“O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante [que o digam estas últimas 48 horas em Portugal], por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento.” Sendo-o, é preocupante que nos confrontemos com um tempo onde parece não existir espaço para a dúvida.
“A dúvida e o regresso aos outros”, 69º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) detalha e reflecte sobre as causas deste tempo de ausência de dúvida, “da polarização à sobrecarga e facilidade e rapidez de acesso a informação”, das “redes sociais e seus algoritmos” ao efeito descrito como Dunning-Kruger. Das heurísticas e vieses à nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social.
No fundo, como “os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.”
Aborda, depois, a forma como “cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam”, detalhando e reflectindo, mais uma vez, sobre a forma como a podemos promover. Desenvolvendo “capacidades de escuta, relação e competências socio-emocionais”, promovendo “o interesse, a curiosidade e literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação” e contextos de “segurança psicológica” e comunicação aberta.
“Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.” Pode ser estímulo para um outro RTO que não o “Return to Office”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].
“A dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa (…) Particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva.”