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Por um . Final à Pobreza (Ao redor…; Sábado; 05.07.2022)

Imaginemos por um momento um país onde apenas 3 em cada 100 pessoas têm acesso a alimentos que garantem qualidade e segurança alimentar. O cenário de 97% da população não conseguir cumprir as suas refeições mínimas parece o guião de um livro, uma série ou um filme “apocalíptico” inquietante. Não é. É, antes, a realidade que sustenta que António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, tenha afirmado que o “Afeganistão está por um fio.” Guerra. Um regime autoritário que não respeita direitos humanos básicos. Crise climática e seca extrema. Pobreza e exclusão. Determinantes desta situação que, além do sofrimento que comporta e das suas implicações de curto, médio e longo prazo, é um “barril de pólvora” de consequências imprevisíveis para o Afeganistão, para a região e para o Mundo.

Cada um destes determinantes relaciona-se, directa ou, pelo menos, indirectamente, com todas pessoas, com o seu comportamento e com as suas tomadas de decisão. São, portanto, objecto de uma ciência – a Psicologia – que há mais de um século os estuda e assegura, hoje, um vasto e sólido corpo de investigação que apoia a sua compreensão e que pode e deve contribuir para a sua mitigação e prevenção. Que deve, interna e externamente, afirmar-se enquanto ciência e prática não apenas centrada na doença ou nas perturbações da pessoa, que resultam das adversidades que enfrenta, mas também, e cada vez mais, no contributo decisivo que pode ter na qualidade de vida e no bem-estar no dia-a-dia das pessoas, numa potencial mudança da sociedade, rumo a um quotidiano com menos exposição à adversidade (e mais apoio aquando desta), capaz de prevenir a referida doença. Afirmar, na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos. Mas, também, focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.

Não por acaso a erradicação da pobreza é o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. É-o porque tudo impacta (educação, saúde, trabalho, participação social, …), qual espiral tóxica, alimentando factores de exclusão e dificultando a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens. E é-o porque, apesar de ser um desafio crítico, sem fronteiras e intergeracional, e apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.

Possível, em Portugal, um dos países da União Europeia em que é mais difícil sair desta situação e em que uma em cada cinco pessoas, mesmo considerando apoios sociais, vive hoje em situação de pobreza. Possível, no Mundo, onde vivem hoje 700 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, número que hoje cresce, invertendo uma tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra (não apenas, mas particularmente na Ucrânia).

Curiosamente, ou não tanto, são também mais de uma em cada cinco as pessoas que em Portugal vivem com um problema de saúde mental. A relação entre estes problemas, particularmente a ansiedade, a depressão e o stresse e as situações de exclusão e pobreza é “íntima”, conforme compreendemos e reconhecemos, bastando-nos olhar sensitivamente à nossa volta. Ainda que seja evidente, nem sempre as pessoas e as políticas públicas são responsivas a esta realidade mas, hoje, ao olhar do senso comum, junta-se um forte corpo de investigação que demonstra esta associação cíclica e forte, tal como demonstra como o “efeito túnel” e a escassez mental associada às situações de pobreza, influenciam a capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão.

Imagine-se a tomar decisões relativamente à Escola do seu filho no próximo ano num final de tarde em que não tem, e não sabe como poderá ter, uma refeição para lhe dar de jantar. Imagine e imagine, por ser impossível fazê-lo, o quão duplamente injusto é, na maioria das situações, culparmos as pessoas pelas suas situações de pobreza, as penalizarmos por não tomarem as melhores decisões, planearem a sua vida ou reagirem impulsivamente e as estigmatizarmos. Imagine e imagine o quão triplamente injusto pode ser quando, a esta culpabilização e estigmatização, acresce auto-culpabilização e auto-estigmatização por parte das pessoas por não conseguirem dar-se e dar a outras e outros (dependentes, por exemplo) outras condições, sendo muitas vezes penalizadas por isso por uma sociedade que por vezes não lhes garante condições e oportunidade para sair da situação em que se encontram. Imagine e imagine quando a esta realidade juntamos níveis subsequentes de exclusão, por via de se tratar de pessoas especialmente vulneráveis como (algumas) pessoas migrantes, pessoas com problemas de saúde psicológica ou pessoas com baixas qualificações, para dar apenas três exemplos particularmente frequentes. Imagino, eu agora, que parte das pessoas a quem peço que imagem possam já ter vivido alguma destas situações, possam estar a viver ou que, como todas as outras pessoas, possam vir a vivenciar.

