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Pobreza – Um choque em cadeia (Editorial; PSIS21; N.º27)

Chove lá fora. Um vidro de um carro, embaciado. Um dedo de uma menina desenha uma árvore, fazendo do vidro folha e do dedo marcador. Depois um menino, triste, e outra e depois outra menina e, sempre, o dedo a desenhar o vidro enquanto a mãe Rosie liga do carro-casa para diversos hotéis à procura de um quarto para uma família. A sua família. Não. Não. Não.

O não. O insucesso. A impossibilidade. O problema. A perda. O não cumprimento. No Rosie, filme que assim começa e que retrata dois dias na vida de uma família numa Irlanda que teve recentemente um significativo aumento de pessoas em situação de sem-abrigo. Na vida ao nosso redor, em tantas situações, connosco ou com pessoas cuja história e nome (des)conhecemos.

A pobreza, qual choque em cadeia, todas, todos e tudo impacta. Pessoas em situação de pobreza ou não. A saúde, a educação, o trabalho e a produtividade. As relações na sociedade, a equidade, a confiança e coesão social. Por exequível, mas também porque influencia todos os restantes, a erradicação da pobreza é o primeiro dos objectivos do desenvolvimento sustentável e existe um amplo e diverso campo de contributo da ciência e da prática psicológica nesse sentido.

A actual edição da Psis21 trata-os a propósito do recente retrocesso no caminho de diminuição das diversas formas de pobreza no Mundo e em Portugal e da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, mas, também, do projecto “.Final à Pobreza”, através do qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses se compromete com o desenho de uma estratégia e de acções de reforço do contributo da psicologia na área da pobreza e exclusão.

Se o vidro fosse uma folha e o dedo um marcador, a menina escreveria: “alguém faça algo… alguém nos ajude e a crescer, quais árvores.” Contribuamos para esta estratégia e mobilizemo-nos, enquanto ciência e profissão, para que, a cada dia, menos crianças, menos pessoas, tenham de ultrapassar estes momentos. Para uma sociedade que caminhe, decidida e rapidamente, para a erradicação das diversas formas de pobreza e exclusão, obstáculos decisivos à possibilidade de saúde, bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.

 

Tiago Pereira

Editorial Psis21 N.º27

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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos (Sábado; Ao redor…; 27.12.2022)

Está a terminar um 2022 particularmente exigente. Apesar do conjunto de sinais preocupantes que se observavam em 2021, sobrava uma justa aspiração das pessoas a um ano de retorno e expansão depois de dois anos de diversas restrições e perdas resultantes da pandemia por COVID-19. Porém, ainda em Fevereiro, o início de uma nova fase de invasão pela Federação Russa do território ucraniano e tudo quanto se seguiu, inviabilizou essa pretensão. 2022 acabou por acrescentar imprevisibilidade ao já imprevisível, falta de controlo ao pouco que controlávamos. Acelerou mudanças em curso, perigou a coesão e a abertura da sociedade à diversidade e prejudicou desígnios de países e do Mundo em áreas centrais como os Direitos Humanos ou os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. 2022 será lembrado como um ano muito difícil e de mal-estar para muitas pessoas.

Por cá o ano termina, também, com debate sobre uma nova (a oitava) revisão da Constituição de 1976. Discussão 40 anos após a sua primeira revisão (1982) que introduziu alterações significativas no artigo 9º (“Tarefas fundamentais do Estado”), nomeadamente o objectivo de promoção do “bem-estar e qualidade de vida do povo, a igualdade real entre os portugueses e a efectivação dos direitos económicos, sociais e culturais, mediante a transformação das estruturas económicas e sociais”, início da sua alínea d), ainda hoje com redacção próxima. De 1982 aos dias de hoje, o país percorreu um longo caminho sendo inusitadas quaisquer comparações entre a possibilidade de bem-estar de todas e todos no início da década de 80 face a hoje. Em todo o caso, pressente-se sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso, neste caminho e um não foco neste elemento como primordial do país. A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país. E como recurso fundamental do país e elemento-chave preparação para os desafios do presente e do futuro.

Isto mesmo quando factores que fazem de Portugal destino turístico de excelência, nos aproximam de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar de todas e todos. O nosso clima. O património, a cultura e os seus significados. A gastronomia e qualidade dos produtos. A natureza e a possibilidade de relação e contacto com ela. A proximidade das pessoas e a forma acolhedora como recebemos. A segurança e a coesão. A legislação globalmente avançada, inclusiva e respeitadora dos Direitos Humanos e, até, um caminho por percorrer na resposta a desafios da sociedade, apelando a propósitos potenciais e aos contributos de profissionais e da sociedade civil.

