Ferreira de Castro viveu apenas dois meses após o 25 de Abril de 1974. A sua biografia informa, destacando, a sua participação no célebre primeiro 1º de Maio pós-25 de Abril e retenho-me nesse momento, quando o penso a partir do livro “A Lã e a Neve”, que publicou quase 30 anos antes desse dia e que, felizmente, foi recentemente reeditado pela Cavalo de Ferro.
“…Nos olhos do qual ele adivinhava, também, uma nuvem de tristeza.” Uma nuvem de tristeza, mas não apenas, percorre o livro que trata, ficcionada, mas não totalmente, a pobreza de Portugal no período próximo da II Guerra Mundial. Uma pobreza entre a Serra da Estrela (Manteigas, em particular) e a Covilhã. Uma pobreza a partir de um trabalho permanente, constante, entre a pastorícia, as casas, o campo e as fábricas, particularmente as tecelagens, da região. Uma pobreza que coarta a dignidade, que impacta a saúde e a saúde mental, que impossibilita uma ideia mínima de bem-estar, de (auto)cuidado. Uma pobreza que se reproduz, cíclica e socialmente, e que acompanha o desamparo de tudo e de todas as pessoas que, ao mínimo “abalo” ou acontecimento imprevisto, pessoal ou social, treme. Uma pobreza, nuvem de tristeza. Permanente.
80 anos depois, aquela região é bem diferente. O país, a Europa, o Mundo, são bem diferentes. Apesar disso, e com formas de expressão e dimensão (felizmente) distintas, a pobreza e os seus impactos permanece na vida de muitas pessoas e famílias. De demasiadas. Isso mesmo e os contributos da ciência e da prática de psicólogas e psicólogos na minimização dos seus impactos e no combate às diversas formas de pobreza, discutiremos ali bem perto, na Guarda, na próxima sexta-feira (25.5).
O VI Encontro Luso-Espanhol de Psicologia, organização conjunta entre a Ordem dos Psicólogos Portugueses e o Consejo General de la Psicología de España centrar-se-á em dois temas principais, preocupações sociais significativas: a deficiência e a pobreza. Na área da pobreza, além de uma “Oficina Transformadora” a cargo do Alexandre Teixeira com a experiência do projecto “Cais Recicla”, terá uma mesa por mim moderada com a Isabel Soares (referência importantíssima no trabalho no nosso país nestas áreas e pessoa e profissional que muito admiro) e a Laura Vallejo Slocker e o Pedro Rafael Altungy Labrador, importantes referências do trabalho nestas dimensões em Espanha. Mais informações e inscrições, aqui.
Jorge Amado disse sobre Ferreira de Castro que “com a arma da literatura ajudou a transformar o Mundo (…) [Foi] coveiro de um Mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um Mundo novo, de um tempo alegre e livre”. Que este Encontro e que os debates que dele decorram seja (mais) um contributo e, particularmente, estímulo a que com a “arma da psicologia” ajudemos “a transformar o Mundo”, pela possibilidade de um “tempo alegre e livre”, para todas e para todos.