Também porque, não esqueçamos: a pobreza vai além da mera ausência ou escassez de recursos materiais. É uma experiência pela qual todas e todos nós poderemos passar e que condiciona direitos, a possibilidade de desenvolvimento e de nos cumprirmos. Condiciona a saúde psicológica e bem-estar. Por compromisso com estes valores, com a promoção da justiça social e dos Direitos Humanos e em total fidelidade com o objecto e com os princípios do Código Deontológico da profissão, a Ordem dos Psicólogos Portugueses apresentou a campanha “. Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt). Com ela pretendemos – assumindo um papel de ciência e profissão capaz de contribuir para a mudança e coordenando a nossa acção com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 de Portugal – potenciar a aplicação do conhecimento procedente da Psicologia à construção de políticas públicas eficientes e responsivas às pessoas, de respostas integradas e multidimensionais e reforçar os instrumentos disponíveis para o contributo da profissão e das psicólogas e dos psicólogos na área da pobreza e da exclusão.

Na Madalena (Ilho do Pico), na primeira sessão de recolha de contributos com psicólogas e psicólogos para a campanha, uma das participantes deixou esta simples proposta: “Promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”. Que a pobreza, mesmo quando são outras as pessoas a vivenciá-la, a todas e todos impacta, que a sua mitigação e prevenção depende, também, de todas e todos e que a sua diminuição (fim, um dia) garantirá maior possibilidade de bem-estar para todas e todos. Que, no fundo, promover a equidade é, em si e pelo seu impacto potencial, preventivo. Além, claro está, de justo, porque é um direito. Além de, até terapêutico, se quisermos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental que priorizemos o combate à pobreza e à pobreza extrema, considerando todos os seus impactos e os problemas que comporta às pessoas e à sociedade. Que priorizemos e que, nesse combate, usemos a ciência que estuda o comportamento humano e os profissionais que, dia-a-dia, a aplicam nos seus diversos contextos de intervenção, em todo o ciclo de vida das pessoas e na informação às decisões e desenho e mobilização de soluções: as psicólogas e psicólogos. Profissionais felizmente disponíveis em Portugal e motivados para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 05.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/por-um–final-a-pobreza

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Por um . Final à Pobreza.

Sexta-feira. No conjunto de emails por ler tinha um com título: “Por um . Final à Pobreza”. Tratava-se da newsletter da Revista Sábado com chamada para o artigo que escrevi com esse nome além de para notícias e outro artigo de opinião (“Acreditar no Pai Natal”). Simbólica coincidência, seremos sugeridos a pensar. Mas, “apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.”

“Por um . final à pobreza”, 36º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte da afirmação que transcrevo para – contextualizando a realidade do fenómeno no Mundo e em Portugal e a inversão recente da “tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra” – apresentar e discutir o contributo da Psicologia, como ciência e profissão, neste desígnio.

Para tal toca a proximidade dos números da prevalência em Portugal de problemas de saúde psicológica com os de pessoas a viver em situação de pobreza, algo não fruto do acaso. Reflecte as relações (e consequências) destas situações, além do “efeito túnel” e do impacto da escassez na “capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão” para, com exemplos, sublinhar a “espiral tóxica” que a pobreza impõe ao alimentar “factores de exclusão e dificultar a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens”.

Para afirmar, ainda, “na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos”. Uma Psicologia também “focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.”

Uma oportunidade para voltar a abordar a campanha https://finalapobreza.pt e “promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”, conforme a sugestão de uma psicóloga na 1ª sessão de recolha de contributos na Madalena (Ilha do Pico). Psicólogas e psicólogos, “felizmente disponíveis em Portugal e motivadas/os para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.”

