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Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas” (Sábado; Ao redor…; 11.01.2023)

A semana começou com incríveis imagens do Brasil. Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.

“Afirmações extraordinárias necessitam de evidências extraordinárias”. Popularizada por Carl Sagan, esta expressão ajuda-nos a reflectir a improbabilidade de um pretenso fim da história, particularmente quando a ciência, a tecnologia e o que se passa ao nosso redor criam constantemente diferentes cenários e alterações à realidade vigente. Ciência esta proveniente de disciplinas que contribuem para a resolução de problemas de elevada complexidade, cada vez mais diluída entre diferentes áreas e com maior reconhecimento de uma parte da sociedade civil e de decisoras e decisores. Uma parte.

É assim com a psicologia com a particularidade de, simultaneamente, contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras. A este propósito, reflictamos sobre três exemplos de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora.

“Uma palmada não faz mal a ninguém.” Uma das grandes mudanças societais das últimas décadas resulta da condenação ampla e quase generalizada das várias formas de violência sobre as crianças. Porém, persiste em algumas franjas da população, a perspectiva de que uma “palmada” não provoca qualquer dano, mantendo-se estas práticas enraizadas em diversos países conforme, por exemplo, a UNICEF vem estudando e sublinhando. Nada mais errado. Além da inutilidade e da ineficácia desta acção no sentido da promoção da mudança comportamental (ao não contribuir para a interiorização e inscrição das regras), existem perigos significativos que resultam da utilização da punição física ou de castigos corporais ao invés de acções de disciplina e parentalidade seguras ou positivas. Efeitos negativos que incluem o perigo do aumento, escalada e banalização da agressividade, violência e dos comportamentos anti-sociais, a não aprendizagem do comportamento esperado e a legitimação da violência de grupos sobre outros. Ainda, dificuldades de aprendizagem, auto-regulação e de desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais (no presente e futuro), além de consequências no bem-estar, segurança (também afectiva) e saúde, incluindo saúde mental.

“As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”. Passa este mês dez anos sobre a publicação, por um hoje deputado à Assembleia da República, do livro “O colonialismo nunca existiu!”. Alguém que assim o defende, junto com colegas de partido que negam também a existência de racismo estrutural em Portugal, desconsiderando factos concretos e estudos de opinião ou barómetros, incluindo os da União Europeia e legitimando, politicamente, esta negação e as suas consequências. As palavras contam. Contam muito. Contavam no final do século XIX, quando se descreveu a drapetomania, uma suposta doença mental responsável, imagine-se, pelo facto de algumas e alguns escravos procurarem fugir da sua condição, algo que, segundo Cartwright, apenas poderia suceder com pessoas em escravidão não saudáveis. Contavam no século XX onde me e nos pediam que pintássemos com “lápis cor de pele”. Contam hoje, na terceira década do século XXI, onde se procuram utilizar expressões como a “ideologia de género” para desconsiderar, denegrir ou ilegitimar condições, pretensões ou direitos de pessoas. Há hoje ampla investigação que demonstra que e como as palavras e expressões podem reforçar e perpetuar cognições ou crenças que influenciam as nossas tomadas de decisões, formação de opiniões e comportamentos. O racismo estrutural existe, em Portugal e no Mundo. Dificilmente esquecerei um estudo que demonstra como nos EUA ser “branco” parece proteger mais da violência policial do que ser um/a menor. Este como outros estudos, em diferentes áreas e países, tornam clara a sua existência, as suas consequências sociais e o seu impacto em dimensões de saúde e bem-estar. Tornam claro como funciona como factor de risco/vulnerabilidade e, potencialmente, de exclusão de pessoas e grupos.

“Os seres humanos são animais racionais”. Desde há quase 2400 anos e de Aristóteles que esta expressão é parte do nosso imaginário. No entanto, a ciência tem demonstrado as suas insuficiências, porquanto é hoje claro que a nossa racionalidade é tendencialmente guiada pelas nossas motivações e emoções e limitada pelos nossos pontos de vista, opiniões e vieses. Ainda que a racionalidade seja fundamental, até porque podemos sempre raciocinar sobre a própria irracionalidade, devemos ter presente que somos “animais racionais não a tempo inteiro”. Que temos falências, vieses. Que cometemos erros e que existem individualmente ou em grupo, momentos e movimentos onde a racionalidade é condicionada por pensamentos, emoções ou influências sociais ou de grupo que condicionam, senão determinam, as nossas tomadas de decisão e comportamentos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a história não tem fim. Mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis. Como a história, a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas, contribuindo para compreendermos o porquê de assim ser, como enquanto seres humanos nos comportamos e tomamos decisões e que é fundamental combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração. Contribuindo, simultaneamente, para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.

