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(Des)informação e conflito violento

“É mais um tabu que cai”.

J.Borrell, líder da diplomacia europeia, disse-o no anúncio da inédita utilização do Mecanismo Europeu para Apoio à Paz para reembolso aos países da UE dos custos da assistência prestada à Ucrânia, seja militar, de equipamento não-letal, de protecção ou de primeiros socorros. No novo pacote de restrições inclui-se o encerramento do espaço aéreo europeu a aviões de entidades/personalidades russas e, não menos relevante/polémico, a proibição da emissão de canais de TV associados ao governo russo. “Não vão mais poder espalhar as suas mentiras para justificar a guerra de Putin e para semear a divisão na nossa União”, disse Von der Leyen.

A gestão de conflitos entre grupos ou países (e a sua “evolução” para formas violentas) vive muito da comunicação e, desde sempre, mas com cada vez maior intensidade/ rapidez, do binómio informação/desinformação. Os inimagináveis e trágicos últimos dias, que se sucedem a meses e anos deste binómio, demonstram-no. Como demonstra o Roskomnadzor, serviço federal de supervisão de telecomunicações, tecnologias de informação e media, apelidado de “regulador” da comunicação social russo, que proíbe as palavras “invasão” e “guerra” sugerindo a descrição da invasão e guerra como “operação militar especial de manutenção da paz”. Serviço criado por Medvedev, hoje Vice-Presidente do Conselho de Segurança presidido por Putin, que sugeriu o “rompimento com todos os países ocidentais” e a possibilidade da Rússia sair do “New START” (acordo de controlo de armamento nuclear), horas antes da Bielorrússia “votar” ontem o fim da sua neutralidade nuclear.

“Há aqui uma mudança. Nessa altura [há décadas] era para decidirmos entre champôs. Agora sobre pessoas para presidir países (…) ou para excluir países da UE”. Excerto da conversa que tive com a Gabriela Moita para o “Impaciência do Coração” (RTP2) que volto a partilhar. Conversa sobre (des)informação, impactos e sobre o contributo da ciência psicológica para a sua compreensão, mitigação e prevenção, há qual hoje acrescentaríamos a situação no Leste Europeu. Ou, como a desinformação influi na polarização da sociedade e na quebra de confiança, base da coesão social, discutido numa conversa com a Marisa Anastácio promovida pela CM Torres Vedras.

A comunicação é fundamental na mobilização e no apoio à gestão emocional da população em situações complexas, como crises ou catástrofes, conforme testemunhamos na pandemia e nos incêndios rurais de 2017. Fundamental a comportamentos pró-saúde, de cuidado connosco e com as e os outros, e pró-sociais, de compaixão e empatia. É certo que a verdade tende a ser a 1ª vítima da guerra mas, é também certo, que a verdade (e confiança) é, também, o 1º caminho para a Paz. Pela réstia de previsibilidade na imprevisibilidade. Pelo que representa de empatia, compaixão e de esperança em que se inverta rapidamente o cenário e caminhemos em direcção à Paz.

 

https://www.rtp.pt/play/p8960/e564277/impaciencia-do-coracao

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Falar ou não falar sobre guerra com crianças, incluindo as mais pequenas?

Falar ou não falar sobre guerra com crianças, incluindo as mais pequenas?

Creio devermos falar e que falar, pode ajudar.

Desde logo porque na sociedade actual, independentemente de falarmos ou não, as crianças estão expostas a informação sobre a guerra e, logo, ao potencial mal-estar, medo, ansiedade ou sofrimento associados, sendo fundamental que as e os adultos em que confiam (sejam mãe ou pai ou outras/os cuidadoras/es) falem e transmitam informação, de forma ponderada e personalizada. Também porque não falarmos pode aumentar a sua preocupação (porque não falam eles comigo?), não nos permite aceder ao que sabem e sentem sobre o assunto (dando-nos espaço ao esclarecimento e reparação) e não permite abrir um canal de comunicação fundamental: “quando precisares ou quiseres falar sobre isto, aqui estou”.

30 horas dificilmente imagináveis que levaram a que ontem participasse em trabalhos da Carla Ribeiro | PÚBLICO e Ana Marques | Observador onde reflicto sobre como abordarmos esta situação com crianças, destacando: a necessidade de preparação da conversa (estabelecendo objectivos e avaliando o momento e o nosso estado emocional no sentido de transmitir verdade/segurança); adequação da comunicação às crianças (idade mas também dimensões emocionais e experiências – tem ou não amigas/os destes países ou que viveram em contexto de guerra?); a (tentativa de) explicação do propósito da guerra, mesmo quando “insana”, prevenindo generalizações abusivas (“pode ser aqui amanhã”, por sem razão aparente); importância de validar sentimentos, também pela partilha segura dos nossos receios; de dar esperança, porque as guerras terminam e há formas não violentas de resolução de conflitos e vários caminhos para a paz (nos quais muitas pessoas estão empenhadas); importância de se prevenirem mensagens tipo “bons e maus” que polarizaram e que levam as crianças a considerar que o fim depende de um “vencedor”; a promoção da compaixão e empatia e, quando possível, utilizá-las para dar propósito à situação (escrever uma carta/fazer um desenho a alguém mais particularmente envolvido).

