“Chão pegajoso.” Eventualmente poderão não estar familiarizadas/os com este conceito, quando não literal e aplicado às dimensões económicas e sociais. A Susana Peralta abordou-o num artigo ontem no @PUBLICO (“Chão pegajoso: nascer pobre é uma fatalidade”), onde, com a evidência disponível (e muito devemos ao seu trabalho e das suas equipas) sublinha o quão a mobilidade social ascendente (de geração para geração, na mesma família), curiosamente conforme a descendente em Portugal é “fraca”.
Problema que, não sendo exclusivo de Portugal é particularmente relvante, muito condicionado as possibilidades de bem-estar das pessoas e o país, considerando a sustentabilidade dos serviços (públicos) e a coesão social. A Susana Peralta, também no artigo, refere que o “chão cola” particularmente em 3 dimensões: nível de educação (veja-se o trabalho/reflexão do @Miguel Herdade que aqui trouxe há semanas); nível de rendimento; e nível de privação mais básico (ausência de possibilidade de uma refeição proteica).
Quem me costuma ler/ouvir sabe que este é um tema de permanente reflexão minha. Regresso a ele porque, sendo os ciclos intergeracionais de pobreza um fenómeno naturalmente complexo, multidimensional e “não solúvel” com uma única acção ou política, sinto que reflectimos (e actuamos) pouco numa das suas principais dimensões: a vivência da infância precoce em situação de pobreza e os impactos desproporcionais dessa adversidade em toda a vida desses bebés e crianças.
A esse propósito, no final da semana em que se comemorou o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, conversei com a @Carla Rocha (a quem agradeço) em mais um “Quarto do Fundo” (que partilho), parceria da @Rádio Renascença com a @Ordem dos Psicólogos Portugueses.
“Como travar a pobreza na primeira infância?” foi o mote de uma conversa que, passando por outros assuntos (a tal multidimensionalidade), se focou no impacto da adversidade relacionada com a pobreza e exclusão nos primeiros anos de vida. Estímulo para pesarmos como intervenções de políticas públicas que a reduzam no período da gravidez e primeira infância são fundamentais a par de investirmos na melhoria da actual geralmente má qualidade dos contextos educativos dos 0-3 anos e em fortalecer a intervenção precoce e as respostas em saúde, educação e área social.
Uma nota final, permitam-me, para reforçar que: a) a pobreza é um problema todos os minutos, horas, dias e não apenas de períodos em que, por via de datas comemorativas ou de um acontecimento tem projecção pública; b) que a pobreza é um problema de todas as pessoas, ainda que impactando mais quem vive em situação de pobreza; c) que é possível progredir na sua erradicação, se esse for um desígnio de todos nós e se todos, a partir dos nossos papéis de cidadania e profissionais, para isso contribuirmos.