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Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas (Ao redor…; Sábado; 02.11.2021)

Allerweltspartei. Original alemão do vulgarizado e famoso conceito em inglês catch-all party, significa partido (político) “onde todas e todos cabem”. Tradução minha – insuficiente, mas possível – do conceito explanado em 1966 por Otto Kircheimer para descrever partidos maioritariamente surgidos pós fim da II Guerra Mundial que, pelo seu largo espectro e por serem menos ideológicos, procuravam atrair o maior número de pessoas e de eleitoras e eleitores possível assumindo-se como partidos de massas. Apesar do conceito per si ter sempre sido bastante discutido e problematizado, creio ser perceptível que um pouco por toda a Europa, e embora a ritmos diferentes, estes partidos estão actualmente em perda face ao surgimento ou crescimento de partidos políticos mais centrados em causas e mais dirigidos a grupos específicos de pessoas e de eleitoras e eleitores. Também em Portugal temos, e, previsivelmente, continuaremos a ter 9 (senão mais – no início da presente legislatura eram 10) partidos representados no Parlamento pós, as cada vez mais previsíveis, Legislativas de 2022 – algo demonstrativo da fragmentação política recente e de um caminho de progressiva transferência de votos de partidos generalistas e mais abrangentes para (mais) partidos mais assentes em singularidades, menos abrangentes e mais individualizados. Sinto relevante que no presente e para o futuro, pensemos no porquê desta fragmentação e no porquê dos “grandes” partidos políticos ficarem hoje longe das grandes maiorias do passado.

Considero que um dos fenómenos que contribui para esta situação refere-se à forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, também nesse sentido, com a desinformação. O acesso é mais rápido e mais amplo, desafiando os limites da privacidade e, pelas suas características, tende a “enclausurar” as pessoas junto de outras pessoas que percepcionam o Mundo e os seus desafios da mesma forma. Isso é reforçador da pertença identitária a grupos, da polarização e da fragmentação. Outro fenómeno trata da enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, incluindo as de aprendizagem automática que, cada vez com mais eficácia e menor custo, permitem a adequação das mensagens a dimensões cognitivas (crenças) e emocionais de cada pessoa, funcionado como “alfaiates” da informação, preparando-a e personalizando-a à medida para cada pessoa e grupo, nas suas causas (por vezes também inseguranças). Paralelamente, estes dois fenómenos promovem a mutação, mobilidade e mudança que redunda em maior volatilidade nos votos face a alguma continuidade que antes existia (até entre gerações de famílias). Resultam, também, numa quebra de confiança nas e nos políticos e nas instituições e num ambiente de “passa culpas” e julgamentos que legitimam o mal-estar próprio, impactando mais os partidos de massas. Resultam, ainda e porque reflectem normalmente questões de elevada complexidade e urgência, na procura de respostas simplistas e securizantes que estimulam a emergência de lideranças pautadas por uma ideia de providencialismo, salvíficas e populistas (bem presentes aquando de contextos de crise), ameaçando as dimensões democráticas, obstaculizando a participação de correntes divergentes dentro dos partidos e favorecendo partidos que partem da individualização, da unicidade em causas e de lideranças com perfil mais autoritário.

Os dois fenómenos que atrás descrevi e que contribuem para os desafios que se colocam aos partidos e à governação, são os mesmos que, utilizados com outro fim (o do bem-comum) poderiam, noutras áreas, produzir efeitos também significativos e impactantes na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social. Um exemplo importante seria o seu uso mais intencional e consciente para uma maior personalização das políticas públicas, contribuindo para a sua eficácia e eficiência. Aumentar a possibilidade de agenciamento das pessoas sobre os acontecimentos de vida com que se deparam e as dificuldades, desafios e vulnerabilidades momentâneas, depende de políticas públicas não abrangentes e de massas, mas personalizadas, contingentes, baseadas nas singularidades e que possam garantir mais eficácia e eficiência. Tal pode acontecer em políticas referentes a apoios sociais, à saúde, à educação. Tal pode também acontecer nas políticas de promoção de empregabilidade junto de pessoas em situação de desemprego, políticas há décadas estagnadas em modelos onde a experimentação não abunda e onde é baixa a permeabilidade ao conhecimento e à evidência científica (por exemplo não considerando as dimensões da saúde psicológica das pessoas em situação de desemprego, a motivação das trabalhadoras e trabalhadores das estruturas que prestam estes apoios / serviços ou a testagem de impactos a médio e longo prazo para melhorar definição dos apoios e incentivos à contratação disponibilizados a entidades empregadoras). Fazê-lo, pelo impacto na confiança nas instituições, seria um contributo para a mitigação de duas das consequências mais importantes acima discutida – a quebra de confiança e a emergência do providencialismo e de lideranças mais autoritárias.

