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COVID-19 Pobreza e Desigualdade

Pela voz das crianças…

Há umas horas recebi uma notícia que senti como o “céu a cair-me sobre a cabeça” e, logo em simultâneo, a força de um amparo, apoio e de uma partilha capazes de o começar “a empurrar de volta ao seu lugar”.

Noite dentro, pensei nesta imagem e neste receio que noutras noite, já há muitos anos, lia contado nas histórias de um conjunto de habitantes de uma irredutível aldeia de Gauleses. Um receio, permanente, de algo pensado como não reparável. Diferente, tão diferente do que senti pela não-constância, pelo suporte e pelos recursos que tenho para lidar com a situação. Igual, tão igual ao que sentem pessoas em situação de pobreza ou exclusão prolongadas, isoladas ou com determinadas vulnerabilidades. Pessoas “cujo céu lhes caí sobre a cabeça” a cada dia e sem suporte ou recursos “para o empurrarem de volta ao seu lugar”.

No passado dia 10.12, no âmbito do webinar promovido pela EAPN – European Anti Poverty Network Portugal (A pandemia pela voz das crianças) participei num debate que discutiu os resultados preliminares do estudo com o mesmo nome conduzido pela Cátia Santos, Elizabeth Santos, Fátima Veiga, Paula Cruz, com a supervisão científica da Teresa Silva Dias. Estudo que creio relevantíssimo – também porque “dá voz às crianças”, às e os invisíveis da pandemia, ao partir das suas narrativas e dos seus discursos – na compreensão do agravamento das dificuldades e problemas de saúde psicológica, física, socialização, alimentação, aprendizagem ou do maior risco de abuso e violência, isolamento, ausência de tratamentos regulares e do aprofundamentos e cristalização de situações de pobreza e exclusão social. Tudo vivido, tudo experienciado, tudo, por vezes com tanta simplicidade mas tão profundamente, contado.

Na interessante discussão, com a Beatriz Imperatori, o Manuel Sarmento e a Rosário Farmhouse, falamos de protecção das crianças, particularmente as com maiores vulnerabilidades, do seu bem-estar, da necessidade de reforçar a sua participação e de promover a equidade. Falamos de família, de cuidadoras/es e de que Escola temos. Falamos do que a pandemia revelou mas também do que potencialmente informou para o futuro e para as políticas públicas de futuro.

Astérix – nome que não por acaso deriva do grego “pequena estrela” – fazia das relações, não apenas com Obélix, da sua confiança e da poção mágica que consigo transportava, forças para enfrentar e superar os desafios e se adaptar às adversidades, festejando, partilhando e celebrando as conquistas com toda a comunidade da sua aldeia nos banquetes de final de história.

Tomemos este exemplo e invistamos, hoje, nas relações, no desenvolvimento de competências, da segurança e da confiança, de instrumentos e recursos externos (apoios) de proximidade e contingentes, quando necessários. Invistamos e permitamos mais condições a mais pessoas (a todas as pessoas, potencialmente) para melhor lidarem com as suas (más) notícias, dificuldades e adversidades.

Para as “vencerem” e para o partilharem e celebrarem.

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Ao redor... (Revista Sábado) Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância (Ao redor…; Sábado; 19.10.2021)

Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, com um simbolismo próprio, este ano reforçado pelo facto de o tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem em situação de pobreza”. Por vezes, extrema, acrescento. Como acrescento que poderia o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza ter sido também ele dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas não pobres têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

Uma semana e um ciclo muito próprio. Ciclo sobre o qual já reflecti nesta rubrica, porquanto a pobreza e a exclusão, também dela resultante, têm uma forte e cíclica associação com dificuldades e problemas de saúde mental ou psicológica, como são a depressão, a ansiedade e o stresse. Ciclo sobre o qual é urgente agirmos, porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, vivenciaremos ou poderemos vivenciar dificuldades ou problemas de saúde psicológica ou por eles sermos impactados. Porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, ficaremos ou poderemos ficar expostos a alguma precariedade, vulnerabilidade ou exclusão ou por elas ser impactados. Porque este ciclo significa, sobretudo, o sofrimento de muitas pessoas e comunidades, perda de anos de vida com qualidade e perdas económicas significativas em Portugal, na União Europeia (4% a 5% do PIB Europeu, segundo dados recentes) e no Mundo.

 

Daqui resultam três inevitabilidades. A de que não poderá existir um avanço significativo ao nível da saúde mental da população portuguesa se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante. A de que não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro. Finalmente, a de que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.

