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o medo persistente de que o declínio seja inevitável…

Temos de nos mobilizar contra o “medo persistente de que o declínio seja inevitável e da próxima geração ter que diminuir as suas aspirações”. Assim o disse Obama, no seu discurso de tomada de posse para o seu primeiro mandato, em Janeiro de 2009.

Era, apesar de tudo, um Mundo diferente do de hoje. Mas este receio pairava nos EUA. Pairava numa parte significativa do Mundo. Receio que, ao invés de haver diminuído, provavelmente se agudizou com os desafios que se colocaram aos países e ao Mundo no período que dista daquele discurso a hoje, mais particularmente nesta terceira década deste nosso século XXI.

Por cá estávamos entre a publicação da Lei que criara a Ordem dos Psicólogos Portugueses em 4 de Setembro de 2008 e a nomeação da sua comissão instaladora que aconteceria, apenas, em Abril de 2009. Com ela, e com o contributo de tantas e tantos psicólogos, houve também a afirmação (e um reconhecimento e valorização) da psicologia, enquanto ciência e prática fundamental no apoio às pessoas, particularmente em situações de maior vulnerabilidade e/ou sofrimento e enquanto ciência e conhecimento fundamental ao desenho de políticas (públicas) e ao contributo para transformações sociais fundamentais à possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação. Fundamentais à equidade e coesão social.

Este relevante caminho, e a perspectiva de que se possa continuar e aprofundar, motiva-me e, mesmo perante desafios significativos na sociedade, anima-me no presente e para o futuro. Como me anima o compromisso da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) com este propósito, expresso, por exemplo, em duas iniciativas para as quais dei um singelo contributo há meses e há dias:

a) A “Call to Action – Students Building Community Psychology”, que advoga por mais sensibilização e formação das e dos estudantes de psicologia na Europa na área da Psicologia Social e Comunitária e para contributos da psicologia nos principais desafios societais | http://efpsa.org/wp-content/uploads/2022/08/Call_to_Action_Paper_EFPSA.pdf

b) O seu 37º Congresso cujo tema “Information is transformation: Unravelling Psychology’s role in policy-making” [Informação é transformação: Desvendando o papel da psicologia no desenho de políticas (públicas)], onde os contributos da psicologia na área da pobreza e da exclusão foram discutidos e onde tive oportunidade de voltar a estar e discutir com o inspirador Eldar Shafir.

Temos de nos mobilizar contra o “medo persistente de que o declínio seja inevitável… Disse-o Obama, há 14 anos. Dizemo-lo hoje, juntos.

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13 anos… E muito (mas nem tudo) mudou…

Passam hoje 13 anos que a perdemos. Que a perdi.

Com ela fui, em 2004, a primeira vez aos Açores. Visitamos três das nove ilhas do arquipélago e viajamos por cada recanto da ilha de S. Miguel. De Ponta Delgada ao Nordeste e às Sete Cidades… Das Furnas, a Mosteiros e a Rabo de Peixe. Nos já quase 19 anos que passam desse momento, voltei algumas vezes aos Açores e a S. Miguel. Todas já sem ela, na minha vida. Não apenas mas também por isso, diferente e com outra visão e reflexão sobre o meu “ao redor”. Consciente de que muito mudou nestes anos, mas de que muitos desafios se mantêm, incluindo os fenómenos associados à iniquidade de oportunidades, de exclusão, da vivência em situação de pobreza e da reprodução, geracional, da mesma.

No final da passada semana voltei aos Açores e a S. Miguel. Voltei para (mais) uma sessão de recolha de contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e, ainda, para um debate. Debate que, a propósito da comemoração do Dia Mundial da Justiça Social, juntou a Ordem dos Psicólogos Portugueses (eu e o Marco Santos, presidente da nossa Delegação Regional dos Açores), aos colegas Hélder Fernandes e Pedro Gomes, da Associação Novo Dia e da Associação para Públicos Jovens, e, ainda, às colegas Cristina Canto Tavares, Vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada e Tânia Moreira da Fonseca, Vogal do Conselho Diretivo do Instituto de Segurança Social dos Açores.

