“Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.”
“A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência”, 61º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a “falácia do apelo pelo natural” e dois riscos dela decorrentes:
- A potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por ex., também por viveram em zonas mais remotas);
- A associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por ex., na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.
“Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.”
Mais ainda, quando a “falácia do apelo pelo natural” gera um “significativo valor monetário e comercial, vivendo, portanto, dos desafios do presente e para o presente, mas impactando verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos.”
“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.”