1000 dias… Os primeiros 1000 dias. Um conceito com cada vez maior relevância, que parte de um quadro significativo de investigação e trata o período fundamental de desenvolvimento das estruturas neurológicas (cerebrais) e biológicas dos bebés. 1000 dias, tempo que dista de hoje a 06.02.2020, dia em que o Públicofez um trabalho sobre um artigo escrito por profissionais de saúde pública que, partindo da forma errática como foi gerido um 1º caso suspeito e não confirmado de COVID-19 em Portugal (1º caso confirmado surgiria apenas quase um mês depois), procurava promover uma melhor preparação dos cuidados de saúde, visando o que aí viria e de acordo com o que sabíamos pós-emergências H5N1, SARS e da pandemia H1N1.
“1000 dias”, 44º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destas premissas (tomar decisões informadas pela ciência e pela melhor evidência disponível; aprender com erros e construir sobre a experiência passada) para pensar o aumento das pessoas a viver em risco de pobreza e exclusão. Pensar, “além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social”, duas questões que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais.
“A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos.”
A segunda, o conceito dos 1000 dias, “período que corresponde aos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade (…) A investigação demonstra como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão ou pobreza, tem um impacto significativo no seu desenvolvimento. Estes bebés no seu dia 0 de vida têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse resultante (…) Desvantagem que se acentua ao longo da vida.”
“Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro, maior possibilidade de mobilidade social e que apontariam a dois problemas estruturais do país (elevada prevalência de problemas de saúde mental; elevada pobreza e a sua reprodução geracional) que condicionam o seu crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.”
