantes a residir em Portugal. Inenarráveis acontecimentos que apenas merecem repúdio veemente, mas que não anularam espaço para, como atrás referia, alguns grupos, com diferentes fins, os relativizarem ou, no mínimo, procurarem enquadrar comportamentos não enquadráveis em qualquer contexto de Direitos Humanos.

Estas atitudes, primeiro presumidas pelos grupos que perpetuam este tipo de actos e violência, depois concretizadas, a par de outras atitudes e comportamentos em áreas chave e modelo da sociedade, particularmente para a população mais jovem – da política ao futebol, passando pela cultura e pelo ambiente online – criam condições óptimas para que um conjunto de atitudes negativas e de emoções fortes face aos outros (sejam esses outros, outros porque adversários políticos ou desportivos, porque provenientes de um outro país ou porque de uma outra religião ou orientação sexual) terminem em comportamentos de conflito destrutivo, agressivos, violentos, discriminatórios ou mesmo xenófobos ou racistas.

Esta “passagem ao acto”, normalmente em grupo, decorre, desde logo, da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades. Decorre, também, da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos, que potenciam a disrupção que, podendo ter tanto de positivo – pela possibilidade de afirmação, mudança e minimização das consequências potencialmente negativas, incluindo nas dimensões da saúde mental,  – como de negativo, quando permite ultrapassar a sensação de “inadequação pessoal” que dela resulta, possibilitando romper com as convenções sociais e comporta processos de justificação ou legitimação de comportamentos atentatórios, por exemplo, de bens ou pessoas em sociedade. Decorre, finalmente, de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas, valendo isso pouco face aos potenciais ganhos de causa para determinados grupos e objectivos no curto prazo.

É também por isso que o sentido de comunidade e propósito, como aqui referi no último artigo, têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos em sociedade. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.

 

Tiago Pereira

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-vergonha-e-a-expressao-saudavel-das-emocoes

 

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Educação Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

“Propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. É assim que Fred Rogers, criador e apresentador do “Mister Rogers Neighborhood” (programa infantil da década de 1960 que inspira a série “Daniel Tigre”), descreve o intuito do seu trabalho e contributo.

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”, 82º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura sublinhar como “grupos e ideais” usam de vazios e “não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.”

Os “inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, resultam de uma “passagem ao acto”, normalmente em grupo, que tende, também, a decorrer:

a) da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades;

b) da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos;

c) de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas.

“É também por isso que o sentido de comunidade e propósito (…) têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.”

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Uma (só) Saúde (Ao redor…; 09.04.2024)

Na passada semana tomou posse o XXIV Governo Constitucional em Portugal. Como porventura aconteceria em qualquer outro lugar do Mundo onde exista e funcione uma Democracia, este acontecimento suscitou um conjunto de debates e discussões em torno da composição e da organização do Governo. Um deles, o facto dos anteriores Ministério da Educação e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do XVIII Governo Constitucional resultarem num único Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do que isso pode ou não representar e significar para a visão política sobre a Educação, mesmo num país onde as Creches e, portanto, a Educação dos 0-3 anos permanecem, ainda, com um “pé fora” do sistema educativo e fora da área da Educação na organização governativa. Uma Educação?

Já na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates e discussões, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo. Ao contrário de outros países na Europa onde o Ministério não é, exclusivamente, da Saúde e se associa a outras áreas, particularmente a solidariedade, a segurança e os assuntos sociais ou os cuidados (informais), há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as próprias competências do Ministério historicamente se alterem e indiciem a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?

Em rigor, talvez com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas, a verdade é que temos um caminho percorrido desde um modelo normalmente definido como “biomédico”, essencialmente centrado nas dimensões biológicas dos Seres Humanos e nas suas patologias e que tendia a desconsiderar ou relativizar os factores sociais, ambientais e psicológicos que influenciam decisivamente a saúde. Este modelo, embora com a discrepância que atrás assinalo, foi sendo substituído nas últimas décadas por um modelo habitualmente referenciado como “biopsicossocial” que, ao adoptar uma visão mais ampla da saúde, reconhece a relação complexa e a influência mútua de factores biológicos, sociais e psicológicos na saúde considerando, nesse sentido, questões como as dimensões comportamentais, emocionais ou, noutro prisma, as práticas culturais e condições sócio-económicas das pessoas e comunidades. Já nos últimos anos temos assistido a um aprofundamento desta visão, tendente à inclusão da saúde dos restantes animais e ao cuidado e integridade com o meio ambiente e os ecossistemas como outros aspectos fundamentais à saúde, uma abordagem mais integrativa e conhecida por “uma (só) saúde” [“one health”] que reforça, entre outros aspectos, a consideração da qualidade da água, dos alimentos ou a proteção e resposta das comunidades e sistemas face, por exemplos, a catástrofes “naturais” ou a doenças infecciosas.

