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À conversa sobre pobreza e exclusão…

Hoje queria propor-vos um quiz: Qual é o país que viu recentemente mais que duplicar, em apenas 12 meses, o número de crianças a viver em situação de pobreza?

Como creio possível que não tenha acertado à primeira deixo três pistas: trata-se do país que “liderou” a expedição à Lua que permitiu que um primeiro astronauta, com essa nacionalidade, a pisasse; país onde a OpenAI, organização que desenvolve e disponibiliza o ChatGPT, tem sede; país com o maior produto interno bruto (PIB) do Mundo.

Sim, trata-se dos EUA e esta duplicação não decorreu da pandemia em si, antes da “retirada” e do “fim” recente de um conjunto de apoios/programas que, em grande medida, decorreram da resposta à pandemia.

Esta realidade reforça algo que, quem habitualmente aqui me lê, sabe que venho defendendo. Que a diminuição da pobreza depende, claro está, do PIB (e do crescimento económico) mas quando triangulado com a redução das desigualdades e com o investimento em programas, com base em evidência científica, que combatam a pobreza e, particularmente, contribuam para a quebra de ciclos geracionais de pobreza.

No final da semana passada, no IV Encontro dos Psicólogos do Sul, discuti numa interessante (a meu ver) conversa com o Miguel Herdade exactamente estes dois aspectos. Sob o mote da pobreza e exclusão, e partindo do que tem sido o trabalho desenvolvido e dos objectivos da estratégia “.Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt) da Ordem dos Psicólogos Portugueses, conversamos sobre a realidade das desigualdades no contexto da educação (nomeadamente as decorrentes do nível socioeconómico das famílias e do nível de escolaridade, particularmente da mãe) e como a sua redução concorreria para a mitigação das situações de pobreza e exclusão.

Conversamos, ainda, sobre o papel das professoras e professores no sucesso educativo, sobre a importância da educação dos 0-3 e do investimento precoce no desenvolvimento infantil ou sobre as consequências, nos primeiros 1000 dias dos bebés e daí para o futuro, do stresse e outras condições decorrentes da pobreza e da exclusão. Conversamos sobre a evidência disponível e sobre como poderia e poderá informar políticas (públicas) e apoiar mudanças e transformações, possíveis e plausíveis, em favor da redução da pobreza e da promoção da qualidade de vida e da possibilidade de bem-estar.

Espero que quem a ela assistiu, presencialmente ou à distância, tenha gostado… Como eu gostei. Agradeço ao Miguel o que nos trouxe e traz, sempre. E agradeço, o convite, a confiança e toda a dedicação, à Delegação Regional do Sul da OPP e à organização do evento nas pessoas da Raquel Raimundo, Carla Fernandes, Ana Meira, Raquel Granjo, Gabriel Soares, David Guedes, Sara Bahia e de todo o staff da OPP envolvido.

Que conversemos mais e mais sobre estes temas. E que estes temas sejam tema, neste e noutros Encontros. Tema na sociedade…

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O jogo instantâneo (“raspadinha”) e Portugal

Certamente já vimos crianças, animadamente, a jogar com familiares. Já vimos, em estabelecimentos, fotocópias gigantes de prémios tão relevantes quanto excepcionais, chamarizes da atenção que complementa o boca-a-boca do prémio “grande” que, muito quando em vez, lá sai no bairro, na aldeia, na cidade. Todas e todos conhecemos quem jogue, sabemos de quem jogue com regularidade e, possivelmente, de alguém “dependente” das lotarias instantâneas. Da raspadinha.

De 1995 aos dias de hoje, este jogo tornou-se um fenómeno cultural de acesso praticamente generalizado, naturalizado e muito simples. Tornou-se, também, por isso e pelas suas características “aditivas”, um problema para muitas pessoas. Não deixa de ser curioso que uma das múltiplas modalidades deste jogo seja o “100X” quando um muito importante estudo, promovido pelo @Conselho Económico e Social, estima serem cerca de 100 mil as pessoas que apresentam problemas relacionados com este tipo de jogo e 30 mil as que apresentam doença instalada, nomeadamente “perturbação de jogo patológico”.

Mas mais, este jogo, também pelas suas singularidades e forma de disponibilização, nomeadamente pelos canais de venda, impacta negativa e desproporcionalmente as pessoas com mais baixos rendimentos e níveis de escolaridade e que apresentam problemas associados à saúde mental, nomeadamente stresse, ansiedade e/ou depressão.