Também para esse objectivo contribuiria mais participação, abertura, capacidade de integração e uma maior atitude de entendimento e compromisso entre partidos, prevenindo que a fragmentação na representação resulte na esperada instabilidade e incerteza política. Para tal é necessário, como defendem Levitsky e Ziblatt no livro “Como morrem as democracias”, prevenirmos a polarização partidária pelo respeito dos princípios democráticos e pela visão e entendimento dos e das adversárias como adversárias e não como inimigas ou inimigos, a par da não utilização dos instrumentos democráticos para fragilizar a própria democracia, fenómeno a que temos assistido em diversos países e de diversas formas. É também necessário investir na construção de espaços de entendimento e compromisso centrados na abertura, na resposta aos anseios e objectivos das pessoas. É, ainda, necessário melhorar, pelo desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas e permitir que esse feedback influencie o comportamento e a tomada de decisão, os processos de negociação e discussão. Finalmente, é necessário gerar, reforçar e utilizar empatia com as e os adversários, partidos e pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, aproveitemos um certo colocar em causa dos Allerweltspartei para colocar em causa as Allerweltspolitik, políticas catch all. Se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas, incentivando-nos à sua transformação e adequação, também pelos contributos do conhecimento e da evidência científica, no sentido do reforço da sua personalização, singularização e da identificação com as pessoas suas destinatárias e das pessoas com as políticas. Personalização com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 02.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/personalizacao-e-compromisso–dos-partidos-as-politicas

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Democracia Desafios da Psicologia Política

Teorias da conspiração – uma perspectiva da psicologia (Público; 19.08.2021)

As teorias da conspiração não são uma novidade no nosso Mundo. Aliás, parecem sempre ter existido.  Remetem para tentativas de explicação das causas últimas de eventos políticos ou sociais relevantes já acontecidos ou por acontecer, baseadas na acusação de alguém ou de algum grupo visto como um inimigo poderoso e malévolo. São, normalmente, explicações curtas e simples para grandes e complexos problemas; são, regra geral, apelativas ao apresentarem soluções também elas simples e, sobretudo, definitivas para problemas das pessoas e da sociedade; são, finalmente, propagáveis porque usam e abusam da dimensão emocional e muitas vezes de mentiras e manipulações pelo que, com ou sem intenção, são facilmente disseminadas pelas pessoas junto de outras pessoas.

Então porquê esta preocupação agora? Porque é hoje tão importante compreender as bases deste problema? Diríamos por três motivos fundamentais: (1) porque, com o desenvolvimento das redes sociais digitais e da sua arquitetura, o impacto é hoje muito maior. Posições minoritárias têm agora um eco muito maior, pela lógica de “bolhas” e de facilidade de disseminação da informação e, particularmente, da desinformação (até 6 vezes mais rápida segundo alguns estudos). Isto pode potenciar a utilização das teorias da conspiração para fins menos claros de manipulação das pessoas, seja para se obterem ganhos económicos diretos, através das partilhas das publicações, seja como forma de fragilizar o poder e as instituições em sociedades democráticas; (2) porque vivemos um período sério de crise (veja-se a pandemia COVID-19), onde as teorias da conspiração tendem a ser mais eficazes. Preenchem “vazios” e oferecem “controlo”, compensando uma menor confiança nas autoridades, instituições e comunicação social e beneficiando da crescente diluição de mediadores; (3) porque, enfim, podemos. Temos hoje uma vasta evidência científica, particularmente uma ciência psicológica mais desenvolvida, que nos pode ajudar a compreender, prevenir e mitigar o fenómeno e as suas amplas consequências.

