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NPD – Normalização, polarização, democracia (Sábado; Ao redor…; 12.10.2022)

Uma nota prévia: O que em seguida se pode ler comporta sete simplificações que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas.

Vigotsky nasceu ainda no século XIX numa cidade da actual Bielorrússia. Viveu menos anos do que os que eu já vivi (37) mas, quando em 1934 faleceu, deixou uma importante e transformadora obra, parte dela apenas integrada no conhecimento científico décadas mais tarde, também devido à censura de que foi alvo. Foi um psicólogo pioneiro na teorização da importância da comunicação e das relações e condições sociais no desenvolvimento infantil. Entre outros contributos, deixou-nos o importante conceito de zona de desenvolvimento próxima, enquanto potencial de desenvolvimento que uma criança/pessoa possui a cada momento, a partir do seu desenvolvimento real e se apoiada em relação com alguém mais “desenvolvido”. Grosso modo (simplificação 1), o espaço que dista entre o desenvolvimento real (A) e o desenvolvimento potencial (B), sendo que A e B, a cada momento do desenvolvimento, se vão alterando. Deixou-nos, ainda, o conceito de mediação, que elabora no seu trabalho enquanto elemento intermédio e fundamental no binómio estímulo-resposta, sublinhando, também, a importância da linguagem e do simbólico na mediação.

A agressão física de Will Smith a Chris Rock na cerimónia dos Óscares e o crescimento e ascensão a posições de decisão de partidos populistas, radicais ou extremistas, são apenas dois exemplos no debate em torno da normalização da violência, num caso, ou de ideais e propostas políticas cuja prioridade e quadro de valores não assentam nos direitos humanos ou justiça social. A zona de desenvolvimento próximo de Vygotsky oferece-nos duas importantes pistas (simplificações 2 e 3) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. O papel de outras e outros nos processos de “normalização”, num tornar real o que apenas era potencial, por exemplo no admitir, no legitimar, no considerar, por alguns e algumas, como “bela e romântica” a agressão física como resposta. O facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante. Quando se torna “real” Trump e outras e outros próximos, Maduro e outras e outros próximos, criam-se, automaticamente, “novos potenciais”, cada vez mais distantes do outrora real, porque o desenvolvimento e a sociedade, como as ideias e os ideais são vorazes – embora, protectoramente, possamos pensar o contrário, podem sempre ir mais longe.

“Sei que um grande número dos nossos compatriotas votaram hoje por mim, não por me apoiarem, mas para fazerem barreira à extrema-direita”, disse Macron aquando das últimas eleições presidenciais Francesas. Cada vez mais assistimos (sentimos?) uma participação pública e política menos motivada pela mobilização e adesão a projectos, e mais pelo “combate” e barreira a outros, em simultâneo com a utilização de emoções como a raiva, o ressentimento ou o ódio a outras e outros como estímulo. A mediação e a importância das condições sociais, conforme reflectidas por Vygotsky, oferecem-nos três importantes pistas (simplificações 4, 5 e 6) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. A primeira, a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por exemplo) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo de pertença, seja ele uma associação ou clube, ou, hoje, de uma rede social. As segunda e terceira, a forma como as condições de vida e aspectos sociais o influenciam, nomeadamente a forma como as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades. Bem como a forma como a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.

Tudo num caminho de maior normalização do que antes nos parecia distante. Tudo a polarizar, a criar um nós vs. outras/os e a afastar-nos. Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais, assentes no reconhecimento de direitos (e deveres) partilhados. Tudo a colocar em causa o sistema que, com as suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos e procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e promotora de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação. Tudo a justificar porque, há já mais de uma década, mas com especial incidência nos últimos anos, invertemos o caminho de maior disseminação da democracia e das garantias de liberdade e direito no Mundo e caminhamos para um maior encerramento, nacionalismo e para mais autoritarismo.

Normalização, polarização, democracia. NPD. Sigla pela qual, em inglês, é conhecida a perturbação narcísica de personalidade. Independentemente se ao nível de “perturbação” (simplificação 7), não raras vezes, quem tem este objectivo e promove estes movimentos, fá-lo a partir de uma aura salvífica capaz de respostas cabais, simplistas e imediatas para todo e qualquer problema, independentemente de serem, por vezes, complexos e multidimensionais. Não raras vezes pessoas que, vivendo da necessidade permanente de reconhecimento, se consideram melhores que outras e outros, se sentem incompreendidas no seu valor e que assumem papéis de liderança de projectos que, mascarando vulnerabilidades, procuram a polarização e a normalização. Que usam das vulnerabilidades e dos receios de algumas pessoas para legitimar, quando não promover, posições contrárias ao reconhecimento de outras e outros, da sua possibilidade de participação e autodeterminação, dos pilares do sistema democrático.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos reflectir sobre os processos de normalização e de como dependem de todas e todos nós. Como conduzem à polarização e ameaçam os princípios democráticos. Como, a coesão social e a defesa dos valores democráticos, dependem de travarmos “avanços de A para B que criam sucessivos C e D”. Compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais, conforme o mote do Dia Mundial da Saúde Mental comemorado a 10 de Outubro. Se o fizermos estaremos, também, a contribuir para a confiança, para a credibilidade das instituições e qualidade da democracia e, dessa forma, a garantir melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.