Sobre estas questões, sobre o enquadramento do fenómeno deste jogo e sobre as iniquidades que espelha, procurei disponibilizar o meu contributo e reflexão. Também sobre o que podemos fazer para, com os dados do estudo e com a evidência científica sobre o comportamento humano e tomada de decisão, regular de outra forma o funcionamento do jogo, protegendo as pessoas, nomeadamente acrescentando a possibilidade de autoexclusão, limitação de valores mensais de jogo ou de limites temporais que previnam comportamentos mais emocionais e “compulsivos”. Foquei, ainda, o quão paradoxal é a facilidade de acesso ao jogo, particularmente por pessoas com determinadas vulnerabilidades, quando comparada com a dificuldade de obterem apoio psicológico e social ou o facto de quem, em Portugal, promove (e como o promove) este jogo.

Fi-lo na Antena Aberta da @Antena 1 (a partir dos 24m15s), na @Rádio Renascença, na @CNN Portugal e no @Correio da Manhã.

Fi-lo como contributo para que este jogo não seja um “Tesouro da selva”, curiosamente outra das suas múltiplas modalidades, sobretudo para a parte da população que vive situações que mais potencialmente as privam da possibilidade de bem-estar.

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Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social (Observador; Mental)

Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. Foi este o título escolhido pelo Observador para a newsletter de apresentação da sua nova secção dedicada à Saúde Mental. E… Temos, mesmo.

Eu e você, sabemos, já o experimentámos. Quando não estamos bem, quando sentimos preocupação, angústia ou ansiedade, falar com alguém sobre o que se passa connosco pode ajudar-nos. Tal qual pode ajudar-nos ouvir alguém falar sobre como lidou com as suas situações, situações essas que muitas vezes nos são próximas. Ou aceder a informação de qualidade, cientificamente validada e ajustada aos nossos conhecimentos, experiências e necessidades para que possamos melhor reconhecer o que estamos a vivenciar, atribuir-lhe significado e promover mudanças. Para, por vezes com sucesso, desenvolvermos estratégias, incluindo de autocuidado, visando a adaptação a novas situações e a adversidades ou acontecimentos de vida negativos. Temos (mesmo), portanto, de falar sobre saúde mental.

Mas falar sobre saúde mental implica falar também sobre o que a influencia e, muitas vezes, determina. Da pandemia que vivemos, ao impacto das novas tecnologias na sociedade e na forma como aprendemos, trabalhamos ou nos relacionamos. Da crise climática e suas consequências, das migrações voluntárias ou forçadas, da guerra que persiste em demasiados territórios pelo Mundo e que voltou à Europa. Da precariedade e das crises socioeconómicas. Da pobreza e exclusão social.

Cresci numa aldeia que durante muito tempo via partir pessoas, demasiadas pessoas, e com elas, “partia” famílias, relações e a comunidade. Pessoas que, como o meu avô (e depois os meus dois tios), saiam da aldeia e depois do país a pé, boleia aqui, boleia ali, a caminho de diferentes cidades e países, no seu caso de uma Paris onde habitavam mais portuguesas e portugueses de que em qualquer cidade portuguesa. Partiam em busca de romper com uma pobreza destinada a si, à sua geração e às gerações seguintes. De romper com um ciclo de exclusão, por ela potenciado e aprofundado pela falta de liberdade de expressar e viver direitos. Os seus e, naquele caso, os da minha mãe e os meus futuros direitos. Eu sei o quanto a pobreza impacta a possibilidade de saúde, de bem-estar, de autodeterminação. Eu sei o quanto a pobreza e a exclusão limitam e obstaculizam a saúde mental. Eu sei e você sabe-o. Se queremos falar sobre saúde mental temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social.

Sobre a pobreza e exclusão de há 60 anos. Sobre a de há 30 anos. Sobre a resultante da grave crise sócioeconómica de há cerca de uma década, onde tantas e tantos outros partiram, “partindo”, uma vez mais, famílias, relações e a comunidade. Sobre a de hoje e a de amanhã. Falar e não permitir que naturalizemos a pobreza e a exclusão, que a assumamos com uma inevitabilidade, como um destino.

Podemos, no entanto, perguntar-nos: todas as pessoas que vivem em situação de pobreza têm ou vão ter uma dificuldade de saúde mental ou mesmo desenvolver doença mental? Ou, todas as pessoas com doença mental vivem ou viveram em situação de pobreza e exclusão? Não. E não. Mas, não sendo uma inevitabilidade, há uma relação forte entre a vivência em situação de pobreza e exclusão e os problemas de saúde mental, principalmente o stresse, a ansiedade e a depressão. Relação forte e circular que, porque relevante, não podemos não considerar e que determina que investir na promoção da saúde e da saúde mental seja garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão e que diminuir a exposição a situações de pobreza e exclusão seja reduzir um dos principais factores de risco dos problemas de saúde mental.