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European Congress of Psychology

Cachopo. Ouvi esta palavra, certamente, muitas centenas de vezes. Dirigida a outras pessoas também, mas, muitas vezes, a mim. Um equivalente ao gaiato que, mais tarde, quando me mudei do Ribatejo para o Alentejo, passei a ouvir, agora já só dirigido a outras pessoas, a crianças. Moço, rapaz novo, cachopo. Lembrei-me da palavra a propósito de duas situações que marcarão os meus próximos dias:

1. John Cacioppo, hoje Director do “Center for Cognitive and Social Neuroscience (Centro para a Neurociência Cognitiva e Social) da Universidade de Chicago, em 2007 presidente da “Association for Psychological Science (Ass. para a Ciência Psicológica)”. Nesse ano, numa coluna da publicação da Associação, escreveu um artigo (“Psychology is a Hub Science”) onde reflectiu a partir de análise e mapeamento de dados, sobre o facto da ciência psicológica ser, já em 2007 (hoje mais, diria), uma das/os sete “hub sciences” (eixos de ciência). Também já aí, a Neurologia e a saúde pública surgiam entre dois hubs de ciência – a Psicologia e a Medicina. O mapeamento da ciência, efectuado em 2005 e reflectido nesse artigo por Cacioppo, demonstrava já uma Psicologia, que – ainda que pouco compreendida pela sociedade civil e utilizada, particularmente, pelas decisoras e decisores – tinha contributos decisivos para outras ciências e com elas muito crescia.

2. Porque a Psicologia é uma ciência, apesar de em grande e rápido desenvolvimento, ainda “moça”, jovem, em todo o Mundo mas muito em Portugal. Cresce, desenvolve-se, mas não sem enormes desafios que se lhe colocam. Da necessidade de maior afirmação aos processos de especialização e hiperespecialização. Do reconhecimento de erros cometidos, da reparação e da aprendizagem com os mesmos à necessidade de maior identidade, também entre a ciência e prática e além-fronteiras. Da necessidade de rapidez na evolução da ciência (e prática), num Mundo cada vez mais acelerado, ambíguo, sempre em mudança e com desafios societais de complexidade crescente.

Nos próximos dias, eu e várias psicólogas e psicólogos portugueses, estaremos no European Congress of Psychology (https://www.ecp2022.eu). Num momento de particular complexidade do Mundo, ainda a sair de uma pandemia, a viver uma Guerra em território Europeu, num período de rápido retrocesso em diversos indicadores (desde logo na pobreza) e com a crise climática, das migrações e sócio-económica a sinalizarem-no, juntamo-nos a outros e outras psicólogas Europeias com o propósito de contribuir para uma ciência e uma profissão mais ao serviço das pessoas e da sociedade. Eu, com participações na área da saúde pública (COVID-19) e da crise climática, sob o chapéu do tema do congresso (“Psychology as the Hub science: Opportunities & Responsability | Psicologia como o eixo da ciência: Oportunidades e Responsabilidade”) e com a certeza da responsabilidade e dever de contribuir para uma Psicologia mais sem fronteiras a contribuir para os, também sem fronteiras, complexos desafios societais.

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Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis

“Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis”.

Ontem, dia da 1ª iniciativa de recolha de contributos de psicólogas/os no âmbito da campanha “.Final à Pobreza” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (integrada nos Trilhos da Psicologia; Ilha do Pico), foi publicada uma entrevista minha no Expresso, conduzida e assim titulada pelo Bernardo Mendonça.

Nela reflectimos os contributos da psicologia para o combate à pobreza em Portugal. Desde evidência, parte dela da ciência psicológica, que apoia compressão das causas e consequências das situações de pobreza: da que confirma “a associação forte e cíclica entre problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse e a precariedade, a exclusão e a pobreza”; ao impacto potencial de um “maior conhecimento e literacia de como se processam estes fenómenos” na forma como poderemos minimizar a estigmatização e culpabilização das pessoas associada a situações de pobreza”.