 

Tiago Pereira

Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/nem-fim-da-historia-nem-fim-da-ciencia-o-contributo-da-psicologia-e-tres-ideias-feitas

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Dia Martin Luther King Jr.

Esta segunda-feira cumpriu-se mais um dia Martin Luhter King Jr. Comemorado na 2ªF que corresponde ou se segue ao dia 15 de Janeiro (dia do seu nascimento), assinala o legado da histórica figura dos EUA e do Mundo. A “América é uma nação mais democrática, justa e pacifica” por sua causa; MLK foi o nosso mais importante “comandante não-violento”, diria R. Reagan quando assinou uma Lei, no ano em que eu nasceria, formalizando o dia como feriado nacional.

Martin Luther King e o seu legado estimula ao envolvimento e mobilização não violenta pela eliminação de todas as formas de discriminação e combate à desigualdade, fenómenos sociais com profundo impacto na possibilidade de bem-estar de pessoas, comunidades e sociedades.

Pese embora o caminho que foi percorrido nesse sentido, maioritariamente em alguns países e não sem revés possível, olhemos dois exemplos, significativamente distintos, do caminho ainda por percorrer:

  1. Também ontem a Oxfam publicou, a propósito do inicio da cimeira de Davos, o relatório “Survival of the Richest – How we must tax the super-rich now to fight inequality [Sobrevivência dos mais ricos – Como temos que taxar hoje os super-ricos para combater as iniquidades]”. Relatório que assinala o facto de, pela primeira vez em 25 anos, a pobreza extrema no Mundo ter aumentando. Isto, no mesmo momento em dois terços da riqueza mundial gerada desde 2020 ficou com apenas 1% da população mundial, a mesma percentagem de pessoas que na última década “arrecadou” metade de toda a riqueza mundial.
  2. Nas últimas duas semanas a Bárbara Reis escreveu sobre o “gender pain gap [viés da dor]”, uma de um conjunto de barreiras que se colocam ao acesso a cuidados de saúde de qualidade pelas Mulheres. Basicamente, existe hoje evidência que confirma que as Mulheres estão mais expostas a situações onde a sua dor e/ou preocupações com a sua saúde são desconsideradas, com consequências diversas como incorretos diagnósticos, terapêuticas ou tratamentos. Escreveu sobre isso. Escreveu sobre a negação que algumas pessoas fazem disso. A mim estimulou-me a reflectir como esta conjugação reforça e duplamente penaliza quem mais sofre com o viés – as Mulheres.

“Não perdi a esperança. Devo confessar que estes dias têm sido difíceis para mim, pessoalmente. E que estes dias têm sido difíceis para cada líder dos direitos civis, da justiça e da paz.” Assim terminou o discurso de MLK aquando da Convenção da American Psychological Association de 1967, após um Verão de incidentes graves nos EUA. Advogou por Direitos Humanos, igualdade, justiça social, Paz e pelo contributo da ciência (psicológica) para tal. Discurso quando, em Portugal, Américo Tomás era presidente e a psicologia pouco podia contribuir.

Mas… não perdi, não perdemos, a esperança. Nem a esperança, nem a inquietude de quem luta pelos valores e pelo legado de MLK.

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Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas

No Domingo voltamos a espantar-nos. “Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.”

“Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”, 49º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a particularidade da psicologia, simultaneamente, “contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras”.

Fá-lo, também, a partir de “três exemplos [detalhados e reflectidos no texto] de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora”:

  1. “Uma palmada não faz mal a ninguém”;
  2. “As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”;
  3. “Os seres humanos são animais racionais”.

As “mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis.

Como a história, “a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas (…) deve combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração e contribuir para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.” 