Quanto a nós, depois de 2 anos de uma pandemia que nos impactou significativamente, é natural que nos sintamos tristes, inseguras/os e ansiosas/os. “Não faz de nós fracos”, disse à Mariana Durães | PÚBLICO noutro trabalho onde discuto formas de assegurar controlo sobre este nosso sentir, prevenindo maior sofrimento. Uma delas, encontrar propósito e significado para o que se está a viver a partir de algo que nos faça sentido: uma manifestação de apoio, participação numa acção humanitária, …

Eu, entre outros, falo com o meu filho e procuro dar estes pequenos contributos. Não sei se o ajudo (creio que sim) e se ajudo alguém (espero que sim) mas sei que me ajuda. Ajudemos outras pessoas. Ajudemo-nos.

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Conversas difíceis…

Evitar ou promover conversas difíceis?

Alexandra Stein, hoje especialista em extremismo, foi durante cerca de 10 anos membro do “The 0”, culto declarado como “bizarro” e responsável por “experiências dolorosas e traumatizantes” por quem, como ela, nele participou. “A chave para ter experienciado o que experienciei não foi a minha estupidez, mas não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção”, diz.

“Pelo futuro e pelo bem comum – evitar ou promover conversas difíceis?”, 27º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da necessidade de “procurar fora” e do encontrar de outros espaços para “dirigir a atenção” para discutir a necessidade de não evitar(mos), mas sim, promover(mos) conversas difíceis.

“Da gestão da pandemia às migrações, da política à religião, todas e todos já nos vimos perante situações cuja sensibilidade dos temas redundam em conversas difíceis, seja junto de pessoas amigas, familiares, colegas de trabalho ou de equipa”, sendo fundamental que construamos espaço para estas conversas difíceis essenciais “à relação com outras e outros, ao não afastamento e à promoção de diferentes pontos de vista”.

No artigo procuro enumerar algumas pistas que considero importantes para melhor gerir estas conversas, nomeadamente a procura de momentos e contextos adequados, bem como de pontos de convergência e entendimento, o respeito, a empatia, a abertura à e ao outro ou a validação, aceitação e escuta activa. Ainda a importância da manutenção da racionalidade e da calma, bem como do questionamento, da reflexão e, quando necessário, do concordar em discordar, sempre no sentido da definição de uma relação de maior entendimento, reconhecimento e benefício mútuo.

No artigo discuto ainda os muito humanos viés da sobrevalorização (como podemos considerar a priori algo mais desconfortável do que efectivamente será) e ansiedade face ao desconhecido (e a necessidade de se ultrapassar a sensação de ameaça possibilitando a “experimentação”). Bem como a necessidade de criarmos “ambientes seguros do ponto de vista psicológico para relações e conversas livres, para a divergência, para a discussão de erros e “arrependimentos” e para o conflito não violento”, fundamentais a uma polis de encontro, diálogo, sobreposições e penumbras (sociais), assente na diversidade e na riqueza dela resultante em termos de segurança, criatividade, prosperidade, desenvolvimento e paz.

Numa sociedade crescentemente polarizada e que procura soluções simplistas, por vezes acientíficas e até salvíficas para problemas complexos, manter, com resiliência e optimismo, conversas difíceis “é um extraordinário compromisso com a e o outro, pelo futuro e pelo bem-comum. É um extraordinário contributo para maior florescimento próprio e dos outros e outras, para a relação e para a edificação da igualdade, da não discriminação e de ambientes psicológicos seguros para a diversidade. É um extraordinário contributo para a confiança, para a coesão e para a construção da paz.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

Legislativas 2022: A Psicologia a contribuir para soluções nos programas e no debate político (Ao redor…; Sábado; 28.01.2022)

Momentos extraordinários exigem medidas extraordinárias. Frase histórica, muito utilizada politicamente em diferentes momentos e países, voltou a ser bastante usual no contexto desta (extraordinária) pandemia, que implicou medidas extraordinárias. Aproprio-me dela e adapto-a para pretexto deste texto: momentos extraordinários exigem um texto diferente. Um texto que, a poucos dias das eleições Legislativas de 2022, procura proporcionar uma pequena reflexão sobre contributos da psicologia para soluções para os desafios das pessoas e da sociedade e de como os programas dos partidos e, principalmente, um debate político o reflectem.

