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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática

Menos

“Passei centenas de vezes naquele portão preto (…) que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua. Nele brinquei e brincámos em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite (…) até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.”

“Menos”, 14º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) começa com esta minha recordação de infância e procura abordar a necessidade de juntarmos um terceiro “R” ao “Reciclar” e “Reutilizar”, o “Reduzir”. Não apenas reforça a sua evidente necessidade para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – aliás sublinhada pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – como, a propósito de uma recente afirmação de David Adjaye (“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”), procura afirmar que “há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais; que menos, será mais”.

Pelo meio, o artigo também aborda a possibilidade de “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir” poder “não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador” e desse menos ser um contributo na promoção da partilha e da coesão social e na prevenção da desigualdade e iniquidade. Para tal, precisaremos de “enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo”, nomeadamente sublinhando a inércia e alguns viés que conduzem a um “certo egoísmo” do ser humano, muitas vezes não consciente, que nos leva a manter determinados comportamentos e a centrarmo-nos mais em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos decisões.

Discute ainda a importância da mudança ser feita a partir de objectivos com significado e propósito individual e social e com as pessoas e não contra as pessoas, pelo que não apoiada apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior informação e literacia (consciencialização), que estimule um consumo mais consciente e a possibilidade da mudança incremental e sua avaliação progressiva. Finalmente, reflecte sobre a necessidade do envolvimento de todas e todos, do cidadão comum à decisora, do adulto mais velho às crianças nesta mudança, permitindo um olhar mais amplo sobre as possibilidade de criação de valor e de utilização sustentável dos recursos e sobre o presente, informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

 

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