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Democracia Desafios da Psicologia

PDB e Populismo.

PDB ou “President’s Daily Brief”. Documento produzido diariamente pelas principais agências da “Intelligence Community” dos USA (CIA, NSA, FBI, entre outras).
Entregue e lido a cada manhã por todos os presidentes dos Estados Unidos da América desde John F. Kennedy. Todos até… Hoje é lido “algumas vezes” ou até “apenas uma vez” por semana (um dos sete, portanto) por um presidente que em tempos desafiantes e com um mundo com crescente complexidade, ignora informações, minimiza a ciência, descredibiliza e caricatura jornalistas, trata adversários como inimigos e desligitima o sistema democrático. Um presidente polarizador que preside num tempo onde urge prevenir o populismo, prevenção que começa na sua compreensão.
Partilho convosco o artigo “PanPopulismo” que escrevi com o Miguel Ricou, recentemente publicado no Público. Artigo, contributo, para a reflexão sobre o populismo e o tempo, também aqui desafiante, que vivemos.
Artigo parte de um conjunto de reflexões por nós publicadas em tempo de pandemia onde se incluem o “PandÉtica” (https://lnkd.in/gu8ANgB), o “PanDemocracia” (https://lnkd.in/g6AQJD5), o “PanResposta” (https://lnkd.in/gptF9ZJ), o “PanMemória” (https://lnkd.in/dJpgKeC) e o “PanLegitimidade” (https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/2020-05-23-panlegitimidade/).
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Despersonalização

“Nas entrevistas perguntam-me o que é que eu como cineasta palestiniano penso disto mas a Jarmusch perguntam o que é que ele acha enquanto Jim Jarmusch.”

Elia Suleiman descreve numa frase simples uma realidade complexa, assente nos fenómenos de grupo, preconceito e despersonalização. Frase que me lembra uma manhã, quando ainda jovem psicólogo, dois grupos de alunos da Escola / Comunidade onde trabalhava se dividiram por si no J.Zoológico. Um grupo seguiu com um segurança sempre atento. Outro sem segurança. Recordarei sempre o que um menino de 10 anos que seguiu no 1º grupo me disse sobre o impacto nele de sempre perder o “nome” pela associação a um “grupo”.

Fenómenos base do que habitualmente denominamos racismo. OluTimehin Adegbeye escrevia recentemente que “a nossa “obsessão” com as “atitudes racistas” podia esconder o “racismo do sistema” e que isso determinava o porquê de “podermos ser racistas sem sermos um/a racista”.

Conheci Suleiman no Intervenção Divina que realizou e interpretou. Conheço, interesso-me e estudo estes fenómenos desde há já alguns anos. Sinto, sei, que não é de “intervenções divinas” que necessitamos para os prevenir e abolir.

Antes de os reconhecer. De desenvolver na sociedade factores protectores. De empoderar. E de, todos e com todos, co-construirmos.

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Ainda o ‘vento’…

“Sopra um vento soberanista e autoritário sobre o mundo.”

Revisito esta frase do J.Fernandes e o trabalho de dois psicólogos que me ajudam a pensá-la. Um refere hoje no Público que o aumento “da ansiedade, do medo e da percepção das ameaças” decorrente da globalização explica este ‘vento’.

F. Moghaddam estuda como hoje se “extremam e radicalizam” posições em política, distraindo apoiantes de “fraquezas próprias” pelo foco na “ameaça externa”. Se de um exemplo necessitássemos, convido ao gráfico abaixo e à reflexão sobre a não-oscilação da taxa de aprovação de Trump no processo de impeachment mesmo quando as graves revelações se sucediam. 

Esta polarização da política é também determinada pelos efeitos da identidade de grupo que H.Tajfel descreveu há décadas quando, após sobreviver ao holocausto por um ‘efeito de grupo’, demonstrou experimentalmente que a simples pertença a grupos, mesmo randomizados ou não claramente definidos, gera fenómenos de defesa e valorização do “nós” face a um “outros” que discriminamos e, não raras vezes, hostilizamos. 

Precisamos, talvez como nunca, de relação com outros diferentes de nós.

De capacidade empática. De curiosidade, humildade, abertura, aceitação.

De não cristalizarmos em nós e no nosso grupo. 