Apesar de todas e todos sermos suscetíveis a acreditar e/ou disseminar desinformação, é cientificamente relevante a maior propensão de algumas pessoas para acreditarem em teorias da conspiração. A ciência parece mostrar que as pessoas que acreditam numa determinada teoria da conspiração têm tendência para acreditar noutras, que muitas vezes são até contraditórias entre si. Este facto sublinha a existência de traços (ou pelo menos características) partilhados por estas pessoas, pelo que é fundamental observar as dimensões psicológicas associadas às pessoas mais vulneráveis a estes fenómenos.

Logo à partida parece clara a utilização das teorias da conspiração numa procura por sensações de controlo e de segurança. Segurança de que a pessoa sabe o que se passa, de que detém um conhecimento superior face aos outros e às narrativas oficiais. Consegue, deste modo, responder à incerteza, à imprevisibilidade e ao contraditório, um pouco à semelhança do que acontece quando se usam crenças paranormais ou superstições. Neste sentido, estarão mais vulneráveis pessoas mais alienadas ou revoltadas face à organização social vigente. Igualmente, pessoas com menor capacidade de regulação emocional e que, por isso, utilizam mais automatismos e estão mais expostas a viés deles decorrentes nos seus processos de tomada de decisão.

Além do controlo e segurança, vários estudos têm também demonstrado que as teorias da conspiração são particularmente apelativas junto de pessoas com outras necessidades psicológicas por satisfazer como a auto-estima. Ao explicarem o desconhecido, as teorias da conspiração permitem às pessoas uma sensação de satisfação por conseguirem explicá-lo, fazendo-as sentirem-se especiais e resultando em acréscimos de auto-estima. Não será por isso estranho que o narcisismo, pautado por maior individualismo, centração em si e por uma extrema necessidade da pessoa afirmar a sua superioridade e de se considerar melhor do que a maioria das pessoas, se constitua como uma predisposição para adotar teorias conspirativas que colocam a culpa noutras pessoas ou grupos. Associando este fator aos comuns traços de impulsividade nestas pessoas e à sensação de angústia, desespero e mau estar psicológico, viver num Mundo com “pessoas malévolas” pode ser de algum modo “reconfortante”, pois fornece uma explicação para as suas emoções mais “negativas” como o medo, a raiva ou o ódio. Poderá ainda ser mais reconfortante pela associação a um grupo especial, que consegue perceber coisas que os outros não são capazes de compreender, o que será ainda mais reforçado com a diabolização de outros grupos. Este fenómeno gera maior polarização e tribalismo e ajuda a explicar também porque pessoas socialmente mais vulneráveis poderão ter uma maior tendência de identificação com estes grupos.

Resta assim claro que as teorias da conspiração promovem prejuízos sérios, uma vez que contribuem para a diminuição da confiança e para a dicotomização e polarização das opiniões e consequente incapacidade para encontrar soluções equilibradas (veja-se, por exemplo, o impacto na saúde pública dos movimentos anti-vacinas alimentados por teorias da conspiração).

Mas nem tudo é negativo. Este fenómeno pode concorrer para acelerarmos e intensificarmos seis mudanças urgentes na sociedade: (1) investir em maior transparência nas ações políticas, questionando as inconsistências de algumas decisões e abrindo a discussão de temas que de outro modo poderiam não ser discutidos; (2) promover a educação, a diversidade e acesso ao contraditório e a literacia das pessoas e da sociedade como antidoto e fator de inoculação face às teorias da conspiração. Em paralelo, influenciar mudanças nos algoritmos utilizados nos motores de busca e redes sociais nesse sentido, permitindo que uma busca de um qualquer tema ou o simples navegar em redes sociais permita acesso ao contraditório e diverso e não apenas a posições reforçadoras das ideias ou crenças de quem procurou; (3) desencadear mecanismos de reforço da confiança, de reforço da coesão e da conexão entre pessoas e grupos (incluindo políticos) por oposição ao extremar ideológico dos mesmos; (4) apostar na promoção da saúde psicológica da população, prevenindo as situações que expõem as pessoas a estes fenómenos, através da promoção da capacidade de adaptação, de resiliência (individual e social) e da crença na possibilidade de bem-estar e num Mundo tendencialmente justo e seguro; (5) investir na literacia digital e na capacitação das pessoas para uma utilização consciente das tecnologias de informação e comunicação e das redes sociais, assente no desenvolvimento de pensamento crítico sobre a informação disponibilizada e da capacidade de distinção entre factos / evidências e opinião; (6) investir no combate às iniquidades, desigualdades e a todas as formas de exclusão.