Se este ciclo penaliza tantas pessoas que nele se encontram e, no fundo, toda a sociedade, é fundamental que o pensemos também nas suas dimensões políticas e sociais. Desde logo porque coloca em perigo a sustentabilidade de serviços, particularmente na área da saúde e da segurança social, além de limitar a possibilidade de desenvolvimento económico do país. Depois porque períodos de incerteza económica, nos últimos anos comuns, constituem uma ameaça à saúde psicológica das comunidades porque, a acrescer ao stresse, ansiedade e sofrimento psicológicos, os factores protectores da saúde mental tendem a enfraquecer enquanto factores de risco como o desemprego e precariedade, o endividamento ou a perda de estatuto socioeconómico podem aumentar consideravelmente.

Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. De pessoas, da vida dessas pessoas por trás dos impressionantes números. De acesso e de equidade e qualidade no acesso a literacia, recursos e serviços na área da saúde mental, certamente. Mas, se queremos falar de saúde mental, temos também de falar sobre como combater a pobreza e os seus ciclos geracionais e de como construir uma sociedade mais inclusiva e mais sensível à diversidade.

 

Tiago Pereira

Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social

Observador (Mental); 28.08.2023

https://observador.pt/opiniao/temos-mesmo-de-falar-sobre-pobreza-e-exclusao-social/

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‘Let’s raise this flame of great things that can be built’ (Entrevista; The Psychologist; July23)

‘Let’s raise this flame of great things that can be built’

We hear from Tiago Pereira, Executive Board Member of Ordem dos Psicólogos Portugueses [Portuguese Psychologists Association], and a keynote speaker at the European Congress of Psychology

What is your keynote going to be on?

Poverty, and the potential path to its eradication. ‘No poverty’ is the first of the 17 Sustainable Development Goals (SDG), a globally agreed 2030 agenda towards a healthy planet and peaceful and inclusive societies in the world.

Poverty, exclusion, and inequalities are old, present, and, unfortunately, future challenges of humankind. I will talk about poverty as a major contributor to the loss of dignity, health (including mental health), well-being, self-determination, and societies’ social cohesion.

These are important goals of psychology, and psychologists are guided by ethical principles of intervention. As a science and a profession we must address this major societal challenge, with huge impact on several other challenges and SDG.

At ECP, I’ll try to promote reflection on how, as psychologists, we can contribute to this challenge. There’s also a role for professional associations promoting and stimulating these contributions. I will be presenting the ‘.Final à Pobreza’ [Full stop to poverty: see tinyurl.com/bdeyv6dw], as a strategy of the Portuguese Psychologists Association targeting this purpose.

What has changed in the area of poverty and exclusion in recent years?

We have achieved an important decrease in poverty worldwide in the last decades. This confirms that through a collaborative effort, it is possible, just the same way we addressed objectives that seemed unattainable some decades ago and ended slavery, apartheid and some diseases.

However, the World Bank pointed out that Covid-19 was the ‘biggest setback to poverty reduction efforts since 1990’. The reduction in poverty and social exclusion has stopped in 2020. If we consider new geopolitical, economical and climate threats (such as the Russian aggression and war on Ukraine, new conflicts in Asia and Africa, the weakening of liberal democracies and United Nations, socio-economic uncertain and climate crisis), it is now expected that we will finish 2030 still with 7 per cent of the world’s population living in extreme poverty and high rates of poverty in the UK, Portugal, and other countries in Europe.

We’re in an era of paradoxes. More resources than ever and, at the same time, huge inequalities, mental health problems and major threats to the opportunity of well-being for all. This menace is reinforcing the need for psychology and psychologists to study social determinants of mental health and well-being and their impacts in effective interventions. We need to fulfil a role in this area, informing public policies and promoting social transformations that reinforce equity and the chance of well-being for all.

We’ve had big advances in psychological research, as an important hub of science, and a growing number of psychologists in the world (e.g. in Portugal, an increase of 67 per cent in the last decade). We now have plenty of data on causes and consequences of poverty. We must use that knowledge to inform practices and public policies in a better and more efficient manner.

How do we do that?

Globally, we must talk and discuss more about poverty and exclusion at different microlevels, in society and media. We must really set poverty eradication as a priority and collaborate at national and international level, with an interdisciplinary focus to achieve this goal.

But there’s more. We must promote literacy on poverty and its causes and impacts, for people at risk of poverty and for all society. This will have an important influence on discrimination, stigmatisation (and self-stigmatisation) and exclusion.

Also, regardless of the improvement of the last years, we still need to reinforce research on poverty and on the effect of interventions reducing it. We need to stimulate more reflection and training of psychologists in this area. We need more collaboration between psychologists acting in different areas and between psychologists and other professionals working in social, educational and health contexts, as well as with decision makers. And we must lobby for more equality in the access to evidence-based psychological support for vulnerable people, and to the factors behind the success of these interventions (e.g. see Improving Access to Psychological Therapies data about the inequal access to support for people from deprivation areas, or the impact of deprivation on the success of interventions).

Finally, we must have a more evidence-based design of public policies. This is even more important for poverty and exclusion, given the impact of some civil society prejudices and biases. We also need to evaluate the impacts and to follow the longitudinal effects of the policies.

