“Ainda bem que estamos aqui hoje a conversar sobre isto, mas nós conversamos muito pouco sobre pobreza. A pobreza é o principal determinante da saúde, educação, da área social em Portugal e está normalmente ausente daquilo que é o debate público a não ser quando surgem alguns dados… É pouco presente no debate público, portanto, apelo a que um dos pontos da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP), que é exactamente tornar esta matéria um desígnio nacional, possa ser endereçado e abraçado e isso implica que toda a sociedade se mobilize no combate a este enorme problema social que impacta todas as pessoas”.
Foi esta a minha última intervenção no programa “É ou não é” (RTP; abaixo) sobre pobreza. Antes enquadrei o https://finalapobreza.pt e o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos nesta área, particularmente: 1) melhor informação e literacia sobre as causas e consequências do fenómeno, contribuindo para a diminuição do estigma e compreensão de que é um problema que afecta todas as pessoas (particularmente, mas não apenas, quem vive em situação de pobreza); 2) contribuir para o desenho e implementação de políticas públicas mais eficazes e eficientes.
A propósito do 2º ponto, evocando o que não aconteceu aquando da crise sócio-económica do início da década passada (reforço da área da saúde mental), afirmei a associação cíclica e forte entre problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão) e pobreza e exclusão, sublinhando não poder haver prioridade no combate à pobreza sem promoção da saúde mental e vice-versa. Abordei, ainda, os “1000 dias” e o impacto no desenvolvimento das estruturas neurológicas e biológicas nos bebés que nascem em contextos de maior adversidade (exclusão e pobreza), devido ao stresse, má nutrição, entre outros. Estes têm, desde ainda antes do nascimento, um gap negativo (desvantagem) de desenvolvimento, que se intensifica ao longo da vida, justificando-se políticas mais assertivas nesta área, também pela injustiça social que representa.
Na 2ª intervenção, com uma excelente entrevista ao Eldar Shafir pelo meio, reforcei que é possível erradicar a pobreza, sublinhei que a complexidade do desafio implica que sejamos exigentes (dando o exemplo da ENCP não ter ainda o plano de acção 22-25) e que capacitemos e demos condições às organizações e serviços públicos que trabalham nesta área. Abordei ainda a importância da oportunidade (contexto) para a par da conhecimento e motivação, podermos mobilizar comportamentos e a forma como o stresse, a ansiedade, o insucesso escolar (muito presente) e o estigma afectam crianças e jovens, com impacto ao longo da vida.
Reforcei, finalmente, o estigma e auto-estigmatização e seu o impacto, por ex., no facto de algumas pessoas não recorrerem aos apoios sociais por esse motivo, condicionado a sua eficácia.
https://www.rtp.pt/play/p9816/e-ou-nao-e-o-grande-debate (parte I)
https://www.rtp.pt/play/p9816/e649260/e-ou-nao-e-o-grande-debate/1096150 (parte II)