Caminhamos, dizia, de modelos em que a saúde era entendida quase apenas como a ausência de doença para abordagens mais complexas da saúde e do bem-estar, focadas numa compreensão mais integrativa e sustentável da pessoa, das comunidades e do ambiente. Neste caminho assistimos também a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e a desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade dos ecossistemas, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação, o desenvolvimento de novas abordagens e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.

Esta transformação progressiva foi também assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano, comemorado no último Domingo, cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”], advogando pelo direito de todas as pessoas, em qualquer lugar do Mundo e circunstância, a acederem a “serviços de saúde de qualidade, a educação e informação, bem como a água potável e segura, a ar limpo, a uma boa nutrição, a habitação de qualidade, a boas condições de trabalho e ambientais e a liberdade e não-discriminação”. Direito(s) em Portugal protegido(s) pela Constituição e Direito a uma saúde de qualidade que depende do envolvimento de todas e todos, individual e colectivamente, cívica e politicamente, para o seu cumprimento.

Foi, também, com esse espírito de missão e de compromisso que, a partir da abordagem “One Health”, neste exacto Dia Mundial da Saúde de 2024, o conjunto das nove Ordens da Saúde (Biólogos, Enfermeiros, Farmacêuticos, Fisioterapeutas, Médicos, Médicos Dentistas, Médicos Veterinários, Nutricionistas e Psicólogos) apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal.

Contributo que assente num processo de colaboração e construção conjunta pretende dar um sinal da disponibilidade das Ordens Profissionais da Saúde e da importância da colaboração de todas as entidades neste grande objectivo de melhorar o acesso, a qualidade no acesso aos serviços de saúde e a saúde da população, aspectos fundamentais à qualidade de vida e bem-estar e à sustentabilidade, desenvolvimento e prosperidade do país. O documento sublinha a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; promover a literacia em saúde, incluindo saúde animal; reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental e desenvolver a área da saúde animal; investir em inovação, investigação, desenvolvimento e tecnologia; e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à complexidade dos desafios que vivemos só poderão corresponder abordagens também elas complexas, determinadas, comprometidas e com suporte interdisciplinar e multiprofissionais. Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.

 

Tiago Pereira

Uma (só) Saúde

in Sábado (Ao redor…); 09.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uma-so-saude

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza

No seu discurso de tomada de posse como Primeiro-Ministro, Luís Montenegro citou Saramago. Não citou, no entanto, um excerto do “Viagem a Portugal” onde Saramago refere que “é preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

Não em viagem (pelo menos como aqui referida) voltei há dias aos “passos que foram dados”. A uma cidade onde vivi parte significativa da minha vida (Évora), à Universidade onde estudei e a uma iniciativa (Semana da Psicologia, organizada pelo NEPUÉ, em que participei nas condições possíveis – participante, organizador e “palestrante”). Esta última, pela segunda vez e, desta vez, para uma conversa sobre “A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza”.

Fi-lo na quinta-feira, dois dias antes da apresentação do contingente de vagas para o Ensino Superior para o próximo concurso e de, mais uma vez, serem expostos e discutidos os dados que indicam que as/os estudantes de escalão A de acção social têm muito mais dificuldade (apenas metade da probabilidade) que estudantes sem acção social têm de aceder aos cursos com notas de entrada mais altas e essas e esses “sobreviventes”, conforme alguns estudos as/os apelidam, acabarem por reprovar mais e abandonar mais e mais precocemente o sistema.