Abordamos, ainda, a situação da psicologia, as iniquidades e dificuldades de acesso da população (mais vulnerável) e a necessidade de que as “palavras (de decisoras/es) passem à concretização”. Discutimos (boas) práticas nesta área e o que pode ser a concretização da ideia de “não deixar ninguém para trás”. Tratamos, ainda, o papel potencial da intervenção psicológica, não apenas nos contextos de saúde, mas também em maior proximidade, das pessoas, nas comunidades, e de quem decide, na informação e apoio às políticas públicas.

Finalmente, distinguimos pobreza extrema de relativa e abordamos exemplos de como a última impõe pressão, potencial sofrimento e stresse a quem a vive – como num/a estudante do ensino superior que tem durante um período de tempo de não acompanhar a atividade letiva, por exemplo, por um problema de saúde, podem ser distintos os níveis em estudantes dependentes de bolsas de estudo, sucessivamente dependentes de resultados escolares, face a estudantes não dependentes de bolsas de estudo e como poderíamos encontrar centenas de situações ao longo da nossa vida em que um erro, uma falha, um azar, têm um impacto completamente distinto entre quem vive numa situação de pobreza, ainda que relativa, face a quem não vive nessa situação. No fundo, como a pobreza é “geradora de desigualdade e de iniquidades, pode condicionar a participação e acesso, o suporte social e a saúde e bem-estar da pessoa.”

Partilho a entrevista… Partilho o pedido de contributo no portal da campanha. Partilho, finalmente, a crença de que Portugal (e o Mundo) podem efectivamente terminar com a pobreza (particularmente a pobreza extrema), que isso depende de todas e de todos e que as psicólogas e os psicólogos podem dar um contributo decisivo.

Por “um país com mais oportunidades de autodeterminação, de florescimento e de bem-estar, logo com mais saúde mental… Por um país, portanto, com potencial de maior de equidade e coesão social e, também por isso, menos desigual.”

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Cara/o colega, qual é o seu contributo enquanto psicóloga/o para um “. Final à Pobreza”? [Mailing OPP; 24.06.2022]

Um oceano, uma falésia ou uma montanha. Olhamos, contemplamos e sentimo-nos pequenas e pequenos. A guerra, a crise climática ou a pobreza. Pensamos, vivemo-las, por vezes, e sentimo-nos pequenas e pequenos. Não raras vezes, perante desafios societais complexos, quais oceanos, falésias ou montanhas de problemas, sentimo-nos desincentivadas e desincentivados por não acreditarmos terem resolução possível ou por não nos percebermos capazes de contribuir para a sua resolução. Porém, assim não creio ter de ser. Não apenas acredito que têm resolução possível, como acredito no papel imprescindível da ciência psicológica e no contributo fundamental de cada psicóloga e psicólogo, com a sua prática profissional e de cidadania.

Penso-o assim no que se refere à erradicação da pobreza e, particularmente, da pobreza extrema. Pobreza que tudo impacta. A possibilidade de bem-estar, desde logo. A dignidade, quando limita ou impossibilita o acesso a condições e necessidades (básicas) de vida. Os direitos humanos, quando restringe ou impossibilita a pessoa, entre outros, de se cumprir. É, por isso, um importantíssimo determinante da saúde e, como cada vez mais investigação comprova, pode ser causa, mas também consequência, de problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse, que se associam em ciclo com as situações de pobreza. Acresce que a pobreza tem também uma forte relação com as iniquidades e a exclusão (e a perpetuação dos seus ciclos), além de interferir e condicionar (pelo “efeito túnel” e pela escassez que impõe nos recursos afectivos e cognitivos) a capacidade de autocontrolo, planeamento e tomada de decisão das pessoas e de poder conduzir a processos de estigmatização e culpabilização, num e noutro caso também das próprias pessoas sobre si próprias. Aliás, diria, que se há algo que toda e qualquer pessoa, qualquer que seja o seu papel, formação ou circunstância, pode rapidamente fazer para apoiar a solução deste problema é deixar de culpar, e contribuir para que outras e outros deixem de culpar as pessoas pela sua situação de pobreza.