“Se me dissessem há 20 anos que aqui estaria hoje, entre psicólogas e psicólogos, a discutir o nosso contributo para os desafios da pobreza não acreditaria”, diria um colega já perto do final da sessão. Penso o mesmo… Há 20, há 19 quando fui a primeira vez aos Açores, e, até, há muito menos anos. E que importante é conversar-se sobre este tema.

Além da importante reflexão, já por si significativa, a sessão permitiu a comunicação do tema a partir dos contributos da ciência e prática psicológica para a sociedade (por exemplo com a reportagem da RTP Açores), além do pedido e do compromisso para um contributo da OPP para a “Estratégia Local Integrada de Combate à Pobreza e Exclusão Social” de Ponta Delgada, conforme aqui noticiado.

Passo a passo, momento a momento, caminhamos para um maior contributo da psicologia no combate à pobreza e à exclusão. Passo a passo, momento a momento, procuramos afirmar que este caminho é, necessariamente, ligado também à saúde mental e, logo, à necessidade de reforço das psicólogas e psicólogos nos diversos serviços públicos, quer seja nas dimensões de prevenção e promoção, quer seja na intervenção junto das pessoas com problemas na área da saúde mental, e à necessidade de maior envolvimento da ciência psicológica no desenho de estratégias/políticas nesta área.

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Natália…

Indomável, imprevisível, ousada. Assim foi Natália Correia, figura ímpar da literatura e do século XX português, que perdemos fará no próximo mês 30 anos e cujo centenário do seu nascimento se assinalará em Setembro.

Recordo-me do um Polígrafo feito a seu respeito. Verificava se seriam verdadeiras (e confirmava serem) umas frases a si atribuídas datadas do ano do seu desaparecimento: “As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis… Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo (…) O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de abril, o Estado social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas (…) Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e comida. A esperança média de vida cairá. Espoliada a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres.”

Algumas pessoas olha(ra)m para estas palavras como premonitórias. Fernando Dacosta, que as confirma, refere que Natália sofria ao ver o Mundo “da cultura, dignidade, liberdade, criatividade e afetuosidade ruir”, conforme entendia. Ruína para si muito decorrente da desigualdade e da abundância de situações de pobreza e exclusão. Condicionantes que entendia fundamentais e que privavam pessoas da dignidade e da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Continuo, por estes dias, em iniciativas que cruzam os contributos da ciência e da prática da psicologia com o enorme desafio societal que representam os fenómenos da pobreza e da exclusão. Há uma semana, na ilha da Madeira, discuti a temática com colegas, recolhi contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e procurei via comunicação social um contributo para a mediatização e discussão no espaço público do tema e, mais particularmente, da pobreza infantil, conforme partilho exemplo: https://www.rtp.pt/madeira/sociedade/acompanhamento-psicolgico-desde-a-infncia-uma-forma-de-reduzir-impacto-da-pobreza-udio_111756

Já amanhã, volto a recolher contributos para o projecto, agora em S. Miguel (Açores), sessão que decorrerá exactamente no Centro Cultural Natália Correia e que, numa parceria entre e @Ordem dos Psicólogos Portugueses e a @Câmara Municipal de Ponta Delgada, terá posteriormente um debate sob o tema “A Intervenção Psicológica no combate à pobreza e na promoção da equidade social”, que assinalará o Dia Mundial da Justiça Social celebrado a 20 de Fevereiro (informações e inscrições aqui: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/4483).

Porque, conforme Natália, precisamos ousar… Na literatura. Na crítica (social). No combate à pobreza e à exclusão, com maior contributo das psicólogas e psicólogos e fazendo dele desígnio de todas as pessoas nos Açores, no país e no Mundo.