 

NPD – Normalização, polarização, democracia

in Sábado (Ao redor…); 12.10.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/npd—normalizacao-polarizacao-democracia

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

NPD – Normalização, polarização, democracia

Algumas semanas após Marcelo Rebelo de Sousa o ter solicitado, conhecemos em simultâneo com a proposta de Orçamento do Estado (OE), o cenário macroeconómico previsto pelo Governo para 2023. Contém perspectivas sobre o PIB, a inflação, o mercado de trabalho, financiamento e pressupostos como taxas de juro ou preço do petróleo. Nem nele, nem no próprio OE, constam indicadores (e sua variação) sociais como a pobreza e desigualdade ou psicológicos como o bem-estar. Se infelizmente ainda assim é, creio que assim não será sempre e que, indicadores fulcrais como estes para aferir as condições e qualidade de vida, serão mais considerados nas decisões políticas, respondendo-se mais a necessidades e expectativas das pessoas, algo fundamental à preservação da democracia.

“NPD – Naturalização, polarização, democracia”, 43º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) faz uso de 7 simplificações (“que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas”) para, a partir do trabalho pioneiro de Vygotsky, pensar a relação entre processos de normalização, polarização e (ameaças à) democracia. Democracia, “sistema que, apesar das suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos, procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e na promoção de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação.”

O artigo discute e exemplifica o “papel de outras e outros nos processos de normalização, no tornar real o que apenas era potencial” e o “facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante.”

Pensa “a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por ex.) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo”. A forma como “as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades”. Como “a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.”

“Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais.” Tudo a exigir que “compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Que criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Que façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais” contribuindo “para a confiança, credibilidade das instituições e qualidade da democracia” garantindo, assim, melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.”

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Tempo da Psicologia (Ao redor…; Sábado; 28.09.2022)

Faltam poucos dias para passarem quatro anos sobre esse 10 de Outubro de 2018. Nesse dia Mundial da Saúde Mental visitávamos um conjunto de projectos da Associação CRESCER. Acompanhamos uma equipa do “É uma rua” a um dos espaços da cidade de Lisboa onde intervém, de acordo com a metodologia de Redução de Riscos e Minimização de Danos. Como naquele dia, ouço-o contar-nos a sua história, que incrivelmente poderia ser a de quase todas e todos nós, como havia entrado e logo saído de diversas respostas e como acumulava diversas condições de vulnerabilidade: as suas dependências, particularmente de álcool e drogas, a sua condição de pessoa sem-abrigo, a sua solidão e problemas de saúde (significativos) variados. Ouço-o, como vejo, uma pessoa com especiais responsabilidades políticas que nos acompanhava, com uma sensibilidade que me impressionou, olhar a medicação que este senhor trazia num saco e mais tarde comentar, apenas connosco, que ali estavam muitas centenas, senão milhares, de euros investidos. Nesse e noutros momentos desse final de dia e noite de visita a outros projectos e pessoas apoiadas pela CRESCER, a clareza, pela realidade, do quão socialmente determinada é a saúde e do quão, sem promoção integrada da saúde e da saúde mental e sem apoio e integração social e comunitária das pessoas, não podemos aspirar a intervenções eficazes e à melhor utilização dos recursos disponíveis. Do quão pode ser relevante a psicologia, enquanto ciência e profissão, para a saúde e bem-estar das pessoas e para a sustentabilidade dos sistemas públicos.

Tempo da Psicologia. É este o mote que reúne em Aveiro, a partir de hoje, cerca de 1500 pessoas, maioritariamente psicólogas e psicólogos, para o 5º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Também quatro anos após o 4º Congresso e com uma pandemia por COVID-19, uma Guerra no continente europeu e uma nova crise socioeconómica no horizonte. Os mesmos quatro anos que passaram entre as eleições de 2018 e de Domingo em Itália e entre os 4% e os 26% do partido de direita nacionalista “Irmãos de Itália”, liderados pela provável futura chefe de governo, Giorgia Meloni, que confirmam o caminho de progressiva implementação e “normalização” de ideias e ideais anti-imigração, do questionamento de direitos humanos, da ciência e das instituições e do crescimento do autoritarismo, com consequente diminuição da liberdade e das garantias Mundo fora. Quatro anos que confirmam a velocidade e volatilidade deste tempo, a complexidade e globalidade dos desafios, a enorme incerteza que vive(re)mos.