Refiro-me ao debate entre oito dos nove partidos/grupos parlamentares representados na Assembleia da República no início da última legislatura, organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e que, com moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, juntou Anabela Castro (PAN), Carlos Silva Santos (CDU), Cecília Anacoreta Correia (CDS-PP), Isabel Mendes Lopes (LIVRE), Lina Lopes (PSD), Moisés Ferreira (BE), Paulo Marques (PS) e Vítor Mendonça (IL). Em representação dos seus partidos, discutiram o contributo científico da Ordem dos Psicólogos Portugueses (disponível no seu site) que, de forma contextualizada e quantificada, como no debate salientado, compilou um conjunto de propostas para as Legislativas 2022 no sentido da “tomada de decisão e do desenho de políticas públicas que promovam a saúde psicológica, factores de competitividade e resiliência, o bem-estar, o desenvolvimento das pessoas e do país e a coesão social”. Propostas de contributo para soluções para os problemas das pessoas e da sociedade. De contributo para acções que correspondam aos anseios e às expectativas das cidadãs e dos cidadãos.

Nos programas e neste debate, três constantes: a saliência, a relevância e a importância da saúde mental, hoje consensual na sociedade portuguesa, do “Presidente da República ao cidadão mais comum”; a importância das psicólogas e dos psicólogos nela, conforme resulta claro do seu empenho, dedicação e “trabalho ao longo da pandemia”; e a necessidade imperiosa e urgente de melhorar o acesso das pessoas aos seus serviços, em diversos contextos, ao longo de todo o ciclo de vida, de forma simples, rápida e próxima e não apenas no sentido da remediação de problemas, mas, particularmente, “da prevenção e da promoção de saúde e bem-estar”. Três constantes a que se soma inquietação que abriu o debate: a necessidade de, ao fim da pandemia que todas e todos esperamos e momento pelo qual ansiamos, não corresponda o fim desta saliência e relevância da saúde mental, porque fundamental para as pessoas sempre, mas também porque os tempos da “saúde sanitária” (da pandemia), são distintos dos mais distendidos tempos da crise económica e, particularmente, social que a acompanha e lhe sucede e, mais ainda, do tempo dos problemas de saúde psicológica (por ela agravados) e das perturbações das pessoas dela decorrentes (as novas e as que se aprofundaram).

Do debate (também disponível no site da OPP) partilho uma frase de cada um/a das/os participantes, reflexo, creio, do que atrás escrevo:

– “Hoje vemos as questões da doença mental tratadas no café, na casa dos portugueses, nas empresas e percebemos a importância que as pessoas lhes estão a dar (…) há hoje um largo consenso na sociedade sobre a importância da saúde mental, do Presidente da República ao cidadão comum”;

– “O acesso [efectivo] à saúde mental não é garantido em Portugal e a realidade que temos agrava o fosso entre ricos e pobres”;

– “As [vulnerabilidades relativas à carência de recursos] na saúde mental não começaram com a pandemia, existindo em todas as áreas da sociedade, desde a educação, à saúde ou à justiça. Nenhum partido pode esquecer esta área”;

– “Com a pandemia generalizou-se a importância que a saúde mental tem e agora é papel de todos nós garantir que aceleramos todo o investimento que tem que ser feito na saúde mental não só na parte de tratamento, mas também na parte de prevenção”;

– “O concurso de 40 psicólogos [para os cuidados de saúde primários] que desde 2018 corre e ainda não foi concluído… a saúde mental das pessoas não pode esperar quatro anos para ter respostas (…) pelo que é fundamental integrar psicólogos em todos os cuidados de saúde primários e estabelecer circuitos de referenciação”;

– “Esta ideia de Escola no seu conjunto merece até dos psicólogos uma outra leitura que é a leitura dos factores de risco psicossociais (…) ora, também é um território que os psicólogos da nova vaga dominam: a ideia da psicologia ligada ao mundo do trabalho e das relações das organizações”;

– “Nós temos uma população em Portugal das mais envelhecidas do Mundo e a tendência é para que se torne ainda mais envelhecida com a baixa natalidade e, portanto, os nossos cuidados de saúde, o nosso sistema de saúde tem que ser reorganizado para prestar cuidados à população que nós temos e que vamos ter (…) a camada de idosos que cresce na nossa sociedade tem que ter respostas e tem que ter os cuidados adequados na saúde mental (…) tendo que ser reforçados os recursos que possam prestar estes cuidados a nível domiciliário, nas IPSS ou onde se encontrar a população idosa”;

– “Os psicólogos, obviamente, têm que estudar o que causa a doença mental, têm que apoiar as pessoas que caem em doença mental mas também devem ter um dever e uma obrigação de alterarem o Mundo para que a pessoa não esteja em doença mental.”

