Posto de escuta. A nova rúbrica do jornal PÚBLICO propõe-se partilhar “notícias fora do radar”. Na 2ªF (22.08) apresentou-nos a Afriski, a única estância de esqui de África, situada no Lesoto. Notícia duplamente contraintuitiva por não ser propriamente comum associarmos uma estância de esqui ao período de Verão que vivemos e ao Sul de África.
Li a notícia no dia que seguiu à publicação da peça da Catarina Silva na Notícias Magazine (21.08) intitulada “Guia para lidar com a ansiedade provocada pela inflação”. Tema menos contraintuitivo, diria, face ao momento que vivemos e viveremos e aos impactos do mesmo nas pessoas, particularmente nas com maiores vulnerabilidades sociais e económicas. Tema, no entanto, com uma nuance eventualmente mais contraintuitiva, considerando os significativos impactos da inflação e da crise sócio-económica potencial na população mais jovem, população a quem muitas vezes se atribui uma suposta “ausência de responsabilidade” que, existindo, poderia ser protectora dos seus impactos.
No meu contributo para a peça (que partilho), abordo esta questão específica também a propósito do impacto “da crise socioeconómica do início da década passada” na população mais jovem há época, com “impacto muito grande na ansiedade, depressão e noutros problemas de saúde mental” que ajudam a explicar porque chegamos ao período pré COVID-19 como um dos países da União Europeia com mais carga de doença mental. Foco, também, a associação desta situação à maior precariedade da população jovem e à fase de “criar bases, de tomar decisões, construir família, procurar casa” para concluir que “não me surpreende, assim, que sejam os jovens os mais impactados” por “mais uma crise que vem interromper o seu movimento de autonomia”.
Sobre (problemas de) saúde mental na população jovem volto a escrever em breve, reflectindo mais profundamente “os níveis de stress e ansiedade significativa” que na peça refiro, também, a propósito da “acumulação que vivemos e que inclui a Guerra na Ucrânia e as suas diversas consequências, mas também a crise com a COVID-19”. Acumulação de fenómenos que desafiam a previsibilidade e controlo, importantes ao bem-estar. Acumulação de fenómenos que pode acrescentar medo ao stress, impactando o sono, hábitos alimentares, a prática de actividade física ou conduzir a uma menor “propensão para nos relacionarmos com outras pessoas, numa espiral negativa”.
Contraintuitivamente ou não, nestes períodos, reforçar o autocuidado e o cuidado com outras e outros é algo protector. Como pode ser a “possibilidade de conversar com um/a profissional que dá algum sentido ao que a pessoa está a viver” pois, ao contrário do que muitas vezes consideramos, “a ajuda nem sempre necessita de ser algo muito prolongado no tempo”. Apoiemo-nos neste momento difícil, para que a ele melhor possamos resistir e nos adaptar, recordando outros momentos no passado em que já o fizemos e lutando por um futuro de maior possibilidade de bem-estar para todas e todos.