Enquanto países como a Austrália – que segundo um relatório da Equipa de Planeamento do Serviço Nacional de Saúde Mental (NMHSPF), apenas consegue hoje preencher 35% dos 7787 lugares de psicólogas/os disponíveis por falta de profissionais – se vêm forçados a investimentos urgentes na formação e “captação” destes profissionais, em Portugal decorre um concurso, iniciado também há quatro anos, em que mais de 3000 psicólogas/os, muitas e muitos com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde e a trabalharem já no SNS, procuram um dos 40 lugares para os cuidados de saúde primários. O estado e as famílias portuguesas investiram significativamente nas últimas quatro décadas na formação de profissionais de psicologia e, confrontados que estamos com problemas e desafios que as e os requerem e com o avanço da sua ciência, hoje com contributos em diversas áreas da sociedade e do ciclo de vida das pessoas, é tempo de apostarmos nas psicólogas e psicólogos e de lhes darmos mais oportunidades e condições de trabalho, particularmente no SNS.

Mas porquê? Porque, efectivamente, apesar das condições de vida em quase todo o Mundo terem melhorado substancialmente nas últimas décadas, os níveis de incerteza, precariedade, pressão e desigualdade constituem hoje factores de stress particularmente significativos. A eles, juntam-se, também em Portugal, níveis de literacia em saúde psicológica superiores (ainda que baixos), níveis de estigma inferiores (ainda que altos) e, particularmente, um capital social que faz com que as pessoas se mobilizem, bem, e pressionem por respostas para os seus problemas (e para os das pessoas ao seu redor), também de saúde mental, exigindo, bem também, mais possibilidade de autodeterminação, saúde e bem-estar, independentemente da sua condição. Acresce, depois, maior percepção e compreensão, de decisoras e decisores e das lideranças, do papel e contributo da psicologia no desenho de processos, de políticas e de interfaces, no desenvolvimento, consultoria e formação das pessoas e no apoio à mudança (social e individual) e promoção da inclusão, equidade e justiça social.

Mas há muito caminho por percorrer, muitas conversas para ter, muita interdisciplinariedade por co-construir. Este 5º congresso procurá-lo-á. Discutirá temas desafiantes, com psicólogas e psicólogos junto com profissionais de outras áreas e/ou decisoras e decisores, como a morte medicamente assistida, o rendimento básico incondicional, a semana de quatro dias e a necessidade ou não do aumento das penas máximas de prisão ou da legalização da prostituição ou trabalho sexual. Eu participarei em sessões nas áreas da pobreza, COVID-19 e promoção da saúde mental no ensino superior. Outras e outros, noutros desafios societais como a crise climática, a saúde pública, as migrações, a paz, as relações com a tecnologia e a inteligência artificial e promoção de locais de trabalho saudáveis, além dos mais variados contextos de actuação da psicologia e dos desafios da sua prática no presente e para o futuro. Isto num congresso que procura inovar na sustentabilidade (realizado em diversos espaços “caminháveis”, com utilização mínima de recursos substituídos por uma aplicação que garante a informação e interacção entre participantes) e na relação com a comunidade, promovendo visitas a espaços e projectos da cidade e actividades abertas, como o Mente.morfose, festival de cinema (e conversas) associado ao congresso e seus temas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como o responsável político que mencionei reconhece(u), o investimento feito naqueles medicamentos apenas pode ser eficaz se complementado com outras intervenções, sistémicas. A psicologia tem hoje um capital de conhecimento e uma força de trabalho capaz de oferecer garantias, às cidadãs e cidadãos e aos governos, de actuação nas consequências dos problemas e acontecimentos de vida significativos das pessoas, mas também, a montante, nas causas (muitas delas sociais) desses problemas. Com responsabilidade, procuraremos, hoje, amanhã e depois, discutir como o podemos fazer melhor, com todas e todos. Com empenho e foco nas pessoas, procuraremos mobilizar a profissão para um presente e futuro que se afigura desafiante, em Portugal e no Mundo.

 

Tempo da Psicologia

in Sábado (Ao redor…); 28.09.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/tempo-da-psicologia

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O desafio societal da pobreza no 5º Congresso da OPP

Terminou na 6ªF o 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses. Com o mote “Tempo da Psicologia”, cerca de 1500 pessoas, parte significativa psicólogas e psicólogos, encontraram-se em Aveiro para discutirem, reflectirem e pensarem conjuntamente o país e o Mundo, nos seus desafios e complexidades, e os contributos da ciência e prática da psicologia para as pessoas e sociedade. Eu fui mais uma dessas pessoas.