Porque hoje sabemos muito mais sobre as múltiplas causas destas situações e sobre os seus múltiplos impactos. Porque hoje a ciência psicológica aporta contributos a esta compreensão e, particularmente, à forma como poderemos mitigar e prevenir estes problemas. Porque a erradicação da pobreza é, não por acaso, o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável e que, por via da pandemia por COVID-19 e da Guerra que hoje se vive na Ucrânia, sofreu recentemente um retrocesso significativo no caminho percorrido nas últimas décadas. E, porque a sociedade espera de nós, enquanto profissão, um contributo decisivo na estratégia nacional de combate à pobreza em curso – a nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses lançará publicamente amanhã a campanha “. Final à Pobreza”.

Uma campanha que pretende, através do desenvolvimento e promoção de um conjunto de iniciativas e recursos, disponibilizados neste portal, promover um debate amplo e participado com as psicólogas e os psicólogos no sentido da recolha de contributos (também através deste formulário que convido a preencher) para o desenvolvimento de um plano estratégico de acção nesta matéria assente em quatro dimensões:

a)     Sociedade civil: promovendo literacia sobre a pobreza nas suas causas, consequências e possibilidades de erradicação, bem como sobre o potencial contributo da psicologia;

b)    Decisoras e decisores: contribuindo com conhecimento e evidência da ciência psicológica para o desenho e para a efectividade de políticas e intervenções nesta área;

c)     Profissão: estimulando e apoiando com recursos e ferramentas a prática profissional, a formação inicial e contínua e a investigação científica neste âmbito;

d)    Cooperação nacional e internacional: afirmando e promovendo redes colaborativas de reforço do contributo da psicologia para a erradicação da pobreza em Portugal e no Mundo.

Investigando, advogando e praticando a psicologia, nós, psicólogas e psicólogos, fazemos do princípio A do nosso Código Deontológico (“Respeito pela dignidade e direitos da pessoa”) razão e motivo maior da ciência e profissão que nos une. Pela dignidade, pelos direitos (humanos) e pela possibilidade de autodeterminação das pessoas, só possíveis numa sociedade de equidade, bem-estar e coesão social. Contem comigo e connosco, conforme conto e contamos convosco para, juntas e juntos e com um chão e um tecto comum, caminharmos nesse sentido, também pelo nosso contributo para um “. Final à Pobreza”.

 

Mailing Ordem dos Psicólogos Portugueses [23.06.2022]

Tiago Pereira

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Felicidade e Bem-estar…

Para que serve o relatório anual da felicidade no Mundo? Um ranking de países, promovido desde 2011 pelas United Nations a propósito da resolução – Felicidade: Rumo a uma abordagem holística para o seu desenvolvimento. Ranking que, mencionando a felicidade (emoção associada ao cumprimento de um objectivo ou a um acontecimento percepcionado como positivo, logo temporalmente definida), procura classificar o bem-estar subjectivo de cada país, enquanto medida mais estável, mas nem por isso menos complexa de mensurar.

Serve, a meu ver, 3 propósitos. Reflectir sobre que dimensões, considerando a melhor evidência científica disponível, surgem mais correlacionadas com o bem-estar subjectivo – aqui são usados o PIB, suporte social, esperança média de vida, possibilidade de escolhas livres, generosidade e a confiança nas instituições/percepção de corrupção. Para, mais do que nos (país) compararmos com outros, perceber onde estamos ou não a evoluir e como o podemos fazer. Serve o propósito de falarmos sobre o tema e… Falar é importante.

Foi o que a Judite de Sousa e eu fizemos no Jornal da CNN Portugal, conversa que partilho. Sobre o relatório de 2022. Sobre a Finlândia ser, pelo 5º ano consecutivo, o país 1º classificado apesar de estar fora do top10 no PIB e na esperança média de vida (onde está abaixo de Portugal), mas se destacar no suporte social, possibilidade de escolhas livres e confiança nas instituições/não percepção de corrupção. Sobre a 56ª posição de Portugal, penalizado pela baixa confiança nas instituições/elevada percepção de corrupção e por uma, a meu ver, frágil avaliação do indicador generosidade (valor doado a uma instituição no mês anterior), onde estamos em 124º. Isto, apesar de resultados relevantes nas restantes 4 dimensões e do país ter crescido no indicador total todos os anos desde 2011 e recuperado significativamente posições no ranking nos últimos anos.

