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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Futuro da Psicologia Política

Noves de Maio…

Eis-nos a 9 de Maio. Nas últimas semanas, comentadores e comentadoras, têm-se desdobrado em reflexões sobre o conteúdo do discurso de Putin neste dia de parada militar na Rússia, comemorativa da capitulação da Alemanha Nazi na II Guerra Mundial. Sobre ganhos e perdas, narrativas e o “reescrever da história”, ódios e medos. Sobre volatilidade. Sobre relatividade. Sobre tudo isto com uma constante: independentemente de quem ou como se ganhe ou perca e do que isso signifique, nada, hoje e no futuro, Mundo fora, permanecerá como antes da absurda e ilegítima invasão da Ucrânia.

“Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder”, 32º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a relatividade do ganhar e do perder, discutindo ganhos associados a derrotas de partidos [particularmente de direita nacionalista, populista e antissistema] em diferentes países, mas com resultados crescentes e significativos. Toca a “generalização da política do ódio e do e pelo medo” que “se espalha e alimenta em grupos e redes sociais, cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras”. Toca a polarização extrema que se alimenta “do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigas e inimigos”, rompendo pontes e “ameaçando a harmonia necessária em política e a possibilidade e a crença de mudança”. E toca a crise de direitos, da democracia e de confiança, também resultante de uma “centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou privilegiados, para a colectivização da culpa e promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos”.

Em resumo, mesmo com derrotas assistimos à institucionalização progressiva e naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional; ao maior crédito e penetração, discussão e propagação de ideias e posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência; e à profissionalização das estruturas destes partidos, particularmente da sua comunicação.

Isto, lá (EUA ou França, em Itália ou Espanha), como cá, onde um candidato presidencial nacionalizou a expressão “portugueses de bem”, arrogando-se de decidir quem o é ou não é. Lá, como cá, onde “a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade” ou não fosse “o seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social – dependente não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo”.

Eis-nos a 9 de Maio, também Dia da Europa. Dia de celebrar a reflectir para preservar e promover os seus valores.

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9 e a sociedade líquida…

“Penso que tudo quanto considerava sólido se apresenta hoje como instável, líquido.” P. Pomerantsev há muito estuda (e pensa) o fenómeno da desinformação. Tem, na sua vida, um conjunto de experiências familiares (perseguição do KGB aos seus pais) e pessoais (viveu na Rússia entre 2001-2010) que certamente acrescentam pontos de reflexão e lhe permitem afirmar, com propriedade, a volatilidade do tempo que vivemos e que “os dramas e rupturas na sua vida pessoal e familiar” o ajudam a compreender como começam e acabam os processos de (des)informação, tal qual sistemas de forças.

“9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos”, 31º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura reflectir sobre a volatilidade do tempo que vive(re)mos a partir da sua aceleração (olhando os últimos 9 meses por comparação a 9 décadas, a partir da genealogia do meu filho mais novo), transformação e do impacto dos acontecimentos de vida (dramas e rupturas, mas não apenas, na vida pessoal e familiar, mas também na social e profissional) enquanto sistemas de forças com poder de mudança do presente, de condicionar o futuro e impactar diferentes dimensões de vida, incluindo a saúde (também mental), o bem-estar ou a produtividade.

O artigo reflecte, também, a necessidade da inscrição desta realidade na perspectiva de que a saúde mental é hoje um enorme factor de protecção e da necessidade de reflectirmos sobre as “competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e bem-estar”, nomeadamente estimular o Ensino Superior (ES) a responder “à sobrevalorização de competências técnicas” com “a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (autoestima, autorregulação emocional, empatia e altruísmo, capacidade de trabalho em equipa, …), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas.

Procura, ainda, enaltecer a premência e coragem do investimento da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (com apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses) pelo programa dirigido a serviços de saúde/psicologia do ES, baseado no conceito de saúde mental, investindo (até 100.000€) em projectos que visem a sua promoção, a promoção da literacia, de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência). Um programa responsivo às necessidades da sociedade, de presente e futuro, e à evidência científica que confirma a sua premência/pertinência. Um programa que responde à forma desproporcional como a população jovem foi afectada pela pandemia, tem ainda lacunas na literacia em saúde (mental) e a uma “sociedade líquida” que nos deve mobilizar para um desígnio colectivo: “acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos no qual a população jovem é essencial”.

Um futuro com pessoas, afinal, mais do que a (tentarem) cumprir regras e procedimentos, preparadas e motivadas para (tentarem) tomar boas decisões.