Mas olhemos em detalhe as componentes do bem-estar. Seja através do “Better Life Index” (OCDE) ou do “Índice de Qualidade de Vida” (Eurostat), encontramos 11 dimensões próximas: condições de habitação; rendimentos; trabalho e emprego; tempo e conciliação entre vida pessoal e profissional; suporte e conexão social; educação e formação; qualidade do meio ambiente; envolvimento cívico, participação democrática e governação; cuidados de saúde de qualidade e acesso; satisfação com a vida; e segurança. Nelas identificamos parte do atrás referido e, sobretudo, pistas fundamentais para o que podemos promover e investir. É que, se Portugal apresenta, por exemplo, resultantes relevantes nas áreas da qualidade do meio ambiente e segurança, apresenta valores abaixo da média dos países da UE e da OCDE na satisfação com a vida ou o rendimento e diversas dimensões com forte potencial de melhoria e crescimento. Para esse desígnio beneficiaria de cinco factores que se interligam.

Antes de mais, conforme procurei sustentar nesta rubrica em Maio, considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas. Depois, melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e de exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população (vejam-se os dados do “Society at a Glance 2016 – OCDE” que o Luís Aguiar-Conraria partilhou recentemente e que indicavam que em Portugal apenas 11% das transferências públicas se destinavam aos 20% de população em situação de maior pobreza face a cerca de 40% à população em situação de maior riqueza). Também que, em períodos de crise e dificuldade, a população mais vulnerável seja mais protegida e apoiada (vejam-se os resultados do estudo “Desigualdade do rendimento e pobreza em Portugal – As consequências sociais do programa de ajustamento”, da responsabilidade de Carlos Farinha Rodrigues, que demonstram que entre 2009 e 2014 o decil das/os 10% de população com rendimento mais elevados decresceu 13% em rendimento enquanto que o dos 10% com rendimentos mais baixos decresceu 25%, contrariando a narrativa de que as pessoas em situação de maior vulnerabilidade foram protegidas nesse período). Ainda que a sociedade civil aumente o envolvimento e a sua participação cívica, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforce os níveis de conexão e suporte social da população. Finalmente, que se criem condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental que possam, em espiral, resultar em alterações no quotidiano, na capacidade de realização de funções e no agravamento das dificuldades e problemas.

Assim, conforme desejei para 2022 que construíssemos mais paz pelo que há um ano sentia como ameaças potenciais à paz, desejo para 2023 que promovamos mais e maiores possibilidades de bem-estar para todas e para todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme passou a prever a Constituição Portuguesa também aquando da revisão de 1982, depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar de todas e todos. Depende de desenvolvermos uma sociedade de bem-estar e, assim, de maior previsibilidade, controlo, coesão e capacidade de não deixar ninguém para trás. De foco nos Direitos Humanos e na procura de cumprir e apoiar o cumprimento dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

in Sábado (Ao redor…); 27.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos

 

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres (Sábado; Ao redor…; 07.12.2022)

“Não há provas. Não há testemunhas. Mas para uma pessoa, não existe dúvida.” É esta a frase de apresentação do filme “A dúvida” realizado por J. Shanley e baseado numa peça de teatro por si escrita, que lhe valeu o prémio Pulitzer Drama em 2005. A peça (“Dúvida: Uma parábola”) tinha um nome que reflectia uma dimensão visual da dúvida, associada ao seu dinamismo e à forma como, diferentes momentos e circunstâncias, podem produzir diferentes olhares sobre algo. Dúvida, elemento poderoso nas dimensões cognitivas, emocionais e de comportamento das pessoas, triângulo estruturante da vida, das relações connosco e com as outras e os outros e da sociedade.

Embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso a dúvida é explorada, da indústria à política. Do memorando, outrora secreto, da indústria tabaqueira que afirmava que “a dúvida é o nosso produto”, estimulando o financiamento de campanhas (e até de “ciência”) que introduzissem dúvidas nas cada vez mais evidentes nocivas consequências do consumo de tabaco, à forma como políticas/os, como é exemplo Donald Trump, têm procurado suscitá-la face aos processos democráticos dos seus países. No seu caso, abundam exemplos, desde a legitimação de grupos violentos como os Proud Boys, à frase aquando da sua aceitação da nomeação para recandidatura a Presidente na Convenção Republicana de Agosto de 2020 (“A única forma que eles [Partido Democrata] têm de nos retirar a eleição é através de eleições fraudulentas”) ou à forma como nos últimos dias pediu a “extinção da Constituição” e, mais uma vez, a anulação das eleições presidenciais de 2020. Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e até dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna” ou que “vemos, sistematicamente, a população a desconfiar destes relatórios” existindo agora “um grupo parlamentar que também desconfia destes relatórios”.

