
“Um muro de Berlim no centro de Oslo”. Foi esta a forte metáfora que uma Associação de Comerciantes de Oslo usou para descrever um conjunto de pilaretes utilizados num projecto piloto que experimentou – com o sucesso que hoje todas e todos reconhecem – limitar as deslocações automóveis no centro da cidade, tornando maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. Não há muitos anos, a economicamente vibrante cidade de Oslo, frequentemente considerada uma das melhores cidades do Mundo para viver, visitar ou trabalhar, com uma rede de transportes integrada modelo para diversas cidades no Mundo, discutia, nestes termos, mudanças associadas à organização do seu espaço público.
Talvez este debate, relativo a Oslo, surpreenda algumas pessoas. Surpreenda na exacta medida em que não surpreende que cá, relativamente às cidades portuguesas, discutamos nestes termos. Isto porque, racionalmente, associamos os diferentes níveis de surpresa à distinção que estabelecemos entre as condições de Oslo e as das cidades portuguesas para esta transição. Racionalmente, assim é. Mas, creio relevante, particularmente para decisoras e decisores, que se tenha sempre presente que mudar é difícil. Muito difícil. Que vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.
Algumas e alguns de nós recordamos ou já vimos imagens da Avenida dos Aliados no Porto, do Terreiro do Paço em Lisboa ou da Praça do Giraldo em Évora quando ainda eram essencialmente ou, pelo menos, também utilizadas como parque de estacionamento / praças de táxis. Qualquer um dos três espaços mudou, significativamente, mas não sem resistência, não sem metáforas ou premonições sobre a perda de dinamismo e de pessoas que implicaria. Premonições, grosso modo, não cumpridas. Ao contrário, cumpriu-se o habitual hindsight bias (viés da retrospectiva), ou seja, depois da mudança ter acontecido, foi sentida como mais provável e possível face às questões que levantou antes de experimentada ou concretizada, parecendo-nos hoje absolutamente natural que a mudança tenha acontecido e o que estranhamos é como foi possível ter sido de outra forma no passado. Isto aplica-se à utilização de emblemáticas praças portuguesas como parques de estacionamento ou ao facto de ter sido, e hoje não ser possível, fumar num autocarro, num avião ou num restaurante.
Aplica-se, portanto, à mudança. Mesmo quando a mudança, críticas e receios à parte, se insere na necessidade de respondermos a desafios societais complexos (como a crise climática ou crises de saúde pública), nos aporta bem-estar e não confirma premonições de perdas económicas ou outras invariavelmente evocadas. Aplica-se, por exemplo, a como desenhamos as cidades, como respondemos às necessidades e expectativas das pessoas e como aproveitamos oportunidades que existem para melhorarmos a qualidade de vida com intervenções que estimulem, incentivem e mitiguem obstáculos a mudanças comportamentais e à adopção de comportamentos e estilos de vida mais saudáveis e mais conectados com os objectivos do desenvolvimento sustentável.
Se hoje, múltiplas cidades portuguesas têm as suas Rua do Alecrim como Lisboa – ruas centrais onde, apesar de uma pequena minoria de pessoas se deslocar em viatura própria, cerca de dois terços do seu espaço público é dedicado a veículos automóveis (neste caso, duas faixas mais uma terceira para estacionamento) e onde intervenções urbanísticas poderiam com sucesso promover mudanças comportamentais no sentido do atrás referido – amanhã mais e mais oportunidades existirão. As Nações Unidas estimam que em 2050 68% da população mundial habitará em zonas urbanas (50% mais face a 2016), apesar destas corresponderem a apenas 3% do espaço do planeta. Também por isso, as cidades serão cada vez mais a expressão micro (contextualizada, territorializada, personificada) dos problemas macro (globais e complexos), sendo, portanto, contextos privilegiados para as intervenções e para que soluções globais sejam aplicadas e adaptadas localmente. As cidades serão espaço de experimentação, de inovação, de transição e estímulo à mudança no Mundo.
Precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor. Olhando o exemplo da mobilidade – particularmente quando na Europa e nos Estados Unidos da América cerca de 50% das viagens motorizadas distam menos de 4km e em Portugal temos o clima que conhecemos – precisamos de cidades que permitam mais escolhas equilibradas de transporte, que privilegiem, na medida do possível, a mobilidade ligeira, segurança para se caminhar a cidade, para se circular em bicicleta e para se viver o espaço público. Precisamos e podemos ter cidades em que, ao contrário de nos fazerem adoecer e morrer precocemente pela sua poluição (segundo a Agência Europeia do Ambiente, ainda que tenhamos melhorado nos últimos anos, em 2019 foram mais de 300.000 as mortes prematuras na Europa atribuíveis à poluição atmosférica), incentivem e promovam o bem-estar, a relação com o que nos rodeia (pessoas e meio ambiente) e a nossa pertença. Cidades que respondam, pelo seu desenho, à necessidade de se assumirem como restaurativas, promovendo a conexão das pessoas com a natureza e com os seus espaços verdes/azuis enquanto factor protector e mitigando a discrepância de problemas de saúde mental hoje existente em espaços urbanos face a espaços rurais. Cidades, portanto, que, pelo seu exemplo, mostrem possível, desejável e liderem a mudança no Mundo.
Este caminho será tão mais possível e tão mais bem-sucedido quanto mais pessoas e entidades da cidade se fizerem ouvir, se envolvam e se mobilizem na discussão e construção da mudança. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais for pilotado, testado, ajustado quando necessário, e abandonadas as más soluções e escaladas as boas soluções. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais o planeamento e a decisão política integrem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais consigamos estimular e facilitar as mudanças necessárias e não as obstaculizar. Quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, exemplos como o da cidade de Oslo permitem-nos aspirar a cidades e a um Mundo melhor. Oslo, além de soluções mais integradas de mobilidade, tem hoje um orçamento associado ao consumo de dióxido de carbono, gerido nos exactos termos do orçamento monetário anual da cidade. E, quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá, como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 21.06.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-nas-cidades-para-mudar-no-mundo