Entre outros contributos (que aqui discutirei noutro momento), participei/dinamizei três iniciativas dedicadas ao complexo desafio societal da pobreza e, de certa forma, associadas ao projecto https://finalapobreza.pt: uma conversa com a @Maria João Marques que cruzou Economia e Psicologia – “Pobreza: um círculo vicioso ou viciado?”; a apresentação/moderação do keynote do @Eldar Shafir – “A pobreza e a escassez mental”; a sessão prática de recolha de contributos para a estratégia “.Final à Pobreza”.

Além do significativo de podermos num congresso da OPP aprofundar o tema, a presença no Congresso do @Eldar Shafir resultou em importantes peças na comunicação social que permitiram que o tema pobreza, normalmente pouco saliente por pouco glamoroso (como a @Maria João Marques bem definiu), fosse abordado e notícia: “Há algo cómico quando nos preocupamos com o bife que um pobre come” (@PÚBLICO) ou “A mentalidade da escassez ou como um bom cockpit faz um bom piloto” (@CNN Portugal).

Destes três momentos, e das conversas sucessivas, guardo cinco reflexões: a) A ciência, só por si, não é suficiente pois, a cada vez mais clara percepção das causas e das consequências da pobreza, não tem sido suficiente na mudança de percepção da sociedade sobre o fenómeno e na definição de políticas (públicas); b) À (promoção da) mudança individual pelas psicólogas e psicólogos é fundamental associar-se a (promoção da) mudança societal; c) É fulcral reforçarmos o contributo da psicologia na dimensão macro do fenómeno da pobreza e, não apenas, nos impactos da mesma no micro observado nas diversas áreas de intervenção da psicologia; d) Outras áreas científicas reconhecem cada vez mais e melhor o contributo da psicologia e, pessoas e sociedade, “exigem-lhe” um contributo maior; e) Além de justo, é possível solucionar este complexo desafio. É possível uma sociedade sem (ou com níveis residuais de) pessoas em situação de pobreza, investindo na mudança societal e na promoção da saúde mental de pessoas e comunidades.

Cinco reflexões a que junto entusiasmo e a determinação de me associar a tantas outras pessoas no contributo (singelo) para um ponto final à pobreza e o orgulho de ver tantas e tantos colegas a identificarem-se e comprometerem-se enquanto cidadãs e cidadãos e psicólogas e psicólogos. Obrigado, mobilizemo-nos.

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Giorgia Meloni e o 5º Congresso da OPP

Portugal joga amanhã com Espanha a passagem à fase seguinte da Liga das Nações tal como jogou, em Junho de 2004, a passagem à fase seguinte do Euro 2004, que Portugal organizou. Muitas e muitos de nós recordam esse jogo que vi em Turim (Norte de Itália).

Ali vivi(a) enquanto estudante Erasmus e dali viajei, várias vezes, rumo a outras cidades italianas, muitas no Sul. Viagens num país lindíssimo e diverso. Num país com muitos países (e dialectos) dentro e de diferenças significativas entre Norte e Sul, diferenças que ajudam a compreender as eleições de ontem.

Meloni conduziu o Irmãos de Itália, partido de direita nacionalista, a força política mais votada. Independentemente do Governo que se constituir, da sua consistência (Itália teve 45 governos desde 1945) e do que será Meloni líder de Governo, é paradigmático que o partido cresça de 4 para 26% entre as eleições de 2018 e as de 2022. Há, como sempre existem, múltiplas razões que podem justificá-lo em Itália. Como existem para o comunicado do Chega que defende “que estes ventos de mudança [chegarão] a Portugal” e levarão “a uma reconfiguração política da Europa”.

Meloni faz da defesa da meritocracia, escola. Diz que o “mérito é o carburante do Mundo”, que tudo “reside na vontade, sacrifício e paixão” e que “não se devem aceitar limites impostos pelos outros”. Discurso motivacional, com ressonância, mas que choca com o discurso anti-imigração e o seu apego à “teoria” da “grande substituição” que torna seu objectivo evitar a “extinção dos Italianos”. O contrassenso continua quando afirma que a “segurança das cidades italianas está fora de controlo” pelas “políticas migratórias dos últimos anos”, apesar da taxa de criminalidade ter caído significativamente de 1990 a 2019 (a de homicídios 72%). Contrassenso aqui, coerência no desconsiderar dos factos, da ciência, dos valores democráticos e direitos humanos (veja-se a posição sobre pessoas LGBTI+) ou da preservação do Planeta (e sobre crise climática).