Este movimento, com exemplos históricos com décadas e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito por todas e por todos e para a convivência e acção conjunta dos povos face aos desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando as possibilidades de actuação sobre a mesma das instituições e autoridades do Estado. Ao paulatinamente desacreditarem as instituições e os pilares da vida democrática, estes movimentos e partidos pretendem espaço de crescimento e propagação do seu ideário utilizando a percepção de injustiça e da perda de qualidade de vida de algumas pessoas, o medo do desconhecido e diverso, a revolta ou o ódio à outra e ao outro. Pretendem minar a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.

Estes processos condicionam significativa e negativamente a saúde pública e o bem-estar das pessoas. São hoje relativamente claras as relações existentes entre a liberdade e direitos económicos, sociais e culturais e os indicadores de saúde e bem-estar das populações. Tal qual é claro que a democracia por si, ainda que suportada na capacidade de empoderamento das pessoas, se não for acompanhada de direitos humanos estruturantes como o direito à habitação, à educação de qualidade e a condições equilibradas de subsistência e de satisfação e propósito no trabalho, não resulta eficaz de igual forma.

Esta consciência, e os sinais que temos destes movimentos até em países que porventura consideraríamos a eles mais imunes (e.g. países do Norte da Europa), devem-nos motivar e impelir a uma atitude proactiva de prevenção e mitigação destes fenómenos, considerando a sua importância e o seu papel nas sociedades democráticas, de Direitos e livres. É fundamental que tal dependa, é certo, do reforço da dimensão social que toque e abarque questões fundamentais como a habitação, a precariedade e pobreza ou a educação de qualidade e trabalho digno, mas, também, outras áreas, hoje talvez ainda emergentes, mas que importa acompanhar e desenvolver. Dois exemplos.

A Finlândia introduziu no currículo das suas Escolas a literacia mediática. A invasão da Crimeia pela Federação Russa em 2014 e os níveis de desinformação e de notícias falsas particularmente significativos que se lhe seguiram, conduziram a esta alteração e a um mais intencional investimento no desenvolvimento do pensamento crítico de crianças e jovens. Juntando-se à abordagem à educação mediática, parte já antes do currículo do ensino pré-escolar e elementar, e com os impactos que sabemos que continuam das crianças/adolescentes para as suas famílias/sociedade, segundo o instituto Open Society a Finlândia é hoje o país da Europa mais resistente à desinformação. A Suécia que recentemente criou a “Agência de Defesa Psicológica”, uma estrutura pública que visa organizar e operacionalizar um conjunto de acções de protecção da sociedade democrática e livre e da formação livre de opinião, a partir da identificação, análise e combate à influência da má informação ou desinformação estrangeira direccionada à Suécia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje novas e crescentes ameaças às pessoas, sociedades e instituições e estes são dois exemplos concretos de como melhor nos prepararmos para os desafios do presente e do futuro. Para apoiar, também, o que a OCDE define como fundamental para o desenvolvimento da verdade, confiança e reforço da democracia: o combate à má informação e desinformação; uma maior representação e participação das pessoas na vida pública; o assumir de responsabilidades globais e a resiliência à influência externa nas sociedades; a transição verde e digital. Tudo áreas para as quais, também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, a psicologia pode e deve, a par com outras ciências e profissionais, contribuir. Tudo áreas que devemos valorizar e investir, considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.

 

Tiago Pereira

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

in Sábado (Ao redor…); 07.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-a-literacia-e-a-defesa-psicologica-das-sociedades-democraticas-de-direitos-e-livres

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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

Hoje passa um ano e um dia da publicação um artigo que escrevi de título “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”. Escrevi-o porque o sentia importante, necessário, considerando as ameaças potenciais à Paz a que assistíamos e que intuía. Estava, porém, longe de perspectivar a amplitude do que 58 dias depois viria a suceder e de ver imagens de tanques russos nas ruas de Kyiv nos momentos que se seguiram ao trágico 24.02.22. Hoje, um ano depois, passa um dia de que foi publicado um outro artigo, de “desejo” e próximo na “arquitectura”.

“Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos”, 48º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte dos “sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso”, no caminho de melhoria da possibilidade de bem-estar em Portugal. “A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país.”

