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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

“Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.”

“A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência”, 61º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a “falácia do apelo pelo natural” e dois riscos dela decorrentes:

  1. A potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por ex., também por viveram em zonas mais remotas);
  2. A associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por ex., na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

“Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.”

Mais ainda, quando a “falácia do apelo pelo natural” gera um “significativo valor monetário e comercial, vivendo, portanto, dos desafios do presente e para o presente, mas impactando verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.”

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Pobreza e desigualdades (ECP2023)

Quando estou fora de Portugal, num país onde compreendo a língua, alargo a rotina de “olhar” as primeiras páginas dos principais jornais portugueses aos principais jornais do país onde estou. Assim o fiz na passada semana com os jornais do Reino Unido e, apesar do momento que vivemos, apesar dos problemas sociais e económicos que a Europa enfrenta e em semana de comemoração do 75º aniversário de um @NHS (SNS do UK) particularmente desafiado na sua sustentabilidade, não vi as palavras “pobreza” ou “desigualdades” nessas primeiras páginas, mesmo quando fundamentais nestas questões.

Continuamos a falar desproporcionalmente muito pouco de pobreza e de iniquidades face ao quanto são determinantes da saúde (incluindo saúde mental), da educação e do bem-estar. Fazêmo-lo porque enquanto sociedade, erradamente, tendemos a olhar estes problemas como problemas das pessoas que vivem em situação de pobreza ou em risco de pobreza e não como problemas de todas as pessoas, ao perigarem a coesão social e impactarem toda a sociedade. Fazêmo-lo enquanto sociedade e, também de certa forma, enquanto psicólogas/os, quando pensamos apenas estes problemas como parte do “problema”/”circunstância” de um/a cliente específica/o e não enquanto problemas macro, sempre e necessariamente presentes na sociedade.

Assim comecei a minha intervenção inicial no Main Stage Event “Poverty and inequalities and the impact of these on mental health” [Pobreza e iniquidades e seus impactos na saúde mental] do 18º Congresso Europeu de Psicologia, um interessante debate com Bridgette Ricketts, Philip Murphy e Germán Gutiérrez, presidente da IUPsyS, moderado pelo @Jon Sutton.

No dia seguinte, procurei aprofundar este tema no meu Keynote no congresso: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. Discuti-o na sua centralidade para a psicologia e nos contributos da ciência e da prática das/os psicólogas/os para a sua compreensão e erradicação, a par do papel particularmente importante das associações profissionais no estímulo a que isto possa acontecer.

A fechar, e a partir de uma questão da @Claudia Hammond que me acompanhou no Keynote, afirmei o quão poderá ser diferenciador ter 27.000 psicólogas/os em Portugal nos níveis mais micro (contextos de intervenção profissional) e cívicos (contextos de cidadania) a contribuírem para o aumento de literacia da população e sociedade sobre este tema, para a advocacia no mesmo e para (a necessidade de) intervenções baseadas na evidência e na transferência da ciência para as políticas locais, regionais e nacionais. Mais, o quão poderá ser transformador se aos 27.000 juntarmos, criando comunidade e mobilizando, centenas de milhares na Europa e no Mundo a contribuírem para um .Final à Pobreza.

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European Congress of Psychology 2023

É. Vivemos uma “Era de Paradoxos”. Possivelmente o tempo histórico com mais recursos disponíveis, mas, ao mesmo tempo, desigualdades significativas, grandes (e graves) problemas de saúde mental na população e ameaças críticas à possibilidade de bem-estar de todas as pessoas.

Na próxima semana, com orgulho, mas, principalmente, com sentido de responsabilidade e missão serei um dos Keynote Speakers do 18th European Congress of Psychology (https://ecp2023.eu/scientific-programme/keynote-speakers/).

Responsabilidade e missão, pela temática fundamental da intervenção versar a pobreza e ser, desta forma, focada, destacada e reflectida no congresso a partir da comunicação que intitulei de “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”] e que será moderada pela Claudia Hammond.

Responsabilidade e missão, também, porque permitirá apresentar um projecto que procura reunir um triângulo que creio virtuoso (ciência, prática, associação profissional), procurando um contributo mais assertivo e decisivo da psicologia, nas suas diversas áreas, públicos e contextos de intervenção, para o “combate à pobreza” e para a promoção da saúde, bem-estar e coesão social nesta “Era de Paradoxos”.