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Fadiga da Solidariedade? (Ao redor…; Sábado; 06.04.2022)

Sabem aquele calorzinho que sentimos nos músculos após uma longa caminhada, uma corrida ou a prática de outra actividade desportiva? A fadiga muscular é, como todas e todos sabemos e sentimos, uma reacção fisiológica despoletada quando os músculos do nosso corpo realizam um esforço superior ao que habitualmente realizam ou limite, podendo ser influenciada por outros factores como o período e qualidade de repouso anterior. É, também, uma analogia particularmente eficaz para outras fadigas, mais psicológicas, que todas e todos, em momentos e com intensidades distintas, podemos sentir. Da muito discutida fadiga da pandemia, enquanto sentimento resultante da sobrecarga associada à necessidade constante de hipervigilância e de respondermos a medidas restritivas com impacto e alteração do nosso quotidiano, à fadiga da compaixão, que resulta da exaustão emocional que, profissionais de cuidado ou de “primeira linha”, podem desenvolver pelo trabalho continuado com pessoas em perda, luto ou com trauma e em que, por vezes, os problemas dessas pessoas se misturam com os seus problemas, sem o “filtro da racionalidade”, essencial à empatia e, sucessivamente, a uma empatia equilibrada e activadora de uma acção de apoio e colaborante e não apenas reforçadora do que já sentimos e por isso potencialmente paralisante.

Fadiga muscular, fadiga da pandemia, fadiga da compaixão. Tudo a mostrar-nos que temos limites. Que, conforme a nossa capacidade de adaptação (que é grande, mas não ilimitada), a nossa capacidade de relação, de cuidado, de empatia, de nos centrarmos na e no outro e nas suas necessidades, é grande, mas, também não é ilimitada e é, em muito, dependente da nossa própria condição.

O complexo tempo que vivemos é, creio, propício a que reflictamos e nos perguntemos se assim é também com a solidariedade. Será, também, a atitude e as acções solidárias permeáveis à fadiga? Permeáveis a uma percepção ampliada do esforço delas decorrentes? E, se sim, é expectável que isso possa acontecer relativamente à onda de solidariedade que assistimos em virtude da guerra da Ucrânia que há semanas nos confronta e mobiliza e aos movimentos amplos individuais e sociais-comunitários que assistimos em Portugal e um pouco por toda a Europa?

Sim, creio que a resposta é sim. Porque, talvez conforme já sintamos, as notícias não são já tão abundantes; porque possivelmente não as procuramos com a mesma frequência e afinco; porque estamos hoje menos sensíveis ao tema; porque a guerra já não é tão “urgente e emergente”; porque conversas sobre ela já não se diluem da mesma forma por toda e qualquer conversa e, um pouco por tudo isso, pode considerar-se mais naturalizada nas nossas vidas e dia-a-dia, não tão saliente e proeminente e por isso ser um foco cada vez menos exclusivo da nossa atenção. Este fenómeno diminui a pressão social para a resposta e a necessidade de agenciamento e proatividade, diminuindo dois fortes incentivos à activação solidária, permitindo tornar mais proeminentes outras necessidades nossas ou de pessoas mais próximas face à população migrante ou refugiada resultante da guerra.

Se assim é com as pessoas, assim é com as sociedades e com as e os seus representantes. Este progressivo desfocar, a guerra de informação e desinformação que gera desconfiança e insegurança na sociedade civil, eliminando paulatinamente o suposto unanimismo face a uma ideia de “inimigo comum” e as consequências socioeconómicas que nos atingem e que trazem perda, imprevisibilidade e incerteza a um país já muito marcado pelas diversas perdas, pela imprevisibilidade e incerteza que marcaram os últimos 10 anos abrem espaço a que políticos e outros e outras líderes legitimem discursos tipo “nós Vs. outras/os”. Como o fez nos últimos dias, Andrej Babiš, ex-primeiro ministro e agora “líder” da oposição na República Checa, quando afirmou que o governo do seu país está a “priorizar refugiados face aos cidadãos nacionais”, palavras não despicientes num país em que quase dois terços da população defendem que os apoios à população em fuga da Ucrânia devem limitar-se a poucos meses e em que apenas uma em cada quatro pessoas defende apoios sociais e de alojamento para esta população. Não conhecendo estudos para Portugal – e embora creia e confie, não sem orgulho e também por isso com viés, que seriam bem diferentes – com o passar do tempo crescerá algum deste pensamento e posicionamento, mais ou menos explicito, face à população refugiada da Ucrânia, hoje já existente face a outra população refugiada ou requerente de asilo. Posicionamento que, classicamente, usa do discurso de ódio, da diferença, do medo e de um suposto ataque a um “modo de vida” e aos “recursos disponíveis”, para benefício próprio, de afirmação pessoal e política. Mas, também classicamente, a história diz-nos no que resulta esse discurso e essa utilização do ódio, do medo e da insegurança – no caminho oposto à construção e promoção da Paz, o do “encerramento”, do conflito violento, da guerra.

É por isso – e sim, porque creio possível uma fadiga da solidariedade – que importa reforçar e advogar que decisoras e decisores, responsáveis e lideranças estimulem a empatia e a compaixão, ao invés de aproveitarem os seus limites, e não sejam complacentes com discursos e práticas legitimadoras de discursos de ódio, discriminação e/ou de diminuição de direitos. Que importa reforçar a necessidade de humanização, de responsabilidade social e de cuidado com outras e outros face à perspectiva de percurso de despersonalização e de um progressivo caminhar de “pessoas com nome e história” para “pessoas número”. A este propósito devemos recordar o impacto que imagens e histórias que personalizam têm na mobilização da sociedade civil e na percepção da necessidade de apoio, acolhimento e integração de pessoas em situação de particular vulnerabilidade. Impacto que pode ser facilmente comprovado pelo aumento abismal da pesquisa da palavra “refugiados” e da curva em forma de “U” invertido de apoio às instituições humanitárias pós imagem do pequeno Alan Kurdi, criança Síria em fuga de uma guerra de uma destruição imensa, caída morta numa praia da Turquia ou o papel que a imagem hoje conhecida como “napalm girl” teve na mobilização da opinião pública aquando da guerra do Vietname. Que importa que sintamos e saibamos que todas e todos, um dia, podemos ser estas pessoas que, em bom rigor, são parte de nós. São nós, infelizmente noutra circunstância que não desejavam, contra a qual lutam e pela qual sofrem.