Outras frases, que além das convergências nas necessidades assinalaram divergências nas formas de as colmatar, deambularam em torno dos contributos da psicologia e da ciência e da prática psicológica nas áreas da saúde, da educação, incluindo o ensino superior, do envelhecimento, da justiça, do trabalho e dos riscos psicossociais, da pobreza, exclusão e da solidão/isolamento, da promoção da literacia e redução do estigma ou da utilização da sua evidência no desenho das políticas públicas e na comunicação com as populações. Do papel da psicologia nos objectivos do desenvolvimento sustentável e da saúde mental como factor fundamental de desenvolvimento humano.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como se disse ao longo do debate, uma “cascata de problemas necessita uma cascata de soluções” e as “pretensões e propostas da Ordem dos Psicólogos Portugueses correspondem ao que as famílias querem e ao que a sociedade precisa”. Que o país e que quem se propõe governá-lo, saiba as/os 25 mil psicólogas/os preparadas/os, empenhadas/os e motivadas/os para contribuir para comunidades, cidades e um país com mais bem-estar, equidade e de maior coesão social. Que o país e que quem se propõe governá-lo, assegure que as propostas e as medidas que apresenta se baseiam em informação credível, em evidência científica e num profundo conhecimento da forma como as pessoas sentem, pensam e se comportam, das suas motivações e do que impacta a sua tomada de decisão e dos factores que influenciam a construção da sua identidade. Que o país e as eleitoras e eleitores, conforme a moderadora Maria Flor Pedroso encerrou o debate, se mobilizem para votar porque “é preciso que todos votem e participem para que tenhamos uma sociedade democrática mais participada”, algo a que apenas poderemos aspirar se, quem vota, se sentir auto-eficaz. Se, quem vota, se sentir representada/o, envolvida/o, sentir que o seu voto “conta” e que apoia e possibilita a construção de soluções partilhadas para os seus problemas e de oportunidades para cumprir as suas expectativas e desejos. Votemos, pelo presente e pelo futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 28.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/legislativas-2022-a-psicologia-a-contribuir-para-solucoes-nos-programas-e-no-debate-politico

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Do ódio…

Quanto vale o ódio? Quantos votos vale o ódio?

“Eles são ladrões, assassinos, violadores, é o que eles são”. E. Zemmour, várias vezes investigado por incitação ao ódio, foi há semanas (novamente) condenado por esta frase dirigida a partir da TV a um conjunto de menores (de idade) não acompanhados que chegaram a França. Apesar disso (?) é candidato às presidenciais francesas de 2022, eleições que 20 e 5 anos depois de Jean-Marie e Marine Le Pen terem passado à 2ª volta, ganham um candidato, que, mesmo com Marine Le Pen na corrida e apesar da trajectória descente nas sondagens, mantém 13% nas intenções de voto (com Marine Le Pen têm hoje 29% das intenções de voto).

Assumidamente saudosista (nostálgico, como se afirma), provocador, polarizador e incitador do ódio, usa dos medos, receios e da perda (dificuldade de se cumprir) de parte da população para, desconsiderando tudo (ciência, factos, jornalismo) e todas/os, propor-se diminuir a contribuição social (que em França financia o sistema de pensões e de saúde) de 9% para 2,5% do salário, compensando a perda de receitas com a “supressão das dotações para imigrantes”. Ainda a dar direito a empregadoras/es a recusarem contratar “árabes e negros”, conforme descreve, apenas por o serem e sem explicar como e quem pode determiná-lo e verificá-lo. Ou para defender uma moralidade assente na “primazia dos homens face às mulheres” enquanto “ordem natural das coisas” e justificar a violência de homens sobre as mulheres como algo “inevitável” considerando a sua [homens] “natureza predadora”. Também para se manifestar contra qualquer reivindicação de pessoas transgénero e combater o que chama de “ideologia de género” porque “a homossexualidade é uma aberração promovida pelos publicitários do séc. XX”. Para dividir o país num nós (“estrangeiras/os no seu país”) e outras/os, salvando os que se arroga de julgar como bons dos maus.

Não publico directamente no post porque, não defendendo o (seu) cancelamento, defendo que vídeos como o da apresentação da sua candidatura, pelos apelos implícitos e explícitos, merecem contextualização. Contextualização, debate e oposição. Em qualquer lugar do Mundo e aqui.

Ontem lia com um dos meus filhos o 2º livro do Harry Potter e uma personagem dizia que o seu presente de aniversário preferido seria “a harmonia entre todos os seres, mágicos ou não mágicos”, embora também pudesse ser “uma garrafa grande de whisky velho”. Harmonia entre todos os seres ou uma garrafa de whisky? Harmonia entre todos os seres ou, quiçá, espaço mediático e votos.

O livro chama-se “E a câmara dos segredos”. Se evocarmos a história para pensar o presente (nos sinais/símbolos) não é segredo para ninguém que lá e aqui urge que nos juntemos. Que não cedamos. Despolarizando, dialogando, procurando empatizar e compreender quem, não raras vezes porque em sofrimento, se deixa envolver no e pelo ódio.

Digamos não ao ódio. Digamos não a quem dele se aproveita. Lá. Aqui.