18 anos (desde 2004) ou 4 anos (desde 2018) que nos trouxeram a uma Meloni previsível chefe de governo, demonstração da aceleração e volatilidade do tempo que vivemos e de como, respeitando resultados eleitorais e as/os votantes, devemos mobilizar-nos contra a utilização do ressentimento e ódio como programa político. Um Mundo complexo precisa de respostas sustentadas que tragam esperança às pessoas e “vençam” as soluções simplistas resultantes deste tipo de partidos/coligações, Mundo fora.

Disponibilizar estas soluções exige diálogo e co-construção. Implica conversas interdisciplinares em temas desafiantes. Fá-lo-ei (em torno da pobreza, da COVID-19 e da saúde mental no Ensino Superior) e fá-lo-emos no 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses, sob o mote “Tempo da Psicologia”. Com determinação, empenho e consciência dos riscos que enfrentamos, mas com a certeza de que passo-a-passo, com todas e todos e com a ciência (incluindo a psicológica) é possível caminhar no sentido de um Mundo… melhor.

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Da capilaridade e interdisciplinariedade…

Foi também em Junho (1712) que Rousseau nasceu. Considerado um dos grandes influenciadores da Revolução Francesa e dos seus valores (Igualdade, Liberdade e Fraternidade), o seu mais importante livro (“Do contrato social”) defende que a liberdade, bem-estar e a segurança dos seres humanos depende e é preservada pelo contrato social. Além de sustentar ideias próximas da justiça social e direitos humanos, Rosseau introduziu o conceito de “interesse público”. Deixou-nos um intenso legado quando desapareceu, também, a 2 de Julho (1778).

Foi em Junho (mas de 2022, 310 anos após o seu nascimento) que uma menina perdeu trágica e precocemente a possibilidade de viver e se cumprir. Mês em que a CMTV superou “o recorde de audiências”, conforme assinala a capa do “Correio da Manhã” de 2 de Julho (mas de 2022, 244 depois da morte de Rosseau) e após 10 dias em Junho com uma cobertura inenarrável e deontologicamente questionável desse desaparecimento, com consequências nas pessoas, comunidade e instituições.

Ao contrário do interesse do público, o “interesse público de Rosseau”, resulta da vontade geral das pessoas e, grosso modo, do contrato social. Advogo que o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos na possibilidade de autodeterminação, de saúde e bem-estar das pessoas se faz com intervenções e apoios directos (às pessoas) mas, complementarmente, com maior capilaridade da psicologia. Capilaridade e interdisciplinariedade, contribuindo para uma sociedade mais sensitiva e responsiva à compreensão do comportamento das pessoas e grupos e dos impactos na saúde (e saúde mental) e bem-estar, presentes e futuros, de determinadas experiências/acontecimentos.

Isso faz-se, a meu ver, com participação cidadã e profissional de psicólogas/os no “contrato social”, como é exemplo o contributo da Ordem dos Psicólogos Portugueses na “Diretiva para a cobertura informativa televisiva de guerras e conflitos armados” que afirma que “na exibição de declarações de pessoas em manifesta situação de vulnerabilidade física, emocional ou psicológica, deve assegurar-se o seu obrigatório consentimento, preservar a sua identidade e garantir a sua segurança.”

Faz-se, a meu ver, com psicólogas e psicólogos a dinamizarem e se envolverem em conversas com outras disciplinas e em torno dos contributos da psicologia em áreas e desafios diversos, conforme objectivo do nosso 5º Congresso onde se discutirá, por exemplo, o “Jornalismo e desafios societais”. Este e dezenas de outros temas em sessões, incluindo práticas, visitas, debates, entrevistas, cinema… Oportunidades para “sair do dia-a-dia” e apoiar a nossa reflexão enquanto psicólogas/os “contribuidores” para a mudança social.

No congresso ou não, permitamo-nos ir além do nosso dia-a-dia para irmos além do muito que já contribuímos. As pessoas esperam-no. Os desafios societais exigem-no.

 

 

 

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Estado da União 2022 – Saúde mental; pobreza e exclusão

“[O painel de cidadãos] incluiu uma nova iniciativa na saúde mental. Devemos cuidar melhor uns dos outros. E, para muitos que se sentem ansiosos e perdidos, um suporte adequado, acessível e “pagável” pode fazer toda a diferença.”

