“Caminhava pela estrada com dois amigos enquanto o sol se punha. Parei e encostei-me à vedação. Completamente exausto. Sobre a cidade e o fiorde azul-escuro pairavam línguas de fogo. As cores gritavam. Os meus amigos continuaram a caminhar e eu fiquei para trás, a tremer de angústia. Senti um grito interminável a passar pela natureza.”
Foram estas as palavras que Edvard Munch escreveu antes de pintar “O grito” (1893). Quadro que sustentaria o seu reconhecimento enquanto artista e, de certa forma, tornar-se “interminável”, como o grito que sentiu. Interminável e determinante no cruzamento entre o (seu) naturalismo e expressionismo com nuances de um existencialismo, em desenvolvimento há época enquanto corrente filosófica, de influência fundamental em diferentes expressões artísticas (na literatura, por exemplo) e, até, na emergência e desenvolvimento da psicologia.
Dito de outra forma, colocar-se enquanto pessoa nos seus quadros. Colocar-se no que implica a sua experiência humana, o seu sentir, pensar e agir. No que significa experienciar a melancolia, sempre presente no seu trabalho, a ansiedade ou o desespero e como se lhes pode (ou não) e consegue (ou não) dar sentido [se desejarem conhecer um pouco da história e do contexto de vida de Munch, recomendo este documentário que passou recentemente na @RTP2].
Mas, se no final do século XIX a experiência humana era partilhada (e compartilhada) através da arte, é certo, mas, particularmente, nos cafés, tertúlias e colectividades, hoje é-o, numa velocidade completamente distinta, através da arte, dos cafés, tertúlias e colectividades, mas, também, dos media e, particularmente, das redes sociais, chegando a milhões de pessoas numa velocidade incrível. Talvez a melhor metáfora desta transformação é olharmos a singularidade do quadro de Munch e pensarmos a quantidade de vezes que somos confrontados com este emoji [😱] que, também, dele resulta.
Mas há o que caminhe junto nestes cerca de 130 anos que distam do quadro ao emoji: a omnipresença da angústia existencial; o ímpeto (e os potenciais erros) de interpretação das motivações de quem “usa”; e, sempre, a tal figura sozinha… No quadro como no emoji, sozinha e por isso com menor oportunidade de reformulação e de transformação da angústia que exprime.
Munch escreveu no seu quadro que havia sido “feito por um louco”. À compreensão da existência própria e da/o outra/o a partir do (auto)julgamento e da (auto)estigmatização, devemos contrapor com uma atitude de não-julgamento, de empatia e, particularmente, de (auto)compaixão.
(Auto)compaixão, também para que a conjugação do existencialismo com a velocidade e os meios de comunicação actuais não resulte numa sociedade menos sociedade.