“Porque o amor pela vida, gera amor pela vida.” Assim fecha um dos mais interessantes livros que li nos últimos anos. Uma frase muito marcante no contexto do livro e que, parecendo simples, encerra uma enorme complexidade associada ao facto de podermos substituir “amor pela vida” por diferentes e diversas expressões. Dois exemplos: complacência/aceitação do bullying | não-complacência/não-aceitação do bullying.
A forma como conseguimos (ou não) construir uma cultura de Escola e de sociedade que considere, sem qualquer ambiguidade, inaceitável a violência e o bullying em crianças e jovens (tal qual consideramos chover numa sala de aula) é factor preponderante para a prevenção deste grave fenómeno social que impacta significativamente as vítimas (muitas vezes, também no seu futuro), as e os agressores (idem) e os e as observadoras.
Esta foi uma das mensagens que procurei transmitir em entrevista à TSF que partilho a propósito do Dia Mundial de Combate ao Bullying, onde procurei sublinhar a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola, naturalmente com ênfase e especificidades nas vítimas, mas também nas e nos agressores e observadores, bem como as características distintivas do bullying face a outras práticas agressivas (repetição; desequilíbrio de forças e/ou de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s)).
Também na entrevista foco o aumento de denúncias caracterizadas pelas forças de segurança como “ameaças e injúrias” (que ocorreu mesmo em anos onde a denúncia de agressões físicas diminuiu), para reforçar que a crescente sensibilização também leva a que hoje se considerem (bem) determinadas práticas como agressão ou violência quando antes assim não se considerariam (ou quem poderia denunciar não percepcionava que pudesse vir a produzir efeitos). Foco ainda o papel que a pandemia por COVID-19 terá tido no aumento de situações reportadas, quer no que se refere a alterações de comportamento resultantes da mesma e de uma intensificação dos problemas de saúde mental na população mais jovem, quer no aumento de situações de cyberbullying pela intensificação da utilização dos meios digitais (já pré-pandemia, mas principalmente com a pandemia). Algo que, conforme referi, comporta um “acréscimo de desafio” ao problema.
Outro desafio, que no mesmo dia mas em 2021 havia procurado sublinhar trata o papel de quem observa, no que aos impactos em si tem mas, particularmente, na baixíssima percentagem de observadoras/es que decide e concretiza a denuncia das situações. Enquanto comunidade, devemos dar segurança para esta denuncia e, essencialmente, dar significado à mesma…
Porque a não-complacência/não-aceitação do bullying, gera não-complacência/não-aceitação do bullying. Porque o seu contrário gera o seu contrário.
Mais informação: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_vamosfalarsobrebullying_documento.pdf