Algumas semanas após Marcelo Rebelo de Sousa o ter solicitado, conhecemos em simultâneo com a proposta de Orçamento do Estado (OE), o cenário macroeconómico previsto pelo Governo para 2023. Contém perspectivas sobre o PIB, a inflação, o mercado de trabalho, financiamento e pressupostos como taxas de juro ou preço do petróleo. Nem nele, nem no próprio OE, constam indicadores (e sua variação) sociais como a pobreza e desigualdade ou psicológicos como o bem-estar. Se infelizmente ainda assim é, creio que assim não será sempre e que, indicadores fulcrais como estes para aferir as condições e qualidade de vida, serão mais considerados nas decisões políticas, respondendo-se mais a necessidades e expectativas das pessoas, algo fundamental à preservação da democracia.
“NPD – Naturalização, polarização, democracia”, 43º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) faz uso de 7 simplificações (“que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas”) para, a partir do trabalho pioneiro de Vygotsky, pensar a relação entre processos de normalização, polarização e (ameaças à) democracia. Democracia, “sistema que, apesar das suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos, procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e na promoção de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação.”
O artigo discute e exemplifica o “papel de outras e outros nos processos de normalização, no tornar real o que apenas era potencial” e o “facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante.”
Pensa “a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por ex.) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo”. A forma como “as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades”. Como “a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.”
“Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais.” Tudo a exigir que “compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Que criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Que façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais” contribuindo “para a confiança, credibilidade das instituições e qualidade da democracia” garantindo, assim, melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.”