É, também por isso, que respeitando, apoiando e valorizando os contributos técnicos voluntários de tantas e tantos profissionais de diferentes áreas, este esforço e compromisso deve sempre ser enquadrado em respostas integradas, baseadas na melhor informação e ciência disponível, considerando que pessoas em situação de particular vulnerabilidade necessitam de intervenções, respostas e apoios particularmente preparados, especializados e continuados no tempo, por vezes não compatíveis em exclusivo com respostas baseadas em voluntarismo, cuja dimensão e intensidade são irregulares e dependentes da urgência do momento.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, quando a espuma dos dias – essa visual expressão de Boris Vian – se desvanecer, quando o som das sirenes não nos confrontar, quando a urgência se transformar numa (absurda, é certo) rotina surgirão as brechas, as falhas, que, como as geológicas, libertarão energia e provocarão pequenos ou não tão pequenos abalos na nossa confiança, na nossa coesão, na nossa solidariedade. Pense-se França e as oscilações nas intenções de voto face às eleições presidenciais dos próximos dias 10 e 24 de Abril – data da segunda volta que, simbolicamente, nos deve fazer reflectir, particularmente num país que nos é tão referente. Recordemos que uma das principais prioridades da política externa da União Europeia é garantir a segurança dos Estados-Membros, segurança que depende da confiança, da coesão (harmoniosa), da solidariedade, do apoio mútuo aquando de dificuldades e da resiliência colectiva. Recordemos, ainda, que a integração bem-sucedida e a reparação (psicológica e social) são garantes fundamentais ao bem-estar das pessoas e à construção e promoção da Paz. Recordemos e ajamos, não apenas quando é simples, automático e unânime fazê-lo, mas também quando é desafiante, dependente da intencionalização e fonte potencial de crítica e conflito. Ajamos na certeza de que no futuro, quando pensarmos o tempo presente, não sintamos não ter feito o que poderíamos e deveríamos ter feito. Cuidemos, hoje, por amanhã.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 06.04.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-voce-quem-mataria

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Democracia Desafios da Psicologia Política

Putin: 5 centímetros de altura fictícios, 30 anos de medo real (CNN Portugal; 08.03.2022)

“O medo é um catalisador de bom senso.” São estas as palavras que H. Malmgren, ex-conselheiro de vários presidentes dos EUA, guarda de uma conversa com Putin em 1992 em que este lhe explicou como, na ausência de uma lei sobre direitos de propriedade, os litígios eram rapidamente resolvidos na Rússia com um jantar entre representantes armados de cada uma das partes litigantes, dispensando anos de desnecessárias disputas jurídicas. Mais tarde, Putin utilizaria argumentação semelhante relativamente a conflitos entre países para os quais a solução, a seu ver, resultaria do medo gerado pela possibilidade de respostas desproporcionais ao conflito por uma ou pelas partes. Num pequeno texto, Malmgren conta-nos como Putin usa esta emoção natural (medo) como veículo de pressão em conflitos e disputas e como racionaliza a sua utilização, apresentando-a como estímulo ao bom senso.

Quando extremo, o medo paralisa como porventura saberemos por já o havermos experienciado e sentido. Interfere negativamente na vida de pessoas, grupos e comunidades e faz-nos sentir presos, encurralados e indisponíveis para prosseguirmos actividades e projectos de vida, para nos cumprirmos e realizarmos. O medo extremo comporta sofrimento psicológico e partilha com o sofrimento psicológico o agrilhoar da pessoa a um presente que é marcado pelo passado e nos impossibilita, pela ansiedade, de nos libertarmos para um futuro diferente. O medo usa do passado para impactar o presente e o futuro, podendo determiná-lo.

Apesar do seu papel primordial de protecção, o medo não sendo normalmente racional, é, não raras vezes, utilizado e instrumentalizado junto de pessoas ou grupos por pessoas ou grupos que se percepcionam em “vantagem” (superioridade) mas também por pessoas ou grupos que se percepcionam em “desvantagem” (inferioridade). A utilização do medo como estratégia ou “arma” possibilita, pelas suas consequências e impactos opressores, o enfraquecimento do(s) outro(s). Pode ainda, paralelamente, garantir atenção e espaço mediático pela forma como influencia várias dimensões da vida das pessoas e altera a vida nas sociedades. Assim é quando um atentado provoca terror junto da população. Assim é quando um grupo como o Estado Islâmico mostra imagens que horrorizam e atemorizam a população. Assim é quando Putin ameaça, agride (física e psicologicamente) ou invade.