No artigo reflicto sobre como o que nos torna “destino turístico de excelência, nos aproxima de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar” e, a partir de dois índices internacionais, o que parece fazermos bem, menos bem e que podemos significativamente melhorar para tal, sublinhando cinco factores de investimento essenciais que se interligam:

  1. considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas;
  2. melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população;
  3. em períodos de crise e dificuldade, proteger e apoiar a população mais vulnerável;
  4. maior envolvimento e participação da sociedade civil, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforçando os níveis de conexão e suporte social da população;
  5. criação de condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental.

Caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme prevê a Constituição Portuguesa, “depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar”.

Que o priorizemos e promovamos, mais, em 2023.

Obrigado a quem neste 2022 aqui me acompanhou. Bom 2023 e que nos possamos continuar a encontrar, aqui e noutros lugares.

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

A crise das democracias e como podemos vir a ser confrontados com uma realidade política que não consideraríamos imaginável no nosso tempo de vida. Ontem, no Fórum da DRCentro da @Ordem dos Psicólogos Portugueses (obrigado @Paulo Cunha e equipa), depois da recolha de contributos que dinamizei para https://finalapobreza.pt, a @Sofia Ramalho questionou-nos, a propósito do “Futuro da Profissão”, sobre crises que imaginamos no futuro. Falou-se de saúde mental, de ecrãs, de natalidade e longevidade, da crise climática e de coesão. Eu falei de ameaças à democracia, sistema que, com as suas limitações, mais protege a possibilidade de autodeterminação de todas e todos.

“A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres”, 47º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte esta potencial crise a partir da dúvida. Dúvida que “embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso é explorada, da indústria à política. Da “dúvida é o nosso produto”, com que as tabaqueiras procuravam acrescentar dúvida à cada vez mais significativa evidência das consequências nocivas do tabaco, à forma como políticas/os (veja-se Donald Trump) a usam. “Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna”.

“Este movimento, com exemplos históricos e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito e convivência e para a acção conjunta dos povos face a desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando possibilidades de actuação sobre a mesma de instituições e autoridades do Estado. Mina “a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.”

O reconhecimento deste fenómeno deve motivar-nos a atitudes proactivas para a sua prevenção e mitigação, considerando os impactos nas sociedades democráticas, de Direitos e livres.” Deve impelir-nos a reflectir e considerar acções, como são exemplo (aprofundados no texto), a introdução na Finlândia da literacia mediática no currículo das Escolas e a criação na Suécia da Agência de Defesa Psicológica, iniciativas de combate à desinformação e protecção da sociedade democrática e livre.

Áreas para as quais “também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, podemos e devemos, a par com outras ciências e profissionais, contribuir”. Áreas “que devemos valorizar e investir considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.”

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Agnotologia

Agnotologia: um termo desaparecido para descrever a produção cultural da ignorância (e o seu estudo). Este é o título do 1º capítulo do livro “Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância”, escrito por R. Proctor e L. Schienbinger a partir, também, da reflexão sobre o potencial impacto na saúde pública das práticas da indústria do tabaco. Discute-se um memorando de 1979, primeiro secreto, hoje público, que reúne um conjunto de iniciativas de empresas – “O tabagismo e a proposta de saúde”. Nele assumia-se que “a dúvida é a melhor maneira de competir com o volume de informação que existe na mente do público em geral” e ser fundamental promover e financiar (também usando a ciência) a dúvida e intencionalizar a “criação de controvérsia” sobre os “impactos nocivos do consumo de tabaco”. Sendo este um caso “extremo” creio que temos presente que, também em 2022, talvez nunca com tantos recursos e de forma tão estrutural e complexa, a agnotologia é estimulada e alimentada, com profundas consequências na sociedade, nas relações entre pessoas e comunidades, na resposta aos principais desafios societais e na saúde (pública) e bem-estar.

E, se este movimento ocorre em muito patrocinado por organizações, empresas e até países que pretendem que os seus produtos / matérias-primas continuem a ser vendidos/utilizados, também decorre no seio político, na procura de agregação de pessoas a grupos/ideais políticos, não raras vezes usando a dúvida e as dimensões emocionais (como a raiva ou o ódio a outras/os) como força de mobilização. Num Mundo com complexidade e incerteza crescente e com redes sociais que permitem (e estimulam) a propagação “supersónica” da informação (particularmente a movida a emoções, dúvidas e “polarizadora”), creio fundamental o termos presente e, individual e colectivamente, contribuirmos para mitigação da agnotologia, algo só possível com mais e melhor ciência (inclusive nas políticas públicas), mais e melhor transferibilidade da ciência (inclusive junto das políticas públicas), mais e melhor comunicação da ciência (inclusive junto de decisoras/es) e mais e melhor informação e literacia científica da sociedade, possibilitando a reflexão consciente e a prevenção dos efeitos de grupo e massas, pela mudança de atitudes e comportamentos através da informação.

