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Do ódio…

Quanto vale o ódio? Quantos votos vale o ódio?

“Eles são ladrões, assassinos, violadores, é o que eles são”. E. Zemmour, várias vezes investigado por incitação ao ódio, foi há semanas (novamente) condenado por esta frase dirigida a partir da TV a um conjunto de menores (de idade) não acompanhados que chegaram a França. Apesar disso (?) é candidato às presidenciais francesas de 2022, eleições que 20 e 5 anos depois de Jean-Marie e Marine Le Pen terem passado à 2ª volta, ganham um candidato, que, mesmo com Marine Le Pen na corrida e apesar da trajectória descente nas sondagens, mantém 13% nas intenções de voto (com Marine Le Pen têm hoje 29% das intenções de voto).

Assumidamente saudosista (nostálgico, como se afirma), provocador, polarizador e incitador do ódio, usa dos medos, receios e da perda (dificuldade de se cumprir) de parte da população para, desconsiderando tudo (ciência, factos, jornalismo) e todas/os, propor-se diminuir a contribuição social (que em França financia o sistema de pensões e de saúde) de 9% para 2,5% do salário, compensando a perda de receitas com a “supressão das dotações para imigrantes”. Ainda a dar direito a empregadoras/es a recusarem contratar “árabes e negros”, conforme descreve, apenas por o serem e sem explicar como e quem pode determiná-lo e verificá-lo. Ou para defender uma moralidade assente na “primazia dos homens face às mulheres” enquanto “ordem natural das coisas” e justificar a violência de homens sobre as mulheres como algo “inevitável” considerando a sua [homens] “natureza predadora”. Também para se manifestar contra qualquer reivindicação de pessoas transgénero e combater o que chama de “ideologia de género” porque “a homossexualidade é uma aberração promovida pelos publicitários do séc. XX”. Para dividir o país num nós (“estrangeiras/os no seu país”) e outras/os, salvando os que se arroga de julgar como bons dos maus.

Não publico directamente no post porque, não defendendo o (seu) cancelamento, defendo que vídeos como o da apresentação da sua candidatura, pelos apelos implícitos e explícitos, merecem contextualização. Contextualização, debate e oposição. Em qualquer lugar do Mundo e aqui.

Ontem lia com um dos meus filhos o 2º livro do Harry Potter e uma personagem dizia que o seu presente de aniversário preferido seria “a harmonia entre todos os seres, mágicos ou não mágicos”, embora também pudesse ser “uma garrafa grande de whisky velho”. Harmonia entre todos os seres ou uma garrafa de whisky? Harmonia entre todos os seres ou, quiçá, espaço mediático e votos.

O livro chama-se “E a câmara dos segredos”. Se evocarmos a história para pensar o presente (nos sinais/símbolos) não é segredo para ninguém que lá e aqui urge que nos juntemos. Que não cedamos. Despolarizando, dialogando, procurando empatizar e compreender quem, não raras vezes porque em sofrimento, se deixa envolver no e pelo ódio.

Digamos não ao ódio. Digamos não a quem dele se aproveita. Lá. Aqui.

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