Responsabilidade e missão, ainda, porque reflicitirá uma visão para a profissão à escala nacional e global, enquanto ciência hub e prática transversal, capaz de positivamente influenciar outras ciências e práticas e, com elas, colaborar na prossecução da resposta a desafios societais de enorme complexidade, que necessitam de empenho e envolvimento conjunto do micro ao macro.

Responsabilidade e missão, finalmente, porque assentará numa visão do papel de uma associação pública profissional (Ordem dos Psicólogos Portugueses) activa e participativa, que procura estimular, suportar e afirmar o contributo das/os psicólogas/os para os que são os mais relevantes desafios do nosso país e Mundo, particularmente quando tão significativamente impactam a vida das pessoas. Quando condicionam (tão cruelmente), como a pobreza e a exclusão a ela associada o fazem, a dignidade, a saúde (incluindo a saúde mental), o bem-estar e a autodeterminação das pessoas, além da coesão social e prosperidade da sociedade e do Mundo.

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Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

“Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro.” Ainda assim, acompanho o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”.

“Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento”, 60º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como um dispositivo que “permite aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies”, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos”, pode ser disruptivo, transformar-se e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos e como se prestam serviços de Educação e Saúde.”

“Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, particularmente para quem vive/trabalha em locais mais remotos, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”.

Assistiremos, potencialmente, a mudanças na forma de “formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção.”

“Poderá, também, ter um positivo impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.”

Deve, portanto, “para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica” e concorrer para “mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.”

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Presidência da República

9 de Março de 2021. Marcelo Rebelo de Sousa toma posse para o segundo mandato enquanto Presidente da República. No seu discurso, perante um país há um ano em pandemia, refere ser uma das suas prioridades a reconstrução “da vida das pessoas”. Diz ser “tudo ou quase tudo – emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais do que recuperar.”

Ontem passou um mês sobre uma sua audiência a uma comitiva que integrei da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Nela abordamos esta “reconstrução maior que uma recuperação”. Sentimos interesse na profissão e nas/os profissionais, mas, também, o reconhecimento do seu rápido crescimento e impacto crescente. Falamos do seu papel e contributo e dos desafios da sua prática em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social, comunitária e do trabalho. Reflectimos sobre melhorias no acesso a serviços de psicólogas/os em diferentes áreas e por diversos tipos de prestadores e da participação dos profissionais em equipas multidisciplinares. Reforçamos a necessidade de aprofundar e acelerar este caminho, particularmente no SNS e na área social, junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Discutimos, ainda, a presidência portuguesa da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) e os seus temas em torno do contributo da psicologia nas questões da pobreza e exclusão social, temas também fundamentais do VI Congresso da OPP/XIII Congresso IberoAmericano de Psicologia que decorrerá em Lisboa (SET 2024) e que conta com o seu Alto Patrocínio (informações/inscrições: https://congresso.ordemdospsicologos.pt).

“Só haverá, porém, verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada”, dissera também na tomada de posse. Sabe o Sr. Presidente que o país pode contar, nestes e noutros desígnios, com o contributo das psicólogas e psicólogos e da sua associação pública profissional, tal como sabemos que o Sr. Presidente o reconhece e valoriza.

Simbolicamente, horas depois, receberíamos a proposta do Governo de revisão do Estatuto da OPP. Proposta que teve tanto de surpreendente como de inaceitável e que, a cumprir-se, representaria um retrocesso na protecção dos cidadãos, do interesse público e no acesso a serviços de psicologia de qualidade, pela desregulação da profissão e fim das suas especialidades profissionais.

Um conjunto de acções, a par da forte mobilização de psicólogas/os e não apenas, permitiram que se acordassem alterações que esperamos ver “formalmente” espelhadas na proposta final aprovada (e confirmada) em Conselho de Ministros, que muito em breve conheceremos. Resta, depois, trabalhar junto da Assembleia da República com o propósito último de podermos prosseguir o nosso papel e (importante) contributo enquanto profissão fundamental ao país e às pessoas.

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Habitação, crise, saúde e bem-estar

No início de 2023, uma sondagem do ICS/ISCTE para o Expresso, mostrava que 92% das e dos jovens entre os 18 e 35 anos concordava ou concordava totalmente que existe uma crise de habitação em Portugal. 9 em cada 10 jovens.