Bem sabemos quão longo, complexo e desafiante é este caminho. As desigualdades, as dificuldades económicas e sociais, a vulnerabilidade a abusos e as sensações de injustiça são um combustível ótimo para as pessoas embarcarem neste conforto de se sentirem parte de algo importante e poderoso. Parecem poder acabar com o mal do Mundo, punir os culpados e, enfim, sentirem-se compensados de todos os males sofridos. As psicólogas e os psicólogos podem ter um papel importante no trabalho com estas pessoas pelo seu papel na facilitação do desenvolvimento de mecanismos mais funcionais que as possam ajudar a lidar com as suas dificuldades. A ciência psicológica pode contribuir com evidência para a compreensão do fenómeno e para ajudar quem decide a desenvolver políticas que o possam prevenir e mitigar. Enquanto sociedade, temos a responsabilidade de valorizar a diversidade e de sermos mais inclusivas e inclusivos e promotores de pontes entre as pessoas, diminuindo a sua marginalização e vulnerabilidade às teorias da conspiração e a outros fenómenos que impactam significativamente a sua possibilidade de bem-estar.

 

Miguel Ricou e Tiago Pereira

Jornal Público; 19.08.2021

https://www.publico.pt/2021/08/19/sociedade/opiniao/teorias-conspiracao-perspetiva-psicologia-1974559

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Impaciência do Coração

Já havia escrito a propósito da (feliz) coincidência da estreia do programa “Impaciência do coração” ter acontecido num dia para mim impossível de esquecer, porque nele “tive” o que de mais significativo posso esperar na minha vida.

Volto ao programa hoje para convidar, a quem possa interessar, a ver (ou rever) o episódio ontem transmitido na RTP2 no qual converso com a Gabriela Moita sobre questões em torno da informação e da desinformação.

Uma conversa, superiormente conduzida pela Gabriela Moita e para mim muito estimulando, onde procuro com a minha reflexão dar um pequeno contributo para, na linha do slogan de um projecto jornalístico que acompanhei (até deixar de ter a sua versão internacional), percebermos um pouco melhor porque o que está a acontecer está a acontecer e não apenas sabermos ou percebermos que está a acontecer.

Uma conversa sobre os pressupostos da desinformação, os seus impactos e consequências, o que sabemos e não sabemos e o que podemos fazer. Uma conversa também em torno das questões da confiança e da polarização e dos contributos (e desafios também eles complexos nesta matéria) da ciência psicológica e do conhecimento de como as pessoas se comportam e tomam decisões para compreender, prevenir e mitigar estes fenómenos.

 

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A impaciência do coração…

Na sua autobiografia (“O mundo de ontem”), Stefan Zweig escreve, com uma simplicidade desconcertante face à complexidade da sua reflexão (e percurso), que os dias mais importantes da vida têm um brilho maior que os dias comuns. Assim sabemos ser. A 16 de Junho vivi um desses dias, daqueles que sabemos que, aconteça o que acontecer, será sempre dos mais importantes da minha vida e que nele conteve os dois polos: provavelmente o melhor e mais intenso que a vida nos pode trazer; mas também uma perda com significado e tudo quanto ela implica.

Os 2 acontecimentos que assim fazem o meu 16.06.2021, numa feliz coincidência, coexistiram e coexistirão na minha memória com a estreia do programa da RTP2 Impaciência do coração”, que contou com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Programa que começou a ser imaginado e construído há alguns anos (algo que reforça a feliz coincidência) e que tive oportunidade de acompanhar desde a ideia até vê-lo na televisão. Um programa onde uma sempre excelente Gabriela Moita conversa com psicólogas e psicólogos sobre comportamentos “sociais, afectivos e quotidianos” e que “pretende refletir e partilhar o saber disponível sobre diversas dimensões do comportamento e a sua relação com áreas de intervenção, como a saúde, a educação, o trabalho, entre outras”, conforme a sua apresentação. Um programa semanal que tratou em conversas com o David Dias Neto, Miguel Ricou e o Luís Fernandes a mudança, a relação corpo-mente e a justiça e o “desvio” nos primeiros episódios e que hoje trará a conversa com Constanca Paúl sobre envelhecimento (https://www.rtp.pt/play/p8960/impaciencia-do-coracao). Um programa que continuará com outros temas e que terá um episódio-conversa onde participei sobre informação e desinformação e seus impactos nas pessoas e na sociedade.