Putin apresenta-se ao Mundo como medindo 170 centímetros mais, pelo menos, 5 cm do que efectivamente medirá. Simbolicamente tem como grande referência Pedro, o Grande, imperador russo, fundador da sua São Petersburgo natal e responsável pela modernização e reforma do país na transição do século XVII para o século XVIII. Usa (e abusa) da história (da sua visão e interpretação da história) para, no que se intitula de uma “guerra híbrida” – usando das novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo os media e a diferenciação e personalização de mensagens e ataques – impactar a vida de um número cada vez mais significativo de pessoas e grupos. Usa das vulnerabilidades de líderes políticas e políticos que o seguem (ainda hoje), pelo que representa no questionar de um certo progressismo social, de uma ordem democrática liberal ou em virtude as condições e apoios que lhes concede. Usa das vulnerabilidades de pessoas que sofrem com a pobreza, a precariedade, a migração forçada, a exclusão e/ou outras condições que as tornam mais suscetíveis e vulneráveis à sua propaganda da ideia de um Mundo que necessita de uma grande, influente e extensa Rússia. Usa, finalmente, da incompreensão generalizada que, do outro lado da guerra, não se encontra a ausência de guerra, mas a Paz – Paz essa impossível quando existe qualquer tipo de violência, agressão, opressão e/ou deslegitimação.

Sabe-se hoje que, forçadamente ou por seu desejo, Putin viveu particularmente isolado durante os últimos dois anos de pandemia. Menos exposto à diferença, à diversidade, ao contraditório, terá aprofundando e sido reforçado na narrativa histórica que construiu. Durante esse período, também certamente percepcionando “janelas de oportunidades” no momento que vivemos, intensificou a propaganda e a utilização da desinformação e da destabilização de países e governos, bem como publicou um marcante ensaio sobre uma pretensa “unidade histórica de russos e ucranianos” que na sua visão se consubstancia num “único povo” hoje não cumprido pela criação artificial de um território que tende, se não a não legitimar, a não totalmente reconhecer – a Ucrânia. Retorna, portanto, ao ideal e ao movimento identitário de não reconhecimento do outro e da diversidade, hoje politicamente em voga num Mundo e numa Europa demasiado necessitados de respostas simples, fortes e, por vezes, salvíficas para os muitos e muito complexos desafios societais contemporâneos.

Conforme a ciência psicológica pode contribuir para a compreensão de fenómenos como o medo, a solidão/isolamento, o encerramento e o efeito de “bolha” de grupos fechados ou a percepção das forças/fraquezas/vulnerabilidades, também, pode (e deve) contribuir para a sua prevenção e para a construção da Paz. Mais do que a partir de um modelo tendencialmente biomédico, de procura das doenças (incluindo mentais) do líder, que possam neste caso justificar as acções e intenções do regime russo, precisamos de pensar a grave crise e a guerra que vivemos considerando dimensões psicológicas e sociais. Considerando que, factualmente, a guerra não é uma inevitabilidade, embora também não seja uma impossibilidade. Considerando que é hoje claro que é cientificamente incorrecto que os seres humanos tenham uma predisposição inerente para o comportamento agressivo, para a resolução violenta de conflitos ou para a guerra. Enfatizar essa incorrecção deve ser o pilar base para a promoção da convivência, dos relacionamentos entre pessoas e grupos e da Paz. Considerando, ainda, que é incorrecta qualquer percepção de que o tempo e a sua passagem, por si só, resolverão traumas passados, sejam eles pessoais ou colectivos, sendo, portanto fundamental desenvolver acções de reparação histórica, de pacificação do presente e de construção de um futuro sem violência.

Termino como comecei: voltando a Malmgren. No mesmo texto diz também que a Rússia, quando Putin chegou ao poder, “precisava desesperadamente de um líder forte”. A Rússia acreditou que precisava dele. Putin acreditou na sua visão da e para a Rússia. O Mundo mudou. Putin vê o Mundo não como o Mundo é, mas como ele é, a partir da sua própria propaganda, reforçada pelo seu círculo próximo e pela sua interpretação das vitórias e objectivos que até hoje cumpriu. Isso não muda(rá). Conseguirá a Rússia, além de reconhecer que não precisa(va) dele, sair da sua propaganda e desvincular-se de Putin? Aqui está parte significativa, que merece a meu ver ser investida, de um caminho para a Paz. Oxalá consiga porque, assim, mais facilmente poderemos aspirar a um Mundo sem medo que possa olhar e reparar o passado para se projectar no e para o futuro. Um Mundo sem medo de ser o que é, do tamanho que é. Sem medo da autodeterminação dos povos, dos direitos humanos e de se cumprir. Um Mundo de Paz.

