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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

E você, quem mataria?

5 pessoas que caminham numa estrada ou a/o passageira/o de um carro? Imagine que programa softwares de carros autónomos e que apenas pode decidir entre manter a sua rota provocando a morte de 5 pessoas ou desviá-lo para um obstáculo provocando a de quem o conduz? Quem mataria? Quem e com que pressupostos escolheria para programar estas decisões?

“E você, quem mataria?”, 29º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão/confronto para reflectir sobre como a tecnologia tem rapidamente evoluído e como a guerra que nos horroriza tem para tal contribuído e se tem transformando, com sistemas de armas autónomos letais hoje presentes na maioria dos exércitos e já responsáveis, segundo a ONU, pela morte de seres humanos na Líbia em 2020 sem intervenção de decisão humana.

A (forma de utilização e despersonalização) da inteligência artificial (IA), a par de pandemias, crise climática, genocídios ou ameaças biológicas, químicas e nucleares, fazem do tempo que vivemos, um tempo de significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial impacto. Riscos agravados pela inversão do caminho de maior democratização no Mundo e (re)emergência do autoritarismo e, portanto, de não total correspondência entre mais riscos e uma ordem mundial assente em compromissos de direito internacional e na generalização dos direitos humanos, preventiva da perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças. Ordem, suportada na tomada de decisão individual a partir de um modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo o experimentalismo e o subjugar de direitos e do colectivo face a interesses e decisões individuais e salvíficas.

Sabemos que a humanização, compaixão, empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar, são o melhor garante da utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da IA. Sabemos que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade e que isso depende da despolarização da sociedade, da possibilidade de resolução não violenta de conflitos e do reforço dos sentimentos de pertença, abertura à e ao outro e à diversidade.

“Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do “Munique, à beira da guerra”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.

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