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres (Sábado; Ao redor…; 07.12.2022)

“Não há provas. Não há testemunhas. Mas para uma pessoa, não existe dúvida.” É esta a frase de apresentação do filme “A dúvida” realizado por J. Shanley e baseado numa peça de teatro por si escrita, que lhe valeu o prémio Pulitzer Drama em 2005. A peça (“Dúvida: Uma parábola”) tinha um nome que reflectia uma dimensão visual da dúvida, associada ao seu dinamismo e à forma como, diferentes momentos e circunstâncias, podem produzir diferentes olhares sobre algo. Dúvida, elemento poderoso nas dimensões cognitivas, emocionais e de comportamento das pessoas, triângulo estruturante da vida, das relações connosco e com as outras e os outros e da sociedade.

Embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso a dúvida é explorada, da indústria à política. Do memorando, outrora secreto, da indústria tabaqueira que afirmava que “a dúvida é o nosso produto”, estimulando o financiamento de campanhas (e até de “ciência”) que introduzissem dúvidas nas cada vez mais evidentes nocivas consequências do consumo de tabaco, à forma como políticas/os, como é exemplo Donald Trump, têm procurado suscitá-la face aos processos democráticos dos seus países. No seu caso, abundam exemplos, desde a legitimação de grupos violentos como os Proud Boys, à frase aquando da sua aceitação da nomeação para recandidatura a Presidente na Convenção Republicana de Agosto de 2020 (“A única forma que eles [Partido Democrata] têm de nos retirar a eleição é através de eleições fraudulentas”) ou à forma como nos últimos dias pediu a “extinção da Constituição” e, mais uma vez, a anulação das eleições presidenciais de 2020. Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e até dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna” ou que “vemos, sistematicamente, a população a desconfiar destes relatórios” existindo agora “um grupo parlamentar que também desconfia destes relatórios”.

Este movimento, com exemplos históricos com décadas e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito por todas e por todos e para a convivência e acção conjunta dos povos face aos desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando as possibilidades de actuação sobre a mesma das instituições e autoridades do Estado. Ao paulatinamente desacreditarem as instituições e os pilares da vida democrática, estes movimentos e partidos pretendem espaço de crescimento e propagação do seu ideário utilizando a percepção de injustiça e da perda de qualidade de vida de algumas pessoas, o medo do desconhecido e diverso, a revolta ou o ódio à outra e ao outro. Pretendem minar a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.

Estes processos condicionam significativa e negativamente a saúde pública e o bem-estar das pessoas. São hoje relativamente claras as relações existentes entre a liberdade e direitos económicos, sociais e culturais e os indicadores de saúde e bem-estar das populações. Tal qual é claro que a democracia por si, ainda que suportada na capacidade de empoderamento das pessoas, se não for acompanhada de direitos humanos estruturantes como o direito à habitação, à educação de qualidade e a condições equilibradas de subsistência e de satisfação e propósito no trabalho, não resulta eficaz de igual forma.

Esta consciência, e os sinais que temos destes movimentos até em países que porventura consideraríamos a eles mais imunes (e.g. países do Norte da Europa), devem-nos motivar e impelir a uma atitude proactiva de prevenção e mitigação destes fenómenos, considerando a sua importância e o seu papel nas sociedades democráticas, de Direitos e livres. É fundamental que tal dependa, é certo, do reforço da dimensão social que toque e abarque questões fundamentais como a habitação, a precariedade e pobreza ou a educação de qualidade e trabalho digno, mas, também, outras áreas, hoje talvez ainda emergentes, mas que importa acompanhar e desenvolver. Dois exemplos.

A Finlândia introduziu no currículo das suas Escolas a literacia mediática. A invasão da Crimeia pela Federação Russa em 2014 e os níveis de desinformação e de notícias falsas particularmente significativos que se lhe seguiram, conduziram a esta alteração e a um mais intencional investimento no desenvolvimento do pensamento crítico de crianças e jovens. Juntando-se à abordagem à educação mediática, parte já antes do currículo do ensino pré-escolar e elementar, e com os impactos que sabemos que continuam das crianças/adolescentes para as suas famílias/sociedade, segundo o instituto Open Society a Finlândia é hoje o país da Europa mais resistente à desinformação. A Suécia que recentemente criou a “Agência de Defesa Psicológica”, uma estrutura pública que visa organizar e operacionalizar um conjunto de acções de protecção da sociedade democrática e livre e da formação livre de opinião, a partir da identificação, análise e combate à influência da má informação ou desinformação estrangeira direccionada à Suécia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje novas e crescentes ameaças às pessoas, sociedades e instituições e estes são dois exemplos concretos de como melhor nos prepararmos para os desafios do presente e do futuro. Para apoiar, também, o que a OCDE define como fundamental para o desenvolvimento da verdade, confiança e reforço da democracia: o combate à má informação e desinformação; uma maior representação e participação das pessoas na vida pública; o assumir de responsabilidades globais e a resiliência à influência externa nas sociedades; a transição verde e digital. Tudo áreas para as quais, também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, a psicologia pode e deve, a par com outras ciências e profissionais, contribuir. Tudo áreas que devemos valorizar e investir, considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.

