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Re…cooperar

“Afinal, como bem sabe quem vive no Alentejo, os efeitos da crise climática e da seca extrema não terminam na Extremadura Espanhola. Como bem sabe quem vive na Galiza, a pobreza não impacta a saúde e bem-estar de pessoas apenas no Alto Minho (…) Os desafios societais globais não se limitam a ou com fronteiras e não se ultrapassam sem colaboração e cooperação, nacional e internacional.”
“Re…cooperar”, 39º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) pensa como a cooperação “foi (é ainda) o que nos tem permitido, não sem obstáculos ou críticas e pela definição de princípios e objectivos em torno dos Direitos Humanos e da vida no Planeta, melhorar índices de paz, saúde e bem-estar a nível global” e possibilitar “que, hoje, milhares de milhões de pessoas no Mundo aspirem e expectem condições de vida que talvez supuséssemos globalmente inatingíveis há não muitas décadas.”

“Há 50 anos, onde no meu caso, igual ao de tantas outras famílias, seria inimaginável às minhas avós (com 53 e 40 anos em 1972) ou aos meus pais (ambos com 11 anos) imaginarem o neto/filho que nasceria 11 anos depois e, através dele, o Portugal de 2022. Ou há 99, quando se comemorou o 1º Dia Internacional das Cooperativas (…) e nasceu, a poucos km de onde cresci, José Saramago.”

“À parte da extraordinária e muito complexa história de vida, Saramago escreveu, talvez como muito poucos, aquilo que apelidou como a “involução humana”, enquanto movimento regressivo aplicado a diversos fenómenos, da língua (portuguesa) ao comportamento em sociedade. Saramago não viveu os últimos 12 anos do Mundo mas viveu 4 dos 16 anos últimos anos com consecutivo declínio da liberdade e da democracia, pelo “enfraquecimento das instituições (particularmente judiciais) e do valor da Lei; ataque à liberdade de imprensa; perversão das eleições; e discriminação de migrantes e outras comunidades”.

“Esta situação (e retrocesso) é particularmente preocupante quando a colaboração, a intervenção articulada e a cooperação são a cada dia mais essenciais, considerando a complexidade dos desafios que as organizações e sociedades enfrentam. Quando as redes sociais e a forma de organização da sociedade, globalizam velozmente movimentos, ideais e ideias (….) Justifica-se, assim, que o último dos 17 objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS) seja centrado nas parcerias para a implementação dos ODS (…), que tenhamos presente o papel da cooperação na superação e na adaptação à mudança e à(s) crise(s) e de processos muito estudados e trabalhados pela psicologia para a promoção da cooperação, como a relação, orientação para os valores sociais, empatia e altruísmo, comunicação, compromisso, confiança, identificação e a cultura.”

“É momento de recuperarmos do conjunto de crises que vimos enfrentando também pela recuperação da cooperação. Tempo de Re…cooperarmos, pela confiança nas instituições e pessoas. De Re…cooperarmos, pela paz, pela saúde e pela possibilidade de bem-estar, de todas e todos.”

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Férias. França. Falta de memória e de factualidade (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

“O trabalho liberta”. Leon Blum, ao contrário de outras e outros judeus (e não apenas), não terá lido esta frase quando, em 1943, entrou no campo de concentração da Alemanha Nazi de Buchenwald. Este campo, ao contrário de Auschwitz ou Sachsenhausen, não a tinha no portão, antes a não menos inquietante e perturbadora: “a cada um o que lhe é devido”. Seria mais um anacronismo a acrescer ao inominável da situação, quando, sete anos antes, Blum havia liderado o primeiro governo no Mundo a instituir legalmente e universalizar o direito a férias pagas. A partir de 1936, quem sabe não por acaso no primeiro governo também com Mulheres com funções executivas (quando as Mulheres ainda não tinham direito de voto), além da fixação de uma jornada de trabalho fixa (40h semanais) e do prolongamento da escolaridade obrigatória (14 anos), as “congés payés” permitiram que milhões de trabalhadoras e trabalhadores em França usufruíssem de férias anuais, pagas.

A importância das férias é, hoje, inegável e França foi farol para que outros países, com importantes e significativas excepções, fossem progressivamente assumindo as férias pagas. Apesar da Organização Internacional do Trabalho o defender, também desde 1936, e da Declaração Universal dos Direitos do Homem afirmar desde 1948 que “toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente a uma limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas”, em Portugal, as férias pagas foram generalizadas e universalizadas, sob a forma de Subsídio de Férias, a par da instituição do Subsídio de Desemprego, apenas em 1975, meses após a generalização do 13º mês de retribuição (Subsidio de Natal) em Agosto de 1974.

“As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, diz um recente relatório da Confederação Europeia dos Sindicatos que alerta para o crescimento significativo, de 2019 até hoje, do número de trabalhadoras e trabalhadores que na União Europeia não tem hoje capacidade financeira para “pagar férias”. Em Portugal, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2020 foram 61% e em 2021 56% das e dos residentes que não realizaram qualquer viagem em férias, ou seja, que não se deslocaram para fora do seu ambiente habitual, pernoitando uma noite que fosse.