What’s holding us back, either as psychologists or as a society?

We are facing interdependent, interconnected, and intersecting crises. This ‘polycrisis’ challenges the prioritising of poverty and inequalities. Psychologists, in some countries and societies, are lacking the capacity and the tools to influence civil society and public policies. We have to promote psychologists’ identity, and psychologists’ professional associations must work for this and contribute to people’s confidence levels in governments and public policies. We must lead, and assume roles as decision makers to take a more active position on social transformation.

 

So is it primarily a lack of evidence, or a lack of the networks and infrastructure required to put that evidence to work?

We need to strengthen research and have better data on poverty. But more than that, I feel that the greater need is of transferability and impact of evidence and data on the design of policies and on the literacy of civil society.

Today, we have plenty of information on consequences of living in poverty, organised in multiple layers. We know about scarcity mindset and its effects on stress or in reducing our cognitive resources to anticipate, plan and make good decisions. We have moved on from ideas of inherent incapability, lack of character or motivation, or personality problems of people living in poverty. Studies on the first 1000 days of life, beginning in the womb, confirm that this period is crucial for the development of brain structures. Disadvantages at day 0 deepen in the next two years for children exposed to poverty and exclusion contexts. We also have robust evidence on the cycles of poverty, and solid associations between mental health problems (anxiety, depression, and stress) and precarity, unemployment and poverty. This makes combatting poverty crucial when we want to promote mental health and the need to promote mental health if we want to interrupt cycles of poverty and eradicate it.

But as we know, changes in civil society, in decision makers and social transformation, is a never-ending process. To secure gains on these matters, we must have strong networks of professionals working in this area, empowered, with resources and with support from people, institutions, and the government.

Tell me about your work with the Portuguese Psychologists Associations; for example how you sought to help communities through Covid.

On 13 March 2020, some days after the first confirmed Covid-19 cases and some days before the first lockdown in Portugal, I was designated coordinator of the Covid-19 crisis cabinet of the Portuguese Psychologists Association. Although we are a recent organisation, created by law in 2008, our past contributions and relations with Portuguese decision makers and authorities allowed us to participate in the national effort. We undertook a central role on the response to pandemic in relation to the needful balance between protection of public health and protection of mental health and well-being, particularly for people and groups with specific vulnerabilities.

Five swift examples of that:

  • our part in the design of the algorithm, and training and supervision of the clinical and health psychologists supporting the establishment of the psychological counselling 24/7 telephone service of Portuguese NHS, totally free and confidential, that is still ongoing today in Portuguese and English languages and has had more than 200,000 attendances in the first three years of activity;
  • the strategy and creation of a behavioural science task force to work with government;
  • responsibilities on the training of more than 2000 psychologists as micro influencers to foster mobilisation and promote pro-health, pro-social behaviours, health literacy and to empower decision-making in their communities;
  • the elaboration of literacy documents and tools for different targets and of eusinto.me [I feel] website – an online information portal on psychological health and well-being;
  • the development and offer of resource and training for psychologists to boost their role addressing Covid-19 pandemic and its consequences on mental health and well-being of the communities.

What role do schools, and educational psychology, play in uniting communities for a sustainable world?

How can we connect communities for a sustainable world without schools? The young generations have a major role on the present and the future of sustainability. And, like former Portuguese Minister of Education said before, I don’t think that there is (real) school without educational psychologists and its contributions. Schools, today, must work as hubs for development and promotion of protective factors, not only for all children and adolescents (in particular, those living with personal or social vulnerabilities), but also for their families and communities. Psychologists are essential to that.

In addition to traditional roles in education (e.g. vocational development, inclusion and specific needs interventions), psychologists must focus on multilevel approaches, working with school direction and with all educational community, centred in human rights, sustainability, psychological well-being and socioemotional development, as well as in promoting community unity and support, positive parenting and equity and inclusion in all society.

Fortunately, I think Portugal have good examples on that and recent changes in the role of psychologist in schools, its models of intervention, and the important investment in these professionals (more than duplicate in public schools in last years), are evidence of this.

Have you been to Brighton? Do you think it’s a good base for this particular Congress and its themes?

I never went to Brighton in person before, but I have strong images and a narrative of Brighton… the songs, the books, the movies. Brighton, for me, is a quite different sea and beach from the ones in Portugal that I (and I think all world) love. But it is also where Nick Cave lived before the city became ‘both a more beautiful place to live, and a place where we [he and is family] can’t really continue to live’. I follow his career and life for long time now and I watched 20,000 Days On Earth, a documentary filmed in Brighton about 24 fictious hours in his life. In that, he said that ‘all of our days are numbered (…) sometimes this idea can be the smallest thing in the world, a little flame (…) if you can hold on to that flame great things can be constructed around it that are massive and powerful and world changing – all held up by the tinniest of ideas.’

