Uma menina, cara redonda e cabelo escuro com um laço, pergunta ao pai se é um bom pai, se é o melhor pai do Mundo. Há 57 anos, um jornal Argentino publicava as primeiras tiras (esta e outra em que parte um bico de um lápis enquanto desenha uma casa e desabafa que “estas coisas acontecem apenas neste país [Argentina]) de uma inquieta e inconformada Mafalda. Sabemos a história que se lhe seguiu, sendo hoje uma das figuras mais reconhecidas globalmente da Banda Desenhada e deixando-nos (Quino) muitas tiras que ainda nos “inquietam e “jogam” com o nosso inconformismo. Partilho uma que o faz comigo.

A reflexão sobre as “raízes” do que somos, quem somos e dos nossos problemas é algo muito importante e que creio que todas e todos fazemos quando à nossa volta temos alguém que nos é querido em sofrimento, particularmente quando este sofrimento é emocional, psicológico. Por múltiplas razões que vão da ainda baixa literacia em saúde psicológica (que leva ao não reconhecimento ou aceitação do problema e, depois, à assunção da impossibilidade de recuperação – “eu sou assim, sempre fui assim, sempre serei assim”) a determinantes sociais (isolamento, solidão, precariedade, exclusão, …), o importante não se torna urgente. E esta realidade, quando aliada, à ainda gritante falta de acessibilidade e equidade na acessibilidade a ajuda profissional continuada e de qualidade neste âmbito, contribui para a existência à nossa volta tantas pessoas (e famílias e amigas e amigos que as rodeiam) que, com a ajuda certa, no momento certo, não sofreriam o muito que hoje sofrem.
Esta realidade acaba por criar uma nova urgência nesta área, tamanha que é a prevalência hoje de situações de pessoas a necessitarem de apoio especializado que faz com que a discussão do importante – o que podemos e devemos fazer e investir a montante – se faça mas acabe por pouco produzir e por resultar em insuficientes respostas. Ocupamo-nos e ocupamos os nossos parcos recursos a reparar as fugas de gás, algumas fugas de gás. Procuramos pouco as suas raízes.
É neste contexto que o debate em torno da utilização de tecnologia e big data na área da saúde mental se vem fazendo numa parte pequena do Mundo e chegando a Portugal (parte pequena porque uma grande parte não pode ou ousa sequer discutir a saúde e a possibilidade de bem-estar das suas populações – não o esqueçamos nunca!), desde a Apple que com a Biogen e a UCLA está a procurar desenvolver um algoritmo que permita que os aparelhos que transportamos nos “diagnostiquem” aos biliões de dólares que Escolas, particularmente Americanas, investem hoje em softwares (Gaggle, …) que monitorizam as actividades online de jovens estudantes em busca de indicadores que possam aparentar sofrimento ou perigo (de fazerem mal a si próprios, por exemplo).
Oxalá a Mafalda venha a estar errada no seu perentório “como sempre: o urgente não deixa tempo para o importante”. Por estes dias, por aqui e nestes problemas em particular creio que (ainda) não está.