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Legislativas 2022: A Psicologia a contribuir para soluções nos programas e no debate político (Ao redor…; Sábado; 28.01.2022)

Momentos extraordinários exigem medidas extraordinárias. Frase histórica, muito utilizada politicamente em diferentes momentos e países, voltou a ser bastante usual no contexto desta (extraordinária) pandemia, que implicou medidas extraordinárias. Aproprio-me dela e adapto-a para pretexto deste texto: momentos extraordinários exigem um texto diferente. Um texto que, a poucos dias das eleições Legislativas de 2022, procura proporcionar uma pequena reflexão sobre contributos da psicologia para soluções para os desafios das pessoas e da sociedade e de como os programas dos partidos e, principalmente, um debate político o reflectem.

Refiro-me ao debate entre oito dos nove partidos/grupos parlamentares representados na Assembleia da República no início da última legislatura, organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e que, com moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, juntou Anabela Castro (PAN), Carlos Silva Santos (CDU), Cecília Anacoreta Correia (CDS-PP), Isabel Mendes Lopes (LIVRE), Lina Lopes (PSD), Moisés Ferreira (BE), Paulo Marques (PS) e Vítor Mendonça (IL). Em representação dos seus partidos, discutiram o contributo científico da Ordem dos Psicólogos Portugueses (disponível no seu site) que, de forma contextualizada e quantificada, como no debate salientado, compilou um conjunto de propostas para as Legislativas 2022 no sentido da “tomada de decisão e do desenho de políticas públicas que promovam a saúde psicológica, factores de competitividade e resiliência, o bem-estar, o desenvolvimento das pessoas e do país e a coesão social”. Propostas de contributo para soluções para os problemas das pessoas e da sociedade. De contributo para acções que correspondam aos anseios e às expectativas das cidadãs e dos cidadãos.

Nos programas e neste debate, três constantes: a saliência, a relevância e a importância da saúde mental, hoje consensual na sociedade portuguesa, do “Presidente da República ao cidadão mais comum”; a importância das psicólogas e dos psicólogos nela, conforme resulta claro do seu empenho, dedicação e “trabalho ao longo da pandemia”; e a necessidade imperiosa e urgente de melhorar o acesso das pessoas aos seus serviços, em diversos contextos, ao longo de todo o ciclo de vida, de forma simples, rápida e próxima e não apenas no sentido da remediação de problemas, mas, particularmente, “da prevenção e da promoção de saúde e bem-estar”. Três constantes a que se soma inquietação que abriu o debate: a necessidade de, ao fim da pandemia que todas e todos esperamos e momento pelo qual ansiamos, não corresponda o fim desta saliência e relevância da saúde mental, porque fundamental para as pessoas sempre, mas também porque os tempos da “saúde sanitária” (da pandemia), são distintos dos mais distendidos tempos da crise económica e, particularmente, social que a acompanha e lhe sucede e, mais ainda, do tempo dos problemas de saúde psicológica (por ela agravados) e das perturbações das pessoas dela decorrentes (as novas e as que se aprofundaram).

Do debate (também disponível no site da OPP) partilho uma frase de cada um/a das/os participantes, reflexo, creio, do que atrás escrevo:

– “Hoje vemos as questões da doença mental tratadas no café, na casa dos portugueses, nas empresas e percebemos a importância que as pessoas lhes estão a dar (…) há hoje um largo consenso na sociedade sobre a importância da saúde mental, do Presidente da República ao cidadão comum”;

– “O acesso [efectivo] à saúde mental não é garantido em Portugal e a realidade que temos agrava o fosso entre ricos e pobres”;

– “As [vulnerabilidades relativas à carência de recursos] na saúde mental não começaram com a pandemia, existindo em todas as áreas da sociedade, desde a educação, à saúde ou à justiça. Nenhum partido pode esquecer esta área”;

– “Com a pandemia generalizou-se a importância que a saúde mental tem e agora é papel de todos nós garantir que aceleramos todo o investimento que tem que ser feito na saúde mental não só na parte de tratamento, mas também na parte de prevenção”;

– “O concurso de 40 psicólogos [para os cuidados de saúde primários] que desde 2018 corre e ainda não foi concluído… a saúde mental das pessoas não pode esperar quatro anos para ter respostas (…) pelo que é fundamental integrar psicólogos em todos os cuidados de saúde primários e estabelecer circuitos de referenciação”;

– “Esta ideia de Escola no seu conjunto merece até dos psicólogos uma outra leitura que é a leitura dos factores de risco psicossociais (…) ora, também é um território que os psicólogos da nova vaga dominam: a ideia da psicologia ligada ao mundo do trabalho e das relações das organizações”;

– “Nós temos uma população em Portugal das mais envelhecidas do Mundo e a tendência é para que se torne ainda mais envelhecida com a baixa natalidade e, portanto, os nossos cuidados de saúde, o nosso sistema de saúde tem que ser reorganizado para prestar cuidados à população que nós temos e que vamos ter (…) a camada de idosos que cresce na nossa sociedade tem que ter respostas e tem que ter os cuidados adequados na saúde mental (…) tendo que ser reforçados os recursos que possam prestar estes cuidados a nível domiciliário, nas IPSS ou onde se encontrar a população idosa”;

– “Os psicólogos, obviamente, têm que estudar o que causa a doença mental, têm que apoiar as pessoas que caem em doença mental mas também devem ter um dever e uma obrigação de alterarem o Mundo para que a pessoa não esteja em doença mental.”

Outras frases, que além das convergências nas necessidades assinalaram divergências nas formas de as colmatar, deambularam em torno dos contributos da psicologia e da ciência e da prática psicológica nas áreas da saúde, da educação, incluindo o ensino superior, do envelhecimento, da justiça, do trabalho e dos riscos psicossociais, da pobreza, exclusão e da solidão/isolamento, da promoção da literacia e redução do estigma ou da utilização da sua evidência no desenho das políticas públicas e na comunicação com as populações. Do papel da psicologia nos objectivos do desenvolvimento sustentável e da saúde mental como factor fundamental de desenvolvimento humano.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como se disse ao longo do debate, uma “cascata de problemas necessita uma cascata de soluções” e as “pretensões e propostas da Ordem dos Psicólogos Portugueses correspondem ao que as famílias querem e ao que a sociedade precisa”. Que o país e que quem se propõe governá-lo, saiba as/os 25 mil psicólogas/os preparadas/os, empenhadas/os e motivadas/os para contribuir para comunidades, cidades e um país com mais bem-estar, equidade e de maior coesão social. Que o país e que quem se propõe governá-lo, assegure que as propostas e as medidas que apresenta se baseiam em informação credível, em evidência científica e num profundo conhecimento da forma como as pessoas sentem, pensam e se comportam, das suas motivações e do que impacta a sua tomada de decisão e dos factores que influenciam a construção da sua identidade. Que o país e as eleitoras e eleitores, conforme a moderadora Maria Flor Pedroso encerrou o debate, se mobilizem para votar porque “é preciso que todos votem e participem para que tenhamos uma sociedade democrática mais participada”, algo a que apenas poderemos aspirar se, quem vota, se sentir auto-eficaz. Se, quem vota, se sentir representada/o, envolvida/o, sentir que o seu voto “conta” e que apoia e possibilita a construção de soluções partilhadas para os seus problemas e de oportunidades para cumprir as suas expectativas e desejos. Votemos, pelo presente e pelo futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 28.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/legislativas-2022-a-psicologia-a-contribuir-para-solucoes-nos-programas-e-no-debate-politico

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