Uma imagem bonita, feita como que de esquissos. Pensada com sentido e significado. Desenhada com uma estética com eles compatível e, particularmente, impactante. Abaixo da varanda da casa da montanha, um baloiço baloiça com um menino nele sentado. Quem viu o trailer (ou toda a curta), que nos enche de orgulho pela recente nomeação para os Óscares, sabe que falo do filme de João Gonzalez, “Ice Merchants”. Quem não viu, convido a olhar a imagem abaixo…

O baloiço daquela imagem, signo de um resquício de infância, de diversão, de liberdade, lembra-me os “baloiços”, como chamava e chamávamos ao único parque infantil da aldeia onde cresci. Nele existiam dois como aquele junto com outros equipamentos e ali brinquei e joguei primeiro, me encontrei, conversei e me escondi depois. Ali, mais tarde, ouvi música, li. Entre os outros equipamentos havia um velhinho (parece que sempre foi velhinho) escorrega metálico que, não sendo exactamente idêntico, me lembra o da imagem que também partilho abaixo e que…

Nos parecia, invariavelmente, que à descida, mais rápida inicialmente, correspondia um abrandamento no final, por vezes “como se levantássemos” antes de chegar ao chão. Mas sempre, sempre, a caminho do chão. Penso-o exactamente assim a propósito do caminho que se vem realizando na erradicação da pobreza extrema no Mundo onde, à descida consistente (mesmo que não tão rápida e em todos os lugares como gostaríamos) de 80 para 8% da população, correspondeu um aumento em 2020. Um aumento que sinaliza o caminho ainda a percorrer até ao chão e, particularmente, alerta para que apenas com envolvimento, compromisso e com a conjugação de vontades e saberes (científicos) se combate a pobreza extrema e a pobreza e exclusão no geral.
Na @Ordem dos Psicólogos Portugueses continuamos a fase de visitas a instituições e projectos com contributos nas áreas da pobreza e exclusão e com sessões de discussão da temática e recolha de contributos para a estratégia https://finalapobreza.pt junto de psicólogas e psicólogos. Na passada semana, em Évora, conforme também o Diário do Sul (abaixo) reportou. Hoje no Funchal (informações e inscrições aqui) no âmbito de uns Trilhos da Psicologia e no próximo dia 23.2 em S. Miguel (informações e inscrições aqui), no âmbito de um evento nesta área.

O “Ice Merchants”, porque pensado com sentido e significado, permite múltiplas reflexões. Do isolamento à família, das relações ao trabalho e sua relevância, das rotinas, do quotidiano, do binómio pobreza–riqueza, além da dimensão (importantíssima para as pessoas em situação de pobreza) monetária. Muitas, mais uma outra, a ausência de um elemento, sempre presente, porém. Uma não completude, um não preenchimento que, mais ou vez, qual escorrega, me lembra quem vive em situação de pobreza e de exclusão e o nosso dever de colocar a nossa ciência e a nossa prática mais e mais ao serviço do seu fim.