When in Brighton, in the first days of July, I’ll have had almost 14,600 days in Earth. I’m motivated to make my small contribution to the world to ‘become both a more beautiful place to live, and a place where we really could continue to live’. For that, it is critical and possible to eradicate poverty and exclusion, and to use psychology’s contributions, in an interdisciplinary approach, to address other challenges that will shape our future and to unite communities for a more sustainable world.

Brighton, as a special, strong, and inclusive city, is the perfect places to unite psychologists in these challenging times. Let’s raise this flame of great things that can be built around it, things that are massive and powerful and world changing. To add another ‘s’ to sun, sand, and sea: social. Social psychology and transformation for a fairer world with opportunities of well-being and self-determination for all.

My hope is to see this happening in my 20,000th day on Earth and, who knows, getting back to Brighton.

Tiago Pereira

‘Let’s raise this flame of great things that can be built’

The Psychologist; July23

https://www.bps.org.uk/psychologist/lets-raise-flame-great-things-can-be-built

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1000 dias e as políticas públicas

É inestimável a importância da ciência. Na psicologia, como em outras áreas, na conceptualização, no desenvolvimento de instrumentos e metodologias e na definição de protocolos de avaliação e intervenção baseados em evidência, é certo. Mas, também, nas dimensões macro fundamentais à sua disseminação e à sua transferência com impacto social, desde a promoção de literacia à tão importante, mas nem por isso pouco desafiante, informação ao desenho, avaliação e implementação de políticas públicas.

Na publicação da @The British Psychology Society procuro dar um exemplo de como a investigação sobre as causas e os impactos da vivência em situação de pobreza e de exclusão (parte significativa com contributo da ciência psicológica) tem permitido a densificação do conceito dos “1000 dias” e de como essa evidência deve informar as políticas públicas, nomeadamente sobre o quão fundamental pode ser na redução de ciclos de pobreza, mitigar estas situações em famílias em processo de gravidez e nos dois primeiros anos de vida do bebé. Algo sobre o qual temos vindo a trabalhar e advogar em Portugal.

Fi-lo em Brighton (UK), em Julho passado, aquando do 18º Congresso Europeu de Psicologia e logo após o Keynote que nele apresentei: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. 

O contributo para o desenho de políticas é essencial para maior e mais rápida generalização dos seus benefícios e dos impactos da ciência para a promoção, neste caso, da possibilidade de autodeterminação e de bem-estar para todas as pessoas. Em tempos particularmente desafiantes para a ciência é importantíssimo, também por este papel, que reflictamos sobre a história da nossa relativamente jovem, mas, muito importante ciência, procurando compreender os erros cometidos no passado e reforçando os mecanismos para, a cada dia, produzirmos mais e melhor ciência, reforçando a confiança das pessoas e sociedade nela e a sua capacidade de produzir impacto social.

Ps. Para mais informações sobre os “1000 dias” partilho duas publicações com alguns meses. Um artigo exactamente titulado “1000 dias” e a minha participação no programa da “É ou não e” (@RTP) sobre pobreza em que discuto sobre o tema.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

30 meses ao redor, um pedido e um compromisso (Ao redor…; 21.08.2023)

No próximo dia 24 de Agosto passam 30 meses da data em que escrevi o primeiro artigo desta rubrica. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa. Ou que estaríamos hoje, enquanto nos debatemos com eventos climatéricos significativos resultantes, também, da crise climática, a discutir, como estamos a discutir, os impactos da inteligência artificial generativa, dos computadores espaciais e realidade virtual ou a preparamo-nos para pensar as transformações que podem advir com os futuros computadores quânticos.

É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.

Se há algo que parece unânime no debate público em Portugal, talvez no Mundo, é a necessidade de potenciar o crescimento económico. Ora, o pedido que partilho convosco é para que, enquanto sociedade, em Portugal e no Mundo, procuremos complementar este discurso e objectivo com a necessidade de promover, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar de pessoas e para a coesão social.

Tal como tem acontecido com a pobreza, particularmente com a pobreza extrema, também a nível global existiu nas últimas 3 décadas uma significativa redução das desigualdades globais entre países, manifesta em indicadores como a esperança média de vida, o acesso a alimentos e água potável, à educação ou à internet e outros meios de comunicação. Porém, existem neste percurso três questões que importa detalhar e que devem estimular reflexão e mobilizar enquanto sociedade.

Se a diferença entre os países classificados como economias mais desenvolvidas e menos desenvolvidas diminuiu nestes elementos, não o fez em todas as áreas. Dois exemplos em dimensões relevantes: a mortalidade infantil, que descendo em ambos os grupos de países, fê-lo muito mais intensamente nos países com economias mais desenvolvidas, aumentando a diferença e desigualdade. Também na poluição do ar a diferença aumentou nos últimos anos, muito devido ao crescimento das cidades, da população e da industrialização dos países apelidados de em desenvolvimento.

