Sabem aquele calorzinho que sentimos nos músculos após uma longa caminhada, uma corrida ou a prática de outra actividade desportiva? A fadiga muscular é, como todas e todos sabemos e sentimos, uma reacção fisiológica despoletada quando os músculos do nosso corpo realizam um esforço superior ao que habitualmente realizam ou limite, podendo ser influenciada por outros factores como o período e qualidade de repouso anterior. É, também, uma analogia particularmente eficaz para outras fadigas, mais psicológicas, que todas e todos, em momentos e com intensidades distintas, podemos sentir. Da muito discutida fadiga da pandemia, enquanto sentimento resultante da sobrecarga associada à necessidade constante de hipervigilância e de respondermos a medidas restritivas com impacto e alteração do nosso quotidiano, à fadiga da compaixão, que resulta da exaustão emocional que, profissionais de cuidado ou de “primeira linha”, podem desenvolver pelo trabalho continuado com pessoas em perda, luto ou com trauma e em que, por vezes, os problemas dessas pessoas se misturam com os seus problemas, sem o “filtro da racionalidade”, essencial à empatia e, sucessivamente, a uma empatia equilibrada e activadora de uma acção de apoio e colaborante e não apenas reforçadora do que já sentimos e por isso potencialmente paralisante.
Fadiga muscular, fadiga da pandemia, fadiga da compaixão. Tudo a mostrar-nos que temos limites. Que, conforme a nossa capacidade de adaptação (que é grande, mas não ilimitada), a nossa capacidade de relação, de cuidado, de empatia, de nos centrarmos na e no outro e nas suas necessidades, é grande, mas, também não é ilimitada e é, em muito, dependente da nossa própria condição.
O complexo tempo que vivemos é, creio, propício a que reflictamos e nos perguntemos se assim é também com a solidariedade. Será, também, a atitude e as acções solidárias permeáveis à fadiga? Permeáveis a uma percepção ampliada do esforço delas decorrentes? E, se sim, é expectável que isso possa acontecer relativamente à onda de solidariedade que assistimos em virtude da guerra da Ucrânia que há semanas nos confronta e mobiliza e aos movimentos amplos individuais e sociais-comunitários que assistimos em Portugal e um pouco por toda a Europa?
Sim, creio que a resposta é sim. Porque, talvez conforme já sintamos, as notícias não são já tão abundantes; porque possivelmente não as procuramos com a mesma frequência e afinco; porque estamos hoje menos sensíveis ao tema; porque a guerra já não é tão “urgente e emergente”; porque conversas sobre ela já não se diluem da mesma forma por toda e qualquer conversa e, um pouco por tudo isso, pode considerar-se mais naturalizada nas nossas vidas e dia-a-dia, não tão saliente e proeminente e por isso ser um foco cada vez menos exclusivo da nossa atenção. Este fenómeno diminui a pressão social para a resposta e a necessidade de agenciamento e proatividade, diminuindo dois fortes incentivos à activação solidária, permitindo tornar mais proeminentes outras necessidades nossas ou de pessoas mais próximas face à população migrante ou refugiada resultante da guerra.
Se assim é com as pessoas, assim é com as sociedades e com as e os seus representantes. Este progressivo desfocar, a guerra de informação e desinformação que gera desconfiança e insegurança na sociedade civil, eliminando paulatinamente o suposto unanimismo face a uma ideia de “inimigo comum” e as consequências socioeconómicas que nos atingem e que trazem perda, imprevisibilidade e incerteza a um país já muito marcado pelas diversas perdas, pela imprevisibilidade e incerteza que marcaram os últimos 10 anos abrem espaço a que políticos e outros e outras líderes legitimem discursos tipo “nós Vs. outras/os”. Como o fez nos últimos dias, Andrej Babiš, ex-primeiro ministro e agora “líder” da oposição na República Checa, quando afirmou que o governo do seu país está a “priorizar refugiados face aos cidadãos nacionais”, palavras não despicientes num país em que quase dois terços da população defendem que os apoios à população em fuga da Ucrânia devem limitar-se a poucos meses e em que apenas uma em cada quatro pessoas defende apoios sociais e de alojamento para esta população. Não conhecendo estudos para Portugal – e embora creia e confie, não sem orgulho e também por isso com viés, que seriam bem diferentes – com o passar do tempo crescerá algum deste pensamento e posicionamento, mais ou menos explicito, face à população refugiada da Ucrânia, hoje já existente face a outra população refugiada ou requerente de asilo. Posicionamento que, classicamente, usa do discurso de ódio, da diferença, do medo e de um suposto ataque a um “modo de vida” e aos “recursos disponíveis”, para benefício próprio, de afirmação pessoal e política. Mas, também classicamente, a história diz-nos no que resulta esse discurso e essa utilização do ódio, do medo e da insegurança – no caminho oposto à construção e promoção da Paz, o do “encerramento”, do conflito violento, da guerra.