Beware of pity (“Cuidado com a pena que sentes”), publicado em Portugal como “Coração impaciente”, é um livro escrito por Zweig num ano que não esqueceria – 1939. Ano em que vivenciou os tais dois polos: casou com a sua esposa Charlotte com quem viveu e, literalmente, morreu anos mais tarde; ano em que viu eclodir a II Guerra Mundial, acontecimento importante no seu crescente desânimo e sofrimento pelo crescimento e expansão da intolerância e autoritarismo no Mundo, conforme escreveu já próximo do final da sua vida. Um ano com impacto numa vida que impactou a sociedade e a confrontou na sua reflexão. Estimo e espero que o “A impaciência do coração” seja um outro contributo, necessariamente distinto, para nos pensarmos, pensarmos o comportamento humano e reflectirmos sobre a nossa sociedade e os desafios que se lhe e nos colocam.

Ps. Um abraço ao Duarte Zoio, pessoa particularmente envolvida neste projecto e que acabou por ver a sua estreia já num novo projecto profissional. Que o programa também sirva o propósito de o fazer sentir o quanto contribuiu ao longo de anos para um melhor conhecimento e reconhecimento da Psicologia e das psicólogas e dos psicólogos na sociedade.

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O valor da amizade…

17%. Menos de 1 em cada 5 portuguesas e portugueses respondem que se pode confiar à pergunta: “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”. Metade da percentagem relativa a Espanha e apenas entre um terço e um quarto da dos países normalmente apelidados de nórdicos, de acordo com o Estudo dos Valores Europeus 2017-2020 recentemente divulgado e cujo relatório sublinha que este dado revela “a convicção [das portuguesas e dos portugueses] de que o capital cívico da sociedade [portuguesa] é baixo” e se apresenta como um “obstáculo à cooperação”.

“O valor da amizade”, 10º artigo da rubrica “Ao redor…” (REVISTA SÁBADO) procura reflectir, neste tempo incerto que vivemos, sobre a confiança interpessoal e sobre o diálogo “nós – outras ou outros” enquanto poderosa e distintiva ferramenta e traço do ser humano, também pela sua dimensão simbólica. Viaja ao passado para lembrar a vantagem evolutiva que representou. Lembra no presente o seu papel “importantíssimo na possibilidade de bem-estar, no desenvolvimento de competências e da resiliência e na capacidade de nos adaptarmos à adversidade e aos acontecimentos de vida”. E pensa como no futuro será muito complexo para a inteligência artificial, mesmo aproximando-se da “cópia” das redes neuronais e do cérebro humano, “traduzir artificialmente o que resulta da interacção e comunicação (da linguagem e do simbólico) entre duas ou mais pessoas e essa apaixonante triangulação humana entre emoção, cognição e comportamento”.

O artigo procura pensar as relações e, particularmente, a amizade também em dois exemplos de forte actualidade – equilíbrio entre vida pessoal e profissional (contextos de trabalho como contextos por excelência de socialização na idade adulta) e polarização / tribalismo (criação de espaços de comunicação e confiança que como “campos electromagnéticos” potenciem órbitas, limitem o afastamento e previnam a polarização) – e defender a importância de “intencionalizarmos e ritualizarmos as relações e a amizade” para “pela relação e pela confiança das amigas e amigos, reforçarmos o diálogo entre nós e as outras e os outros, promovendo a empatia e exponenciando a nossa possibilidade de bem-estar e as redes de cooperação nas comunidades e na sociedade”.

Ps1. Um profundo e muito grato obrigado às minhas amigas e aos meus amigos;

Ps2. Porque chegamos a um número redondo de artigos na rúbrica “Ao redor…” convido-vos a ler ou reler os 9 anteriores na sua versão completa meu Lkd (secção artigos) ou aqui.