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Ice Merchants e o nosso Mundo…

Uma imagem bonita, feita como que de esquissos. Pensada com sentido e significado. Desenhada com uma estética com eles compatível e, particularmente, impactante. Abaixo da varanda da casa da montanha, um baloiço baloiça com um menino nele sentado. Quem viu o trailer (ou toda a curta), que nos enche de orgulho pela recente nomeação para os Óscares, sabe que falo do filme de João Gonzalez, “Ice Merchants”. Quem não viu, convido a olhar a imagem abaixo…

O baloiço daquela imagem, signo de um resquício de infância, de diversão, de liberdade, lembra-me os “baloiços”, como chamava e chamávamos ao único parque infantil da aldeia onde cresci. Nele existiam dois como aquele junto com outros equipamentos e ali brinquei e joguei primeiro, me encontrei, conversei e me escondi depois. Ali, mais tarde, ouvi música, li. Entre os outros equipamentos havia um velhinho (parece que sempre foi velhinho) escorrega metálico que, não sendo exactamente idêntico, me lembra o da imagem que também partilho abaixo e que…

Nos parecia, invariavelmente, que à descida, mais rápida inicialmente, correspondia um abrandamento no final, por vezes “como se levantássemos” antes de chegar ao chão. Mas sempre, sempre, a caminho do chão. Penso-o exactamente assim a propósito do caminho que se vem realizando na erradicação da pobreza extrema no Mundo onde, à descida consistente (mesmo que não tão rápida e em todos os lugares como gostaríamos) de 80 para 8% da população, correspondeu um aumento em 2020. Um aumento que sinaliza o caminho ainda a percorrer até ao chão e, particularmente, alerta para que apenas com envolvimento, compromisso e com a conjugação de vontades e saberes (científicos) se combate a pobreza extrema e a pobreza e exclusão no geral.

Na @Ordem dos Psicólogos Portugueses continuamos a fase de visitas a instituições e projectos com contributos nas áreas da pobreza e exclusão e com sessões de discussão da temática e recolha de contributos para a estratégia https://finalapobreza.pt junto de psicólogas e psicólogos. Na passada semana, em Évora, conforme também o Diário do Sul (abaixo) reportou. Hoje no Funchal (informações e inscrições aqui) no âmbito de uns Trilhos da Psicologia e no próximo dia 23.2 em S. Miguel (informações e inscrições aqui), no âmbito de um evento nesta área.

O “Ice Merchants”, porque pensado com sentido e significado, permite múltiplas reflexões. Do isolamento à família, das relações ao trabalho e sua relevância, das rotinas, do quotidiano, do binómio pobreza–riqueza, além da dimensão (importantíssima para as pessoas em situação de pobreza) monetária. Muitas, mais uma outra, a ausência de um elemento, sempre presente, porém. Uma não completude, um não preenchimento que, mais ou vez, qual escorrega, me lembra quem vive em situação de pobreza e de exclusão e o nosso dever de colocar a nossa ciência e a nossa prática mais e mais ao serviço do seu fim.

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Policrise.

Policrise. Ouvimos a expressão amiúde a propósito da pandemia por COVID-19. Foi agora amplamente referida no “Global Risks Report 2023” do World Economic Forum.

Nele, além da ideia fundamental de que “crises presentes profundamente interconectadas e a menor resiliência aumentam o risco de uma policrise de riscos ambientais, geopolíticos e socioeconómicos relacionada com a procura de recursos naturais”, trata-se a percepção dos principais riscos do Mundo a 2 e 10 anos. E, se a 10 anos os principais surgem associados à crise climática (o primeiro é a “incapacidade de mitigação das alterações climáticas”), a 2 anos o primeiro é a “crise do custo de vida” e o quinto a “erosão da coesão social e polarização da sociedade”.

Se os pensarmos para Portugal, e olhando o último Eurobarómetro que aqui referi recentemente, encontramos percepções próximas. Um potencial de conjugação de crises que desafiam a sociedade, a equidade e a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas. Há dias, num excelente artigo no Público, Ricardo Arroja discutia-o com clarividência. Partindo de dados do INE que contrariam a ideia zombie (apesar de não factual, permanece no imaginário/debate público como verdadeira) de que as pessoas em situação de pobreza têm mais filhas/os, permitia pensarmos como o desafio da pobreza (e exclusão) no nosso país se relaciona com a crise demográfica, com as iniquidades na área da educação e formação e com o próprio desenvolvimento económico e social do país.