É por isso – e sim, porque creio possível uma fadiga da solidariedade – que importa reforçar e advogar que decisoras e decisores, responsáveis e lideranças estimulem a empatia e a compaixão, ao invés de aproveitarem os seus limites, e não sejam complacentes com discursos e práticas legitimadoras de discursos de ódio, discriminação e/ou de diminuição de direitos. Que importa reforçar a necessidade de humanização, de responsabilidade social e de cuidado com outras e outros face à perspectiva de percurso de despersonalização e de um progressivo caminhar de “pessoas com nome e história” para “pessoas número”. A este propósito devemos recordar o impacto que imagens e histórias que personalizam têm na mobilização da sociedade civil e na percepção da necessidade de apoio, acolhimento e integração de pessoas em situação de particular vulnerabilidade. Impacto que pode ser facilmente comprovado pelo aumento abismal da pesquisa da palavra “refugiados” e da curva em forma de “U” invertido de apoio às instituições humanitárias pós imagem do pequeno Alan Kurdi, criança Síria em fuga de uma guerra de uma destruição imensa, caída morta numa praia da Turquia ou o papel que a imagem hoje conhecida como “napalm girl” teve na mobilização da opinião pública aquando da guerra do Vietname. Que importa que sintamos e saibamos que todas e todos, um dia, podemos ser estas pessoas que, em bom rigor, são parte de nós. São nós, infelizmente noutra circunstância que não desejavam, contra a qual lutam e pela qual sofrem.
É, também por isso, que respeitando, apoiando e valorizando os contributos técnicos voluntários de tantas e tantos profissionais de diferentes áreas, este esforço e compromisso deve sempre ser enquadrado em respostas integradas, baseadas na melhor informação e ciência disponível, considerando que pessoas em situação de particular vulnerabilidade necessitam de intervenções, respostas e apoios particularmente preparados, especializados e continuados no tempo, por vezes não compatíveis em exclusivo com respostas baseadas em voluntarismo, cuja dimensão e intensidade são irregulares e dependentes da urgência do momento.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, quando a espuma dos dias – essa visual expressão de Boris Vian – se desvanecer, quando o som das sirenes não nos confrontar, quando a urgência se transformar numa (absurda, é certo) rotina surgirão as brechas, as falhas, que, como as geológicas, libertarão energia e provocarão pequenos ou não tão pequenos abalos na nossa confiança, na nossa coesão, na nossa solidariedade. Pense-se França e as oscilações nas intenções de voto face às eleições presidenciais dos próximos dias 10 e 24 de Abril – data da segunda volta que, simbolicamente, nos deve fazer reflectir, particularmente num país que nos é tão referente. Recordemos que uma das principais prioridades da política externa da União Europeia é garantir a segurança dos Estados-Membros, segurança que depende da confiança, da coesão (harmoniosa), da solidariedade, do apoio mútuo aquando de dificuldades e da resiliência colectiva. Recordemos, ainda, que a integração bem-sucedida e a reparação (psicológica e social) são garantes fundamentais ao bem-estar das pessoas e à construção e promoção da Paz. Recordemos e ajamos, não apenas quando é simples, automático e unânime fazê-lo, mas também quando é desafiante, dependente da intencionalização e fonte potencial de crítica e conflito. Ajamos na certeza de que no futuro, quando pensarmos o tempo presente, não sintamos não ter feito o que poderíamos e deveríamos ter feito. Cuidemos, hoje, por amanhã.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 06.04.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-voce-quem-mataria