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Honestidade

Declaro que as palavras que em seguida partilho resultam do meu pensamento e da minha leitura da investigação da ciência comportamental sobre um tema muito complexo, multifactorial e que impacta significativamente a sociedade, a honestidade. Pretendendo, com elas, suscitar reflexão sobre algumas das suas dimensões. Asssinado: Tiago Pereira.

“Qual é o primeiro passo para curar e recuperar [as pessoas, para recuperar o país]?”, perguntaram-me num programa de rádio onde recentemente participei. Num segundo, o mais emergente em mim: “o primeiro passo é retomarmos uma dimensão de confiança em nós e nos outros”. Após, continuei: “recuperarmos a confiança em nós e isso nos ligar aos outros é muito importante para o futuro até porque isto não é algo novo (…) há uma crise de confiança [nas instituições, nas outras e nos outros] que se instalou já pré-pandemia e que pode ser preocupante”.  Todas e todos, mais presentes, já passados ou até perspectivados, teríamos diferentes, mas múltiplos exemplos do que pode contribuir para esta crise de confiança, sejam situações mais ou menos específicas ou exemplos (casos) mais ou menos mediáticos.

Quando se vivem crises colectivas ou mesmo globais, a confiança, sempre importante, torna-se essencial e decisiva. É ela que previne o deslaçar das relações em sociedade, a desfragmentação e o potencial “passa culpas” entre grupos populacionais, quer seja pela sua pertença comunitária, etária, partidária ou sócioeconómica. Por isso, construir confiança nas instituições e nas autoridades e suas recomendações é essencial e, para que tal suceda, a verdade e a honestidade devem sempre nortear a comunicação com a população.

 

Creio que todas e todos temos presente que o nosso comportamento e tomada de decisão não são 100% racionais bastando, para tal, que reflictamos sobre o que comemos no sofá em alguns dias das últimas semanas para, imagino, identificarmos comportamentos menos racionais. Quando reflectimos sobre exemplos de irracionalidade em nós e em quem nos rodeia tendemos também a identificar outro tipo de comportamentos – comportamentos desonestos. Importa, porém, que tenhamos presente que a desonestidade não resulta sempre de irracionalidade.

Na realidade muitas e muitos de nós já fomos em alguma situação desonestos e nem por isso deixamos de nos considerar “boas pessoas”. Algo também explicado pelo “fudge factor” (numa tradução possível, mas incompleta – factor de correcção) descrito pela equipa do psicólogo Dan Ariely enquanto factor que permite beneficiarmos com a desonestidade enquanto simultaneamente nos consideramos pessoas honestas e que explica porque algumas e alguns de nós consideramos “aceitável” ver um filme ou um jogo utilizando um stream ilegal, viajar a 130km/hora numa autoestrada ou dizer que um prato estava delicioso quando nem bom estava. Dito de outra forma, explica o hiato máximo (e comportamento) possível através desse efeito de correcção para nos sentirmos bem connosco e beneficiarmos de algo não legal (ilegal) ou não honesto (desonesto). Esse hiato varia de pessoa para pessoa (“um stream ilegal nunca, quando muito um artigo científico”) e, na pessoa, de momento para momento (“130 normalmente… se atrasada 140 km/hora”) e de tema para tema (“a uma peça de roupa sugerida numa loja digo que não gosto quando não gosto mas num restaurante não consigo”). Esta variância e as racionalizações (razões que encontramos) que justificam os nossos comportamentos desonestos, fazem da desonestidade algo não meramente irracional. Antes um fenómeno subjectivo, multifactorial, complexo e com significativo impacto na confiança nas pessoas, na sociedade e na integridade das instituições.