Isso e, a mim, a pensar num texto que li há algum tempo onde se dizia que, se uma planta estiver a murchar, não tendemos a assumir que o problema é da planta (apenas) e procuramos ajudá-la, também, alterando as condições a que está sujeita. A pensar nele e no quanto o creio fundamental nas pessoas, cuidando-se de analisar os determinantes sociais da saúde e bem-estar e de intervir não apenas na pessoa que “sofre” e “murcha” com eles, mas nos próprios determinantes.

Quem me vai lendo (e/ou ouvindo) sabe que é com esta visão e porque a pobreza é um dos (senão o) principais determinantes sociais, que estamos a preparar uma estratégia de (maior) contributo da psicologia para um “.Final à Pobreza”. Nos próximos dias promoverei sessões de discussão e recolha de contributos em Évora (07.02), Funchal (15.02), Ponta Delgada (23.02) e no Porto (11.04) (informações na área das Delegações Regionais respectivas do site da OPP).

Voltemos ao Fórum Económico Mundial que, também este ano, dedicou a conferência de Davos à cooperação num Mundo fragmentado. Pensar a ciência e a prática da psicologia, hoje, implica considerá-lo, de facto, e envolvermo-nos, desde logo, no combate à pobreza e exclusão… Pela dignidade e possibilidade de bem-estar das pessoas e por maior coesão e equidade, juntemo-nos.

Cooperemos.

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Sim, é possível. Sim, Portugal pode (in Sábado; Ao redor…; 25.01.2023)

Um, dois, três, quatro, cinco, (…) cinquenta. Este é 50º artigo deste “Ao redor…”. Se no primeiro aqui escrevi que “há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o”, neste procuro reflectir sobre como é possível e o que pode ser determinante na transformação social e como Portugal, em algumas áreas, a pode fazer. Se no primeiro aqui escrevi que “pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntos podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”, neste procuro que o pensemos face a uma situação específica, com impacto significativo em todas as pessoas e na sociedade – a pobreza.

Mas, primeiro, recuemos à segunda metade da década de 90. A toxicodependência e as suas múltiplas consequências eram fonte de problemas complexos nas pessoas e famílias, alarmavam cidades e inquietavam toda a sociedade portuguesa. No Eurobarómetro de 1997 a elevada taxa de consumo de drogas era a principal preocupação das portuguesas e portugueses, acima de questões como a habitação, o (des)emprego ou a pobreza. Tínhamos números dramáticos, dos piores, senão mesmo os piores, da Europa em infecções por VIH e uma parte significativa da criminalidade era associada ao fenómeno do tráfico e consumo de droga.

Cerca de 25 anos depois, a taxa de consumo de drogas, que decresceu consideravelmente, não é a principal, nem sequer das principais, preocupações da sociedade portuguesa. A criminalidade associada à droga baixou também e, quer o número global de infecções por VIH, quer particularmente o relativo às pessoas que usam drogas, diminuiu de forma significativa e em 2020 havíamos atingido e superado a meta 90-90-90 (pelo menos 90% das pessoas infetadas com VIH com diagnóstico; 90% das pessoas com diagnóstico em tratamento; e 90% das pessoas em tratamento com carga viral suprimida).

Esta transformação social, com forte impacto nas pessoas e sociedade, foi também possível a partir da Estratégia Nacional de Luta contra a Droga (1999) e do que dela adveio. Pela inovação e pelo sobressalto (até fora de Portugal), destacou-se o facto de se ter descriminalizado o consumo de todo o tipo de drogas (ainda que com limites), deixando de ser penalizado judicialmente para, enquanto problema de saúde pública, sê-lo administrativamente, promovendo o acesso ao tratamento, à ajuda e apoio especializado e à prevenção da toxicodependência. Mas foi fundamental ter sido assumido como desígnio nacional, ter sido definida e prosseguida uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, ter sido assumida a necessidade de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados.