Se o trabalho pode ser um factor importante na realização, a possibilidade das e dos trabalhadores desligarem (mesmo que não a 100%), de pararem (ou, pelo menos, reduzirem) é, além de um direito, um elemento central na produtividade, na gestão das organizações e na saúde e bem-estar das pessoas. Uma oportunidade de descansar, de prevenir a exposição a situações adversas ou desafiantes no contexto de trabalho (muitas vezes potenciadoras de ansiedade, angústia ou stresse) e a riscos psicossociais. Uma oportunidade de quebrar rotinas, algo fundamental à criação de novos hábitos e à mudança que tantas vezes procuramos e que, com a diminuição potencial de estímulos em férias, pode ser realizada, repetida e acomodada (logo mais facilmente manutenível), quer seja relativa a uma actividade desportiva, cultural, na alimentação ou na interrupção de um comportamento impregnado no dia-a-dia. Uma oportunidade de centração noutros elementos importantes da vida além trabalho, como a família, as amigas e amigos, os projectos “adiados” ou os hobbies, da leitura às viagens, da praia aos festivais, das romarias ao “regresso à terra”.

França, simbolicamente, deu-nos e deu-me isso. Deu-me também, como a muitas e muitos portugueses, oportunidades e outras possibilidades de qualidade de vida, porquanto, noutro momento, parte da minha família lá viveu e trabalhou, em busca da liberdade impossível em Portugal naqueles anos. Em busca de um futuro melhor para o nosso país e para nós que, dia-a-dia, o construímos e vivemos. Esta é ainda, hoje, a época do ano onde famílias se reencontram, onde a “terra” ganha vida, sotaque, economia, histórias do e dos passados, sonhos de regresso e de futuro. Onde, quando paro eu de férias, penso no que foi no passado e é para muitas e muitos ainda hoje, a abnegação e o sofrimento de partir não raras vezes não apenas por si, mas pelas e pelos seus.

Não deixa, portanto, de ser anacrónico que seja esta, também, a altura do ano em que algumas pessoas questionem as migrações. Das pessoas, de quem escolhe (ou não) Portugal enquanto país para viver ou de quem, particularmente nesta altura do ano, regressa ao país. Das ideias e dos ideais, de direitos e de liberdades, da procura da igualdade de oportunidades e de um país e de um Mundo que não discriminam pessoas pela sua nacionalidade, características ou escolhas. Numa duplicidade só possível em quem acha que tudo pode resolver com soluções simples e simplistas e que aspira a reconhecimentos divinos, questionam-se as migrações em Portugal dizendo-se defender as portuguesas e portugueses e Portugal, um país em vários momentos da sua história (e felizmente hoje) aberto ao Mundo, contribuidor para a partilha, para a troca e a cooperação e feito, também, de migrantes e de migrações, de pessoas e de ideias e ideais.

Não precisamos de evocar o importante contributo da população imigrante e emigrante para o desenvolvimento e para o futuro do país. Não precisamos de evocar os significativos contributos anuais para o sistema de segurança social português das trabalhadoras e trabalhadores sem nacionalidade portuguesa. Não precisamos de evocar o papel que as migrações tiveram, têm e terão no enfrentar dos grandes desafios do país, desde os seus níveis de pobreza, às crises sócio-económicas ou aos desafios da natalidade e da falta de trabalhadoras e trabalhadores em alguns sectores de actividade. Basta-nos evocar as férias e França, basta-nos olhar ao redor para aferirmos como a (sua) falta de factualidade e falta de memória não (pre)ocupam tanto algumas pessoas quanto a possibilidade de circulação e de migração de pessoas e de ideias e ideais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podendo para algumas pessoas, como aqui escrevi há alguns meses, ser contraintuitivo parar e intencionalizar uma ociosidade positiva e prazerosa, é essencial num caminho rumo a uma maior possibilidade de bem-estar, de autodeterminação e ao exercício e usufruto da nossa liberdade. Essencial, portanto, a sermos abertos à mudança, às e aos outros, à diversidade que resulta do contacto com novas pessoas, lugares e ideias. A uma diversidade que nos enriquece a todas e todos, enquanto comunidade. Promovamos, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, a possibilidade e a oportunidade de todas e todos terem férias, de todas e todos circularem, interagirem e se espantarem e inspirarem mutuamente por um Mundo melhor.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 04.08.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ferias-franca-falta-de-memoria-e-de-factualidade

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The future is…

“O que as/os psicólogas/os desejam que as/os jovens adultas/os de hoje saibam?”. Com este chamativo título, Dani Blum escreveu um estimulante artigo no The New York Times sobre uma potencial crise de “quarto de vida” e como a “geração que hoje chega à idade adulta se confronta com novos [muito complexos, acrescento], por vezes debilitantes, desafios”. Olhando o Mundo e usando da racionalidade, creio possível vermos hoje dos melhores indicadores de educação, saúde e bem-estar globais e, simultaneamente, desigualdades gritantes e desafios societais de complexidade significativa, apenas endereçáveis com mobilização global, concertação de esforços e, sobretudo, cooperação.

Como sabe, quem me lê, um dos que muito me (pre)ocupa é a crise climática (e suas consequências). Nele há trabalho desenvolvido (e em desenvolvimento) globalmente pela psicologia, a partir dos seus contributos enquanto ciência e profissão, que permitiu a participação na COP26 e outros contributos junto da United Nations (https://www.apaservices.org/advocacy/news/global-climate-policy). Não é este, todavia, o único dos desafios e este não se pode desligar de outros.

Um outro, particularmente relevante, relaciona-se com os fenómenos de ódio, racismo e xenofobia que muito condicionam a sociedade, a democracia, a coesão social e as possibilidades de saúde (incluindo psicológica) e bem-estar das pessoas e comunidades. Aqui, creio, há caminho a percorrer, particularmente num contributo mais global da psicologia.

Desde logo, conforme a American Psychological Association está a fazer, olhando, de forma crítica, o passado dos contributos e reflectindo sobre os seus impactos, alguns muito negativos. A reportagem que partilho (abaixo) relata este “confrontar sos erros para construir um futuro de equidade”, a partir de um devido pedido de desculpas e de acções de reparação do racismo histórico -convido também à reflexão sobre esta cronologia (https://www.apa.org/about/apa/addressing-racism/historical-chronology) de 1869 (com Galton, com os primeiros estudos das diferenças individuais em psicometria e emergência do conceito de “eugenia”) até 2021 (aprovação pela APA da resolução que suporta este trabalho).