 

Tiago Pereira

in CNN Portugal; 08.03.2022

https://cnnportugal.iol.pt/guerra-ucrania/tiago-pereira-psicologia-em-tempo-de-guerra-putin-5-centimetros-de-altura-ficticios-30-anos-de-medo-real/20220307/62261e9a0cf2cc58e7e73b12

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

E você, quem mataria? (Ao redor…; Sábado; 22.03.2022)

Suponha que um carro autónomo vai na direcção de 5 pessoas que atravessam uma estrada, que a sua velocidade/distância torna potencialmente mortal o embate e que tem apenas uma opção: nada fazer, mantendo este embate, ou desviar o carro para uma parede matando a/o passageira/o. Quem mataria? Isto nos questiona a “moral machine”, plataforma de um consórcio de Universidades que pretende reunir uma perspectiva humana em torno de decisões morais e dilemáticas tomadas pela inteligência artificial, nomeadamente por softwares de condução de carros autónomos. Variantes de cenários e decisões, de pertenças comunitárias, de idades ou de familiaridades das pessoas que conduzem ou se encontram na situação sobre a qual temos de tomar uma decisão, tudo a fazer-nos reflectir e a permitir confrontar as nossas decisões com as de outras e outros. A colocar-nos na posição de “máquinas morais”, que decidem vidas de outras pessoas. Quem mataríamos nós? Quem e com que pressupostos escolheríamos nós alguém para programar estas decisões?

Basta que olhemos à volta, enquanto lemos estas palavras, para nos fascinarmos com as evoluções sociais e tecnológicas que estão ao nosso redor. Basta que olhemos à forma como lemos estas palavras para pensarmos o quanto o absurdo da guerra para isso tem contribuído, desde logo no desenvolvimento da internet que hoje praticamente todas, todos e tudo liga. Enquanto a guerra na Ucrânia nos inquieta, nos horroriza e nos relembra a volatilidade do tempo e Mundo (em) que vivemos, continuamos, sem fim à vista, a discutir um potencial tratado internacional vinculativo sobre sistemas de armas autónomos letais. Enquanto a guerra regressa com impacto e potencial de escalada à Europa, discutimos, sem acordo, um potencial futuro onde algoritmos decidem, não sobre um obstáculo na estrada, mas sobre quem e em que condições deve uma arma disparar ou face a que alvo e quando deve ser disparado um determinado míssil. Um passo em frente num processo de desumanização da guerra, já realidade nos exércitos da Rússia (“drones vadios” com capacidade de decisão autónoma); da China (reconhecimento facial de alvos inimigos sem intervenção humana); dos EUA (munições/mísseis com sistemas e capacidades autónomas) e que já terá sido utilizada na Líbia pelo exército turco (drones Kargu-2) em 2020, tendo resultado na morte dos primeiros seres humanos em contexto de guerra por decisão de um sistema sem intervenção humana, segundo indica um relatório do Conselho da Segurança das Nações Unidas.

Ao tempo dos significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial de impacto (pandemias, genocídios, crise climática ou ameaças biológicas, químicas e nucleares), junta-se a inversão do caminho de maior democratização dos sistemas políticos e a (re)emergência do autoritarismo, bem como a ameaça da despersonalização potencial que a inteligência artificial e a aprendizagem automática comportam. Ao tempo dos significativos e sem precedentes riscos, deveria corresponder uma ordem mundial assente em compromissos vinculativos de direito internacional e de generalização dos direitos humanos que prevenisse a perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças, suportada na partilha e tomada de decisão individual sustentada na ética.

Na ética e num modelo ético não baseado num homo super-rationale (ser humano super-racional), capaz da tomada das melhores decisões para si e para toda a comunidade a qualquer momento e em qualquer circunstância, homo que claramente não somos. Antes, num modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo experimentalismo e decisões salvíficas.  Mas, quando distantes disso estamos? Regresso ao software dos carros autónomos e a Joshua Greene e à sua afirmação de que as engenheiras e os engenheiros que os programam não “têm o luxo da vaga abstração que opinadoras/es ou políticas/os detêm”, não podendo sugerir às máquinas que respeitem “diretos humanos ou sejam justas”, particularmente quando nós, seres humanos, não conseguimos ser claros e consistentes sobre direitos humanos ou justiça. Estamos tão distantes quanto muitas e muitos estamos, incluindo outras e outros líderes, da visão de direito internacional, de direitos humanos ou de justiça de Putin e do actual governo e regime russo.

Sabemos, porém, que emoções como a raiva ou sentimentos de vingança individuais e coletivos diminuem a Paz e aumentam a possibilidade e probabilidade de conflito violento. Não sendo estas emoções e sentimentos base da acção das máquinas, são, a par dos vieses cognitivos, factores fundamentais do seu desenvolvimento e programação por seres humanos, e elementos nucleares na vivência em sociedade e na projecção de uma ideia de construção de Paz para o futuro, não só mas também pós-conflitos e pós-guerras. A humanização, a compaixão, a empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir para que tal seja possível e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar das populações, são o melhor garante para uma utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da inteligência artificial.

Sabemos, também, que pessoas, líderes, particularmente em contextos não democráticos, de forma personalista, podem subjugar direitos e a ideia do colectivo a interesses, eventualmente ainda que partilhados, decididos não com a prioridade da universalidade dos direitos e da possibilidade de auto-determinação de pessoas e países. Sabemos como, por vezes, estas pessoas se rodeiam de outras que apenas confirmam e reforçam narrativas, encerrando o discurso e a propaganda, impossibilitando ou mesmo promovendo a eliminação (por vezes literal) da dissidência e do contraditório.