Ao depender da realidade, experiência e motivações, ou seja, da subjectividade de cada pessoa, a honestidade expõe-se particularmente ao tal “fudge factor” e, compreendê-lo, oferece-nos pistas necessárias para prevenirmos a desonestidade, desde a pequena à grande que deslaça sociedades. Diferentes estudos têm invariavelmente apontado para um significativo número de pessoas (por vezes superior a 70%) que podem ter comportamentos desonestos considerando-os legítimos através do factor de correcção. Em todo o caso, grande parte destas pessoas têm comportamentos desonestos de pequena dimensão e é pequena a percentagem de pessoas que têm comportamentos desonestos de grande dimensão. Nos estudos “Matrix” da equipa de Dan Ariely, onde mais de 28.000 pessoas (em 40.000) têm um comportamento desonesto (mentem no número de respostas correctas que dão, valendo cada uma 1 dólar), apenas 20 pessoas demonstram “grande desonestidade” e 28.000 “pequena desonestidade”. O primeiro grupo “custa em desonestidade” 400 dólares (20 em média por pessoa). O segundo mais de 50.000 dólares (um pouco menos de 2 por pessoa). Este dado deve fazer-nos reflectir sobre a quase totalidade de energia e atenção que colocamos no primeiro grupo, deixando pouco espaço para se investir em favorecer, também do ponto de vista comportamental, o comportamento honesto, motivando-o e reforçando-o.

Mais isto é importante quando sabemos que a norma social é um dos principais impulsionadores do “fudge factor”. Se e quando existe a percepção de que “todas/os o fazem” e a atenção mediática é colocada no comportamento desonesto, salientando-o, mais que desincentivá-lo muitas vezes isso legitima-o. Tal como quando ao comportamento desonesto é associada a ideia de que este “não prejudica ninguém” ou é “justo pelo seu fim”, sendo essencial que as consequências indirectas da desonestidade sejam sempre consideradas. Além da possibilidade de contágio a outras/os, a desonestidade pode potenciar mais desonestidade na própria pessoa, pelo impacto na sua identidade e pela sua adaptação, nomeadamente a que resulta das reações emocionais a este tipo de comportamento, diminuindo sucessiva e progressivamente os processos cerebrais que provocam sensações de desconforto aquando do comportamento desonesto. Finalmente, tem-se investigado o papel da ambiguidade, da desmaterialização e da dimensão ética e moral na desonestidade, sendo hoje muito claro que processos mais despersonalizados e/ou ambíguos e com menos clareza oferecem mais espaço para a legitimação da desonestidade e, pelo contrário, que quando se associam os processos a dimensões morais da própria pessoa se promove o comportamento honesto.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o investimento na promoção da honestidade é e será amplamente mais eficaz, menos custoso e, pela confiança que produzirá e pelo impacto positivo na economia, fará mais pela sociedade e sua coesão do que o investimento exclusivo na também importante penalização da desonestidade, particularmente em Portugal onde, segundo o Eurobarómetro de Dezembro de 2019, 94% da população considerava a corrupção generalizada. Isto faz-se intencionalizando a utilização do conhecimento e da ciência, promovendo, salientando e reforçando o comportamento honesto. Isto faz-se, como continuei na resposta ao programa de rádio, recuperando as pessoas porque “as pessoas estarem bem do ponto de vista da saúde psicológica as ajuda a estar mais abertas, empáticas e disponíveis para os outros e isso, por si, reforçará a confiança e os laços”, também pelo contágio emocional que resulta de quando cuidamos de nós, cuidarmos das outras e dos outros, e pelo contágio comportamental que resulta de ao sermos honestos promovermos a honestidade.

 

Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 21.04.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/honestidade
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COVID-19 Democracia Psicologia

Confiança e “Breaking Point”

O cartaz “Breaking Point” projectado por Farage na campanha pelo Brexit foi particularmente mediático por utilizar uma imagem da fronteira Croácia-Eslovénia (não do UK), pelas reminiscências da propaganda Alemã dos anos 30 e por trazer “violentamente” à campanha pelo “Leave” a ideia de ruptura pela perda da confiança (“a União Europeia falhou-nos a todos” era o seu subtítulo).

A ruptura associa-se muito à polarização, característica hoje relevante na sociedade volátil e ambígua que construímos, onde nem sempre claramente se distinguem factos de opiniões (também pelo papel das redes sociais) e onde se diminuiu o papel das/os mediadoras/es, também pela perda de confiança.

Nos grandes desafios societais (a pandemia como a crise climática) são essenciais respostas concertadas dos diferentes intervenientes (cidadãos, decisores, cientistas, jornalistas) ligados pela dependência epistémica (dependemos do saber dos outros, como Hardwig definiu) e pela confiança.