Este é tema central da #APAconvention 2022. Tema central num momento do Mundo (mas também pelo que se vive em Portugal) onde é premente unirmos esforços nesta temática. A convenção será nos próximos dias na cidade onde G. Floyd foi brutalmente assassinado em 2020. Minneapolis, cidade que viu Prince nascer e “partir” para nos dar, entre outras, a música “The future” (lembram-se do Joker J. Nicholson dizer “Hey Eckhardt, think about the future!”) que Prince termina a repetir 6 vezes “Eu vi o futuro e ele será…”, acrescentando um “all right” apenas na primeira.

6 possibilidades de inovação, novas narrativas e futuros alternativos. Futuros que, com cooperação e com uma psicologia a reflectir o seu passado para projectar o futuro, existam. Sejam “all right”… para todas e todos.

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Violências (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

Noite de Sábado, 24 de Julho de 1999. Numa base aérea desactivada nas imediações de Nova Iorque, Fred Durst sobe ao palco e, perante centenas de milhares de pessoas (e milhões a assistirem na TV), com os seus Limp Bizkit, canta a canção “Break stuff [Partam coisas]”. Diz, depois e repetidamente, “não existirem regras” e encoraja a que as pessoas “se zanguem”. Em pleno Woodstock 1999 – depois de dias de calor intenso, com péssimas condições de espaço e de higiene, após um acumular de tensão e de violências várias – Durst convida à “zanga”. Com ou sem consciência, com ou sem intenção, contribuiu para uma legitimação do que se sucedeu nas horas seguintes e que conduziu ao fim abrupto do festival, com uma forte intervenção policial, resultante do perigo provocado pelo total descontrolo de parte significativa do público e já depois da MTV e outros órgãos de comunicação social terem retirado as e os jornalistas do recinto por falta de segurança.

Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina, no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu. No Woodstock 1999, nos fenómenos diversos que no Mundo e em Portugal tanto condicionam a sociedade e a saúde e bem-estar das pessoas ou até no percurso etimológico da própria palavra – violência – que a traz ao presente a partir do latim “violentia” (vis), associada a algo bravio, de vigor e de potência, bem como a uma ideia de abundância, essência e força (física) em acção. Associada, portanto, a quatro elementos que me parecem essenciais à reflexão sobre este fenómeno, à forma como impacta a sociedade e as pessoas e à forma como é por elas impactada.

Desde logo, a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência, da sua (in)visibilidade social, política e/ou jurídica e dos normativos sociais e de direitos humanos que as enquadram. Esta realidade acresce complexidade ao fenómeno, pela dificuldade da sua definição estanque, permanente e abstracta, fazendo depender a sua consideração, logo a sua prevenção e mitigação, de quadros éticos e valorativos também partilhados entre (tod)as pessoas e (tod)as instituições da sociedade, desprotegendo dessa forma grupos ou pessoas com menor visibilidade e capacidade e/ou possibilidade de participação.

Existe ainda, de certa forma, uma naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade. Isto é, ainda hoje e em Portugal, evidente em determinados comportamentos individuais (por exemplo, na violência no namoro e doméstica, particularmente a exercida sobre as Mulheres), colectivos (por exemplo, no Desporto e, particularmente, nos grupos organizados de adeptas e adeptos), institucionais (por exemplo, nas instituições e equipamentos sociais, sobre população mais velha e normalmente mais dependente) ou mesmo em questões mais estruturais de organização da sociedade (por exemplo, os fenómenos de discriminação e exclusão, mais ou menos explícitos, de grupos populacionais). Desnaturalizar e invalidar as diversas formas de violência é essencial à sua não legitimação e, nesse sentido, a uma sociedade de maior equidade, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Há também a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos. Daqui podem resultar mecanismos pseudo-securitários que, ao invés de garantirem maior segurança da e na diversidade e liberdade, contra ela atentam. Resultam, ainda, desconfianças e incompreensões diversas, muito relacionadas com os fenómenos de tribalização e polarização das sociedades e de fragilização das instituições da sociedade. Resulta, também, a emergência de autoritarismos e a legitimação de determinadas violências, algo a que crescentemente vimos assistido no discurso na proposta política em Portugal.

Finalmente, a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências. Se o comportamento é a expressão visível das cognições e emoções que para ele contribuem, e por visível, socialmente aprendido, perpetuado e reproduzido, a linguagem e o vocabulário são um reflexo e uma imagem destes pensamentos, destas emoções e destes potenciais comportamentos, reflectindo as estruturas sociais e históricas que os mantêm e perpetuam. Efectivamente, não há neutralidade na comunicação, na expressão e na linguagem e estas podem ser fundamentais na manutenção ou na criação de possibilidades de mudança no sentido de um futuro com menos naturalização, legitimação e utilização das violências. De um futuro com menos violências.

Futuro que, dependendo de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, será tão mais possível quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta que assente na ideia da não inevitabilidade das violências e que nos mobilize numa acção concertada visando a sua prevenção e mitigação, assente em quatro objectivos fundamentais.