A passada semana trouxe-nos das instituições europeias duas notícias fundamentais a pensarmos o presente e futuro:

a) O discurso do Estado da União onde Ursula von der Leyen, a propósito da “resposta unida” da União a um conjunto de crises, fez esta declaração sobre uma nova iniciativa na saúde mental que discuti na minha intervenção no Fórum da TSF – Rádio Notícias (que partilho) no dia do discurso. Proposta que parte do painel de cidadãos da Conferência do Futuro da Europa (conclusões aqui) que, como assinalo, procura responder às crises sucessivas que vimos enfrentando (COVID-19, climática; sócio-económicas; …) que impactam as pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, ao condicionarem a previsibilidade, a sua percepção (e possibilidade) de controlo e as exporem a mais situações de precariedade, desemprego e exclusão associadas ao stresse, ansiedade e depressão. Iniciativa que resultando da pressão de cidadãs e cidadãos, assenta em três dimensões essenciais – melhor evidência científica disponível (adequada); ser contingente, rápida e acessível (acessível); ser equitativa e não deixar ninguém para trás (“pagável”) – mas que, por si só e mesmo minimizando-os, não resolve uma parte dos determinantes que concorrem para parte destes problemas;

b) Os dados do Eurostat sobre o risco de pobreza ou exclusão social que assinalam o agravamento da situação em Portugal que, de 2020 para 2021, passa do 13º para o 8º país da UE com maior percentagem de população (22,4%) nesta situação. Complementarmente à actuação “nas consequências”, é fundamental uma estratégia concertada nacional e internacionalmente que possa actuar sobre esta terrível realidade, com enormes consequências na saúde, bem-estar e na possibilidade de futuro e autodeterminação de pessoas e comunidades.

Numa e noutra situação, também como discuti no Fórum da TSF, é possível mudar. Pela pressão das pessoas, com novas iniciativas e atitudes em torno da saúde mental. Olhando para os 12 países da UE que, mesmo com a pandemia, progrediram na redução do risco de pobreza e exclusão social.

Finalmente, e também sobre isso reflicto na intervenção, fazê-lo é lutar contra o encerramento, a polarização e radicalização. É prevenir a irracionalidade, o ódio às outras e outros e a procura de soluções simplistas. É responder às necessidades e às legitimas expecativas das pessoas. Se o formos capazes de fazer, juntas e juntos, defenderemos as instituições e os valores democráticos, outra das importantes preocupações do discurso do Estado da União e outra das crises que vivemos, decisiva para no presente e para o futuro.

Fórum TSF – 14.09.2022 / https://www.youtube.com/watch?v=_MHNI2o6s4U

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A chuva voltou e o que aí vem…

A chuva voltou. Como que a relembrar o fim de mais um Agosto que desafia o conceito “silly season” (política). Se em 2020 estávamos nos primeiros 6 meses de uma “não-esperada” pandemia, com muitas incertezas, mas fortes consequências sócio-económicas; em 2022 estamos nos primeiros 6 meses de uma “não-esperada” Guerra, com muitas incertezas, mas fortes consequências sócio-económicas. Uma crise de saúde pública que acelerou transformações; uma crise humanitária, alimentar e energética, que se somam à crise climática e que aceleram transformações.

“O momento em que vivemos parece estar estruturado por uma série de crises graves (…) Acredito que aquilo que estamos a passar trata-se de uma grande mudança (…) o fim da abundância”. Excertos de um marcante discurso de E. Macron, em conselho de ministros, neste Agosto de 2022. Discurso em que apelou à “sobriedade voluntária” das pessoas face às limitações nas matérias-primas, energia e água.

Os próximos meses trarão uma realidade (de crise(s), de escassez de matérias-primas, de questionamento) que até há bem pouco tempo na Europa parecia temporalmente distante – do passado e de um futuro distante. Mas aqui estamos. Ouvimos Duarte Cordeiro anunciar medidas de racionamento para Portugal. Ouvimo-las em França ou na Alemanha.

Acontece, porém, que o “fim da abundância” só é possível para alguns (países) e algumas pessoas (dentro dos países) que vive(ra)m a “abundância”. Tal qual a “sobriedade voluntária” apenas é possível para alguns (países) e algumas pessoas (dentro dos países) que podem não ser “sóbrias”. “Abundância” que, também nestes países, não foi suficiente (mesmo que com melhorias) para erradicar a pobreza e, ainda menos, diminuir as fortes desigualdades (ver imagem).

Se a abundância não o permitiu, desafiante mas possível é, o seu fim, corresponder, como defendi em Agosto de 2021, a um “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir a caminho de um menos que, conforme Adjaye preconiza, pode ser mais. De um menos que pode não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador. De um menos que previne a desigualdade e iniquidade e que promove a partilha e a coesão social.” (“Menos”)

Macron também disse que “a nossa liberdade, o regime de liberdade no qual nos habituámos a viver, tem um custo”, sendo essencial que as políticas e as e os políticos respondam às pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades.

Isso e que nunca esqueçamos que os melhores garantes de desenvolvimento sustentável e da possibilidade de bem-estar para todas e todos são um planeta viável, de paz e direitos humanos e sociedades democráticas, inclusivas e de equidade.