 

Tiago Pereira

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

in Sábado (Ao redor…); 07.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-a-literacia-e-a-defesa-psicologica-das-sociedades-democraticas-de-direitos-e-livres

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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

Hoje passa um ano e um dia da publicação um artigo que escrevi de título “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”. Escrevi-o porque o sentia importante, necessário, considerando as ameaças potenciais à Paz a que assistíamos e que intuía. Estava, porém, longe de perspectivar a amplitude do que 58 dias depois viria a suceder e de ver imagens de tanques russos nas ruas de Kyiv nos momentos que se seguiram ao trágico 24.02.22. Hoje, um ano depois, passa um dia de que foi publicado um outro artigo, de “desejo” e próximo na “arquitectura”.

“Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos”, 48º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte dos “sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso”, no caminho de melhoria da possibilidade de bem-estar em Portugal. “A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país.”

No artigo reflicto sobre como o que nos torna “destino turístico de excelência, nos aproxima de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar” e, a partir de dois índices internacionais, o que parece fazermos bem, menos bem e que podemos significativamente melhorar para tal, sublinhando cinco factores de investimento essenciais que se interligam:

  1. considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas;
  2. melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população;
  3. em períodos de crise e dificuldade, proteger e apoiar a população mais vulnerável;
  4. maior envolvimento e participação da sociedade civil, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforçando os níveis de conexão e suporte social da população;
  5. criação de condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental.

Caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme prevê a Constituição Portuguesa, “depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar”.

Que o priorizemos e promovamos, mais, em 2023.

Obrigado a quem neste 2022 aqui me acompanhou. Bom 2023 e que nos possamos continuar a encontrar, aqui e noutros lugares.

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As e os jornalistas… E eu.

Sábado, manhã. Muitas e muitos de nós iniciam o seu de fim de semana, com outras rotinas. Para outras e outros, porém, não é assim… Ao pensá-lo, ocorrer-nos-ão, certamente, diversas profissões, mas, dificilmente, as e os jornalistas. Nesta, como noutras reflexões. Pensamos pouco neste grupo profissional, com desafios incomensuráveis, particularmente quando assistimos a um processo de “dissolução” dos mediadores na sociedade. Profissionais de importância vital à sociedade, aos seus desafios e a uma ideia e perspectiva de desenvolvimento assente nos direitos humanos, na sustentabilidade, equidade e na possibilidade de autodeterminação das pessoas.

Recentemente, a propósito de uma reflexão sobre o bem-estar nas e nos jornalistas, li um (para mim) impactante artigo da jornalista Alex Sujong Laughlin. Descreve a forma como acompanhou a Convenção que nomeou Hillary Clinton como candidata às presidenciais e lhe foi impossível, num momento, não demonstrar as suas emoções (“eu sabia que naquele momento tinha que escolher entre o profissionalismo e a minha humanidade”), mesmo quando “eram menos a propósito de Hillary e mais sobre o que o momento simbolizava”. O artigo (É possível ser-se jornalista e um ser humano) reflecte sobre a sua visão da desactualização da forma como se pretende que as e os jornalistas sejam “objectivos” hoje, na sociedade contemporânea, com os meios existentes e com a desconfiança na comunicação social tradicional. É o “dizer a verdade” (não a mera objectividade) que melhor protege e preserva a confiança pública, defende.

Pensemos no desafio. No sofrimento ético. Na dúvida que lhe sobra se deveria ou não ter retirado as credenciais ao emocionar-se. Pensemos no quão hoje as e os jornalistas lidam com a desinformação num combate desigual, para que o jornalismo não seja “eliminado”. Com o contar de cliques/audiências, não lhes sucumbindo, para que o jornalismo não seja “condicionado”. Com a voracidade e sensacionalismo, para o que o jornalismo não seja “desvirtuado”.