“Crise habitacional, baixos salários e o futuro incerto – Há problemas muito significativos na saúde mental dos jovens”, foi exactamente o destaque escolhido pela CNN Portugal para divulgar o seu trabalho sobre o tema e a sua relação com a saúde (incluindo a saúde mental) e bem-estar das pessoas. Trabalho que partiu de uma entrevista comigo, realizada pelo José Gabriel Quaresma no passado Sábado.

Nela foco questões associadas à “quebra” de importantes factores protectores da saúde mental (segurança, previsibilidade e controlo) decorrente da instabilidade e/ou precariedade habitacional e do stresse e ansiedade financeira de muitas pessoas e famílias. Foco as consequências, no presente e para o futuro, na saúde (física e mental) e bem-estar e o sofrimento psicológico associado a estas questões. Também, as desigualdades e iniquidades que resultam das diferentes condições habitacionais entre diferentes pessoas, agravadas pelo facto de no contexto da pandemia e pós-pandemia (por ex., com o aumento do teletrabalho) as pessoas passarem/trabalharem mais tempo nas suas cadas. Ainda, a forma como a instabilidade habitacional obstaculiza melhores adaptações a processos de transição, seja numa situação de um nascimento/crescimento da família, num divórcio ou noutras. Termino advogando por mais apoios a programas que facilitem o acesso a uma primeira habitação pela população mais jovem, que facilitem processos de transição e adaptação a diferentes circunstâncias de vida e de suporte à reparação e melhoria de condições das habitações.

Mas, a mesma sondagem indica que na restante população são cerca de 90% as pessoas que concordam (ou concordam totalmente) com a existência de uma crise de habitação, dados que apontam a uma generalização desta percepção/sentimento. “Crise na habitação provoca maior procura por psicólogos”, foi mesmo o destaque escolhido pelo Novo Semanário (Edição 20.05.23) e pelo Jornal Económico para publicarem a entrevista do João Santos Costa comigo sobre o mesmo tema e sobre a sua relação com outras “crises” como a demográfica, de fixação/vinculação de trabalhadoras/es, da solidão/isolamento ou da saúde mental da população mais jovem.

Nesse trabalho, afirmo que “estarmos a discutir [a Habitação] é algo muito importante”. Talvez termos estado porque, apesar de tão significativa preocupação com o tema e do seu forte impacto nas pessoas e na sociedade, o debate tem vindo a perder intensidade. Oxalá tal não suceda, também, com a acção e priorização desta área. E oxalá a ciência (e prática) psicológica e os seus contributos possam ser consideradas e suportar esta acção.

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A lã e a neve…

Ferreira de Castro viveu apenas dois meses após o 25 de Abril de 1974. A sua biografia informa, destacando, a sua participação no célebre primeiro 1º de Maio pós-25 de Abril e retenho-me nesse momento, quando o penso a partir do livro “A Lã e a Neve”, que publicou quase 30 anos antes desse dia e que, felizmente, foi recentemente reeditado pela Cavalo de Ferro.

“…Nos olhos do qual ele adivinhava, também, uma nuvem de tristeza.” Uma nuvem de tristeza, mas não apenas, percorre o livro que trata, ficcionada, mas não totalmente, a pobreza de Portugal no período próximo da II Guerra Mundial. Uma pobreza entre a Serra da Estrela (Manteigas, em particular) e a Covilhã. Uma pobreza a partir de um trabalho permanente, constante, entre a pastorícia, as casas, o campo e as fábricas, particularmente as tecelagens, da região. Uma pobreza que coarta a dignidade, que impacta a saúde e a saúde mental, que impossibilita uma ideia mínima de bem-estar, de (auto)cuidado. Uma pobreza que se reproduz, cíclica e socialmente, e que acompanha o desamparo de tudo e de todas as pessoas que, ao mínimo “abalo” ou acontecimento imprevisto, pessoal ou social, treme. Uma pobreza, nuvem de tristeza. Permanente.

80 anos depois, aquela região é bem diferente. O país, a Europa, o Mundo, são bem diferentes. Apesar disso, e com formas de expressão e dimensão (felizmente) distintas, a pobreza e os seus impactos permanece na vida de muitas pessoas e famílias. De demasiadas. Isso mesmo e os contributos da ciência e da prática de psicólogas e psicólogos na minimização dos seus impactos e no combate às diversas formas de pobreza, discutiremos ali bem perto, na Guarda, na próxima sexta-feira (25.5).