A mudança, por mais exigente que venha a ser, pode contribuir neste sentido. Assim nos unamos, queiramos e nos mobilizemos.

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Re…cooperar (Ao redor…; Sábado; 16.08.2022)

A história, experiência e os recursos da American Psychological Association (APA) não nos podem “fazer esquecer dos importantes contributos que outras associações podem trazer à nossa acção.” Ouvi-o há dias quando uma pessoa responsável da APA, a mais histórica (130 anos) e uma das mais significativas associações de psicologia do Mundo, discursou para afirmar a “necessidade de se intencionalizar a cooperação global, considerando os significativos desafios que pessoas e sociedades hoje enfrentam”.

Afinal, como bem sabe quem vive no Alentejo, os efeitos da crise climática e da seca extrema não terminam na Extremadura Espanhola. Como bem sabe quem vive na Galiza, a pobreza não impacta a saúde e bem-estar de pessoas apenas no Alto Minho. Sabe Portugal e Espanha. Sabem a Nigéria, o Chile, a Austrália, a Moldávia, o Vietname ou os Estados Unidos da América que desafios societais globais, particularmente quando complexos, não se limitam a ou com fronteiras e que não se ultrapassam sem colaboração e cooperação, nacional e internacional.

Foi (é ainda) a cooperação que nos tem permitido, não sem obstáculos ou críticas e pela definição de princípios e objectivos em torno dos Direitos Humanos e da vida no Planeta, melhorar índices de paz, saúde e bem-estar a nível global. Este caminho conjunto permite que, hoje, milhares de milhões de pessoas no Mundo aspirem e expectem condições de vida que talvez supuséssemos globalmente inatingíveis há não muitas décadas.

Há 50 anos, onde no meu caso, igual ao de tantas outras famílias, seria inimaginável às minhas avós (com 53 e 40 anos em 1972) ou aos meus pais (ambos com 11 anos) imaginarem o neto/filho que nasceria 11 anos depois e, através dele, o Portugal de 2022. Ou há 99, quando se comemorou, em Julho de 1923, o primeiro Dia Internacional das Cooperativas, assinalando o contributo destas organizações centradas no interesse social, geridas de acordo com princípios democráticos e de igualdade de oportunidades e comprometidas com o desenvolvimento comunitário e a integração social e nasceu, em Novembro de 1922 e a poucos quilómetros de onde cresci, José Saramago.

À parte da extraordinária e muito complexa história de vida, Saramago escreveu, talvez como muito poucos, aquilo que apelidou como a “involução humana”, enquanto movimento regressivo aplicado a diversos fenómenos, desde a língua (portuguesa) ao comportamento em sociedade. Pensou e tratou a ideia de que não existe um caminho uno de permanente evolução (humana) e a que involução era, não apenas possível, mas previsível e se “escondia”, para escondida crescer e se propagar, em pequenos nichos, acontecimentos ou realidades.

Saramago não viveu os últimos 12 anos do Mundo. Viveu, no entanto, 4 dos 16 anos últimos anos com consecutivo declínio da liberdade e da democracia, conforme assinala o Relatório “Liberdade no Mundo 2022 – A expansão global do autoritarismo” da Freedom House. Com a proliferação dos regimes autoritários a que vimos assistindo, a proporção de população mundial que vive em países considerados “livres” caiu progressiva e consecutivamente nestes 16 anos (2005-2021) de 46% para 20,3%, considerando o grande aumento da população que vive em países “apenas parcialmente livres” (17,9 para 41,3%) e o aumento da que vive em países “não livres” (36,1 para 38,4%). Ainda de acordo com este relatório são quatro as principais forças internas aos países que o justificam: enfraquecimento das instituições (particularmente judiciais) e do valor da Lei; ataque à liberdade de imprensa; perversão das eleições; e discriminação de migrantes e outras comunidades.

Resumidamente, diminuição propositada da qualidade e independência das instituições e da própria confiança das pessoas nas instituições e nas (outras) pessoas, algo que é depois causa, mas, curiosamente, também consequência do crescimento do individualismo, da competição e de uma certa “meritocracia” em algumas sociedades e da fragilização da colaboração e cooperativismo real ou percebido pelas e pelos outros. Fragilização de instituições económicas, sociais e políticas que, conforme D. Acemoglu e J. Robinson concluem no livro “Porque falham as nações”, explicam mais o porquê de os países florescerem (ou não), do que a sua geografia, as pertenças comunitárias da sua população ou a sua riqueza natural.