 

Daqui resulta também a necessidade, não menos urgente, de sermos congruentes com quatro dimensões conceptuais nestas áreas que podem informar decisivamente as políticas e intervenções neste âmbito. Que todas e todos nos encontramos no espaço que existe entre os polos doença e saúde mental, deambulando mais para próximo de um ou outro polo, consoante mudam certos determinantes da nossa vida e vivenciamos e nos adaptamos aos seus acontecimentos, existindo espaço de oportunidade para políticas de prevenção e promoção que considerem este contínuo. Ainda, que em toda a nossa vida e, particularmente, quando expostos a situações de maior vulnerabilidade como a pobreza e exclusão ou como a doença mental, a dignidade é fundamental e que apenas podem existir respostas, numa e noutra área, assentes na dignidade da pessoa, em ferramentas e intervenções com base em evidência científica que suportem a recuperação e a mudança e no desenvolvimento de políticas e respostas integradas, humanistas, qualificadas, visando a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância – quando “bem”, aquando de potenciais dificuldades ou problemas ou em processo de recuperação, apoio ou intervenção.

 

Resulta, também, que o indicador bem-estar percebido pelas pessoas e pelas comunidades deva ser um elemento central na definição de políticas (sociais, de emprego ou de saúde, para referir apenas três exemplos), vector-chave no desenho das mesmas e objecto de avaliação na observação dos seus impactos. Finalmente, que, nem as questões da pobreza e da exclusão, nem as relativas à doença mental, são problemas iminentemente individuais, como muitas e muitos querem fazer supor, antes a sociedade, a sua complexidade e volatilidade e toda a incerteza associada aos desafios actuais e à precariedade de algumas situações, desempenham um papel fundamental nestes problemas, não sendo os mesmos da responsabilidade de cada pessoa ou resolvidos exclusivamente por cada pessoa, e necessário que previnamos que a recente saliência da importância do autocuidado ou da resiliência não resulte em processos de dupla culpabilização decorrente da responsabilização das pessoas que sofrem com estas dificuldades pelas próprias dificuldades.

 

Considerando este ciclo, as inevitabilidades referidas e em congruência quer com o quadro conceptual acima, quer com o papel que interpretamos como essencial de uma associação pública profissional (por estes dias bastante discutido), a Ordem dos Psicólogos Portugueses desenvolverá no próximo ano um amplo debate que conduzirá à definição de uma estratégia de promoção do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos portugueses para a prevenção, mitigação e erradicação dos fenómenos de pobreza e de exclusão. A estratégia viverá de acções e contributos dirigidos à própria profissão, à sociedade civil, aos e às decisoras e a instâncias internacionais e procurará motivar um relevante e mobilizador questionamento: qual o meu papel e qual o meu contributo junto dos fenómenos da pobreza, da exclusão e da desigualdade?

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá, intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental, contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. Mudando o Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel ou da Micaela. Deles, das suas filhas e filhos, amigos e amigas, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

Mafalda, hoje.

Uma menina, cara redonda e cabelo escuro com um laço, pergunta ao pai se é um bom pai, se é o melhor pai do Mundo. Há 57 anos, um jornal Argentino publicava as primeiras tiras (esta e outra em que parte um bico de um lápis enquanto desenha uma casa e desabafa que “estas coisas acontecem apenas neste país [Argentina]) de uma inquieta e inconformada Mafalda. Sabemos a história que se lhe seguiu, sendo hoje uma das figuras mais reconhecidas globalmente da Banda Desenhada e deixando-nos (Quino) muitas tiras que ainda nos “inquietam e “jogam” com o nosso inconformismo. Partilho uma que o faz comigo.

A reflexão sobre as “raízes” do que somos, quem somos e dos nossos problemas é algo muito importante e que creio que todas e todos fazemos quando à nossa volta temos alguém que nos é querido em sofrimento, particularmente quando este sofrimento é emocional, psicológico. Por múltiplas razões que vão da ainda baixa literacia em saúde psicológica (que leva ao não reconhecimento ou aceitação do problema e, depois, à assunção da impossibilidade de recuperação – “eu sou assim, sempre fui assim, sempre serei assim”) a determinantes sociais (isolamento, solidão, precariedade, exclusão, …), o importante não se torna urgente. E esta realidade, quando aliada, à ainda gritante falta de acessibilidade e equidade na acessibilidade a ajuda profissional continuada e de qualidade neste âmbito, contribui para a existência à nossa volta tantas pessoas (e famílias e amigas e amigos que as rodeiam) que, com a ajuda certa, no momento certo, não sofreriam o muito que hoje sofrem.