Estes indicadores contribuem decisivamente para a cristalização das situações de maior desigualdade e pobreza. Problemas e desafios que, conforme aqui tenho discutido, impactam significativamente a dignidade, a saúde, o bem-estar e a possibilidade de autodeterminação das pessoas e limitam o desenvolvimento, prosperidade e coesão do país. Problemas e desafios fundamentais à psicologia, também pelo seu contributo, e à psicologia num Mundo transdisciplinar, mote desta Semana da Psicologia de 2024.

Neste sentido foi um gosto este regresso, pelo simpático (duplo) convite, pelo que de simbólico ele comporta e, espero, pela oportunidade que quem assistiu teve de reflectir estes temas nas diversas etapas de desenvolvimento profissional em que se encontram. Finalmente, como discutíamos no final, pelo que representa na e para a identidade da psicologia, considerando o combate à pobreza como elemento-chave do nosso contributo e um tema/objectivo que, ao percorrer diferentes papéis das e dos profissionais e diversas áreas de actividade, ser fonte, também, de reforço da identidade e de trabalho conjunto e colaborativo.

A propósito, a citação de Montenegro foi “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Sim, não percamos tempo. Erradicar a pobreza é possível, mas depende de ser desígnio de todas e todos e do importante contributo de um conjunto de ciências e de profissionais, incluindo a psicológica e as psicólogas e psicólogos.

Categories
Comportamento Democracia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Como hoje é dia 4 do mês 4 de 2024 partilho 4 parágrafos de reflexão com quem tiver 4 minutos de paciência. Versam sobre logotipo(s), logoterapia e (erradicação da) pobreza.

Nas últimas horas falamos do novo Governo muito em torno da mudança de logotipo por este promovida. Muito haverá a reflectir sobre a mudança, o timing e sobre o quão mobilizador, polarizador (conforme muito do que é mobilizador hoje) e emocional (idem) este tema é. Falamos menos de outro “logo” (por ex. utilizado por V. Frankl na descrição da logoterapia, modelo psicoterapêutico que parte da procura de um sentido de vida como motor de desenvolvimento e adaptação da pessoa), ou seja do sentido, propósito(s) e princípios orientadores do Governo na compreensão e interpretação da realidade actual e projecção do futuro.

Aqui permitam-me uma sugestão: discutamos a pobreza e reforcemos o desígnio de a erradicar. A pobreza que, talvez mais que qualquer outro fenómeno, fragiliza a coesão social e interfere com a saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação das pessoas e com a prosperidade do país. A pobreza e a desigualdade a que está fortemente associada, cujo combate, como Gordon Brown refere no artigo que partilho, “pode ser uma razão de optimismo” [quando ele não abunda], de “parceria que junte organizações sociais, empresariais, comunitárias e o Governo (…) num projecto de unidade e esperança” [quando projectos de unidade e esperança não abundam] e “um sinal que todo o país necessita: o princípio do fim” [da pobreza]. Sinal que dependeria de mais do que duas breves menções à pobreza no discurso de tomada de posse quando comparadas, por ex., com 4 relativas à corrupção e outras 4 à burocracia. Sinal que poderia partir do reforço do compromisso com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza e da priorização do combate à pobreza e à desigualdade como força motriz de construção conjunta na Assembleia da República.

Este não é um momento qualquer para o fazer. Daqui a 3 semanas cumprimos 5 décadas de Democracia (aconselho o “Viva a Democracia – 50 anos e o Futuro”) e podemos orgulhar-nos, creio, de sermos o país da Europa em que mais pessoas (72%) associam o “assegurar que não existe pobreza” a um “princípio fundamental da Democracia”. Reforçar a Democracia, combater populismos e pessoas providenciais, decorre de respondermos à pobreza e desigualdade que permanecem como uma das principais preocupações da população (também com a Democracia).

Que lhe sejamos responsivos e que nos mobilizemos. Que o façamos cuidando do que a Irene Flunser Pimentel tão sabiamente refere no 1º episódio do documentário: que “a grande desigualdade decorre na vida privada, não nas Leis”, acrescento eu, decorre na desigualdade e na(s) violência(s) explicitas e implícitas na vida de pessoas ao nosso redor, não raras vezes escondidas entre paredes, parte das quais legitimadas pela história, por narrativas ou mesmo por discursos proferidos ou intuídos.