À cabeça, melhor compreender o fenómeno, para melhor informar as respostas e as políticas públicas. Caracterizar, estudar e aprofundar dados e conhecimento, prevenindo a cristalização de preconceitos e vieses não factual ou cientificamente comprovados. Como disse o Ministro da Administração Interna, na apresentação da Comissão de Análise Integrada da Delinquência Juvenil e da Criminalidade Violenta, temos a responsabilidade de não associarmos automaticamente o aumento em 2021 da “delinquência juvenil e grupal” (num ano em que a criminalidade violenta no global voltou a decrescer) a questões relacionadas com as zonas ou comunidades de proveniência, algo que apenas confirma e perpetua estereótipos, preconceitos e factores de exclusão. Disse, José Luís Carneiro, que devemos analisar “em que medida os efeitos da pandemia, no domínio da saúde mental, podem contribuir para explicar este fenómeno” e “qual o grau de reemergência [também na sequência da pandemia] de fenómenos de exclusão [e isolamento com consequente maior e menos controlada exposição a conteúdos, alguns violentos, nas redes sociais e internet] e de pobreza que possam contribuir para explicar a delinquência juvenil e a criminalidade”. Mais que associar a um grupo de pessoas ou em comunidades, perceber o quão as dimensões macro ajudam a explicar o fenómeno, e logo, informam a possibilidade de intervenção no mesmo.

Um segundo objectivo está, necessariamente, relacionado com a necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades. A vulnerabilidade, qualquer que seja, tem que ser validada, não penalizada. Tem que ser visível, não escondida. Tem que ser apoiada, para que possa ser superada. Outras pessoas e a comunidade no geral devem assumir-se como apoiantes e garantes de suporte da diferença, da diversidade e da ou das pessoas em situação de vulnerabilidade. Devem adoptar posturas e atitudes que criem um ambiente de segurança psicológica fundamental a uma mais adaptativa resposta da pessoa e das comunidades quando confrontada com adversidades. Para tal é fundamental promover a saúde mental, ao longo de todo o ciclo de vida e, particularmente, construir e capacitar respostas nesta área, contingentes e sensíveis às necessidades e aos momentos das pessoas e comunidades. Ambientes psicologicamente seguros e intervenções psicológicas que apoiem a mudança de comportamentos, de cognições e uma melhor gestão e regulação emocional, desempenham um papel muito importante na prevenção das violências.

A intervenção psicológica e psicossocial, constituem elementos essenciais à reparação e ao apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência, por isso destaco-as como terceiro objectivo. Porque, não apenas este apoio é devido às pessoas, enquanto direito da mais elementar justiça social, como este apoio é fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência, onde pessoas vítimas podem vir a ser pessoas agressoras, particularmente quando falamos de vítimas (ou observadoras/es) directas ou indirectas, ainda crianças ou jovens.

Finalmente, o quarto objectivo, a integração, articulação e inovação de respostas. Quando enfrentamos desafios sociais sistémicos e complexos, conforme os que justificam as violências, precisamos de respostas não simplitas (normalmente populares), mas sistémicas, com envolvimento de todas as instituições políticas, jurídicas e sociais. Precisamos de caminhar de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal para a identificação dos mecanismos sociais justificativos e de como os podemos, a par da intervenção individual, modificar, particularmente com políticas sociais que promovam mais possibilidades de inclusão, maior equidade e que verdadeiramente não “deixem ninguém para trás”. Esta modificação promoverá o empoderamento da participação das pessoas e comunidades menos visíveis e, dependerá, fortemente, do combate a discursos e narrativas (de cada um e uma de nós, das decisoras e decisores, das jornalistas e dos jornalistas, para dar apenas alguns exemplos) e a atitudes, comportamentos e decisões (de entidades e autoridades policiais, judiciais e políticas) se não promotoras, legitimadoras, das violências.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária à sua prevenção e mitigação. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/violencias

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Felicidade e Bem-estar…

Para que serve o relatório anual da felicidade no Mundo? Um ranking de países, promovido desde 2011 pelas United Nations a propósito da resolução – Felicidade: Rumo a uma abordagem holística para o seu desenvolvimento. Ranking que, mencionando a felicidade (emoção associada ao cumprimento de um objectivo ou a um acontecimento percepcionado como positivo, logo temporalmente definida), procura classificar o bem-estar subjectivo de cada país, enquanto medida mais estável, mas nem por isso menos complexa de mensurar.

Serve, a meu ver, 3 propósitos. Reflectir sobre que dimensões, considerando a melhor evidência científica disponível, surgem mais correlacionadas com o bem-estar subjectivo – aqui são usados o PIB, suporte social, esperança média de vida, possibilidade de escolhas livres, generosidade e a confiança nas instituições/percepção de corrupção. Para, mais do que nos (país) compararmos com outros, perceber onde estamos ou não a evoluir e como o podemos fazer. Serve o propósito de falarmos sobre o tema e… Falar é importante.

Foi o que a Judite de Sousa e eu fizemos no Jornal da CNN Portugal, conversa que partilho. Sobre o relatório de 2022. Sobre a Finlândia ser, pelo 5º ano consecutivo, o país 1º classificado apesar de estar fora do top10 no PIB e na esperança média de vida (onde está abaixo de Portugal), mas se destacar no suporte social, possibilidade de escolhas livres e confiança nas instituições/não percepção de corrupção. Sobre a 56ª posição de Portugal, penalizado pela baixa confiança nas instituições/elevada percepção de corrupção e por uma, a meu ver, frágil avaliação do indicador generosidade (valor doado a uma instituição no mês anterior), onde estamos em 124º. Isto, apesar de resultados relevantes nas restantes 4 dimensões e do país ter crescido no indicador total todos os anos desde 2011 e recuperado significativamente posições no ranking nos últimos anos.