Esta realidade acaba por criar uma nova urgência nesta área, tamanha que é a prevalência hoje de situações de pessoas a necessitarem de apoio especializado que faz com que a discussão do importante – o que podemos e devemos fazer e investir a montante – se faça mas acabe por pouco produzir e por resultar em insuficientes respostas. Ocupamo-nos e ocupamos os nossos parcos recursos a reparar as fugas de gás, algumas fugas de gás. Procuramos pouco as suas raízes.

É neste contexto que o debate em torno da utilização de tecnologia e big data na área da saúde mental se vem fazendo numa parte pequena do Mundo e chegando a Portugal (parte pequena porque uma grande parte não pode ou ousa sequer discutir a saúde e a possibilidade de bem-estar das suas populações – não o esqueçamos nunca!), desde a Apple que com a Biogen e a UCLA está a procurar desenvolver um algoritmo que permita que os aparelhos que transportamos nos “diagnostiquem” aos biliões de dólares que Escolas, particularmente Americanas, investem hoje em softwares (Gaggle, …) que monitorizam as actividades online de jovens estudantes em busca de indicadores que possam aparentar sofrimento ou perigo (de fazerem mal a si próprios, por exemplo).

Oxalá a Mafalda venha a estar errada no seu perentório “como sempre: o urgente não deixa tempo para o importante”. Por estes dias, por aqui e nestes problemas em particular creio que (ainda) não está.

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

20 anos de CRESCER

Iniciei a minha formação em Psicologia no primeiro ano do novo milénio. Nesse 2001 um conjunto de profissionais da área da intervenção comunitária (parte hoje colegas), criava a “Crescer na Maior”, hoje @CRESCER. Associação que, ao longo destes 20 anos, cresceu da intervenção com crianças/jovens numa área geográfica reduzida para um conjunto amplo de geografias e de situações de vulnerabilidade: prevenção, redução de riscos e minimização de danos em consumidoras e consumidores de substâncias psicoactivas; prevenção do abandono escolar precoce, suporte a percursos de re(inserção) do mercado de trabalho e promoção da empregabilidade; apoio à inclusão de pessoas em condição crónica ou em situação de sem abrigo; apoio à inclusão social e comunitária de refugiadas e de refugiados; e apoio a pessoas em situação de maior vulnerabilidade (que acumulam várias das condições anteriores).

20 anos a crescer e a ousar cruzar conhecimentos e experiência que dia-a-dia a equipa adquiriu no trabalho e na relação com as pessoas que beneficiavam da sua intervenção, com a melhor evidência científica, também da ciência psicológica, suportando projectos inovadores: das equipas de rua (“É uma rua”), à metodologia housing first (“É uma casa”), aos Marhaba, “É um restaurante” e “É uma mesa”.

20 anos de resiliência numa área (intervenção comunitária) onde todas e todos sabemos (eu de experiência própria) cujos resultados não estão à distância de um estalar de dedos. Numa área onde persiste uma visão, muitas vezes das autoridades e de decisoras/es, tendente a que as pessoas que nela trabalham não necessitam de “muitas condições” porque ainda muito associada às importantes (mas insuficientes, não continuadas e muitas vezes pouco conectadas com a evidência científica) intervenções voluntárias. Numa área em que precisávamos de um Deus Grego que não o Chronos ou o Kairós para descrever o “tempo da intervenção comunitária” e os hiatos entre a necessidade do apoio, a sua disponibilidade e a sua efectivação, com tudo o que isso impacta em perda no resultado potencial da intervenção e, principalmente, em sofrimento e exclusão das pessoas.

20 anos de empenho e compromisso e de, no quadro de “frustrações” e de desafios muito complexos, existir sempre um sorriso e confiança na outra ou o outro, seja ela ou ele quem for. Um sorriso, um confiar e um braço que procura ligar, quem assim o deseja e no respeito mais integro dos seus direitos humanos (e da sua história e experiência), a uma relação, grupo e comunidade. Um braço que lá está também por cada um ou uma de nós e para cada uma ou um de nós e que representa fielmente a promoção da coesão social e da autodeterminação e do bem-estar de todas e todos – afinal, o que me fez e faz ser psicólogo.