Falamos, ainda, das expectativas das pessoas quando procuram (e conseguem, considerano os obstáculos e iniquidades persistentes no acesso) psicólogas/os e do que considero serem 5 pontos essenciais à nossa evolução: combate feroz à pobreza e exclusão, prevenindo impactos da escassez na (im)possibilidade de bem-estar; aprofundar a aposta na educação e promoção de competências sócio-emocionais; maior apoio quando uma pessoa falha, erra ou tem um acontecimento negativo imprevisto, permitindo rede e que ninguém fique para trás; promover a confiança nas pessoas e instituições; caminharmos de maior competitividade para maior cooperação e suporte social, considerando menos os rankings (Finlândia estaria nos últimos lugares num potencial ranking de rankings).

Uma conversa que tocou a importância e centralidade do bem-estar e o papel que pode desempenhar no presente e futuro do país, como aqui defendi.

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Que Portugal?

Que Portugal? Quem me ouve e/ou lê sabe que me (pre)ocupa uma inquietante ligação entre a desconfiança, o autoritarismo e a aculturação.

Como hoje, no Mundo mas também cada vez mais em Portugal, sem pudor, se exploram casos e pessoas, instigando o medo e/ou o ódio, polarizando para, de forma mais eficaz, gerar e propagar desconfiança, fragilizando outras pessoas e instituições com fins políticos.

Fins que começam e acabam no desrespeito e na ameaça aos valores da liberdade, da equidade, da democracia e do bem-comum e que conduzem, hoje, também a um interromper num caminho de maior democratização dos sistemas de governo no Mundo com o regresso ao autoritarismo tácito, que acresce ao conjunto de manifestações da progressão do autoritarismo implícito.

Mas não termina aqui. Este “tudo posso” e esta ausência de “limites” e de “respeito e consideração pelas e pelos outros”, sejam pessoas ou países, traz a necessidade de mais e mais, de crescer, expandir, aumentar e de aculturar tudo e todos e todas. Traz o desejo da “América novamente grande”, da “Rússia se reerguer” ou da “China Global 2049”. Traz as significativas implicações destas ambições para a Paz, para a possibilidade de bem-estar no Mundo e para uma ideia de cooperação e partilha entre países pelo planeta e pelos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Mas, que Portugal neste Mundo? Um Portugal de, inexistentes mas persistentes, “raças”, na crença e no sentir de algumas pessoas? Um Portugal que nada deve e tudo lhe é devido? Um Portugal que “culpa” as pessoas pelas suas circunstâncias, por exemplo de pobreza? Um Portugal em que cada pessoa julga e desconfia de outra pessoa e com “medo de existir”?

Não. Não. Não. Espero e luto para que não. Antes, por um Portugal que, sensível às vulnerabilidades e crente no potencial das suas pessoas, não tenha o “medo de existir” que o seu José Gil tão bem define. Um Portugal a inscrever todo o seu passado, na celebração e na reparação, para compreender e actuar no presente e se projectar no futuro. Um Portugal na antítese de uma ideia de grandeza que, em bom rigor, vive da desconfiança, do autoritarismo e da tentativa de aculturação de tudo e de todas e todos.

Um Portugal de equidade, inclusivo, aberto a si e ao Mundo… Um Portugal, qual, “grito que vem de longe e ainda não se calou” que Saramago descreveu na sua “Viagem a Portugal”.

Um Portugal com passado, de presente e para o futuro. Um Portugal, também, farol do Mundo.

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. final à pobreza

Imagine que esta manhã não tinha qualquer roupa lavada para vestir. Como seria? Que impacto teria no seu dia? Quão menos segura/o ou confiante se sentiria? Ou imagine que não tinha como se deslocar onde precisasse ou quisesse ir, que não podia aceder a um serviço de saúde de que necessita ou ter condições de minimamente aquecer-se em dias frios… Ou, até, que estava a dias do aniversário do seu filho e não tinha como assinalar a data, fazendo uma pequena festa de aniversário ou sequer comprando um pequeno presente.