O VI Encontro Luso-Espanhol de Psicologia, organização conjunta entre a Ordem dos Psicólogos Portugueses e o Consejo General de la Psicología de España centrar-se-á em dois temas principais, preocupações sociais significativas: a deficiência e a pobreza. Na área da pobreza, além de uma “Oficina Transformadora” a cargo do Alexandre Teixeira com a experiência do projecto “Cais Recicla”, terá uma mesa por mim moderada com a Isabel Soares (referência importantíssima no trabalho no nosso país nestas áreas e pessoa e profissional que muito admiro) e a Laura Vallejo Slocker e o Pedro Rafael Altungy Labrador, importantes referências do trabalho nestas dimensões em Espanha. Mais informações e inscrições, aqui.

Jorge Amado disse sobre Ferreira de Castro que “com a arma da literatura ajudou a transformar o Mundo (…) [Foi] coveiro de um Mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um Mundo novo, de um tempo alegre e livre”.  Que este Encontro e que os debates que dele decorram seja (mais) um contributo e, particularmente, estímulo a que com a “arma da psicologia” ajudemos “a transformar o Mundo”, pela possibilidade de um “tempo alegre e livre”, para todas e para todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

“Novo máximo histórico”. Há 10 anos, o INE publicava dados do (des)emprego no final do 1º trimestre de 2013 destacando o aumento para 17,7% da taxa de desemprego, 42,1% nas e nos jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. “Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (2007-2016) que não se alterou no desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica.”

“O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar”, 57º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância do emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa considerando que garantem: “uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; propósito e significado; e uma importante interacção e conexão social.” Trata, ainda, como “a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.”

“A quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.”

“Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas (…) Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade e combate à precariedade (…) À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego (…) Ainda de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas de emprego.”

“Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.”

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Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia (Ao redor…; 03.04.2023)

Estávamos sensivelmente a meio de Fevereiro e um texto de Miguel Esteves Cardoso terminava com um “É um princípio. É uma sensatez. É uma saúde.” O artigo tratava as questões da habitação e, independentemente do expresso no texto, ouso usar deste final porque, efectivamente…

É um princípio. Considerando que o acesso à habitação é, hoje, uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, da população mais jovem à menos jovem e não apenas das pessoas e famílias com menores rendimentos. Considerando, também, a relação da crise na habitação com outros importantes desafios do país, que vão desde a crise demográfica e de natalidade à dificuldade de colocação de diferentes profissionais ou fixação de populações em algumas cidades, das migrações à saúde mental, do ensino superior aos problemas da solidão e do isolamento. É um princípio, fundamental, ampliarmos a relevância do tema na sociedade e mobilizarmos participação cívica e contributos da sociedade civil e compromissos de decisores sobre as dificuldades e desafios nesta matéria.

É uma sensatez. Se passamos 80 a 90% dos nossos dias (e, portanto, da nossa vida) em ambientes construídos, maioritariamente na nossa habitação. Se as pessoas em situação de maior vulnerabilidade passam uma percentagem ainda mais significativa do seu tempo nestes ambientes e se, alterações recentes nos modelos de trabalho, com a maior generalização de modelos de teletrabalho ou híbridos, poderão ainda aumentar estas percentagens de tempo. Se a habitação (e as suas condições) é, na maioria dos índices, um dos factores principais na análise do bem-estar das pessoas e dos países e se o sentimento de pertença, a privacidade, a segurança e identidade e mesmo o suporte social são essenciais à nossa qualidade de vida. Se as dificuldades no acesso à habitação fazem com que sejamos um dos países da Europa onde a população mais jovem mais tarde sai de casa, onde existem significativos tempos de percurso médio casa-trabalho e trabalho-casa. Se existe um número significativo de pessoas em situação de sem abrigo, de casas com más condições de habitabilidade e de pessoas em situação de instabilidade / precariedade habitacional. Se muitas pessoas vivem com pessoas desconhecidas ou com quem preferiram não viver (por exemplo, depois de terminadas relações ou mesmo uniões de facto ou casamentos), é uma sensatez debatermos o assunto na sociedade e, particularmente, encontrar e co-construir soluções eficazes para os problemas e desafios que se nos colocam.