20 anos onde a sua zona de conforto, conforme a campanha que lançaram, sempre foi “abaixo do radar (mediático)” mas em que o desconfortável foi (é e será) “não poder ajudar”. Conheçam. Envolvam-se. Muito obrigado, Crescer.

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

Balada da Escassez

O termo “balada” remete no binómio música-literatura para uma música ou canção com forte carga sentimental e para uma forma narrativa poética de lendas. A “Balada do lado sem luz”, composta por Gilberto Gil e interpretada por Maria Bethânia (que vos convido a ouvir) é um excelente exemplo de uma balada de nome balada que o sintetiza na metáfora (“lado sem luz” vs “lado com luz”) e na mensagem de que devem as pessoas do lado sem luz, “subterrâneos gelados do eterno esperar (…) navegar, descobrir outro dia, outro sol”.

“Balada da Escassez”, 12º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) parte da ideia de balada “à boleia” dos filmes Urso de Ouro (longa e curta-metragem) no Festival de Berlim de 2016 – Fogo no Mar, Gianfranco Rosi (Itália), sobre as interfaces e a vivência das e dos habitantes da ilha de Lampedusa e das e dos migrantes que chegam à ilha, em condições de enorme vulnerabilidade, através de travessias do Mediterrâneo; Balada de um Batráquio; Leonor Teles (Portugal), sobre um fenómeno que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, acerca da comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo.

O artigo (que vos convido a ler) reflecte sobre o que une as e os migrantes que “arriscam” a travessia do mediterrâneo – a escassez – para procurar pensar as suas implicações: impelir a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida; ocupar a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa condicionando significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento.

Aborda também a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.

Procura, ainda, pensar a exclusão e sobre como também a ciência, também a psicológica, tem afirmado o seu papel no ciclo de “desaproximação” e de polarização de grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.

Termina reflectindo sobre o momento que vivemos – e como também ele nos fixa ao presente e exponencia desigualdades e o potencial global de pobreza – e sobre como é fulcral responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se a confiança nas pessoas e potenciando a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica.

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade Psicologia

Odemira…

A 22.10.2014 deixamos o concelho de Odemira onde vivêramos os anos anteriores. Nesse dia nasceria uma das filhas de uma amiga e um amigo que são do que melhor guardamos desse período e viajaríamos no “popular” IC1 com o nosso 1º filho a 7 semanas de nascer. A 24.04.2021, a 7 semanas da data prevista para o nascimento do nosso 2º filho, Odemira era o concelho com maior taxa de incidência de casos COVID-19 e sabemos o que se seguiu.

“Pareto, Penumbras e Prevenção – 3 “P” para Odemira”, 7º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) centra-se no facto de no “pára-arranca de casos” o país se ter confrontado com o problema social complexo que Odemira vivencia.

Nele proponho 3 “P”: Pareto – perseguir uma economia de bem-estar assente na eficiência de Pareto, visando a melhor alocação de recursos possível e um sistema que não permita que “uma das partes melhore” se tal implicar que “outra piore”; Penumbras – o seu crescimento entre grupos (de interacções e das sombras delas resultantes), diminuindo preconceitos e potenciando a empatia; Prevenção – da desumanização, adaptação e dessensibilização, fadiga de compaixão e “normalização” do que não é nem pode ser o esperado ou sequer o possível.

Singelo contributo sobre tão complexo e impactante desafio de um território tão significativo para mim

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

O bem-estar como bússola…

“A bússola europeia não pode ser o PIB, tem de ser o bem-estar dos cidadãos”.

O bem-estar… Surpreendente – porque significativa, se séria e consequente – afirmação do presidente do Conselho Europeu (Charles Michel) em entrevista que antecede a Cimeira Social Europeia que começa a esta hora do Porto e que visa um novo compromisso e impulso à concretização do Pilar Europeu dos Direitos Sociais.

Cimeira que se inicia precisamente 24h depois da minha participação numa oficina da EAPN – European Anti Poverty Network com o estimulante título de “Saúde Mental como Direito Universal”. Nela reflecti a propósito da dictomia universalismo vs relativismo, reforçando o sistemático universalismo da saúde mental ou psicológica na saúde (por oposição ao relativismo do direito à saúde enquanto direito à saúde física e à consideração da saúde mental apenas em períodos de crise como o que vivemos) e a centralidade do conceito na possibilidade de bem-estar e na coesão social.