Foi também fundamental a criação de uma estrutura de coordenação de toda a intervenção (na altura o Instituto da Droga e da Toxicodependência) e a coragem, a visão, o vigor e o pragmatismo de decisoras e decisores de criarem as condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais de saúde espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta a um problema sério de saúde pública. E se responderam! Sabem-no tantas e tantas famílias em Portugal. Sabe o Mundo que estuda o caso português. Sabemos ainda melhor hoje, a importância da conjugação dos factores acima porque, quando na década passada começaram a ser alteradas e fragilizadas algumas das condições anteriores, logo o modelo e os resultados o acusaram.

No início deste mês foram publicados dados relativos ao último Eurobarómetro. Ao contrário de 1997, as principais preocupações assinaladas pelos portugueses e portuguesas foram o aumento do custo de vida e a pobreza e exclusão social. Pobreza e exclusão, dois determinantes fundamentais da dignidade humana, da saúde e bem-estar, com forte impacto nas pessoas que experienciam estas situações e em toda a sociedade.

Também aqui, e como em 1999 para a luta contra droga, Portugal tem desde o final de 2021 uma Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Sobressaltemo-nos e inovemos. Pensemos a pobreza e a exclusão como problemas de saúde pública e não como problemas individuais, de “pessoas pobres”. Combatamos o estigma e processos de culpabilização e assumamos o combate à pobreza como verdadeiro desígnio nacional. Prossigamos uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, assumamos a necessidade de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados e com condições e segurança de trabalho.

Tal, considerando a realidade da intervenção social em Portugal (pouco especializada, pouco focada na ciência e no “what works” [no que funciona], muitas vezes de carácter voluntário ou, quando com profissionais, com baixos rendimentos médios, elevada precariedade e permamente mudança nas equipas), depende da coragem, visão, vigor e pragmatismo de decisoras e decisores. Do seu compromisso com a criação de condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta ao enorme desafio que a pobreza e exclusão constituem em Portugal.

Inspiremo-nos na luta contra a droga, para combatermos a pobreza. Aspiremos para a pobreza e exclusão os resultados e o sucesso na área a droga e toxicodependência. Mobilizemo-nos porque é possível. Mobilizando-nos, conseguiremos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é possível continuar a diminuir significativamente a pobreza e as diversas formas de exclusão. Sim, é possível. Sim, Portugal pode. Também motivados pela recuperação em 2021 do aumento da pobreza em Portugal em 2020 (o primeiro desde 2013), todos devemos mobilizarmo-nos, qual equipa de 10 milhões, para este combate. Pela dignidade e possibilidade de bem-estar de todas as pessoas. Por uma sociedade mais equitativa e de maior justiça social.

 

Tiago Pereira

Sim, é possível. Sim, Portugal pode

in Sábado (Ao redor…); 25.01.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sim-e-possivel-sim-portugal-pode

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Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

50 artigos “Ao redor…”

“Um, dois, três, quatro, cinco, (…) cinquenta.” 50 artigos do “Ao redor…” (link abaixo), rubrica que dinamizo na edição online da Sábado. “Há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o”, escrevi no 1º destes artigos (link abaixo). No 50º reflicto sobre como é possível e o que pode ser determinante na transformação social e como Portugal, em algumas áreas, a pode fazer. Ainda no 1º escrevi que “pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntos podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. No 50º procuro que o pensemos face a uma situação específica, com impacto significativo em todas as pessoas e na sociedade – a pobreza.

“Sim, é possível. Sim, Portugal pode”, 50º artigo da rubrica “Ao redor” (link abaixo) procura desafiar a olharmos o combate à pobreza e exclusão inspirando-nos no caminho que Portugal fez na área da toxicodependência com a implementação (com visão, compromisso e coragem) da “Estratégia Nacional de Luta contra a Droga (1999)”.