Vem isto a propósito do recente e (para mim) lindíssimo texto que partilho da jornalista Phoebe Greenwood (“Ao acompanhar a morte [o processo] da minha psicoterapeuta, finalmente aprendi como viver”). Ele trata, também, os limites da relação (aqui terapêutica) com dimensões humanas e de vida. “Tínhamos 2 meses [tempo de vida estimado da psicoterapeuta] e, ao invés de interromper as sessões, aumentou-as, recusou o seu pagamento e, miraculosamente, teve tempo para me ensinar a viver sem ela”. Pediu-lhe [a psicoterapeuta] que escrevesse acerca dela… Disse-lhe: “Pensei que no meu funeral – eu vou morrer – te quero lá. Gostaria muito que lá estivesses, como jornalista”.

E lá estava.

Obrigado, jornalistas, por me fazerem companhia e me falarem. Obrigado por escreverem para e por mim. Por me ajudarem a pensar melhor, a ser mais livre e mais pessoa. A ser mais eu, hoje e amanhã.

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

A crise das democracias e como podemos vir a ser confrontados com uma realidade política que não consideraríamos imaginável no nosso tempo de vida. Ontem, no Fórum da DRCentro da @Ordem dos Psicólogos Portugueses (obrigado @Paulo Cunha e equipa), depois da recolha de contributos que dinamizei para https://finalapobreza.pt, a @Sofia Ramalho questionou-nos, a propósito do “Futuro da Profissão”, sobre crises que imaginamos no futuro. Falou-se de saúde mental, de ecrãs, de natalidade e longevidade, da crise climática e de coesão. Eu falei de ameaças à democracia, sistema que, com as suas limitações, mais protege a possibilidade de autodeterminação de todas e todos.

“A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres”, 47º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte esta potencial crise a partir da dúvida. Dúvida que “embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso é explorada, da indústria à política. Da “dúvida é o nosso produto”, com que as tabaqueiras procuravam acrescentar dúvida à cada vez mais significativa evidência das consequências nocivas do tabaco, à forma como políticas/os (veja-se Donald Trump) a usam. “Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna”.

“Este movimento, com exemplos históricos e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito e convivência e para a acção conjunta dos povos face a desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando possibilidades de actuação sobre a mesma de instituições e autoridades do Estado. Mina “a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.”

O reconhecimento deste fenómeno deve motivar-nos a atitudes proactivas para a sua prevenção e mitigação, considerando os impactos nas sociedades democráticas, de Direitos e livres.” Deve impelir-nos a reflectir e considerar acções, como são exemplo (aprofundados no texto), a introdução na Finlândia da literacia mediática no currículo das Escolas e a criação na Suécia da Agência de Defesa Psicológica, iniciativas de combate à desinformação e protecção da sociedade democrática e livre.

Áreas para as quais “também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, podemos e devemos, a par com outras ciências e profissionais, contribuir”. Áreas “que devemos valorizar e investir considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.”

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Placebo.

“Dava-lhe um litro de gasolina com açúcar.” Ontem, no seu programa e comentando a notícia de um acidente causado por um “camião que perdeu os sentidos”, Ricardo Araújo Pereira brincava assim com o lapso na notícia. Brincava com o “copo de água com açúcar”, muito presente no meu (nosso, imagino) passado. Muito presente, ainda, como conversava com amigas/os há dias, nas Escolas, onde serve o propósito de cuidar de uma dor nas costas ou braço, de uma má notícia ou angústia.

Vem isto a propósito da reflexão que me acompanha sobre o “efeito placebo”. Esse curioso e estimulante (de reflexão) “efeito psicológico” que pode ter um “comprimido que não é comprimido” ou uma “intervenção inexistente” sobre problemas e sobre a qualidade de vida da pessoa, a partir da convicção ou no acreditar pela pessoa nos seus efeitos. Como a expectativa de um resultado pode induzir/activar mecanismos cerebrais que resultam mesmo, por exemplo, na diminuição da dor.