Por isso quem, por exemplo aqui, me lê/ouve sabe que, na medida das minhas possibilidades, o procuro fazer. Sabe, também, que estimulo, particularmente, psicólogas e psicólogos a fazerem-no mais, a partir da nossa ciência e prática. Sabe, ainda, que o procuro fazer junto de problemas societais complexos que muito influenciam a sociedade e a possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas. Partilho um exemplo, uma entrevista à Revista Visão (13.11) que toca estes pontos – um singelo contributo meu, focando a pobreza e a saúde mental; um estímulo a outras e outros para o fazerem/fazermos mais).

Mais e mais, individual e colectivamente. Por todas e por todos. Sim?

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1000 dias (Sábado; Ao redor…; 26.10.2022)

“Há mais 256 mil pessoas em Portugal a viver em risco de pobreza e exclusão” em 2021, face a 2020, de acordo com os dados do inquérito às condições de vida e rendimento do Eurostat. Mais 256.000 pessoas, em grande parte, resultado da pandemia por COVID-19, que contribuiu decisivamente para a interrupção de um período de decréscimo entre 2014 e 12019 deste e de outros indicadores relacionados com a pobreza, risco de pobreza e exclusão. Ouvimos e revimo-nos neste aumento do número de pessoas e famílias expostas a situações de escassez e pobreza. Também a exclusão e privação material e social, que também aumentou, tal como a desigualdade. Revimo-nos, porque o sentimos, grande parte de nós nas nossas famílias, todos na sociedade. Revimo-nos porque muitas vezes lhes acrescentamos nomes e situações concretas. Isto, pese embora, como o economista Carlos Farinha Rodrigues bem disse num debate em que participei a propósito do tema da pobreza, quando olhamos estes dados, “olhamos sempre pelo espelho retrovisor”.

Há? Havia, porque, em Outubro de 2022, quando conhecemos estes dados relativos a 2021, considerando agora os efeitos da crise socioeconómica resultante da maior inflação das últimas três décadas, podemos intuir que o número de pessoas nestas situações será, certamente, bem diferente dos números que discutimos e resulta num aumento de situações de privação, muitas vezes de desespero, em muitas famílias. E, importando olhar os dados, ainda que retrospectivamente, pensar a actual situação implica olhar prospectivamente o que poderemos esperar de consequências deste exigente momento. Destaco, além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social, duas que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais de situações de pobreza nos mesmos agregados familiares.

A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos. Assim, é possível prever que, caso suceda o que sucedeu na crise socioeconómica do início da anterior década, quando não houve reforço do apoio na área da saúde mental às pessoas em maior vulnerabilidade, esta situação resulte num aumento e agravamento dos problemas de saúde mental. E, consequentemente, numa maior probabilidade de manutenção ou queda destas pessoas em situação de precariedade, exclusão ou pobreza. Este ciclo resultará em níveis superiores de sofrimento, conduzirá a uma menor disponibilidade emocional das pessoas para o processo de recuperação (económica) que se sucederá à crise e a custos superiores no potencial apoio à saúde mental destas pessoas mais tarde, pela maior complexidade da intervenção se o problema se instalar e cristalizar. Neste sentido, importa, no presente, além de priorizar o apoio económico às pessoas com maior vulnerabilidade, priorizar também a disponibilização de apoio em proximidade e contingência na área da saúde mental, preferencialmente reforçando com urgência o número de profissionais da área da saúde mental associados aos centros de saúde e restantes unidades de cuidados de saúde primários e investindo no desenvolvimento de competências sócioemocionais, particularmente, mas não apenas, junto de crianças e jovens.

A segunda toca um conceito que tem ganho maior densidade, a partir de um conjunto cada vez mais significativo de investigação: os 1000 dias. Por 1000 dias entende-se o período dos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade com impacto ao longo de toda a vida, porquanto impacta o desenvolvimento neurológico (cerebral) e biológico. Ora, a investigação tem demonstrado com acutilância a forma como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão e/ou pobreza, tem um impacto significativo no desenvolvimento do bebé. Estes bebés, no seu dia 0 de vida, têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse dela resultante. Este processo é, muita vezes, continuado e aprofundado nos primeiros dois anos de vida quando se mantém este stresse e, a ele, não raras vezes, se associam dificuldades de alimentação e má nutrição, falta ou uma menor estimulação e a ausência de capacidade ou oportunidade de mobilização de competências parentais por parte das cuidadores e dos cuidadores, resultando numa desvantagem no final dos 1000 dias já particularmente significativa entre crianças expostas a contextos com níveis de adversidade distintos. Esta desvantagem impacta todo o processo de desenvolvimento, a educação e a saúde ao longo de todo o ciclo de vida, conforme estudos longitudinais têm demonstrado.