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Legislativas 2022 – Que papel da psicologia?

Faltam poucas horas para o encerramento da campanha eleitoral e “momentos extraordinários exigem um texto diferente”. Um texto sobre “contributos da psicologia para soluções para os desafios das pessoas e da sociedade e de como os programas dos partidos e, principalmente, um debate político o reflectem”.

“Legislativas 2022: A Psicologia a contribuir para soluções nos programas e no debate político”, 25º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte de um debate (20.01) entre representantes de 8 dos 9 partidos/grupos parlamentares representados na Assembleia da República no início da última legislatura, organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e moderado pela jornalista Maria Flor Pedroso. Debate assente num contributo científico da OPP que procurou compilar um conjunto de propostas para as Legislativas 2022 no sentido da tomada de decisão e do desenho de políticas públicas que promovam a saúde psicológica, factores de competitividade e resiliência, o bem-estar, o desenvolvimento das pessoas e do país e a coesão social.

Nos programas e no debate três constantes: a saliência, a relevância e a importância da saúde mental, hoje consensual na sociedade portuguesa, do “Presidente da República ao cidadão mais comum”; a importância das/os psicólogas/os nela, conforme resulta claro do seu empenho, dedicação e “trabalho ao longo da pandemia”; e a necessidade imperiosa de melhorar o acesso das pessoas aos seus serviços, em diversos contextos, ao longo de todo o ciclo de vida, de forma simples, rápida e próxima e não apenas no sentido da remediação de problemas, mas, particularmente, da prevenção e da promoção de saúde e bem-estar”. Constantes a que se soma uma inquietação: “a necessidade de, ao fim da pandemia, não corresponda o fim desta saliência e relevância da saúde mental, porque fundamental para as pessoas sempre, mas também porque os tempos da “saúde sanitária”, são distintos dos mais distendidos tempos da crise económica e, particularmente, social que a acompanha e lhe sucede e, mais ainda, do tempo dos problemas de saúde psicológica (por ela agravados) e das perturbações das pessoas dela decorrentes (as novas e as que se aprofundaram).”

Do debate sobressai o “papel da psicologia nos objectivos do desenvolvimento sustentável e da saúde mental como factor fundamental de desenvolvimento humano”.

“Que o país e que quem se propõe governá-lo, saiba as/os 25 mil psicólogas/os preparadas/os, empenhadas/os e motivadas/os para contribuir para comunidades, cidades e um país com mais bem-estar, equidade e de maior coesão social.” Como saiba que, promover a participação implica que, quem (pode) vota(r), “se sinta representada/o, envolvida/o e que o seu voto conta e possibilita a construção de soluções partilhadas para os seus problemas e de oportunidades para cumprir as suas expectativas”.

Votemos, pelo presente e pelo futuro.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder) (Ao redor…; Sábado; 11.01.2022)

Debater, destruir (adversárias/os), ganhar. A narrativa dominante à preparação e à análise ao debate é hoje – porque condicionada e como resposta às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais – particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (a raiva, o ódio, por vezes o medo) e assente na forma como se pode e se se conseguiu destruir as ideias, propostas e, por vezes, a pessoa ou pessoas com quem se debate. É, portanto, particularmente baseada em quatro características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

Próximo da década de 60 do século passado, Lawrence Kohlberg desenvolveu uma das mais relevantes, discutida e, portanto, criticada teoria do desenvolvimento moral com um forte contributo de um conjunto significativo de análises de respostas ao dilema de Heinz. Dilema que explora a forma como pessoas, como cada um/a de nós, justificam e racionalizam as suas acções com base na moralidade a partir da situação que aqui resumo: “Deveria ou não ter Heinz assaltado um laboratório farmacêutico, como fez, para roubar o único medicamento que poderia salvar a sua esposa da morte, por não ter reunido dinheiro suficiente para o comprar por fortemente inflacionado o seu preço?”  A resposta a este dilema e a um conjunto de perguntas a ele associadas (por exemplo, “E se não amasse a sua esposa?” ou “E se fora para uma pessoa sua desconhecida?”) e, particularmente a justificação dada para a acção, permite sustentar os três níveis base de moral da teoria – pré-convencional, orientado para a punição, obediência ou interesse próprio; convencional, orientado para acordos interpessoais, para a conformidade e para a manutenção da ordem social; pós-convencional, orientado para o contrato social e para os princípios éticos e de direitos universais.

No momento particular que vivemos, creio interessante pensarmos numa questão também dilemática relacionada com eleições e candidatas/os (chamemos-lhe o dilema da Democracia): “Imagine que ganhava umas eleições democráticas e justas, mas que sabia que governando, nas condições que teria, enfraqueceria a democracia e esta poderia ser a curto/médio prazo colocada em risco. Governaria ou abdicaria?”. Pensemos esta questão e – porque evidentemente a resposta ao dilema não é simples nem generalizável a diferentes tempos, enquadramentos ou contextos – mais do que as potenciais respostas de quem lhe responderia, as justificações e racionalizações que poderiam ser dadas por quem lhe respondesse. Pensemos nela, se quisermos, não no contexto português, onde os riscos para a democracia estão por enquanto mais mitigados, mas no contexto da França, dos Estados Unidos da América ou da Hungria.

Defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer. Implica, por exemplo, utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir. Sucessivamente implica que se possa ganhar, construindo e não apenas destruindo o que, por sua vez, implica que mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais e comunitários) não nos deem, também nas questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.

Debater, construindo, implica que questões complexas como são as dilemáticas atrás colocadas, mas, particularmente, desafios societais como a pobreza, a desigualdade, as migrações, a crise climática ou a(s) justiça(s) não vivam de inadequadas simplificações, excessivas generalizações e de “medos” e certezas absolutas, promotoras de demagogia e de populismos destrutivos.

Debater, construindo, implica prevenir que recuemos 2500 anos à “guerra entre os opostos” que, segundo Heraclito, filósofo considerado o “pai da dialética”, dava sentido à realidade. Implica que a afirmação de ideias e de propostas não viva exclusivamente da oposição a outras ideias e da criação de antagonismos face a outras pessoas, partindo de verdades absolutas que polarizam e que, como Lerner afirma, são imediatamente contrariadas por outras verdades absolutas, igualmente polarizadoras.

Debater, construindo, implica, por outro lado, recuar 115 anos e ter presente a frase que Evelyn Beatrice Hall (como S. G. Tallentyre) escreveu na biografia que publicou de Voltaire: “Desaprovo o que dizeis, mas defenderei até a morte o seu direito a dizê-lo.” Que existam adversárias e adversários e não inimigas ou inimigos, não tribalizando, preservando o espaço comum de entendimento que representa a democracia.

Debater, construindo, implica, finalmente, prevenir o encerramento e a “autopolinização” exclusiva em prol da “polinização cruzada”. Implica promover espaços de diálogo, compromisso, partilha e crescimento, conjunto.

Para tal, é fundamental considerar a importância do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes). Da capacidade de se avançar de um “ou” para um “e” e de um “deveria” para um “poderá”, também transformando narrativas individuais e societais sobre decisores e decisoras. De se ser proactivo, de se procurar baixar as tensões, encontrar espaços de entendimento, estabelecer objectivos realistas e concretizáveis e de se melhorar a comunicação, escuta activa e o feedback de todos e todas as intervenientes. Tudo isto não se prepara, apenas, no momento imediatamente anterior ao debate. Desenvolve-se ao longo de toda a vida. Desde logo garantindo a mães, pais, cuidadoras e cuidadores oportunidades (competências, quando necessitário) de relação, cuidado e de acompanhamento de menores, desde a primeira hora. Depois nos contextos de educação, formal e não formal, e no processo contínuo de desenvolvimento de competências sócio-emocionais e relacionais e de construção de valores de cidadania das crianças e jovens. Finalmente, promovendo nas e nos jovens e adultos a abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro.

Debater, assim, é ganhar. O debate, a democracia. Confiança e futuro. Quem debate, assim, garante-nos a empatia necessária à compreensão e inclusão das e dos outros, a humildade necessária para reflectir e construir com outras ou outros, a capacidade de reconhecimento de quem não dispõe de todas as respostas para todos os problemas e que procurará, de acordo com a informação, evidência e recursos disponíveis, as melhores e mais personalizadas soluções para cada um dos problemas. Garante-nos integridade, ética, consistência, motivação para a cooperação e uma certa abnegação tendente à consideração do futuro e não apenas do tempo imediato e à defesa dos direitos universais e do contrato social se sobrepor à sua dimensão individual e/ou pertença partidária ou comunitária. Garante-nos bons e boas fazedoras de políticas públicas e nossas e nossos representantes numa democracia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade. A democracia vive da diversidade e da pluralidade e a consideração de adversárias como inimigas ou a destruição de adversários conduz ao empobrecimento e destruição da democracia e do espaço comum de construção destas soluções. Por isso, particularmente no momento que vivemos, é fundamental promover a crítica construtiva e a possibilidade de debater, construindo (ao invés de destruindo) e, ainda assim, ganhando (ao invés de perder). Tal depende, é certo, de quem prepara os debates, debate e comenta. Tal depende porém, também, de todas e todos e da valorização que fazemos deste importante instrumento democrático e do investimento que fazemos no desenvolvimento das pessoas para que possamos ter um futuro com mais construção, mais soluções, mais confiança e mais democracia.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/debater-construir-nao-destruir-ganhar-nao-perder

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A democracia e os debates (democráticos)

Há poucos dias passou um ano de um triste e, até há pouco tempo, impensável acontecimento: a invasão do Capitólio aquando do processo de ratificação da eleição do actual presidente dos EUA. “Colocaram uma faca no pescoço da democracia americana”, disse Biden numa intervenção que assinalou a data e num momento onde se debatem mudanças na legislação, que condicionam direitos de voto de minorias, e se verifica uma profunda polarização da sociedade americana que coloca em causa a confiança nas instituições, nas eleições e o “chão comum” da democracia. Como aqui chegamos e que reflexões para democracias com riscos para já mais mitigados como a Portuguesa?

“Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder)”, 24º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da narrativa hoje dominante à preparação e análise aos debates: “Debater, destruir (adversárias/os), ganhar”. Narrativa que responde às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais, particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (raiva, ódio ou medo). Narrativa tendente em 4 características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; e a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

No artigo enquadro estas questões e afirmo que “defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer”, portanto, “utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir” podendo ganhar-se. Tal implica que “mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais) não nos deem, também em questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.”

No artigo realço a importância “do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes)” e de que melhorar a comunicação e as formas de entendimento depende de investirmos no desenvolvimento das pessoas, das suas competências (nomeadamente relacionais e sócio-emocionais) e da sua “abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro”. Factores hoje fulcrais porque, no momento complexo que vive(re)mos, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade e não da destruição do espaço comum de entendimento que representa a democracia.

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Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz (Ao redor…; Sábado; 30.12.2021)

Há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário. É assim com a saúde mental. Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental. Nunca como no ano que agora termina – em contexto pessoal e profissional, em privado ou nas oportunidades que tive de o fazer em contexto público – tantas vezes procurei afirmar que a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global. 2021 foi (mais) um ano muito desafiante relativamente à saúde mental da população portuguesa e mundial, mas terá permitido que mais pessoas tenham reflectido sobre a sua importância e impacto em tantas dimensões da sua e nossa vida e sociedade, conforme o próprio Presidente da República afirmou nos últimos dias.

Conforme sucede com a saúde mental, também a paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos. Para a promovermos em Portugal, na Suíça ou nos Estados Unidos da América, não apenas na Síria, em Myanmar ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

O próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente 163 países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) e que em 2020 colocou Portugal na 3ª posição (4º em 2021); e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros) e que em 2020 colocou Portugal na 13ª posição, atrás da Noruega (1º), Suíça (4º) ou Alemanha (11º) mas à frente da França (15º), Reino Unido (22º) ou Estados Unidos da América (31º).

Apesar das críticas (parte delas, a meu ver, justas) à forma de recolha e representatividade de indicadores de medida, há algo que creio reflexivamente relevante – a ligação do índice de paz positiva a aspectos (positivos) que são condição fundamental para uma sociedade florescer. Quando se analisa o bom funcionamento do governo, a equidade na distribuição de recursos, o acesso livre e a disponibilidade da informação, as boas relações de vizinhança, os elevados níveis de capital humano, a aceitação e reconhecimento dos direitos de outras/os, os baixos níveis de corrupção e um ambiente de negócio e investimento sólido e estável de países, fazêmo-lo. Como se faz, no Projecto de Sustentabilidade da Paz [Sustaining Peace Project], ao considerarem-se dimensões como a identidade social abrangente entre grupos e comunidades, as suas interconexões e interdependências, a forma como as normas e os valores suportam a paz ou o papel das instituições e das lideranças na promoção do relacionamento entre comunidades. Num e noutro caso, com as limitações inerentes a estes processos de grande complexidade, ponderara-se a possibilidade de bem-estar da população, a promoção da paz e a prevenção da guerra.

Ora, nestes indicadores e dimensões creio que reside um desafio muito relevante para Portugal em 2022. Não que espere que no próximo ano possamos “cair” em guerra. Antes porque creio que, se nada fizermos – considerando o contexto do país, o agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade das respostas dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições – podemos “cair” em paz. Porque, creio, sem investirmos na promoção da paz, podemos involuir em dimensões que sustentam a harmonia e serenidade da sociedade e nos protegem dos conflitos violentos, aprofundando o fosso que já existe entre a nossa posição nos índices de “paz negativa” (4º) e “paz positiva” (13º). Porque me parece fundamental que compreendamos e assumamos que a construção da paz é um processo sempre em curso, tão inacabado quanto urgente, e que depende do nosso contributo individual (enquanto pessoa) e colectivo (enquanto comunidade e sociedade).