Confiança (ou crise de) que explica parte do que vivemos agora no nosso país face à pandemia e que, pelo seu papel, importa estudar e reflectir. Peço-vos, assim, 5m do vosso tempo para responderem à “2ª fase” deste pequeno inquérito: https://lnkd.in/eX4Sahx

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Democracia Desafios da Psicologia

A cidade e quem a habita…

“As cidades como os sonhos são feitas de desejos e medos.”

Calvino em “As cidades invisíveis” recorre ao diálogo Polo-Khan para descrever a cidade como símbolo da existência humana.

Trago-o a propósito do Nº31 da Revista Lisboa da Câmara Municipal de Lisboa para o qual contribui.

Número que procura pensar a cidade em tempo de pandemia, dedicando parte à saúde psicológica/mental de quem a habita. Aí sublinho o contributo das “perceções, circunstâncias, necessidades e recursos de cada pessoa em cada momento” no limiar saúde/doença e procuro desmistificar o papel das/os psicólogas/os, sublinhando a importância do acesso próximo e contingente aos seus serviços, as práticas baseadas na evidência, a complementariedade com outros profissionais e que o “acompanhamento psicológico” não é necessariamente dependente de “psicopatologia” pois “compreender comportamentos e processos emocionais e cognitivos envolvidos na tomada de decisão pode ajudar-nos a viver com maior tranquilidade e a melhor gerir emoções.”

Após um ano particularmente difícil, as Autárquicas 2021 são uma oportunidade de construção e sufrágio de projectos para cidades mais promotoras de saúde psicológica e, logo por interdependentes, de bem-estar e coesão social.

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COVID-19 Democracia Desafios da Psicologia

PanInformação

Na mudança do “nosso” 04.09.2020 (#dianacionaldopsicologo) para hoje, o Observador publicou o “PanInformação”.

Artigo que reflecte sobre a mudança e as condições para a mudança, procurando que ao discurso cada vez mais generalizado de que “temos que nos habituar a um novo normal” se acrescente a percepção pública de que “esse novo normal não pode ser o mesmo para todos e que a forma, a capacidade e a velocidade de cada um para fazer essa transição e mudança não é, seguramente, a mesma”. Nele defendemos que o momento de incerteza que vivemos deve suscitar “uma reflexão mais profunda sobre o desenvolvimento das pessoas e a promoção de condições psicológicas e sócio-económicas que permitam e ajudem as pessoas na adaptação e mudança perante razões não razoáveis e acontecimentos de vida significativos (não apenas uma pandemia, mas uma perda, um divórcio, uma doença, uma situação de desemprego)”.

Com a série “Pan”, eu e o Miguel Ricou procuramos um maior (re)conhecimento do contributo da ciência psicológica em fenómenos hoje relevantes, advogando por uma Psicologia ao serviço da liberdade, auto-determinação, democracia e coesão social. Aqui encontram os restantes “PandÉtica”, “PanDemocracia”, “PanResposta”, “PanMemória”, “PanLegitimidade”, “PanPopulismo” e “PanConspirações”.

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Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

Godinho fez música da expressão “homem dos 7 instrumentos” que, de frase em frase, “segue para a rosa-dos-ventos”. Imagem dos 4 pontos cardeais, volta completa ao horizonte (diferentes lados). Imagem que ampla, inclui, por oposição à da fotografia que nas palavras de Sontag enquadra, excluindo.

Penso-o ao reflectir a polarização societal Mundo fora que por cá teve ressonância no brutal homicídio de Bruno Candé. Creio as reacções paradigmáticas de 3 fenómenos: “tunelamento”– foco num determinado ponto negligenciando outros relevantes; julgamento– procura de respostas imediatas e certas não raras vezes baseadas em preconceitos estigmatizantes para os quais depois procuramos “factos”; redes sociais – algoritmos que nos dão mais do que vá vimos (conhecemos) e confirmam / aprofundam as nossas crenças.

A democracia vive do diálogo e discussão construtiva, dificultados quando se extrema e polariza. Protegê-la implica prevenir a polarização promovendo maior interesse e conhecimento do outro, mais proximidade, empatia e valorização da diversidade. Para tal, muito contribuiriam outros algoritmos das redes sociais que, inspiradas no “paternalismo libertário”, sem nos impor, nos dessem acesso ao contraditório e a outros pontos de vista. Algoritmos mais “rosa-dos-ventos”, menos “fotografia”