Richard Jewell. 23 anos volvidos sobre os acontecimentos (JO de Atlanta; 1996), Clint Eastwood decidiu, com a habitual acutilância, dirigir um filme que revisitasse a história do segurança que alertou a polícia da existência de uma mochila com explosivos num evento no Parque Olímpico. Jewell foi de “herói nacional” a “principal suspeito” em poucos dias e, apesar de nunca formalmente acusado, a forma como a investigação e, principalmente, a comunicação social abordaram o caso (e as particularidades do segurança) tornaram-no para “sempre responsável” aos olhos de muitas pessoas, mesmo após E. Rudolph confessar a sua responsabilidade. A dado momento do filme diz Jewell: [Depois disto] “qualquer segurança que vir uma mala abandonada deve fugir e não avisar as autoridades (…) pois pode por elas não estar protegido”. Creio-a uma situação histórica relevante para pensarmos o ciclo de criação e perda de confiança, os seus impactos e como a desconfiança gera mais e mais desconfiança.
Ao longo desta pandemia, numa equipa superiormente coordenada pelo Miguel Ricou (que além de mim inclui a Helena P. Pereira, a Sílvia Marina e o Ricardo Picoli), temos estudado, em momentos distintos, o nível de confiança junto de um conjunto de profissionais, partindo de duas preposições base: que momentos de crise (significativa) têm impacto potencialmente significativo nos níveis de confiança com todas as consequências, num e noutro sentido, que daí advêm; que termos mais e mais permanentemente (longitudinal) informação sobre estas oscilações ajudará a suportar acções que previnam a desconfiança e promovam a confiança, enquanto elemento fulcral de coesão das sociedades (fundamental sempre, mas particularmente quando em situações de crise).
O 1º trabalho já publicado (COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions), apresenta e discute dados recolhidos em dois momentos (pré e pós-Verão 2020) e evidencia as e os profissionais de saúde (medicina, enfermagem, farmácia e psicologia), educação (professoras/es e educadores/as) e investigação como profissionais cuja confiança aumentou com a pandemia. Em sentido inverso, nos mesmos períodos, a confiança decresceu nas e nos decisores políticos e jornalistas. No artigo (e na notícia, de forma sintética), discutimos estes dados, mas também o facto de em alguns grupos profissionais, existir uma quebra de confiança significativa face a esse grupo entre o 1º e o 2º momento de recolha de dados, o que nos deixa pistas importantes para outros momentos do estudo e para o segundo trabalho que estamos a preparar.
Ao contrário do que terá afirmado Bismarck sobre Leis e salsichas, cremos fundamental compreender melhor o ciclo confiança/desconfiança em momentos societais distintos e com esse (pequeno, naturalmente) contributo, contribuirmos para uma sociedade (e organizações, políticas e pessoas) mais centrada na confiança e não na desconfiança.