É uma saúde. Quando sabemos da cada vez mais significativa evidência existente, que as más condições habitacionais aumentam consideravelmente a probabilidade de mortalidade precoce a níveis próximos de doenças como a hipertensão ou a obesidade e que, muitas vezes, estas habitações se encontram em zonas ou bairros com condições precárias, às quais se associam questões como a poluição, carências de infraestruturas e acesso, maior exposição a frio e calor e até a stresse e outros mecanismos psicológicos associados a sentimentos de marginalização ou insegurança. Quando sabemos que “proprietárias/os” de habitações têm maior sensação de controlo, previsibilidade e segurança, essenciais à saúde mental e bem-estar, face a arrendatárias/os e, particularmente, a quem sofre de instabilidade habitacional. Quando sabemos que a precariedade habitacional, com a pressão dos valores das rendas, ausência de controlo e impossibilidade de personalização da casa-lar, estão relacionados com problemas de stresse, ansiedade e depressão. Quanto a habitação periga a adaptação adequada e protectora a transformações de vida, quer seja a chegada de um/a filho/a, quer seja um divórcio ou a perda de mobilidade/autonomia e, quando a tudo isto, se somam o estigma social e o aumento de conflitos potenciais por ausência de privacidade em algumas casas ou de maior dificuldade de conciliação da vida pessoal e profissional, é uma saúde pensarmos em mais e melhores políticas que possibilitem mais e melhores condições de habitação para todas as pessoas, especialmente aquelas que estão em situação de vulnerabilidade ou em momentos mais sensíveis das suas vidas.

Por tudo isto é tão relevante que o debate que decorre na sociedade seja, antes de mais, mais cientificamente informado, incluindo pela ciência psicológica, e que proporcione mais insight e literacia nas áreas da saúde e financeira à sociedade civil, além de informação e agência em torno destes temas, da complexidade dos mesmos e do facto de impactarem todas as pessoas e a sociedade como um todo. Depois, que se reforcem e complementem outros programas existentes de recuperação e reparação do edificado, minimizando os diversos constrangimentos que hoje impactam a saúde e que se criem condições para, mais contingentemente, apoiar pessoas e famílias, particularmente também quando em processos de transição. Ainda que visem a criação de condições, e também se necessário de apoios mais substanciais e sustentados, ao acesso à “habitação inicial” para a população mais jovem e um estímulo a mais soluções que se adaptem a novas necessidades de maior alteração, mobilidade e migração (incluindo interna), nomeadamente de co-living (viver “conjuntamente”) e co-working (trabalhar “conjuntamente”). Ainda que, se associem medidas na área da habitação à promoção de competências transversais nas pessoas e, quando necessário, de suporte emocional e apoio psicológico, permitindo maior resiliência em períodos de maior incerteza e instabilidade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, “é um princípio, é uma sensatez, é uma saúde” discutir como podemos ter mais, melhor, mais acessível, previsível e segura habitação. Desenhar um bom plano e concretizar medidas eficazes nesse sentido proporcionará mais saúde, quer física, quer reforçará um importante factor protector da saúde mental. Proporcionará, logo, mais possibilidade de bem-estar e qualidade de vida. Proporcionará, finalmente, e pela intersecção de desafios diversos da sociedade portuguesa com o problema e a crise da habitação, mais confiança na democracia, porquanto será o Estado e a sociedade a responder às principais dificuldades e preocupações da população. Investir na habitação é mais que investir no edificado. É e será investir nas pessoas e nas famílias, no nosso Serviço Nacional de Saúde, na nossa Segurança Social, na nossa Economia. É e será investir na equidade, na coesão social, na Democracia e, portanto, no nosso futuro.

 

Tiago Pereira

Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia

in Sábado (Ao redor…); 03.04.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/habitacao-saude-e-bem-estar-e-democracia

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

O Psicólogo Responde – Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental? (CNN Portugal; 05.03.2023)

Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros

e a saúde mental?

Sim, existe e devemos ser totalmente claros na resposta a esta importante pergunta. Viver em situação de pobreza e de exclusão, tantas vezes a ela associada, é um dos principais determinantes de doença, incluindo doenças mentais. Nesse sentido, a vulnerabilidade económica provoca stresse e sofrimento psicológico e afecta a saúde mental e o bem-estar.