A ideia de um bebé nascer já com uma desvantagem, expressa no desenvolvimento (menor) das suas estruturas biológicas e neurológicas, corresponde a uma gravíssima injustiça social que nos deveria mobilizar. Particularmente num país de baixa natalidade e com desafios exigentes na sua demografia, deveríamos procurar, no presente para não condicionar o futuro de novos cidadãos, respostas assertivas que pudessem proteger e apoiar com maior intensidade os “agregados familiares dos 1000 dias”, reduzindo a sua exposição a situações de escassez, potenciando as licenças de maternidade e paternidade e melhorando o acesso e a qualidade das creches.

Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro e maior possibilidade de mobilidade social de pessoas e famílias da actual geração e das gerações seguintes. Duas áreas de actuação que apontariam a dois problemas estruturais do país (a elevada prevalência de problemas de saúde mental; a elevada pobreza e a sua reprodução geracional), que condicionam o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, a equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental, conforme objectivo da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 21-30, fazermos da erradicação da pobreza desígnio. Um objectivo exigente, mas possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas. Um desígnio que exige a participação de todos e que se inicia com as conversas que podemos ter e que devemos promover em diversos contextos. Que se inicia tornando este assunto saliente e presente no espaço público, na acção de diversos grupos profissionais, na investigação de diversas equipas de investigação e no dia-a-dia de lideranças e de decisoras e decisores. Que se concretiza com a mobilização da sociedade civil e com políticas públicas mais informadas pela ciência e, por isso, mais eficazes e eficientes no presente, que contribuam para um futuro melhor para todos.

 

1000 dias

in Sábado (Ao redor…); 26.10.2022

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“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

Ainda na primeira página de “O Amante”, seu romance autobiográfico, Marguerite Duras resume-nos em 8 palavras uma vida. Uma vida mais em que muito cedo era já tarde demais.

Tenho, por diversos motivos, pensado nesta passagem e no que ela significa. E, talvez paradoxalmente, pensado não apenas no que mais automaticamente me (creio nos) suscita (o que cedo nas nossas vidas nos pode impedir de nos cumprirmos, autodeterminarmos, viver em plenitude e com saúde e bem-estar ao longo da vida) mas também no que de estímulo comporta para que possamos cedo, senão muito cedo, agir e intervir para que não se torne tarde ou tarde demais.

Quem aqui me lê, ou quem partilha de forma mais próxima o seu dia-a-dia comigo, sabe que um desses motivos trata a forma como venho reflectido as questões associadas às situações de pobreza e exclusão e a sua relação com outros desafios societais complexos, com a saúde mental e com as políticas públicas. Como impactam toda a vida, de todas as pessoas e da sociedade e como são determinantes fundamentais da educação, saúde e bem-estar ao longo da vida.

Sabe também quem há dias, entre a comemoração do Dia Mundial da Saúde Mental e do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (a 15.10.22), me ouviu conversar com a Carla Rocha no episódio do Quarto do Fundo (parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses) que partilho. O destaque da editora, também em 8 palavras, foca algo essencial: “Investir na saúde mental para prevenir a pobreza”. Refere ainda o papel da promoção do autocuidado, das competências e das relações sociais como fundamental à prevenção da violência, da pobreza e de todo o tipo de processos de exclusão. Cedo, muito cedo, para não ser tarde, tarde demais.

Também procurarei que o saiba quem, na próxima segunda-feira, participe nas II Jornadas do Serviço de Psicologia Centro Hospitalar Universitário de São João, onde, em conferência, abordarei o projecto “.Final à pobreza” (informações/inscrições aqui). Fá-lo-ei a convite do Eduardo Carqueja, a quem muito agradeço, não apenas o convite e confiança, mas a forma como, em conjunto com toda a equipa do Serviço de Psicologia que coordena, dia-a-dia nos demonstra, também ali, as mais-valias de uma organização de serviços de psicologia com autonomia nas estruturas do SNS. Mais-valias na qualidade de resposta aos cidadãos, multidisciplinariedade das intervenções e sustentabilidade da própria organização. No representa, significa e permite de valorização e desenvolvimento profissional às psicólogas e psicólogos que o integram. A quem agradeço por demonstrar que não é muito cedo, mas também não é tarde demais, para generalizarmos o modelo e disso beneficiarem pessoas e sociedade.