É que, também na pobreza, Portugal tem desde 2021 uma Estratégia Nacional e, seguindo este exemplo e os princípios que guiaram o sucesso, também nesta área podemos sobressaltar-nos e inovar. Pensar “a pobreza e a exclusão como problemas de saúde pública e não como problemas individuais, de “pessoas pobres”. Combater “o estigma e processos de culpabilização e assumirmos o combate à pobreza como verdadeiro desígnio nacional”. Prosseguir “uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, a criação de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados e com condições e segurança de trabalho.”

Dependendo tal – e “considerando a realidade da intervenção social em Portugal (pouco especializada, pouco focada na ciência e no “what works” [no que funciona], muitas vezes de carácter voluntário ou, quando com profissionais, com baixos rendimentos médios, elevada precariedade e permanente mudança nas equipas) – da coragem, visão, vigor e pragmatismo de decisoras/es. Do seu compromisso com a criação de condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta ao enorme desafio que a pobreza e exclusão constituem.”

“Mobilizemo-nos porque é possível. Mobilizando-nos, conseguiremos.”

…

Artigo 1 – Nós e os nossos Mundos

Artigo 50 – Sim, é possível. Sim, Portugal pode

Ao redor…

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Habitação e Saúde Mental

“Estamos separados, mas vivemos na mesma casa por falta de alternativas.” É esta a afirmação destacada pela TVI/CNN Portugal no anúncio de uma reportagem sua que, a partir da experiência de 4 pessoas, procura reflectir sobre os múltiplos impactos que as dificuldades e iniquidades no acesso à habitação provocam a pessoas, famílias e à sociedade.

Disse-o Joana Ferreira que, com um filho menor, a viver em Lisboa, vê aproximar-se a data de revisão do valor do seu arrendamento (pensa poder duplicar). Resta-lhe, nas suas palavras, “continuar a busca intensa por casa”, “arranjar uma forma de ter mais rendimentos, um segundo trabalho que não implique o tempo de qualidade com o filho” e ponderar “voltar para o Alentejo” onde “também já não é fácil encontrar uma casa.”

Insegurança, medo, angústia, ansiedade. Dificuldade de constituir família, de ter filhos, na integração. Ausência de perspectivas e a emigração como solução são constantes da reportagem.

Sabemos que alguma previsibilidade e controlo são elementos essenciais ao bem-estar. Sabemos quão importante é, no processo de autonomização, a possibilidade de termos um espaço que é mais que uma casa-edifício. Espaço onde investimos afectivamente, com o qual desenvolvemos sentimento de pertença e segurança e que nos apoia na construção de redes de relacionamento e suporte social, essenciais à saúde mental. Isto procurei dizer na reportagem. Isto e quanto o corte com este vínculo e o processo de desenraizamento (particularmente em pessoas que viveram muitos anos no mesmo lugar), pode perigar estas dimensões e logo a saúde mental.

Na conversa com a Helena Lins reflecti, ainda, sobre o peso que a habitação tem em questões associadas ao stresse, ao potencial de desenvolvimento e/ou aprofundamento de doença mental, mas, também, em importantes desafios da sociedade portuguesa como a crise demográfica, o desenvolvimento económico ou as questões da solidão e isolamento.

“Tenho 28 anos, faço o que gosto, sou especialista na minha área [farmacêutica hospitalar] e não consigo sozinha sair de casa [dos pais]” | “Tenho 43 anos e voltei a viver em casa dos meus pais porque, neste momento, é impossível pagar uma renda [sozinho]” | “Estou à espera de um milagre”.

Problema hoje e em Portugal, transversal. Não apenas resumido (ainda que particularmente impactante) aos grupos populacionais mais vulneráveis ou às camadas mais jovens ou de menores rendimentos da população. Não o esqueçamos. E não esqueçamos que, apesar de não ser apenas em Portugal que têm crescido os custos com a habitação, em Portugal cresceram muito mais que a média europeia.