Esta associação, que intuímos nas nossas relações e no nosso dia-a-dia, está hoje amplamente documentada por investigação que, inclusivamente, estuda impactos ao longo da vida e não apenas no presente. É por isso possível afirmar que o bem-estar financeiro, ou seja, a percepção de que temos condições materiais para satisfazer as principais necessidades e cumprir as principais aspirações, é um importantíssimo indicador de bem-estar. Já a sua ausência associa-se a problemas de saúde mental como a ansiedade, a depressão, o stresse, o uso abusivo de substâncias, problemas de sono e alimentares ou o isolamento.

Ter baixos recursos financeiros está também ligado a níveis menores de literacia em saúde mental. Resulta, também, em maior dificuldade em ter tempos de descanso, actividade física ou de lazer e, portanto, em menos oportunidades de autocuidado. Quem vive com dificuldades económicas tende a ter maior impulsividade, mais dificuldade em planear o futuro e a cometer mais erros, porque da escassez de recursos resulta um efeito túnel (concentração quase exclusiva numa necessidade premente que pode ser, por exemplo, o pagamento de uma conta, de uma dívida ou de uma renda) e, logo, menor disponibilidade emocional e cognitiva para a tomada de decisões e para a gestão do dia-a-dia.

Não se podendo dizer que viver em situação de vulnerabilidade económica resulta automaticamente no desenvolvimento de doença mental, importa ter presente que esta condição é um factor de risco. Como é, até, um dos factores de risco de suicídio.

Importa, porém, sublinhar que esta relação não é unidireccional, antes bidireccional. Ou seja, conforme a vulnerabilidade económica pode potenciar problemas de saúde mental, também problemas de saúde mental, como o stresse, a ansiedade ou a depressão, podem conduzir a uma maior probabilidade de se viverem situações de precariedade, desemprego ou pobreza. Nesse sentido, devemos ter presente a existência de uma relação cíclica entre estas duas dimensões de vida das pessoas. Quando uma piora a probabilidade da outra piorar aumenta.

Imaginemos uma corrida com outra pessoa e com diferentes séries em que se chegarmos em primeiro, partimos 100 metros mais à frente e se chegarmos em segundo 100 metros mais atrás. Imaginemos ainda alguém que parte atrás e perde a primeira série. Na série seguinte parte ainda mais atrás e a probabilidade de perder aumenta, aumentando também a possibilidade de na série a seguir partir ainda mais atrás e de voltar a perder. É um pouco assim com este ciclo dado que é ainda mais difícil a quem vive com vulnerabilidades económicas recuperar de um problema de saúde mental e a quem vive com problemas de saúde mental sair de uma situação de vulnerabilidade económica.

É por tudo isto que investir na promoção da saúde e da saúde mental também é garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão.

Sugestões:

Se vive em situação de pobreza ou de exclusão recuse, activamente, sentir-se (ou que o façam sentir) culpado por essa circunstância. A pobreza não resulta, na grande maioria das situações, de erros ou falhas pessoais, mas de circunstâncias sociais que a determinam.

Partilhe as suas preocupações e sentimentos. Partilhar as nossas preocupações com alguém em quem confiemos, incluindo as financeiras, pode fazer-nos sentir menos sós, mais apoiados e, até, ajudar-nos a encontrar novas estratégias e formas de resolução de problemas ou a lidar melhor com as nossas preocupações e sentimentos.

A pobreza, colocando em perigo maioritariamente a saúde e bem-estar das pessoas que a vivem, afecta todas pessoas, venham ou não a viver nessa condição, pelo que o seu combate deve ser abraçado por todas as pessoas.

Se estiver numa situação em que sente que necessita de apoio psicológico solicite-o junto do centro de saúde ou da unidade de saúde mais próxima de si. Pode, também, em situação de crise, contactar o serviço de aconselhamento psicológica do SNS24 (808 24 24 24) a qualquer hora e em qualquer dia da semana (chamada gratuita) e em situação de emergência o INEM (112).

 

Tiago Pereira

O Psicólogo Responde – Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental?

CNN Portugal; 05.03.2023

https://cnnportugal.iol.pt/dossier/o-psicologo-responde-existe-uma-relacao-entre-ter-baixos-recursos-financeiros-e-a-saude-mental/64009f010cf2cf9224fb8645