Estas são situações do quotidiano de muitas e muitas pessoas Mundo fora e também em Portugal. Situações muito mais próximas de todas e todos nós do que por vezes parece ou, simplesmente, do que gostaríamos e que nos lembram que a pobreza não se restringe à gravíssima pobreza extrema. Nos EUA, com indicadores não particularmente distantes dos de Portugal, 6 em cada 10 pessoas viverão pelo menos 1 ano da sua vida em situação de pobreza relativa. Mais de metade das pessoas, realidade certamente próxima da portuguesa e autoexplicativa do porquê da erradicação da pobreza ser o 1º dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Este foi o mote para uma conversa com a Carla Rocha, para a rúbrica Quarto do Fundo, parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que partilho. Conversa que versa o “. final à pobreza”, projecto da OPP que será muito brevemente lançado e que visa a definição de uma estratégia e a implementação de um plano de acção para um mais efectivo contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos para um ponto final à pobreza. Para um ponto final a um dos principais determinantes da (ausência de) saúde e, conforme hoje abundante e robusta evidência científica demonstra, para o mitigar da circularidade existente entre problemas de saúde psicológica (particularmente stresse, ansiedade e depressão) e situações de precariedade, exclusão e pobreza.

Falamos do porquê neste momento, ainda numa pandemia e quando se desenvolve uma absurda guerra, situações que invertem hoje um caminho de décadas de melhorias dos indicadores neste âmbito. Falamos do porquê do contributo da psicologia, pela dignidade, direitos humanos, equidade e coesão social e de como a compreensão do impacto das situações de pobreza no planeamento e tomada de decisão e da (auto)estigmatização e culpa associadas, são fundamentais às intervenções neste âmbito.

Falamos, ainda, das quatro dimensão e âmbitos da estratégia e do futuro plano de acção, com medidas e acções dirigidas à profissão; sociedade civil; decisoras e decisores; e cooperação nacional e internacional. Falamos, finalmente, no quanto creio possível um país e um Mundo sem pobreza e no papel que a mobilização da profissão e das psicólogas e dos psicólogos pode assumir enquanto contributo fundamental para um ponto final à pobreza.

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Um robalo… Um simples robalo.

Um robalo… Delicioso, é certo, mas num local simples, construído pela mão e sonho de quem pesca o peixe que ali se vende. Comemos ontem um robalo, delicioso, num simples (mas bom, como tantos) restaurante deste nosso país com 1860 km de costa (continente e RA dos Açores e Madeira). Porém, comemos o que, infortunadamente, tantas famílias em Portugal não poderiam ter comido ou que para o fazerem teriam que fazer um conjunto de escolhas exigentes e difíceis. Um país onde muitas e muitos não conseguem comer um robalo num restaurante simples. Não podem ir a um restaurante simples. Um país onde a pobreza (e exclusão) afectam, ainda, uma percentagem muito significativa de pessoas. Onde 1,9 milhões de pessoas viviam em 2020 em risco de pobreza, 18,4% da população face a 16,2% em 2019, aumento em parte explicável por uma pandemia que continuou em 2021 e, embora noutro grau, se cruza hoje com a Guerra que vivemos.

Perda, incerteza, imprevisibilidade a que se soma perda, incerteza e mais imprevisibilidade. Uma taxa elevadíssima de risco de pobreza que a todas e todos deve confrontar e mobilizar; outras vulnerabilidades económicas e sociais; problemas de saúde física com detecção e intervenção precoce diminuta nos últimos anos; problemas de saúde psicológica mais presentes, frequentes e graves; eis como chegamos à crise de inflação e que, embora ainda não previsível, poderá a médio prazo transformar-se numa inquietante estagflação – conjugação da inflação com (a embora para já não previsível) estagnação económica.