Um (outro) importantíssimo desafio do país, com consequências muito significativas na sociedade e na saúde e bem-estar das pessoas e famílias.

Reportagem aqui.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas” (Sábado; Ao redor…; 11.01.2023)

A semana começou com incríveis imagens do Brasil. Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.

“Afirmações extraordinárias necessitam de evidências extraordinárias”. Popularizada por Carl Sagan, esta expressão ajuda-nos a reflectir a improbabilidade de um pretenso fim da história, particularmente quando a ciência, a tecnologia e o que se passa ao nosso redor criam constantemente diferentes cenários e alterações à realidade vigente. Ciência esta proveniente de disciplinas que contribuem para a resolução de problemas de elevada complexidade, cada vez mais diluída entre diferentes áreas e com maior reconhecimento de uma parte da sociedade civil e de decisoras e decisores. Uma parte.

É assim com a psicologia com a particularidade de, simultaneamente, contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras. A este propósito, reflictamos sobre três exemplos de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora.

“Uma palmada não faz mal a ninguém.” Uma das grandes mudanças societais das últimas décadas resulta da condenação ampla e quase generalizada das várias formas de violência sobre as crianças. Porém, persiste em algumas franjas da população, a perspectiva de que uma “palmada” não provoca qualquer dano, mantendo-se estas práticas enraizadas em diversos países conforme, por exemplo, a UNICEF vem estudando e sublinhando. Nada mais errado. Além da inutilidade e da ineficácia desta acção no sentido da promoção da mudança comportamental (ao não contribuir para a interiorização e inscrição das regras), existem perigos significativos que resultam da utilização da punição física ou de castigos corporais ao invés de acções de disciplina e parentalidade seguras ou positivas. Efeitos negativos que incluem o perigo do aumento, escalada e banalização da agressividade, violência e dos comportamentos anti-sociais, a não aprendizagem do comportamento esperado e a legitimação da violência de grupos sobre outros. Ainda, dificuldades de aprendizagem, auto-regulação e de desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais (no presente e futuro), além de consequências no bem-estar, segurança (também afectiva) e saúde, incluindo saúde mental.

“As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”. Passa este mês dez anos sobre a publicação, por um hoje deputado à Assembleia da República, do livro “O colonialismo nunca existiu!”. Alguém que assim o defende, junto com colegas de partido que negam também a existência de racismo estrutural em Portugal, desconsiderando factos concretos e estudos de opinião ou barómetros, incluindo os da União Europeia e legitimando, politicamente, esta negação e as suas consequências. As palavras contam. Contam muito. Contavam no final do século XIX, quando se descreveu a drapetomania, uma suposta doença mental responsável, imagine-se, pelo facto de algumas e alguns escravos procurarem fugir da sua condição, algo que, segundo Cartwright, apenas poderia suceder com pessoas em escravidão não saudáveis. Contavam no século XX onde me e nos pediam que pintássemos com “lápis cor de pele”. Contam hoje, na terceira década do século XXI, onde se procuram utilizar expressões como a “ideologia de género” para desconsiderar, denegrir ou ilegitimar condições, pretensões ou direitos de pessoas. Há hoje ampla investigação que demonstra que e como as palavras e expressões podem reforçar e perpetuar cognições ou crenças que influenciam as nossas tomadas de decisões, formação de opiniões e comportamentos. O racismo estrutural existe, em Portugal e no Mundo. Dificilmente esquecerei um estudo que demonstra como nos EUA ser “branco” parece proteger mais da violência policial do que ser um/a menor. Este como outros estudos, em diferentes áreas e países, tornam clara a sua existência, as suas consequências sociais e o seu impacto em dimensões de saúde e bem-estar. Tornam claro como funciona como factor de risco/vulnerabilidade e, potencialmente, de exclusão de pessoas e grupos.