Depende de assumirmos, por vezes contraintuitivamente, que todas e todos sem excepção, temos um papel no que recentemente se debateu a propósito das acções de um conjunto de agentes da Guarda Nacional Republicana relativamente a pessoas migrantes a residir em Portugal. Sendo óbvio que são situações decorrentes do comportamento de algumas pessoas, a complacência da sociedade com elas não começa e termina no “julgamento” dessas acções e pessoas concretas e das suas consequências. Antes, na forma como cada um e uma de nós comunica sobre a população migrante, cria e reproduz narrativas e crenças e como isso pode estimular (por vezes até legitimar) algumas emoções, atitudes e comportamentos que, em situações mais extremas, derivam em actos potencialmente criminosos. Ou, como comunicamos sobre as decisoras e os decisores e a forma como a confiança nessas pessoas e nas instituições está em queda acentuada, como recentemente uma equipa de investigação que faço parte observou. Uma sociedade que não compactua com a discriminação e com julgamentos de e por generalização. Que se assume anti-racismo e anti-violência(s), de reconhecimento das e dos outros, particularmente dos e das mais vulneráveis, de boa vizinhança, de confiança, de diálogo, entreajuda e compromisso, de pertença, de penumbras (de encontros entre comunidades e culturas) e de coesão social, constrói-se dia após dia, com contributos múltiplos e desde a mesa do jantar da casa de cada pessoa, até às mesas dos cafés e colectividades, passando pelos locais de trabalho, serviços públicos e pelas autoridades de qualquer tipo.

Podem estar a pensar, sim… Mas o que tem isto que ver com guerra? Saberá ele o que significa a guerra? O que é a guerra? Pois, não sei. Directamente. Não sei porque, enquanto experiência complexa, muito provavelmente só quem a vive pode saber. Mas sinto que, ao contrário do que poderia esperar recuando uma década que fosse, caminhamos no seu sentido. Sinto, sei, que a perda de confiança nas instituições não é um fenómeno português e que por exemplo nos Estados Unidos da América a confiança nunca foi tão baixa (apenas 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos confiam nas instituições quando há cerca de 50 anos eram 3 em cada 4). Sinto, sei, que esse é mais um passo para a degradação dos mediadores sociais (a par do jornalismo, cuja investigação que acima referi também sinaliza quebras de confiança) o que conjugado com a forte polarização nos empurra para um ambiente de “tensão civil” – segundo o barómetro da confiança Edelman (2021), 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Por tudo isto desejo para 2022 que construamos mais paz.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 30.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

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Ciclo Confiança/Desconfiança na Pandemia…

Richard Jewell. 23 anos volvidos sobre os acontecimentos (JO de Atlanta; 1996), Clint Eastwood decidiu, com a habitual acutilância, dirigir um filme que revisitasse a história do segurança que alertou a polícia da existência de uma mochila com explosivos num evento no Parque Olímpico. Jewell foi de “herói nacional” a “principal suspeito” em poucos dias e, apesar de nunca formalmente acusado, a forma como a investigação e, principalmente, a comunicação social abordaram o caso (e as particularidades do segurança) tornaram-no para “sempre responsável” aos olhos de muitas pessoas, mesmo após E. Rudolph confessar a sua responsabilidade. A dado momento do filme diz Jewell: [Depois disto] “qualquer segurança que vir uma mala abandonada deve fugir e não avisar as autoridades (…) pois pode por elas não estar protegido”. Creio-a uma situação histórica relevante para pensarmos o ciclo de criação e perda de confiança, os seus impactos e como a desconfiança gera mais e mais desconfiança.

Ao longo desta pandemia, numa equipa superiormente coordenada pelo Miguel Ricou (que além de mim inclui a Helena P. Pereira, a Sílvia Marina e o Ricardo Picoli), temos estudado, em momentos distintos, o nível de confiança junto de um conjunto de profissionais, partindo de duas preposições base: que momentos de crise (significativa) têm impacto potencialmente significativo nos níveis de confiança com todas as consequências, num e noutro sentido, que daí advêm; que termos mais e mais permanentemente (longitudinal) informação sobre estas oscilações ajudará a suportar acções que previnam a desconfiança e promovam a confiança, enquanto elemento fulcral de coesão das sociedades (fundamental sempre, mas particularmente quando em situações de crise).

O 1º trabalho já publicado (COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions), apresenta e discute dados recolhidos em dois momentos (pré e pós-Verão 2020) e evidencia as e os profissionais de saúde (medicina, enfermagem, farmácia e psicologia), educação (professoras/es e educadores/as) e investigação como profissionais cuja confiança aumentou com a pandemia. Em sentido inverso, nos mesmos períodos, a confiança decresceu nas e nos decisores políticos e jornalistas. No artigo (e na notícia, de forma sintética), discutimos estes dados, mas também o facto de em alguns grupos profissionais, existir uma quebra de confiança significativa face a esse grupo entre o 1º e o 2º momento de recolha de dados, o que nos deixa pistas importantes para outros momentos do estudo e para o segundo trabalho que estamos a preparar.

Ao contrário do que terá afirmado Bismarck sobre Leis e salsichas, cremos fundamental compreender melhor o ciclo confiança/desconfiança em momentos societais distintos e com esse (pequeno, naturalmente) contributo, contribuirmos para uma sociedade (e organizações, políticas e pessoas) mais centrada na confiança e não na desconfiança.