Este ponto, a par do acesso a espaços azuis e verdes, traz-nos à segunda importante questão. O facto de, além das iniquidades globais, existirem iniquidades nacionais. Em Portugal o ritmo de decréscimo tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos em elementos como a saúde, a educação, a habitação ou o acesso à recreação, à cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária. É, também por isso, que sendo possível como se tem demonstrado, importa acelerar e aprofundar a redução das desigualdades, algo fundamental à promoção da saúde pública, da capacidade de agência, controlo e previsibilidade das pessoas, logo do seu bem-estar e, portanto, do desenvolvimento da sociedade.

Finalmente, a redução das desigualdades está também positivamente associada a maior confiança nas outras pessoas, nas instituições, incluindo políticas, e na coesão social. É por isso que retrocessos nos últimos anos na redução da desigualdade em algumas áreas, particularmente na que se refere à vivência de liberdades de direitos e política e da vivência em democracias, periga estes elementos e nos deve fazer reflectir na forma como forças da sociedade civil e da política usam o medo, a instigação do ódio e a desinformação para procurar polarizar a sociedade, promover a desconfiança, romper contratos sociais e diminuir direitos. Como os usam para fragilizar a segurança, incluindo a segurança psicológica, de todas as pessoas numa sociedade.

O discurso de ódio e o desrespeito por condições diversas de vivência, incluindo práticas religiosas, pertença comunitária, condição de vivência no país ou orientação sexual, depois de terem diminuído significativamente nas últimas décadas, estão, nos últimos anos, em crescimento em alguns países e continentes no Mundo, incluindo na Europa. A ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades. Prevenir, portanto, a inversão de caminhos de maior segurança psicológica para todas as pessoas e comunidades, desde logo na Europa e em Portugal em concreto e generalizar esta necessidade Mundo fora, é fundamental à promoção do bem-estar das pessoas e da coesão social. Da possibilidade de respondermos à adversidade e a acontecimentos de vida negativos com suporte de outras pessoas e/ou com apoio comunitário ou social. Da possibilidade de errarmos e de, por isso, não sermos eternamente penalizados, particularmente se tivermos determinadas características ou condições face a outras pessoas, com outras características ou condições.

É este, assim, o meu pedido. Que à necessidade de crescimento económico, unânime no debate público, somemos a promoção da equidade e da segurança, incluindo psicológica, e que todas as pessoas, quaisquer que sejam os seus papéis e responsabilidades na sociedade, se envolvam e para isso contribuam. Se este é o meu pedido, o compromisso que partilho é que, enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, também aqui vou continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem, necessariamente, que procurar contribuir mais para informação e literacia da população sobre os impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social. Tem, também e necessariamente, que contribuir, conjuntamente com outras disciplinas, para promover situações e/ou transformações sociais que permitam e promovam os valores da equidade e da segurança, incluindo a segurança psicológica. Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este compromisso meu, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.

 

Tiago Pereira

30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

in Sábado (Ao redor…); 21.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/30-meses-ao-redor-um-pedido-e-um-compromisso

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Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social

Penso claro para todas e todos que as questões da saúde mental estão hoje muito mais presentes no espaço/debate público face ao que acontecia há muitos, alguns e, até, há poucos anos. São diversos os fenómenos que para isso contribuem e que tornam relevantes projectos de comunicação nesta área que promovam a literacia, a personalização/concretização da informação e, fundamentalmente, a credibilidade, factualidade e cientificidade da mesma.

Penso claro, também, que este movimento beneficia do envolvimento de todas as pessoas. Que a secção do Observador dedicada à Saúde Mental é um excelente exemplo, pelo envolvimento de diversas entidades, projectos, profissionais de saúde e cidadãos. Que o título escolhido para a newsletter da secção (“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental”), da responsabilidade do Paulo Farinha, é profundamente significativo e representativo disso mesmo.

Há dias foi publicado o artigo/contributo meu para o projecto, que partilho. A propósito do título da newsletter chamei-lhe “Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social” e, destacando a importância de “aceder[mos] a informação de qualidade, cientificamente validada e ajustada aos nossos conhecimentos, experiências e necessidades para que possamos melhor reconhecer o que estamos a vivenciar, atribuir-lhe significado e promover mudanças”, reflicto sobre o facto de “falar sobre saúde mental implica[r] falar também sobre o que a influencia e, muitas vezes, determina”, particularmente da pobreza e exclusão social.

“Cresci numa aldeia que durante muito tempo via partir pessoas, demasiadas pessoas, e com elas, “partia” famílias, relações e a comunidade. Pessoas que, como o meu avô (e depois os meus 2 tios), saiam da aldeia e depois do país a pé, boleia aqui, boleia ali, a caminho de diferentes cidades e países (…) Eu sei o quanto a pobreza impacta a possibilidade de saúde, de bem-estar, de autodeterminação. Eu sei o quanto a pobreza e a exclusão limitam e obstaculizam a saúde mental. Eu sei e você sabe-o. Se queremos falar sobre saúde mental temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social.”