Falamos, ainda, das expectativas das pessoas quando procuram (e conseguem, considerano os obstáculos e iniquidades persistentes no acesso) psicólogas/os e do que considero serem 5 pontos essenciais à nossa evolução: combate feroz à pobreza e exclusão, prevenindo impactos da escassez na (im)possibilidade de bem-estar; aprofundar a aposta na educação e promoção de competências sócio-emocionais; maior apoio quando uma pessoa falha, erra ou tem um acontecimento negativo imprevisto, permitindo rede e que ninguém fique para trás; promover a confiança nas pessoas e instituições; caminharmos de maior competitividade para maior cooperação e suporte social, considerando menos os rankings (Finlândia estaria nos últimos lugares num potencial ranking de rankings).

Uma conversa que tocou a importância e centralidade do bem-estar e o papel que pode desempenhar no presente e futuro do país, como aqui defendi.

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Que Portugal?

Que Portugal? Quem me ouve e/ou lê sabe que me (pre)ocupa uma inquietante ligação entre a desconfiança, o autoritarismo e a aculturação.

Como hoje, no Mundo mas também cada vez mais em Portugal, sem pudor, se exploram casos e pessoas, instigando o medo e/ou o ódio, polarizando para, de forma mais eficaz, gerar e propagar desconfiança, fragilizando outras pessoas e instituições com fins políticos.

Fins que começam e acabam no desrespeito e na ameaça aos valores da liberdade, da equidade, da democracia e do bem-comum e que conduzem, hoje, também a um interromper num caminho de maior democratização dos sistemas de governo no Mundo com o regresso ao autoritarismo tácito, que acresce ao conjunto de manifestações da progressão do autoritarismo implícito.

Mas não termina aqui. Este “tudo posso” e esta ausência de “limites” e de “respeito e consideração pelas e pelos outros”, sejam pessoas ou países, traz a necessidade de mais e mais, de crescer, expandir, aumentar e de aculturar tudo e todos e todas. Traz o desejo da “América novamente grande”, da “Rússia se reerguer” ou da “China Global 2049”. Traz as significativas implicações destas ambições para a Paz, para a possibilidade de bem-estar no Mundo e para uma ideia de cooperação e partilha entre países pelo planeta e pelos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Mas, que Portugal neste Mundo? Um Portugal de, inexistentes mas persistentes, “raças”, na crença e no sentir de algumas pessoas? Um Portugal que nada deve e tudo lhe é devido? Um Portugal que “culpa” as pessoas pelas suas circunstâncias, por exemplo de pobreza? Um Portugal em que cada pessoa julga e desconfia de outra pessoa e com “medo de existir”?

Não. Não. Não. Espero e luto para que não. Antes, por um Portugal que, sensível às vulnerabilidades e crente no potencial das suas pessoas, não tenha o “medo de existir” que o seu José Gil tão bem define. Um Portugal a inscrever todo o seu passado, na celebração e na reparação, para compreender e actuar no presente e se projectar no futuro. Um Portugal na antítese de uma ideia de grandeza que, em bom rigor, vive da desconfiança, do autoritarismo e da tentativa de aculturação de tudo e de todas e todos.

Um Portugal de equidade, inclusivo, aberto a si e ao Mundo… Um Portugal, qual, “grito que vem de longe e ainda não se calou” que Saramago descreveu na sua “Viagem a Portugal”.

Um Portugal com passado, de presente e para o futuro. Um Portugal, também, farol do Mundo.

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Ragusa. Urban Future, 2022.

Junho. Aproxima-se o Verão e, em conversas ou pesquisas, é possível que nos cruzemos com Dubrovnik. Esta cidade croata é hoje um dos principais destinos turísticos do Adriático, conhecida pela sua costa e pelo seu centro histórico, património mundial da UNESCO. É, hoje, menos conhecida por ter sido uma vibrante cidade, particularmente a partir do século XIV, quando se tornou cidade-Estado da República da Ragusa.

Com autogoverno, era uma cidade liberal e humanista à época, fazendo da ideia da liberdade das pessoas e na economia, princípio de organização incomum naquele tempo. Foi dos primeiros Estados a abolir a escravatura, a acolher pessoas refugiadas, a não encerrar o governo da cidade a um conjunto fechado de representantes e foi mesmo a primeira a criar uma estrutura de saúde pública, incluindo nas suas medidas períodos de quarentena, algo que salvou muitas vidas e foi fundamental para prosperar mesmo no período da peste negra.

Liberdade. Liderança. Abertura, acolhimento e inclusão. Ciência. Saúde e bem-estar. Inovação. Pessoas… Mudança. Alguns dos factores-chave para uma Ragusa vibrante, líder e exemplo para tantas cidades (por ex., no seu modelo de saúde pública) são, grosso modo, os mesmos factores-chave que cerca de 700 translações depois do Planeta Terra ainda determinam a mudança.

Adiadas que foram as edições de Lisboa (2020) e Roterdão (2021), estou em Helsingborg na conferência Urban Future. (https://urban-future.org), integrada na H22 City Expo (https://www.h22cityexpo.com). Exposição que nos apresenta uma Helsingborg que procura a cada dia aprofundar o seu caminho e investimento no sentido da sustentabilidade, inclusão e inovação, como sublinha o seu presidente de câmara, Peter Danielsson. O seu caminho para uma cidade mais inteligente e amiga das pessoas. Caminho que implica mudança. Que implica as pessoas, a sua mobilização e o seu envolvimento. Que implica “City Changers by Heart”, mote da conferência.