Sabemos, ainda, que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade, do experimentalismo e de posições e decisões salvíficas. Isso constrói-se com base na empatia e na despolarização da sociedade. Com base na compaixão e na promoção da resolução não violenta de conflitos, desde os da nossa casa, aos das nossas Escolas e contextos de trabalho, aos dos países. Com base no reforço dos sentimentos de pertença e de abertura à e ao outro e a outras realidades. Com base, ainda, na prevenção de uma coesão baseada na rivalidade que cresce (e é, por alguns, incluindo decisoras e decisores aproveitado) em contexto de incerteza, de menor controlo ou de percepção de ameaça de outras/os.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, quando por vezes se fala, simplificando o complexo, em “ocidente”, creio falar-se de uma visão, por vezes mais idealista que realista, de uma ética partilhada e co-construida, de uma coesão harmoniosa e de valores democráticos, de direitos humanos globais e de equidade. De valores assentes na confiança, em nós, nas outras/os e nas nossas instituições, feitas por nós e, por isso, na liberdade, na abertura, na diversidade, na possibilidade de conflito (não violento) e na auto-determinação. Isso assusta autocracias, autocratas e déspotas. Isso proteger-nos-á das potenciais guerras do futuro, cuja evolução não podemos prever. “Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do filme “Munique, à beira da guerra” que trata o acordo de Munique de 1938 que não travou a escalada que nos conduziu à II Guerra Mundial. Munique, a mesma cidade que em 2007 ouviu um célebre discurso prelúdio da Rússia hoje, onde Putin afirmou que “ninguém mais pode sentir-se seguro porque ninguém se pode esconder atrás da lei internacional”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 22.03.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-voce-quem-mataria

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Comportamento Democracia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Construir a Paz…

“O único discurso sem lugar aqui [na Assembleia da República] é o discurso de ódio, o de negar a dignidade humana seja a quem for, de insultar o outro só porque é diferente, de incitar à violência e à perseguição”. Parte da primeira intervenção enquanto Presidente da Assembleia da República de Augusto Santos Silva, intervenção que, além das deputadas e deputados, creio que todos e todas devemos ouvir e sobre ela reflectir. “Estes tempos difíceis, complexos, são temos propícios a toda a espécie de manipulações, de preconceitos e de messianismos, tempos em que pode prosperar o populismo com as simplificações abusivas, as exclusões sumárias, a negação do pluralismo e da diversidade, a estigmatização dos vulneráveis, a culpabilização das vítimas e a substituição do debate pelo insulto”, disse ainda, num apelo que creio certeiro à construção de um espaço de diálogo, cooperação, civilidade, respeito pelos direitos, pela diversidade e de cuidado com outras e outros. Um espaço, afinal, de construção e promoção de Paz.

Assim mesmo defini a Paz em conversa com o jornalista Ricardo Alexandre para o “Conselho de Guerra” (TSF) de 24.03.22. Como, mais que a ausência de guerra. Como algo sobre o qual todos os dias devemos conversar. Como algo que todos os dias, em todos os contextos, podemos e devemos co-construir. Como algo para o qual todas e todos temos um papel, da nossa casa (enquanto modelos de comportamento para crianças/jovens), às Escolas/Universidades ou aos locais de trabalho, disseminando formas não violentas de resolução de conflitos; empatia, compaixão e perdão; a valorização dos direitos humanos, da ética e do interesse colectivo e a promoção da confiança (em nós, nas outras e outros e nas instituições).

Conversa que teve com mote a trilogia de documentos da @Ordem dos Psicólogos Portugueses Conversar sobre a Paz: Como todas e todos podemos ajudar a construir a Paz; Como podem as crianças/jovens (e mães/pais, cuidadoras/es, professoras/es e educadoras/es) ajudar a construir a Paz; Como podem os psicólogos e psicólogas ajudar a construir a Paz (https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/psicologia-construir-a-paz).

Conversa que, finalmente, procurou sublinhar a importância da promoção e preservação de um espaço de coesão harmoniosa, onde os princípios humanitários são prioritários e existe uma equidade na valorização das pessoas, assente em ideias de liberdade, justiça, participação democrática e de possibilidade de auto-determinação e de cumprimento do potencial das pessoas. Um espaço, também, de não complacência e não legitimação da violência e da discriminação. De coesão, capaz de prevenir que o mal-estar de pessoas e da sociedade, que decorre de crises sucessivas e de riscos significativos que enfrenta(re)mos, não seja politizado e utilizado no sentido de fragilizar instituições e a sociedade e de vulnerabilizar mais, pessoas já de si vulneráveis. De coesão, enquanto garante de um futuro com possibilidade de bem-estar para todas e todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

E você, quem mataria?

5 pessoas que caminham numa estrada ou a/o passageira/o de um carro? Imagine que programa softwares de carros autónomos e que apenas pode decidir entre manter a sua rota provocando a morte de 5 pessoas ou desviá-lo para um obstáculo provocando a de quem o conduz? Quem mataria? Quem e com que pressupostos escolheria para programar estas decisões?