Mas “todas as pessoas que vivem em situação de pobreza têm ou vão ter uma dificuldade de saúde mental ou mesmo desenvolver doença mental? Ou, todas as pessoas com doença mental vivem ou viveram em situação de pobreza e exclusão?”, questiono. “Não. E não. Mas, não sendo uma inevitabilidade, há uma relação forte entre a vivência em situação de pobreza e exclusão e os problemas de saúde mental, principalmente o stresse, a ansiedade e a depressão.”

“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. De pessoas, da vida dessas pessoas por trás dos impressionantes números. De acesso e de equidade e qualidade no acesso a literacia, recursos e serviços na área da saúde mental, certamente. Mas, se queremos falar de saúde mental, temos também de falar sobre como combater a pobreza e os seus ciclos geracionais e de como construir uma sociedade mais inclusiva e mais sensível à diversidade.”

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APA 2023 | You belong here

“You belong here”. Este “pertences aqui” foi a impactante assinatura da Convenção da American Psychological Association de 2023. E o “pertences aqui” ganha particular relevância quando ali estamos, num país e numa associação com enormes complexidades, entre as e os que constroem e desenvolvem a nossa ciência (das/os jovens investigadoras/es às históricas referências) e que, dia-a-dia, um pouco por todo o Mundo, a advogam e praticam, por vezes em condições muito exigentes.

Pertences aqui. Pertencemos aqui. A uma ciência e profissão que tem a possibilidade mas, sobretudo, o dever de olhar o micro mas também o macro, de olhar o local, o nacional, o regional, o global. Uma ciência e profissão que deve integrar isso mais e mais nas suas práticas de investigação e intervenção, incorporando especificidades e, mesmo que muito mais difícil, aproximando a ciência das pessoas que pretende impactar na forma como a faz e a transfere para a sociedade civil, para decisoras/es e nas suas práticas, aumentando a sua eficácia e eficiência, o impacto e garantindo mais confiança das pessoas na ciência e nos profissionais.

Uma ciência e uma prática que deve prosseguir o multilateralismo. Uma ideia de construção conjunta a partir de uma base identitária de uma psicologia no quadro dos direitos humanos a contribuir para a possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas. Algo para o qual procurei contribuir na sessão (e grupo de discussão) “Moving Forward a Global Perspective: Developing Effective Strategies” [Construindo uma Perspectiva Global: Desenvolver Estratégias Específicas], onde coordenei o grupo de trabalho em torno dos contributos da psicologia para a erradicação da pobreza, conjuntamente com a representação da USAID – Bureau for Humanitarian Assistanceque coordenou o grupo sobre a erradicação de terapias de reconversão sexual e oFernando de la Mora Salcedo das United Nations que coordenou o grupo dos contributos para a melhoria de acesso a serviços na área da saúde mental.

Uma ciência e uma prática que deve advogar pela saúde pública e pela protecção das pessoas. Num tempo de crescente obscurantismo e de desafios e questionamento à ciência, reforçar a sua ligação às pessoas, promover a confiança e a forma como “entrega” resultados positivos é fundamental. Também aqui, algo para o qual procurei contribuir na sessão “Is Psychotherapy a Separate Profession from Therapy Delivered by Psychologists?” [É a Psicoterapia uma profissão separada da Psicologia?] num quadro internacional, discussão a partir da realidade e dos contributos dos EUA discutidos pela Amanda Clinton, Ph.D., de Espanha pelo Manuel Berdullas (Consejo General de la Psicología de España) e de Portugal, por mim apresentados e reflectidos, com contributos fundamentais do David Dias Neto.

Isto, além dos diversos encontros/reuniões com associações congéneres e com boas e importantes, creio, perspectivas para o futuro, também para a psicologia em Portugal.

Pertences aqui. Pertencemos aqui.

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14.600 dias na Terra

Hoje é um dia diferente para mim. Um daqueles em que, necessariamente, olho os dias, todos os dias, que vivi. Faço-o pensando-me hoje, no presente, e, de certa forma, como me fui pensando e imaginando a chegar ao dia de hoje, em cada momento já vivido.

Faço-o e faço-o com um grande sorriso. São 14.600 dias de curiosidade, de descoberta e de um processo de preenchimento. Dias, dias e dias a cumprirem dimensões expectáveis, mas, principalmente, a surpreenderem-me e a sugerirem-me o menos expectável. O menos expectável bom, muitas vezes. O menos expectável, menos bom, poucas vezes. O menos expectável, muito bom, felizmente, mais vezes. Pessoal e profissionalmente.