“O dinheiro não traz felicidade”, costumamos ouvir, senão dizer. Parece, efectivamente e de acordo com a ciência disponível, não trazer bem-estar mas (e este mas é muito importante) apenas a partir de um valor de rendimento disponível das pessoas e das famílias bastante acima do limiar de pobreza. Antes desse valor, traz. Bem-estar e saúde, incluindo, naturalmente, saúde psicológica. Porque, viver em situação de pobreza (de escassez) ou de risco de pobreza (risco de escassez), acresce significativamente o risco de doença, de problemas de saúde psicológica, de perda de anos de vida com qualidade. Que, por sua vez, acresce significativamente risco de pobreza, criando um ciclo nada virtuoso e um dos principais e mais complexos desafios societais contemporâneos.

O trabalho “Impacto da pobreza na saúde” da jornalista Rita Caetano (SABER VIVER; Março de 2022) refecte este ciclo. Nele afirmo que “diminuir os determinantes das situações de pobreza é promover a saúde mental e vice-versa”. Nele afirmo que a pobreza condiciona a “possibilidade de desenvolvimento pleno da pessoa, de bem-estar e até em algumas situações da sua dignidade”. Assim considero, conforme considero que, sendo difícil e complexo, temos no país, condições, competências e recursos que permitem uma acção determinada no combate à pobreza e à exclusão. Conforme considero, ainda, que é tempo desta ser prioridade absoluta do país, porque tudo e todas e todos impacta. O presente e o futuro.

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Natal em Isolamento…

Da sequenciação da nova variante do SARS-CoV-2 à morte de Desmond Tutu, passando pela fuga de um cidadão português, a África do Sul tem estado em foco no nosso país. Foi assim neste Natal, com o agravamento da incidência e transmissibilidade atribuído, em parte, à variante Ómicron e com muitas pessoas e famílias a verem alterados os seus planos e a não cumprirem a expectativa criada.

A 24.12 conversei com a Marta Atalaya (@SICNoticias) sobre o significado de viver este momento numa situação de isolamento. Oportunidade para reflectir sobre o cansaço das pessoas face a tantos meses de uma incerteza que desafia a capacidade (grande, mas não ilimitada) de adaptação das pessoas, particularmente das expostas a maiores vulnerabilidades. Oportunidade para procurar estimular a naturalização possível do momento, particularmente face a tantas pessoas nossas próximas a viver uma situação semelhante em Portugal ou em países com quem temos fortes relações (a França e o Reino Unido por exemplo que dia após dia têm ultrapassado máximos de casos diários de infecções). Oportunidade para recordarmos quem, ano após ano, por outros motivos, vivencia o seu Natal de forma mais isolada e sofre com a solidão e/ou exclusão, problemas gravíssimos de saúde pública que temos entre nós e com os quais nos devemos sintonizar (e sobre eles actuar) 365 por ano, todos os anos.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E lembremos a importância de garantirmos o controlo, segurança e a previsibilidade (possíveis) em diversos aspectos da nossa vida, como a relação/conexão com outras e outros. Podemos fazê-lo promovendo novas formas de encontro, como é exemplo uma caminhada com alguém de quem gostamos, realizando actividade física e contactando com a natureza, factores importantes ao nosso autocuidado. Podemos fazê-lo promovendo novos momentos de celebração, intencionalizando a comemoração não apenas de datas mas também de realizações (um novo projecto/trabalho, o fim da pandemia), aumentando a nossa percepção de controlo e, pela partilha, o sentimento de pertença.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E pensemos que um ano de transição, conforme o apelo do Sr. Presidente da República para 2022, depende de nos projectarmos no futuro e projectarmo-nos no futuro da nossa saúde mental. Na conversa discuto como os problemas de saúde psicológica nos encurralam a um presente amarrado pelo olhar constante ao passado. Como o futuro depende de apoiar pessoas em sofrimento e com problemas de saúde psicológica, nomeadamente com programas específicos de prevenção e intervenção na ansiedade e depressão nos cuidados de saúde primários (próximos das pessoas e contingentes aos seus problemas), junto das 3 em cada 10 pessoas que se estima que dessa intervenção beneficiariam.

“A minha humanidade está ligada à sua pois só juntos podemos ser humanos”, disse D. Tutu. Verdade ontem, hoje e em 2022. Verdade base da nossa possibilidade de vencermos esta pandemia e concretizarmos esta fundamental transição.