“E você, quem mataria?”, 29º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão/confronto para reflectir sobre como a tecnologia tem rapidamente evoluído e como a guerra que nos horroriza tem para tal contribuído e se tem transformando, com sistemas de armas autónomos letais hoje presentes na maioria dos exércitos e já responsáveis, segundo a ONU, pela morte de seres humanos na Líbia em 2020 sem intervenção de decisão humana.

A (forma de utilização e despersonalização) da inteligência artificial (IA), a par de pandemias, crise climática, genocídios ou ameaças biológicas, químicas e nucleares, fazem do tempo que vivemos, um tempo de significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial impacto. Riscos agravados pela inversão do caminho de maior democratização no Mundo e (re)emergência do autoritarismo e, portanto, de não total correspondência entre mais riscos e uma ordem mundial assente em compromissos de direito internacional e na generalização dos direitos humanos, preventiva da perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças. Ordem, suportada na tomada de decisão individual a partir de um modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo o experimentalismo e o subjugar de direitos e do colectivo face a interesses e decisões individuais e salvíficas.

Sabemos que a humanização, compaixão, empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar, são o melhor garante da utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da IA. Sabemos que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade e que isso depende da despolarização da sociedade, da possibilidade de resolução não violenta de conflitos e do reforço dos sentimentos de pertença, abertura à e ao outro e à diversidade.

“Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do “Munique, à beira da guerra”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

Telefone Laranja para os Direitos Humanos

São muitas as pessoas que ainda se sentem inspiradas pelo discurso de Martin Luther King a 28.8.1963 – I have a dream – e menos as que se sentem inspiradas pela abertura da ligação directa entre os EUA e a URSS 48 horas depois. Apelidada de “telefone vermelho” terá sido fundamental na redução dos riscos de uma guerra (nuclear). Dois dias e dois acontecimentos muito distintos que mudaram o Mundo no sentido de mais Direitos Humanos.

Em parte significativa dos quase 50 anos que distam desses momentos, o Mundo fez progressos notáveis, verificando-se melhorias progressivas até há poucos anos, momento a partir do qual a COVID-19 e o recrudescimento do autoritarismo nos demonstraram que não existe irreversibilidade no progresso e que algo que podemos dar por garantido pode ser questionado. Como nos mostrou, com incredulidade e brutalidade, a guerra na Ucrânia.

“Telefone Laranja para os Direitos Humanos”, 28º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta constatação para discutir a necessidade de não darmos a Paz por adquirida, antes sempre em co-construção como defendi nesta rubrica a 30.12.2021, para pensar como um conjunto de acontecimentos (crise socioeconómica, incêndios rurais de 2017, COVID-19, agora uma absurda Guerra) somam(ar) imprevisibilidade, incerteza e insegurança à imprevisibilidade, incerteza, insegurança colocando em risco a saúde psicológica e o bem-estar de todas e todos e criando o que penso podermos nomear enquanto uma sindemia, ou seja a conjugação de problemas de saúde, neste caso saúde psicológica, e o seu cruzamento com problemas sociais e económicos, aprofundando-os, perpetuando-os e criando vulnerabilidades e adversidades nas pessoas ao redor, incluindo crianças/jovens.

No artigo convido a pensarmos se assim é em Portugal como será na Ucrânia e com o povo ucraniano. Vidas interrompidas, relações coartadas, migração forçada. Trauma. Se em Portugal é fundamental recuperar as pessoas para recuperar o país e o projectar para o futuro depois de crises sucessivas, mais assim é com as Ucranianas e Ucranianos. Recuperação, reparação, reconciliação. Garantir a tal linha directa, um telefone laranja, para com os Direitos Humanos.

Vivemos dias de pesadelo que necessitam de um sonho que se concretize numa realidade inspiradora. De um sonho que se concretize na criação de espaço de pacificação e Paz; de progresso em indicadores fundamentais à autodeterminação das pessoas, à equidade, à coesão social e à possibilidade de bem-estar de todas e todos; na inviabilização de espaço de complacência com tudo quanto interfira com direitos fundamentais e de neutralidade em disputas ou matérias de violação de direitos humanos. De um sonho que se concretize na projecção de um futuro de Direitos Humanos globais.

Que Portugal possa para tal contribuir e nisso ser exemplo. É este o (seu) momento.

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Democracia Política Psicologia

Putin

“O medo é um catalisador de bom senso.” Frase de Putin (1992) que Malmgren partilha num texto onde explica como este usa o medo como veículo de pressão em conflitos e disputas e como racionaliza a sua utilização (estímulo ao bom senso).

Sabemos, no entanto e porventura porque já o sentimos, que o medo, quando extremo, paralisa. Interfere negativamente na vida de pessoas e comunidades, provoca sofrimento psicológico e faz-nos sentir encurralados e indisponíveis para prosseguirmos actividades e projectos de vida, nos cumprirmos, realizarmos e libertarmos para um futuro diferente. Como usa do passado para impactar o presente e o futuro, podendo determiná-lo.

Sabemos, ainda, que o medo é por vezes utilizado para enfraquecimento do(s) outro(s) e para garantir atenção mediática. Assim é quando um atentado provoca terror, quando o Estado Islâmico mostra imagens que horrorizam ou quando Putin ameaça, agride (física e psicologicamente) ou invade.