Um momento mais para reflectirmos juntos, espero, que devemos intervir e agir muito cedo, para que não seja tarde… Ou, ao mesmo, cedo para que não seja tarde demais.

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7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza? (CNN Portugal; 17.10.2022)

Ao contrário do futebol, a pobreza não tem um lado que vence e outro que perde ou lados que empatam. Com a pobreza, todas e todos perdem. As pessoas que a vivem e que são privadas da sua dignidade, da sua possibilidade de saúde e bem-estar, de desenvolvimento e autodeterminação. As pessoas que, neste momento, não a vivendo, são parte da sociedade que a gera, reproduz e, por vezes, a esconde, tornando-se mais desigual, menos justa e coesa e logo menos promotora de equidade e de possibilidades para todas as pessoas. As instituições, particularmente os governos democráticos, que, não a erradicando, se desacreditam e fragilizam, geram desconfiança e menor participação e distanciam-se das necessidades e expectativas das pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, alimentando a polarização e o ódio às outras e aos outros. A pobreza, conforme alguns partidos procuram ser, é um fenómeno catch all, “apanha” todas e todos.

Os “7-0”, ironia de António Costa a propósito da maior aproximação das previsões económicas do Governo face às do FMI, não tem paralelo com as previsões do Governo face às de outros organismos a propósito da evolução anual do risco de pobreza e exclusão. A razão? O governo não prevê. Estabelece um objectivo para 2030 (“redução para 10% da população”), expresso no Programa de Governo com remissão para a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 mas, apesar de estimar no quadro macroeconómico e no Orçamento do Estado o PIB, a inflação, a evolução da taxa de desemprego, remunerações médias e até o preço do petróleo não prevê o impacto das medidas a que se propõe e da evolução dos indicadores socioeconómicos na percentagem de pessoas que em Portugal viverão em situação de pobreza (ou risco de pobreza) e exclusão em 2023.

Não o faz. Como, e apesar de ter já implementado um conjunto de importantes medidas que nela constam, não teve ainda oportunidade de nomear a coordenação e a comissão de acompanhamento da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, estratégia aprovada e publicada ainda em 2021 e que prevê, no seu articulado, que até Junho de 2022 essa comissão (ainda inexistente) apresentaria o Plano de Acção 2022-2025. Nem coordenação, nem comissão, nem plano, duas propostas de Orçamento do Estado (2022 e 2023) depois para anos com a maior taxa de inflação das últimas três décadas (2022) e, em previsão, uma das maiores deste período (2023) e quando sabemos que a “inflação real” que incide sobre a população com maior escassez económica é significativamente superior à taxa de inflação (média). Nem coordenação, nem comissão, nem plano, num período em que a trajectória descendente dos indicadores de pobreza, consistente de 2014 a 2019, se inverteu, tendo a taxa de risco de pobreza (após transferências sociais) medida pelo INE aumentado de 16.2% em 2019 para 18,4% em 2020 e a de risco de pobreza ou exclusão social medida pelo Eurostat aumentado de 20% em 2020 para 22,4% em 2021, passando Portugal do 13º para o 8º país da União Europeia com maior percentagem de população nesta situação.

Previmos, mas podemos prever muito mais. Decidimos e aplicamos medidas, algumas delas relevantes, mas podemos decidir e fazer muito mais. Desenhamos e publicamos estratégias, mas podemos operacionalizar e concretizar muito mais. Isto implica priorizarmos o combate à pobreza, intencionalizá-lo e considerá-lo em todas as políticas (públicas). Implica uma atitude de não complacência com a pobreza, com a não utilização e operacionalização dos instrumentos ao nosso dispor para a sua erradicação e com a ineficácia de políticas (públicas) neste âmbito.

Assim pode ser amanhã. Dia que se segue ao dia em que celebramos globalmente o objectivo da erradicação da pobreza e em que, um pouco por todo o Mundo e em Portugal existirão manifestações de intenções, apresentação de propostas e debate público neste domínio. Amanhã e depois podemos concretizar as intenções, implementar as propostas e, particularmente, continuar e aprofundar este debate, tornando-o persistente e saliente, onde hoje é estranhamente ausente, considerando que a pobreza e a pobreza multidimensional (a que não se refere apenas à dimensão económica e que remete para a escassez de acesso à educação, saúde e condições de vida consideradas mínimas necessárias) é um dos principais determinantes da saúde (e da saúde mental), da educação ou da justiça. Amanhã comecemos por mobilizar a sociedade civil e considerar os diversos contributos, porque apenas com todas e todos podemos tornar o combate à pobreza desígnio nacional (conforme a Estratégia bem prevê) e vencer este complexo desafio. Complexo, mas possível, assim o queiramos e assim, com determinação, estimulemos, permitamos e utilizemos o contributo de pessoas e organizações investidas neste objectivo.