Uma oportunidade para (me) inspirar, primeiro, para “expirar” depois. Para sentir e partilhar. Para (me) impactar. Para (me) expandir. Para enfrentar a mudança e as barreiras e obstáculos que a ela se colocam. Para reforçar que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, a mudança é premiada pelos e pelas eleitoras, não penalizada, particularmente quando ligada à sustentabilidade ambiental e mobilidade. Para contactar e conectar-me com a inovação, as boas práticas e exemplos que, contagiosos que são, podem e devem ser transladados (por isso a expressão atrás), com as devidas adaptações, para Portugal e para todo o Mundo. Para acreditar (ainda mais) e advogar (ainda mais) por cidades com mais qualidade de vida e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Foi a cidade (também Ragusa), enquanto lugar das pessoas e das comunidades, que ajudou a criar e influenciar o Mundo moderno, com tudo quanto de menos bom, mas também de bom, tem.

Mobilizemo-nos e envolvamo-nos na mudança da (nossa) cidade para mudarmos o (nosso) Mundo.

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O bem-estar em todas as políticas (Ao redor…; Sábado; 20.05.2022)

Foram três atletas que representaram Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, edição particularmente marcada pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a intensidade e brutalidade que hoje conhecemos apenas quatro dias após o seu final. Creio não errar se afirmar que não serão muitas as leitoras e leitores deste texto que conseguem nomear três cidades do país mais medalhado desses Jogos Olímpicos. Com pouco mais de metade dos e das habitantes de Portugal e com uma comitiva de atletas consideravelmente mais pequena face a outros países, a Noruega manteve-se como o país mais medalhado (já o fora em 2018), batendo o recorde de medalhas de ouro nuns só Jogos Olímpicos de Inverno.

Apesar da neve abundante e das condições propícias à prática de desportos de Inverno, que aliás partilha com muitos outros países, muitos deles com muito mais população e atletas, este sucesso não se esgota nestas modalidades (veja-se, entre outros exemplos, Erling Haaland no futebol). Antes resultará, em muito, de políticas diversas e da sua carta dos Direitos das Crianças no Desporto, orientação que define que as crianças devem ter experiências positivas sempre que praticam desporto, que sugere a prática e a experimentação de diferentes modalidades e que não permite, antes dos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings, procurando estimular a alegria, a relação e o bem-estar associado ao Desporto para todas e para todos ao longo de toda a vida.

A promoção e o investimento na alegria, na relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade, como pista para o sucesso desportivo. Como para o sucesso educativo, como cada vez mais evidência científica confirma, desde os ciclos de estudos iniciais ao ensino superior. Como para a (nossa) produtividade laboral, como todas e todos já sentimos. Como para o desenvolvimento das nossas sociedades e para a confiança das pessoas e das comunidades nas suas instituições e nas pessoas.

Já nos últimos dias de 2019, aquando da sua primeira candidatura a presidente do PSD, Luís Montenegro dizia “crer que a política tem de ser medida precisamente pelo bem-estar” propondo “a adesão de Portugal a um novo índice: o Índice de Felicidade Interna Bruta”. Na nova candidatura que hoje abraça, volta ao tema, discordando do facto de hoje “medirmos o bem-estar das pessoas com base apenas no Produto Interno Bruto (PIB)”, dizendo não “temer a palavra felicidade” e reafirmando a intenção de criar um “Índice de Felicidade”. Acompanho Luís Montenegro na perspectiva de que a política e as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e para todos e na consideração de que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Manifesto, porém, as minhas reservas, também conceptuais, em torno de índices referentes à felicidade e, neste âmbito, creio mais sustentada a posição do seu adversário nestas eleições (Jorge Moreira da Silva) que, além de apontar à melhoria considerável do posicionamento do nosso país no ranking do Desenvolvimento Sustentável e do Desenvolvimento Humano, ambos da ONU, aponta também como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, organização junto da qual trabalhou nos últimos anos.

Este índice resulta da combinação de 11 dimensões e, até simbolicamente, permite uma visão mais clara do quão complexo e muito impactante é o conceito de bem-estar. Das condições de habitação, ao rendimento; do trabalho e emprego de qualidade, à conciliação entre vida pessoal e profissional e ao suporte e conexão social; da educação e formação à qualidade do meio ambiente; do envolvimento cívico e participação democrática ao acesso a cuidados de saúde de qualidade; da percepção de satisfação com a vida à segurança. 11 dimensões que respondem a uma questão simples, mas chave do bem-estar: “como vai a (sua) vida?” 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito, tal como tornam claro que o bem-estar (e o impacto das políticas públicas nele) vai além do Produto Interno Bruto sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o. Que o bem-estar é mais que a felicidade da pessoa ou das pessoas num determinado momento sendo, naturalmente, por ela condicionado, mas condicionando-a.

Saudando a relevância de ambos os candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí também pode resultar para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais, creio importante sublinhar três transformações relevantes na sociedade portuguesa neste domínio. Desde logo o capital social presente e futuro relativo à aspiração das populações a maior possibilidade de bem-estar para todas e todos e a pressão que isso traz e trará à sociedade e aos decisores e decisoras para o considerarem nas suas propostas e acção. Também o caminho de mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, de rendimentos, de acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar. Medidas e políticas avaliadas pelos seus impactos no bem-estar, e não apenas por indicadores económicos ou de acesso, logo mais dirigidas às especificidades e aspirações da sua população alvo e mais desenhadas considerando o envolvimento em todas as fases das e dos seus destinatários. Finalmente, o evoluir para um modelo e para uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, qualquer que seja a área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas. Bem-estar a que acrescento a saúde mental, nele fundamental. Bem-estar num país que poderá ter factores menos facilitadores de um crescimento significativo (e continuado) do PIB nos próximos anos, mas que tem inúmeros factores facilitadores de um crescimento significativo da possibilidade de bem-estar de todas e de todos e, até, deste alavancar o seu PIB.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, pensar o desenvolvimento de um país face aos desafios do presente e do futuro, e até à necessidade de alteração de paradigmas de comportamento e consumo da sua população, tendo por referência principal o seu Produto Interno Bruto é potencialmente falacioso e promotor de “águas de bacalhau”. Ao contrário, além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, sugiro importarmos a centralidade do bem-estar das políticas (da Noruega), fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita. Desenvolvendo-o a partir de uma estratégia onde todos os sectores de governação o considerassem e priorizassem, onde se estabelecessem parcerias com entidades, organizações da sociedade civil e empresas, onde se pensasse o quão determinante é hoje o bem-estar na prevenção e na promoção nas áreas económicas, sociais ou ambientais. Onde se apostasse no seu valor na captação de pessoas e investimentos para o país, na promoção da qualidade de vida, da equidade e da coesão social e, afinal, no quão decisivo é na resposta à pergunta chave: “como vai a (sua) vida”?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 20.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-bem-estar-em-todas-as-politicas