Também por isso – se sério e consequente o pressuposto #timetodeliver da Cimeira – é fulcral que o 16º dos 20 Direitos Sociais (Saúde), incluindo a saúde mental ou psicológica, seja considerado universal e nuclear na resiliência pessoal e social e na sua dimensão preventiva, como bem referido na carta dos direitos sociais.

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade Psicologia

Escola…

Li com o meu filho “O que vês dessa janela” – sobre a mudança da “antiga (aldeia da) Luz” para a “nova Luz”. Nele conta-se que, pós-mudança pela ausência de referência, os gatos se perdiam sendo encontrados nos quintais das suas antigas casas da antiga Luz.

A pandemia tocou os nossos referenciais. Muito à nossa volta mudou com múltiplas consequências. Os lugares, o trabalho e a educação que, pelo 2º ano terá ensino não presencial, um “mal menor” com impactos duradouros/significativos nas crianças/jovens (particularmente nas com maiores vulnerabilidades) e no país. Com a Escola “fechada” perdem-se referências. Perde-se qualidade de ensino e apoio especializado. Perde-se a oportunidade de alunas/os verem, aprenderem e empatizarem com outras/os. De partilharem dificuldades, capacidades e formas de resolver problemas. Perde-se diversidade de experiências e espaço de expressão emocional.

No livro diz-se que as pessoas atribuíam o comportamento dos gatos ao facto da “alma da Luz” ter ficado na antiga aldeia. Para que não nos percamos, façamos (cidadãos, decisores e media) tudo o que está ao nosso alcance para rapidamente recuperarmos referências.

Recuperarmos a Escola enquanto espaço de relação e encontro, de promoção de competências educativas, sócio-emocionais e de saúde psicológica

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

“A postura intelectual da impotência é sempre uma boa desculpa”.

Vivemos um tempo propicio a distopias. Tempo de pandemia, de insegurança e imprevisibilidade. Tempo que nos impacta e que transforma a forma como nos comportamos e relacionamos. Tempo que nos puxa para trás, com força.

Wallace-Wells no seu “A terra inabitável” confronta-nos com um Mundo muito diferente, não pela pandemia, mas pela crise climática com consequências potencialmente catastróficas, “bíblicas”, que também vivemos. Fê-lo enquanto afirma que “a postura intelectual da impotência é sempre uma boa desculpa”.

É-o. Mas, porque a rejeito e porque rejeito que nos puxem para trás, advogo uma Psicologia a responder com excelência a desafios micro, junto das pessoas nos seus contextos e acontecimentos de vida significativos, mas também macro. Porque, podendo não vencer não posso ser vencido de antemão, participo com determinação num projecto (Mobilizar os Psicólogos) que em 33 sessões participativas envolveu centenas de estudantes, psicólogas/os, candidatas/os ou não e junior, num programa participado organizado em 100 medidas em torno da estrutura da OPP e de 8 grandes desafios societais, como a pobreza e a exclusão.

100 medidas que rejeitam a impotência afirmando as/os psicólogas/os na promoção de um país e de um Mundo com mais equidade, coesão social e bem-estar para todas/os.

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

Pobreza. Psicologia. “Borgens”.

Borgen. Nome da sede do parlamento e de uma série Dinamarquesa. “Foi magnifico. Foi deprimente, horrível. É o lugar mais belo que já vi. Tudo ao mesmo tempo.” Resposta da 1ª Ministra na série, sobre a sua visita à Gronelândia, ilha que Trump insinuou desejar comprar. País com a mais alta taxa de suicídio registada no Mundo e indicadores negativos de educação e saúde (psicológica) em muito resultantes da pobreza e desesperança. Da exclusão e escassez.

A pobreza (e exclusão) persiste, em níveis diferentes e apesar dos avanços das últimas décadas, como problema complexo de países dos 5 continentes… De comunidades, famílias e pessoas como nós. Problema cíclico com a saúde psicológica (pobreza/exclusão geram stress, ansiedade ou depressão e vice-versa) e no qual a ciência psicológica e as/os psicólogas/os se devem empenhar. Problema que a Lista B ousa debater enquanto 1 dos 8 desafios societais que enquadrarão as 100 propostas do seu programa para a OPP.

Acredito – por isso darei o mote da sessão de recolha de contributos para a qual convido – e acreditamos no nosso papel e no papel da nossa OPP para um “Borgen” português a aceder e utilizar mais conhecimento da Psicologia e mais o contributo das/os psicólogas/os no combate à pobreza/exclusão e na promoção de bem-estar e coesão social.