Um pequeno exemplo que beneficia do efeito de recência. Cresci, profissionalmente, desde quando era ainda apenas um estudante de psicologia, interessado e admirado pela forma como a American Psychological Association e a The British Psychological Society tinham capacidade de transferir a investigação científica em psicologia para o quotidiano do nosso dia-a-dia, para os desafios que se colocavam a pessoas e sociedade, para a afirmação da nossa ciência e dos seus profissionais e para a forma como a ciência psicológica poderia melhor informar as políticas públicas. Cresci assim e hoje, singelamente, procuro também eu fazê-lo.

Cresci, profissionalmente, a ler as revistas dessas Associações, particularmente a “The Psychologist”. Cresci e este mês, mês deste meu dia, num momento dos claramente menos expectáveis mas muito bons da minha vida, a edição da “The Psychologist” tem uma entrevista minha (cujo link abaixo partilho) sobre um tema que de uma ou de outra forma me tem acompanhado – a pobreza, a desigualdade, os seus impactos e como, a partir da psicologia, podemos contribuir para a sua mitigação e erradicação e para a promoção da saúde e bem-estar de todas as pessoas.

Nela, a propósito de uma pergunta, falo do “20.000 dia na Terra”, documentário que trata 24 horas fictícias de vida do Nick Cave e de onde provém a frase destacada na entrevista: “Let’s raise this flame of great things that can be built” [“Façamos crescer a chama das grandes mudanças que podemos construir”, numa tradução minha]. É um mote perfeito para estes meus não 20.000 mas 14.600 dias na Terra. Ajudar a fazer crescer, convosco, esta chama.

Que tenham mais um bom dia na Terra. Obrigado a todos quantos os vão partilhando comigo. Tudo de bom.

Entrevista “The Psychologist” (July/August 2023) | https://www.bps.org.uk/psychologist/lets-raise-flame-great-things-can-be-built

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The kids are not all right

Vivemos um momento muito complexo relativo à prevalência de problemas de saúde mental nas crianças e jovens. Em rigor, vivêmo-lo em todas as faixas etárias, mas, muito especialmente, na população mais jovem.

Problema que não é problema apenas em Portugal. Há sensivelmente um ano fiquei profundamente impactado ao assistir a um evento muito a propósito intitulado “The kids are not all right”, sobre o declínio da saúde mental na população jovem nos EUA. Tal qual fico ao reflectir sobre o aumento das perturbações depressivas e de ansiedade na última década na Europa, com países como a França ou o Reino Unido a aumentarem 2 a 4 vezes a incidência. Ou quando observo dados portugueses sobre comportamentos autolesivos ou dados globais sobre suicídio na adolescência. Quando um relatório do Centers for Disease Control and Prevention indica que em 2021 13% das alunas do ensino secundário nos EUA tentaram o suicídio (30% consideraram-no seriamente), 20% se considerarmos o universo das/os estudantes LGBTQ+ (45% consideram-no seriamente), existindo dados consistentes também sobre a maior prevalência em jovens com pertenças comunitárias distintas.

Desigualdade(s). Exclusão. Nas suas antigas e novas formas, enquanto determinantes do passado e presente fundamentais para os problemas referidos, potenciados pelas novas formas de desigualdade e exclusão decorrentes da relação com as outras e outros (também por via das novas tecnologias e de uma sociedade focada no presente, no imediato e numa “ditadura” da felicidade), da pressão das notas e do mérito, da ausência de previsibilidade, controlo e de alguma segurança face ao futuro. Isto a par da carência de suporte e apoio consistente e contingente que acompanhe esta pressão e desafio à saúde mental e o capital social hoje existente que faz com que as/os jovens “exijam”, bem, respostas mais significativas e eficazes neste âmbito.

Sobre isto conversei com a Margarida Gaspar de Matos e a Tânia Monteiro Neves no Encontro Nacional de Psicólogos Ubuntu a 22.06, momento que aqui partilho: https://www.youtube.com/watch?v=qzRJWQvmqBs. Sobre isto conversei, com amigas/os e colegas de sempre, a convite da Cláudia Espiguinha Guerra, no meu primeiro Agrupamento de Escolas, onde estagiei e trabalhei os primeiros 7 anos enquanto psicólogo, reflectindo sobre os “Desafios na promoção da saúde mental de crianças e jovens”.

Sobre isto, finalmente, volto a partilhar o artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” que escrevi na rubrica “Ao redor” em Setembro de 2022: https://www.linkedin.com/pulse/rosa-dos-ventos-da-saúde-mental-população-jovem-tiago-pereira/.

Também para lembrar que a pandemia continuou/aprofundou alguns destes problemas, nomeadamente as suas manifestações comportamentais. Apenas continuou/aprofundou, não explica por si o aumento consistente da última década, pelo que há muito mais a fazer que a simples (e importante) recuperação da pandemia.

Para isso, todos contamos. Todos somos fundamentais.