
Chove lá fora. Um vidro de um carro, embaciado. Um dedo de uma menina desenha uma árvore, fazendo do vidro folha e do dedo marcador. Depois um menino, triste, e outra e depois outra menina e, sempre, o dedo a desenhar o vidro enquanto a mãe Rosie liga do carro-casa para diversos hotéis à procura de um quarto para uma família. A sua família. Não. Não. Não.
O não. O insucesso. A impossibilidade. O problema. A perda. O não cumprimento. No Rosie, filme que assim começa e que retrata dois dias na vida de uma família numa Irlanda que teve recentemente um significativo aumento de pessoas em situação de sem-abrigo. Na vida ao nosso redor, em tantas situações, connosco ou com pessoas cuja história e nome (des)conhecemos.
A pobreza, qual choque em cadeia, todas, todos e tudo impacta. Pessoas em situação de pobreza ou não. A saúde, a educação, o trabalho e a produtividade. As relações na sociedade, a equidade, a confiança e coesão social. Por exequível, mas também porque influencia todos os restantes, a erradicação da pobreza é o primeiro dos objectivos do desenvolvimento sustentável e existe um amplo e diverso campo de contributo da ciência e da prática psicológica nesse sentido.
A actual edição da Psis21 trata-os a propósito do recente retrocesso no caminho de diminuição das diversas formas de pobreza no Mundo e em Portugal e da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, mas, também, do projecto “.Final à Pobreza”, através do qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses se compromete com o desenho de uma estratégia e de acções de reforço do contributo da psicologia na área da pobreza e exclusão.
Se o vidro fosse uma folha e o dedo um marcador, a menina escreveria: “alguém faça algo… alguém nos ajude e a crescer, quais árvores.” Contribuamos para esta estratégia e mobilizemo-nos, enquanto ciência e profissão, para que, a cada dia, menos crianças, menos pessoas, tenham de ultrapassar estes momentos. Para uma sociedade que caminhe, decidida e rapidamente, para a erradicação das diversas formas de pobreza e exclusão, obstáculos decisivos à possibilidade de saúde, bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.
Tiago Pereira
Editorial Psis21 N.º27