Um exemplo, as psicólogas e psicólogos em Portugal e a Ordem dos Psicólogos Portugueses. Considerando os contributos da ciência psicológica nesta área (nomeadamente os impactos da escassez no desenvolvimento, capacidade cognitiva e de planeamento e tomada de decisão) e a associação cíclica e forte entre situações de pobreza e exclusão e problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão), a Ordem dos Psicólogos Portugueses encontra-se a promover o projecto .Final à Pobreza, visando um mais intencional e informado contributo da ciência e da profissão para um ponto final à pobreza. Projecto que resultará numa estratégia que visará mais e melhor formação e recursos para a prática de psicólogas e psicólogos nesta área e contributos para a promoção de literacia na sociedade civil sobre este fenómeno, as suas causas, consequências e formas de o mitigar. Projecto que contribuirá para melhor informação para o desenho de políticas públicas nesta área e para promover redes de cooperação nacional e internacional junto do que é, não por acaso, o primeiro dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Tudo porque o dia que hoje se celebra deve ser o nosso dia-a-dia. Toda e qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição socioeconómica, é impactada pela sua situação de pobreza actual, potencial ou pelas situações de pobreza ao seu redor. Toda e qualquer pessoa tem um papel na sua erradicação, algo possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas no Mundo demonstra, mas que depende de essa ser (a) prioridade das prioridades de todas e todos.

Continuamos amanhã?

Tiago Pereira

 

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza?

in CNN Portugal; 17.10.2022

https://cnnportugal.iol.pt/tiago-pereira/pobreza/tiago-pereira-7-0-ao-fmi-mas-que-resultado-no-combate-a-pobreza/20221017/634d2ca80cf2f9a86ebafb96

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O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais

“Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior.” Excerto do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), mote (final) da conversa de ontem, a propósito de como a complexidade, a incerteza e os desafios individuais e societais do tempo que vive(re)mos implicam maior interdisciplinariedade e beneficiam de uma psicologia porto de abrigo.

“O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais” foi o título da conferência e mesa (com a Dora Pereira) do “II Congresso dos Psicólogos da Madeira | Resiliência e Superação – A Psicologia na construção da paz, do bem-estar e da coesão social”. Conferência que resulta (muito agradeço pela confiança e oportunidade) do convite do Renato Gomes Carvalho e da equipa da Delegação Regional da Madeira, que tem desenvolvido um especialmente meritório e impactante trabalho na sociedade da RA da Madeira, conforme foi reconhecido e valorizado pelos Presidente da Câmara do Funchal, do Governo Regional e da Assembleia Legislativa da Madeira.

A conferência partiu do que atrás referi, do artigo do J. Cacioppo (“Psychology as a hub science”) e de 3 constatações suas: desde 2005 a psicologia é considerada um dos 7 hubs de ciência; enquanto ciência e prática é muito mais que a visão que dela existia, muito baseada no Dr. Phil; embora não totalmente compreendida, tinha já muito a oferecer (e a aprender) a/com outras áreas científicas. Tocou ainda o crescimento exponencial da investigação em psicologia (700% de 1980 a 2014) e do número de psicólogas e psicólogos no Mundo (+19%) e em Portugal (+67%), previsto para a década 2014-2024.

Passou pelo símbolo de infinito, não pelo crescimento potencial futuro, antes pelo pensamento sobre a relação passado-presente-futuro e a perspectiva de diferentes momentos de intervenção da psicologia. De complementariedade entre a procura da mudança individual (muitas vezes com intervenções clínicas, remediativas e individuais) e da mudança societal (macro), particularmente sobre os determinantes da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas e de equidade, justiça e coesão social.

Terminei com 6 pistas para um hub profissão: equipas multidisciplinares; consultoria a lideranças; trabalho com decisoras/es; capacitação e desenvolvimento das pessoas; psicólogas/os cidadã(o)s; assunção de papéis de liderança e tomada de decisão. Tudo num caminho de uma psicologia porto de abrigo, como recurso fundamental do país e espaço de apoio às pessoas nos seus desafios individuais e à sociedade nos desafios societais. Porto de abrigo que implica que cada psicóloga e psicólogo, cada dia e em cada contexto, reforce a identidade, o reconhecimento (de erros) e aprendizagem, a confiança, a valorização e desenvolvimento profissional e o auto e heterocuidado.

Assumamo-nos – com determinação, motivação e empenho, com responsabilidade e competência – porto de abrigo no presente e futuro.