Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, com um simbolismo próprio, este ano reforçado pelo facto de o tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem em situação de pobreza”. Por vezes, extrema, acrescento. Como acrescento que poderia o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza ter sido também ele dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas não pobres têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.
Uma semana e um ciclo muito próprio. Ciclo sobre o qual já reflecti nesta rubrica, porquanto a pobreza e a exclusão, também dela resultante, têm uma forte e cíclica associação com dificuldades e problemas de saúde mental ou psicológica, como são a depressão, a ansiedade e o stresse. Ciclo sobre o qual é urgente agirmos, porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, vivenciaremos ou poderemos vivenciar dificuldades ou problemas de saúde psicológica ou por eles sermos impactados. Porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, ficaremos ou poderemos ficar expostos a alguma precariedade, vulnerabilidade ou exclusão ou por elas ser impactados. Porque este ciclo significa, sobretudo, o sofrimento de muitas pessoas e comunidades, perda de anos de vida com qualidade e perdas económicas significativas em Portugal, na União Europeia (4% a 5% do PIB Europeu, segundo dados recentes) e no Mundo.
Daqui resultam três inevitabilidades. A de que não poderá existir um avanço significativo ao nível da saúde mental da população portuguesa se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante. A de que não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro. Finalmente, a de que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.
Daqui resulta também a necessidade, não menos urgente, de sermos congruentes com quatro dimensões conceptuais nestas áreas que podem informar decisivamente as políticas e intervenções neste âmbito. Que todas e todos nos encontramos no espaço que existe entre os polos doença e saúde mental, deambulando mais para próximo de um ou outro polo, consoante mudam certos determinantes da nossa vida e vivenciamos e nos adaptamos aos seus acontecimentos, existindo espaço de oportunidade para políticas de prevenção e promoção que considerem este contínuo. Ainda, que em toda a nossa vida e, particularmente, quando expostos a situações de maior vulnerabilidade como a pobreza e exclusão ou como a doença mental, a dignidade é fundamental e que apenas podem existir respostas, numa e noutra área, assentes na dignidade da pessoa, em ferramentas e intervenções com base em evidência científica que suportem a recuperação e a mudança e no desenvolvimento de políticas e respostas integradas, humanistas, qualificadas, visando a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância – quando “bem”, aquando de potenciais dificuldades ou problemas ou em processo de recuperação, apoio ou intervenção.
Resulta, também, que o indicador bem-estar percebido pelas pessoas e pelas comunidades deva ser um elemento central na definição de políticas (sociais, de emprego ou de saúde, para referir apenas três exemplos), vector-chave no desenho das mesmas e objecto de avaliação na observação dos seus impactos. Finalmente, que, nem as questões da pobreza e da exclusão, nem as relativas à doença mental, são problemas iminentemente individuais, como muitas e muitos querem fazer supor, antes a sociedade, a sua complexidade e volatilidade e toda a incerteza associada aos desafios actuais e à precariedade de algumas situações, desempenham um papel fundamental nestes problemas, não sendo os mesmos da responsabilidade de cada pessoa ou resolvidos exclusivamente por cada pessoa, e necessário que previnamos que a recente saliência da importância do autocuidado ou da resiliência não resulte em processos de dupla culpabilização decorrente da responsabilização das pessoas que sofrem com estas dificuldades pelas próprias dificuldades.
Considerando este ciclo, as inevitabilidades referidas e em congruência quer com o quadro conceptual acima, quer com o papel que interpretamos como essencial de uma associação pública profissional (por estes dias bastante discutido), a Ordem dos Psicólogos Portugueses desenvolverá no próximo ano um amplo debate que conduzirá à definição de uma estratégia de promoção do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos portugueses para a prevenção, mitigação e erradicação dos fenómenos de pobreza e de exclusão. A estratégia viverá de acções e contributos dirigidos à própria profissão, à sociedade civil, aos e às decisoras e a instâncias internacionais e procurará motivar um relevante e mobilizador questionamento: qual o meu papel e qual o meu contributo junto dos fenómenos da pobreza, da exclusão e da desigualdade?
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá, intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental, contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. Mudando o Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel ou da Micaela. Deles, das suas filhas e filhos, amigos e amigas, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?