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O bem-estar…

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 foram marcados pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a brutalidade que hoje conhecemos apenas 4 dias após o seu final. Neles, a Noruega, país com cerca de metade da população de Portugal, repetiu a vitória de 2018, tornando-se em 2022 o país com mais medalhas de ouro nuns só JO de Inverno. Noruega, país onde o Desporto é promovido para todas e todos, ao longo de toda a vida. País cuja carta dos Direitos das Crianças no Desporto estimula que as crianças tenham experiências positivas sempre que o praticam, sugerindo a prática/experimentação de diferentes modalidades e não permitindo, até aos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings. País que promove e investe na alegria, relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade no Desporto.

“O bem-estar em todas as políticas”, 33º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte estes factores chave do sucesso desportivo da Noruega. Factores também chave do sucesso educativo, da produtividade laboral e do desenvolvimento das nossas sociedades e da confiança das pessoas e das comunidades nas pessoas e nas instituições.

Partindo daqui o artigo saúda o facto dos candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí resulta para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais. Nele afirmo-me concordante com Luís Montenegro na sua afirmação de que as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e todos e que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Nele associo-me a Jorge Moreira da Silva quando aponta como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, medida que resulta de 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito de bem-estar e que este vai além do PIB sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o.

Abordo, ainda, o capital social presente e futuro relativo à maior aspiração das populações à possibilidade de bem-estar para todas e todos; a mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, rendimentos, acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar; e o evoluir para um modelo e uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, em qualquer área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas.

Termino sugerindo que além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, importemos (da Noruega) a centralidade do bem-estar nas políticas, fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita.

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Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder (Ao redor…; Sábado; 08.05.2022)

Como eu, certamente já acompanhou noites eleitorais. Um rodopio de resultados regado com comentários e declarações dos e das candidatas e principais apoiantes. Tudo em busca da identificação e comunicação de quem venceu e de quem perdeu, signifique ganhar e perder ter mais ou menos votos que as e os adversários ou apenas “um bom ou mau resultado”.

Foram, grosso modo, 13 milhões e 300 mil as francesas e franceses que votaram no passado dia 24 de Abril em Marine Le Pen, 41,46% do total de votantes. Mais quase 8 milhões face aos 5 milhões e 500 mil votos (17,79%) que o pai, Jean-Marie Le Pen, havia obtido aquando da sua surpreendente passagem à segunda volta das presidenciais francesas de 2002. Daí para cá a Frente (hoje Reagrupamento) Nacional obteve 6 milhões e 400 mil votos na primeira volta das eleições de 2012 e 10 milhões e 600 mil na segunda volta em 2017, assegurando três segundas voltas em cinco eleições nos últimos 20 anos e aumentando 145% o seu resultado de 2002 a 2022. Noutra geografia, e noutro contexto, Donald Trump obteve 74 milhões e 200 mil votos nas eleições presidenciais americanas de 2020, mais de 11 milhões de votos mais do que havia obtido nas eleições de 2016 que fizeram dele Presidente, a maior votação de sempre de um/a candidata/o à presidência com excepção dos votos de Joe Biden que ganhou essa eleição (a melhor votação de Obama – presidenciais de 2004 – foi inferior a 70 milhões de votos). Dois simbólicos exemplos de derrotas, incluindo a de um incumbente, a que poderíamos juntar a outras próximas em Espanha ou Itália, que nos estimulam a reflectir sobre a complexidade do momento que vivemos e sobre a relatividade do ganhar e do perder (em) eleições, dado os enormes impactos e ganhos de quem “perdeu”.

Não sendo um fenómeno exclusivo de uma direita mais nacionalista, populista e antissistema (veja-se o efeito dos partidos “verdes” nas últimas 2/3 décadas na mudança de programas políticos dos partidos de centro direita e esquerda na Europa Central e do Norte e do Bloco de Esquerda no programa do Partido Socialista em Portugal), um dos ganhos associados às derrotas destes partidos em diferentes países mas com resultados crescentes e significativos, é a generalização da política do ódio e do e pelo medo. Dizia um conjunto de historiadoras e historiadores franceses que Zemmour mente sobre o passado para as pessoas odiarem o presente. Ódio que, a par do medo instigado face a tudo o que é novo, diferente, diverso, facilmente se propaga ao ritmo dos desafios societais e da complexidade crescente que enfrentamos, das mudanças e adaptações que o quotidiano nos exige e que se espalham e alimentam em grupos e redes sociais cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras.

A polarização extrema, daqui resultante, alimenta-se do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigos e inimigas. Rompem-se pontes, classificam-se “pessoas” e não apenas posições / ideias (“deploráveis”, nas palavras de Hillary Clinton face a “metade das e dos eleitores de Trump”) ameaçando a harmonia necessária em política, a possibilidade e a crença de mudança, perpetuando e reforçando ciclos de extremismo e a cristalização de dois polos, altamente magnéticos, não conciliáveis e que vivem, também, uma união baseada na repulsa do outro polo e não apenas na identificação com as pessoas e ideias do seu polo.