Parte de um conjunto de iniciativas e contributos, dirigidos à sociedade civil, a decisoras/es e a psicólogas/os (Psicologia | Construir a Paz – https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/psicologia-construir-a-paz), “Psicologia em tempo de guerra” resulta da colaboração entre a CNN PORTUGAL e a ORDEM DOS PSICÓLOGOS PORTUGUESES e consubstancia-se num artigo diário que cruza contributos da ciência e prática psicológica para a compreensão da situação de guerra que vivemos e para a possibilidade de construção de Paz. Depois de artigos de @FRANCISCO MIRANDA RODRIGUES; RENATO CARVALHO; PAULO CUNHA; DANIEL COELHO; MIGUEL OLIVEIRA; EDUARDO CARQUEJA; ANA ISABEL MOTA TELES; RAQUEL RAIMUNDO e MIGUEL RICOU, partilho o que escrevi.

Nele reflicto sobre um Putin que se apresenta ao Mundo como medindo 170cm mais, pelo menos, 5cm do que efectivamente medirá e, simbolicamente, tem como referência Pedro, o Grande. Como usa – em proveito de uma narrativa que construiu, que se alimenta de uma “bolha” fechada e que se baseia num ideal identitário de não reconhecimento do outro e da diversidade – o medo, as TIC, as vulnerabilidades de lideres políticas/os e de pessoas que sofrem com situações de pobreza, precariedade e/ou exclusão e a incompreensão generalizada que, do outro lado da guerra, não está a ausência de guerra, mas a Paz – Paz essa impossível quando existe qualquer tipo de violência, agressão, opressão ou deslegitimação.

Nele discuto como a psicologia contribui para a compreensão do papel do medo, da solidão, do encerramento e do efeito de “bolha” de grupos fechados ou da percepção das forças/fraquezas/vulnerabilidades e como pode (e deve) contribuir para a construção da Paz.

Nele pergunto se “conseguirá a Rússia, além de reconhecer que não precisa(va) de Putin, sair da sua propaganda e desvincular-se dele?”, para que possamos aspirar a um Mundo sem medo que possa olhar e reparar o passado para se projectar no futuro. Um Mundo sem medo de ser o que é, do tamanho que é. Sem medo da autodeterminação dos povos, dos direitos humanos e de se cumprir. Um Mundo de Paz.

Ps. Dia da Mulher. Que nunca esqueçamos porquê. Obrigado a vocês

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

Quando tinha 8 anos e quem tem 8 anos hoje…

Tinha 8 anos quando em Novembro de 1991 vi imagens que, viajando 15.000 km, se alojaram imediatamente em mim, perdurando até hoje na minha memória. Na nossa memória. Tinha acontecido o massacre do cemitério de Santa Cruz (Díli) e algo mudou em mim nesse dia. Sei (sinto), ainda hoje, o quão me foi importante uma ideia de mobilização e de esperança que se seguiu a esse momento, simbolizada em acções que parecem simples (uma carta que na Escola escrevemos a crianças Timorenses; um cordão humano que organizamos;…) mas que me fizeram, nos anos seguintes, sentir-me parte, ainda que insignificante, da procura da possibilidade de auto-determinação daquele povo e país.

Eis-nos 3 décadas depois a viver a invasão (palavra proibida I) de um país europeu por uma Rússia que, além de proibir palavras, faz hoje guerra (palavra proibida II) na Ucrânia. Que condena e procura vergar um povo e um país, privando-o do direito à democracia, aos direitos humanos e à auto-determinação. Como foi importante para mim, tenho procurado que também neste momento, quando conversamos com crianças/jovens sobre guerra, procuremos promover compaixão, reflexão sobre formas não violentas de resolução de conflitos e a procura de propósito/significado, também com acções e ainda que pareçam insignificantes. Aqui partilhei outras intervenções neste âmbito. Partilho hoje uma peça da Patrícia Pires (CNN Portugal) e a entrevista da Iva Domingues (TVI) de apresentação de um documento da OPP sobre o assunto – um primeiro de futuros contributos, pela promoção de literacia e disponibilização de informação de base científica, para o momento que vivemos.

Eis-me 3 décadas depois, psicólogo e, por isso, membro de uma profissão “empenhada, preparada e motivada” para, também nesta grave crise, contribuir para a resposta aos desafios que se colocam às pessoas em Portugal e no Mundo. Para advogar, mobilizar-se e contribuir para a criação de respostas de suporte às populações, conforme assinalamos (OPP) neste comunicado, onde condenamos veementemente esta trágica e indecente guerra.

Após a prontidão, Putin e o seu comando militar terão iniciado exercícios no mar de Barents com submarinos nucleares. Poucas horas antes de o sabermos, dizia Timothy G. Ash que não devemos começar frases por “estou certa/o que Putin não faria isso”. Não, não devemos. Antes podemos, com segurança, começar com “estou certa/o que as psicólogas e os psicólogos não deixarão de contribuir com a sua ciência (desenvolvendo-a e transferindo-a) e prática para os principais desafios societais, “sejam a pobreza e exclusão, crises de saúde pública, a crise climática ou a paz.” Sempre pela possibilidade de auto-determinação e de bem-estar de todas e todos. Sempre pela coesão social.