“Os seres humanos são animais racionais”. Desde há quase 2400 anos e de Aristóteles que esta expressão é parte do nosso imaginário. No entanto, a ciência tem demonstrado as suas insuficiências, porquanto é hoje claro que a nossa racionalidade é tendencialmente guiada pelas nossas motivações e emoções e limitada pelos nossos pontos de vista, opiniões e vieses. Ainda que a racionalidade seja fundamental, até porque podemos sempre raciocinar sobre a própria irracionalidade, devemos ter presente que somos “animais racionais não a tempo inteiro”. Que temos falências, vieses. Que cometemos erros e que existem individualmente ou em grupo, momentos e movimentos onde a racionalidade é condicionada por pensamentos, emoções ou influências sociais ou de grupo que condicionam, senão determinam, as nossas tomadas de decisão e comportamentos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a história não tem fim. Mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis. Como a história, a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas, contribuindo para compreendermos o porquê de assim ser, como enquanto seres humanos nos comportamos e tomamos decisões e que é fundamental combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração. Contribuindo, simultaneamente, para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.

 

Tiago Pereira

Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2023

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Dia Martin Luther King Jr.

Esta segunda-feira cumpriu-se mais um dia Martin Luhter King Jr. Comemorado na 2ªF que corresponde ou se segue ao dia 15 de Janeiro (dia do seu nascimento), assinala o legado da histórica figura dos EUA e do Mundo. A “América é uma nação mais democrática, justa e pacifica” por sua causa; MLK foi o nosso mais importante “comandante não-violento”, diria R. Reagan quando assinou uma Lei, no ano em que eu nasceria, formalizando o dia como feriado nacional.

Martin Luther King e o seu legado estimula ao envolvimento e mobilização não violenta pela eliminação de todas as formas de discriminação e combate à desigualdade, fenómenos sociais com profundo impacto na possibilidade de bem-estar de pessoas, comunidades e sociedades.

Pese embora o caminho que foi percorrido nesse sentido, maioritariamente em alguns países e não sem revés possível, olhemos dois exemplos, significativamente distintos, do caminho ainda por percorrer:

  1. Também ontem a Oxfam publicou, a propósito do inicio da cimeira de Davos, o relatório “Survival of the Richest – How we must tax the super-rich now to fight inequality [Sobrevivência dos mais ricos – Como temos que taxar hoje os super-ricos para combater as iniquidades]”. Relatório que assinala o facto de, pela primeira vez em 25 anos, a pobreza extrema no Mundo ter aumentando. Isto, no mesmo momento em dois terços da riqueza mundial gerada desde 2020 ficou com apenas 1% da população mundial, a mesma percentagem de pessoas que na última década “arrecadou” metade de toda a riqueza mundial.
  2. Nas últimas duas semanas a Bárbara Reis escreveu sobre o “gender pain gap [viés da dor]”, uma de um conjunto de barreiras que se colocam ao acesso a cuidados de saúde de qualidade pelas Mulheres. Basicamente, existe hoje evidência que confirma que as Mulheres estão mais expostas a situações onde a sua dor e/ou preocupações com a sua saúde são desconsideradas, com consequências diversas como incorretos diagnósticos, terapêuticas ou tratamentos. Escreveu sobre isso. Escreveu sobre a negação que algumas pessoas fazem disso. A mim estimulou-me a reflectir como esta conjugação reforça e duplamente penaliza quem mais sofre com o viés – as Mulheres.

“Não perdi a esperança. Devo confessar que estes dias têm sido difíceis para mim, pessoalmente. E que estes dias têm sido difíceis para cada líder dos direitos civis, da justiça e da paz.” Assim terminou o discurso de MLK aquando da Convenção da American Psychological Association de 1967, após um Verão de incidentes graves nos EUA. Advogou por Direitos Humanos, igualdade, justiça social, Paz e pelo contributo da ciência (psicológica) para tal. Discurso quando, em Portugal, Américo Tomás era presidente e a psicologia pouco podia contribuir.

Mas… não perdi, não perdemos, a esperança. Nem a esperança, nem a inquietude de quem luta pelos valores e pelo legado de MLK.