Com este “fosso” entre grupos cada vez maior, a narrativa do medo e do ódio ganha espaço mesmo quando os e as candidatas que a usam e a propagam perdem eleições. Com ela instala-se o que podemos apelidar de crise de direitos e da democracia, ou seja a interrupção e retrocesso recente a que assistimos de um caminho de maior generalização e incondicionalidade de direitos básicos humanos no Mundo e de diminuição progressiva de sistemas e regimes políticos autoritários no Mundo.

Parte da inversão deste caminho resulta de uma centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou dos privilegiados”. Serve também propósito de colectivização da culpa, recentemente abordada no parlamento português e, por vezes, de promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos. Acrescenta, então, à crise da representação, uma crise de confiança onde pessoas crescentemente desconfiam de instituições, de outras pessoas e, até, de si próprias e da possibilidade do seu futuro. Crises que funcionam como estímulo para uma maior procura e aceitação de decisões ou propostas simples, simplistas, que atendem exclusivamente ao presente e ao local, por vezes salvíficas e personificadas numa pessoa, para questões ou problemas especialmente complexos, abrindo espaço a discursos altamente apelativos que oferecendo “soluções” e “melhorias” rápidas atingem facilmente pessoas e grupos mais vulneráveis ou psicologicamente a eles mais predispostos.

Além das vitórias na narrativa o caminho de crescimento, mesmo aquando das derrotas, torna o horizonte de vitória mais possível, próximo, por vezes até provável, com três consequências significativas: a) a institucionalização progressiva e a naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional, alargando-se mais o seu espaço mediático e sua capacidade de condicionar o debate público; b) o maior crédito e a maior penetração, discussão e propagação de ideias e de posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência, com cada vez maior partilha de desinformação, de fake news e teorização conspirativa que sustenta a ideia de necessidade de “fim de regime”, “fim de ciclo” ou apenas de “autovitimização”; c) com a institucionalização e o crescente assumir de lugares de relevância, decisão e poder, mais personalidades e empresas se predispõem a associar-se a estes partidos e pessoas, profissionalizando as suas estruturas e, particularmente, a sua comunicação, usando mais e com maior eficácia estratégias de reforço, de segmentação e de mediatização das mensagens e das pessoas em questão.

Outro efeito “ganhador” destas derrotas resulta da mudança e da influência nos discursos e nas práticas de partidos vencedores ou potencialmente vencedores. A este propósito vejamos o impacto das posições mais populistas da campanha do “Leave” (pela saída) no referendo que discutiu a continuidade do Reino Unido na União Europeia nos partidos Conservador e Trabalhista, como o Partido Republicano normaliza posições, comportamentos e atitudes de Donald Trump justificando-as como “a sua compreensão da frustração das comunidades americanas brancas mais pobres” ou como Valérie Pécrese, candidata presidencial dos Republicanos em França, abordou logo no seu primeiro comício a suposta “grande substituição”, bandeira dos partidos da direita nacionalista, populista e antissistema, que entrou no discurso e programa do partido de centro direita, apesar de claramente contrária aos seus princípios básicos (de factualidade, da não discriminação e do não incitamento ao ódio e violência), também por isso ameaçando-os e a prazo colocando-os em risco.

Por cá, como por lá, tivemos um candidato presidencial em 2021 que usou da expressão “pessoas de bem”, tão utilizada por Salvini em Itália ou Marine Le Pen em França (aliás presenças nas suas campanhas eleitorais), para nacionalizar a expressão no seu “portugueses de bem”. Arrogando-se de decidir quem o é ou não é, mesmo dirigindo-se apenas a parte das eleitoras e eleitores, obteve cerca de 500.000 votos de portuguesas e portugueses (11,90%) depois de uma campanha de legitimação de ódios, de utilização despudorada do medo e onde acabou pronunciado por desobediência e condenado por agredir uma família.

Como por lá, por cá, a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade. O seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social das sociedades – depende não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo. Mais, a ciência psicológica é essencial a determinantes desta crise da democracia e dos direitos. Porque informa sobre a importância e promove a relação, a curiosidade, a cooperação e a resolução não violenta de conflitos, essenciais à abertura à e ao outro e à prevenção dos fenómenos de ódio e à utilização do medo. Porque é central na promoção da saúde mental, na possibilidade de florescimento e de bem-estar, factores essenciais à confiança no presente e para o futuro, à adaptação às adversidades e à gestão dos anseios e frustrações. Porque é essencial ao desenho ajustado às pessoas, ao seu comportamento e à tomada de decisão, de políticas públicas fundamentais à mitigação das vulnerabilidades, à resposta aos desafios do presente e do futuro e à crença no sistema democrático como capaz de responder às necessidades e expectativas das pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o chão comum da democracia e dos direitos humanos far-se-á com todas e com todos, com participação, envolvimento e mobilização capazes, não apenas de vencer eleições, mas de vencer ideias, narrativas, simplificações e mistificações. Capazes de vencer a utilização (e legitimação) do ódio e do medo, em benefício de projectos e ambições políticas de pessoas e de grupos. Capazes de recuperar e construir confiança e de acreditar no futuro, de cada pessoa e de todas as pessoas. Como cidadão, e como cidadão psicólogo, aqui e ali, no Mundo ao redor, preocupam-me mas mobilizam-me estes desafios e o nosso tempo. E a si?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eleicoes-la-como-ca-a-relatividade-do-ganhar-e-do-perder