Somos seres sociais. Não somos ‘redes sociais’.

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Comportamento Democracia Política Psicologia

Capicuas.

Esta semana começou numa capicua (02022020). Uma data cujo reverso é ela própria. A semana passada terminara com (imperfeitas) ‘capicuas’.

O histórico dia do Brexit cujo reverso não é ele próprio. Após um 2º referendo à presença (envolvimento) do Reino Unido na União Europeia, o leave venceu. Havia perdido por muito em 1975, venceu por pouco em 2016 (como agora o “leave means leave”).

O princípio do fim do processo de impeachment de Trump,  onde a novidade não terá sido tanto o resultado da votação, antes o seu advogado ter defendido que a “troca de favores” com o “objetivo da sua reeleição” não poderia ser punida por considerada de “interesse público”.

Num e noutro caso, o reverso não será o mesmo.

Num e noutro caso, com responsabilidades de diversas partes.

Num e noutro caso, explorando medos, tribalismos contemporâneos, fake news e análises de dados manipulatórias.

Num e noutro caso, confirmando o insight de Jorge A. Fernandes do Público: “Sopra um vento soberanista e autoritário sobre o mundo”.

Sopra e, como numa tempestade, temos que preparar-nos para os ventos (compreendê-los, prevê-los, ter um protocolo de actuação para eles) e cuidar dos seus danos nas pessoas, espaços e comunidade.

Tudo isto, com urgência e para diminuir o seu impacto.

Tudo isto, também com Psicologia.

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75 anos depois…

Há 75 anos aquele sombrio portão abria-se definitivamente.

Portão, lugar, que o nazismo queria “sem história” (Arendt).

Portão de uma das Auschwitz’s “construídas pelo ódio, pavimentadas de indiferença” (Kershaw).

Hoje é dia da memória. Da história. Inscrevê-lo, lembrando-o, é contributo mínimo do nosso dever para com tantos seres humanos que ali sofreram atrocidades inimagináveis. Inscrevê-lo, documentando-o, pela literatura, pelo cinema (quem não se recorda do Guido, do Brody ‘Pianista’ ou de Neeson como Schindler?) outro.

Inscrevê-lo procurando pela ciência prevení-lo ainda outro. Assim o fará amanhã com o fórum das políticas públicas o IPPS ISCTE, reflectindo sobre como podem estas melhorar, promovendo bem-estar, equidade e confiança dos cidadãos no sistema democrático. Assim fará 5ªF a Ordem dos Psicólogos Portugueses, no Diálogos da Psicologia, pensando as pontes da psicologia com o jornalismo (tão importante nestes fenómenos).

De uma ou de outra forma, ao inscrevermos, combatemos os ‘antis’ e o negacionismo que cresce em alguns grupos (veja-se a capa do jornal i de hoje e pensem-se nas comunidades Tutsi, Rohingya, …). Se rima… Se rima…

 

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(boas) políticas públicas e defesa da democracia

Ontem alguém com responsabilidades políticas (e públicas) dizia-nos que o combate ao populismo também se fazia com melhores políticas públicas e com outra relação entre Estado e cidadãos. Nada mais certo.

O populismo combate-se com políticas eficazes que respondam às expectativas dos cidadãos,às desigualdades e promovam o desenvolvimento sustentável e o bem-estar. Combate-se com democracia que por sua vez vive “da auto-contenção dos líderes/decisores (da não utilização de instrumentos democráticos para fragilizar o contraditório e o sistema pesos-contrapesos) e do trabalho conjunto com os adversários políticos.” (Levitsky & Ziblatt; Como morrem as democracias)

Num momento sem igual em que “o ecossistema digital beneficia personagens polarizadoras(…)porque os seus algoritmos vivem do envolvimento emocional das pessoas” (A.Marantz; Anti-social), os políticos e a sociedade civil devem responder integrando mais as pessoas e a ciência no desenho, implementação e avaliação das políticas (públicas).

As pessoas, através de iniciativas como as “Oficinas de Participação” promovidas pelo Governo. A ciência, neste caso a comportamental e psicológica, por exemplo conforme conversávamos na reunião.

Tudo urgente porque “a história nunca se repete, mas muitas vezes rima”. Se rima, Mark Twain.