Esta situação, e este retrocesso, é particularmente preocupante quando a colaboração, a intervenção articulada e a cooperação são a cada dia mais essenciais, considerando a complexidade dos desafios que as organizações e sociedades enfrentam. Particularmente preocupante quando as redes sociais e a forma de organização da sociedade, globaliza velozmente movimentos, ideais e ideias, particularmente as e os que apelam a emoções fortes e normalmente associadas a aspectos negativos como o medo, o ódio ou a raiva, emoções hoje centrais no comportamento, decisão e participação política e social.

Este contexto claramente justifica que o último dos 17 objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS) seja mesmo centrado nas parcerias para a implementação dos ODS, através do reforço dos meios de implementação e revitalização da parceria global para o desenvolvimento sustentável. E justifica que tenhamos presente o papel da cooperação na superação e na adaptação à mudança e à(s) crise(s) e de processos muito estudados e trabalhados pela psicologia para a promoção e reforço da cooperação, como a relação, a orientação para os valores sociais, a empatia e altruísmo, a comunicação, o compromisso, a confiança, a identificação e a cultura.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental criarmos condições para nos aproximarmos e trabalharmos juntas e juntos, numa perspectiva de persecução de objectivos comuns e/ou complementares. De favorecermos uma sociedade e uma cultura de alianças e compromisso com valores comuns, assentes nos Direitos Humanos e na preservação da vida no Planeta, e com o princípio da colaboração e cooperação a curto, médio e longo-prazo, nacional e internacional, entre pessoas, organizações, ciências e profissões. É momento de recuperarmos do conjunto de crises que vimos enfrentando também pela recuperação da cooperação. Tempo de Re…cooperarmos, pela confiança nas instituições e nas pessoas. De Re…cooperarmos, pela paz, pela saúde e pela possibilidade de bem-estar, de todas e todos. De Re…cooperarmos, pela nossa sobrevivência, enquanto Planeta e espécie, hoje e amanhã, como desde há centenas de milhares de anos.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 16.08.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/recooperar

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Democracia Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Causa-Consequência…

“Uma pessoa quando pensa em problemas de saúde mental não pensa automaticamente em pobreza. São duas questões dissociadas, mas que vocês associam neste projecto. Interligam-nas. Com que objectivo?” Questão inicial que o Rodrigo Pratas me colocou em entrevista (Edição da Noite; SICNotícias; 12.08.22) a propósito da aprovação, em Conselho de Ministros, do reforço no Abono de Família e da Garantia para a Infância e com o intuito último de discutir a campanha “.Final à Pobreza”.

Entrevista 20 meses após aqui ter partilhado que uma das 100 medidas do programa de candidatura à Ordem dos Psicólogos Portugueses seria a implementação de “um programa de apoio e desenvolvimento profissional para o combate à pobreza e exclusão social”. Fi-lo em NOV2020, afirmando que, conforme refere Wallace-Wells em “A terra inabitável”, “a postura intelectual da impotência é sempre uma boa desculpa” mas “porque a rejeito e porque rejeito que nos puxem para trás, advogo uma Psicologia a responder com excelência a desafios micro, junto das pessoas nos seus contextos e acontecimentos de vida significativos, mas também macro.

Respondi que o https://finalapobreza.pt servia “desde logo para que se compreenda melhor esta relação causa-consequência” e a pobreza “enquanto um dos principais determinantes não apenas da saúde mental mas da saúde no global” (…), altamente condicionadora daquilo que são a dignidade humana, a capacidade das pessoas se cumprirem, florescerem.” Disse, ainda, ser “importantíssimo que a OPP e as psicólogas e psicólogos portugueses se associem a um esforço nacional de tornar o combate à pobreza um grande desígnio, como previsto na estratégia nacional de combate à pobreza” [eixo f].

Na entrevista, que partilho, afirmei os 4 domínios de contributo do projecto (profissão, sociedade civil, decisoras/es e cooperação), além dos impactos das sucessivas crises nas pessoas e comunidades. Discuti como os problemas de saúde mental da população contribuem para que em Portugal seja difícil sair (geracionalmente) da pobreza sem apoios sociais, o que faz com que devamos, naturalmente, reforçar apoios sociais, mas também as condições psicológicas da população, se quisermos ser eficazes. Finalmente, aprofundei essa necessidade de reforço do apoio e a necessária e possível complementaridade entre respostas mais remediativas e respostas preventivas/promotoras, fundamentais para o futuro do país e para, enquanto pessoas, famílias e comunidades, lidarmos melhor com a adversidade no presente e futuro.

Conforme também havia escrito, advogo “uma psicologia activista no combate à pobreza e à exclusão”. Espero que este possa ser um contributo e estímulo para que mais pessoas e mais psicólogas e psicólogos se envolvam neste fundamental desígnio: contribuir para um “. final à pobreza”.