Este efeito, cuja investigação recente parece suportar que é hoje mais forte que há 20 anos, pode explicar em parte como podem intervenções sem evidência científica apresentar resultados positivos para algumas pessoas. Como pode o copo de água com açúcar persistir como resposta, mas, também, como pode este efeito psicológico ter resultados impactantes na redução de sintomas (em alguns casos quase semelhantes) quando comparado com a utilização de alguns medicamentos, por exemplo, junto de algumas pessoas com doença de Parkinson ou Depressão.

O conhecimento desta realidade deve, a meu ver e particularmente quando se consideram pessoas em situação de maior vulnerabilidade, motivar:

a) Cuidarmos este aspecto em intervenções experimentais e inovadoras, reforçando a nossa exigência na discussão de protocolos e resultados – neste sentido saúdo o trabalho e, particularmente, as cautelas e o cuidado expresso por Albino Oliveira-Maia à Inês Chaiça (PUBLICO) relativamente aos resultados promissores (“interessante[s], mas não extraordinariamente entusiasmante[s]”) de estudos sobre a utilização de psilocibina em pessoas com depressão, sublinhando a necessidade de continuarmos a investir nos estudos, melhorar protocolos e investigar formas de mitigação de efeitos secundários;

b) Recordarmos que o efeito placebo se resume a sintomas e é, crescentemente, utilizado como suporte da pseudociência – neste sentido importa prevenir a substituição de acções/terapêuticas que incidem sobre o problema base por outras, sem evidência, focadas nos sintomas e como devemos ser em simultâneo exigentes, mas sabedores das nossas características… Da nossa não permanente racionalidade e da natural (mas não inconsequente) procura de soluções simples e rápidas para problemas complexos.

Na saúde, onde o efeito placebo é hoje muito estudado e (por vezes mal) utilizado… Na sociedade ou política.

Um bom dia internacional da Cobertura Universal de Saúde… Que contribuamos para um “futuro saudável para todas e todos”, conforme seu mote.

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“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

Ainda na primeira página de “O Amante”, seu romance autobiográfico, Marguerite Duras resume-nos em 8 palavras uma vida. Uma vida mais em que muito cedo era já tarde demais.

Tenho, por diversos motivos, pensado nesta passagem e no que ela significa. E, talvez paradoxalmente, pensado não apenas no que mais automaticamente me (creio nos) suscita (o que cedo nas nossas vidas nos pode impedir de nos cumprirmos, autodeterminarmos, viver em plenitude e com saúde e bem-estar ao longo da vida) mas também no que de estímulo comporta para que possamos cedo, senão muito cedo, agir e intervir para que não se torne tarde ou tarde demais.

Quem aqui me lê, ou quem partilha de forma mais próxima o seu dia-a-dia comigo, sabe que um desses motivos trata a forma como venho reflectido as questões associadas às situações de pobreza e exclusão e a sua relação com outros desafios societais complexos, com a saúde mental e com as políticas públicas. Como impactam toda a vida, de todas as pessoas e da sociedade e como são determinantes fundamentais da educação, saúde e bem-estar ao longo da vida.

Sabe também quem há dias, entre a comemoração do Dia Mundial da Saúde Mental e do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (a 15.10.22), me ouviu conversar com a Carla Rocha no episódio do Quarto do Fundo (parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses) que partilho. O destaque da editora, também em 8 palavras, foca algo essencial: “Investir na saúde mental para prevenir a pobreza”. Refere ainda o papel da promoção do autocuidado, das competências e das relações sociais como fundamental à prevenção da violência, da pobreza e de todo o tipo de processos de exclusão. Cedo, muito cedo, para não ser tarde, tarde demais.

Também procurarei que o saiba quem, na próxima segunda-feira, participe nas II Jornadas do Serviço de Psicologia Centro Hospitalar Universitário de São João, onde, em conferência, abordarei o projecto “.Final à pobreza” (informações/inscrições aqui). Fá-lo-ei a convite do Eduardo Carqueja, a quem muito agradeço, não apenas o convite e confiança, mas a forma como, em conjunto com toda a equipa do Serviço de Psicologia que coordena, dia-a-dia nos demonstra, também ali, as mais-valias de uma organização de serviços de psicologia com autonomia nas estruturas do SNS. Mais-valias na qualidade de resposta aos cidadãos, multidisciplinariedade das intervenções e sustentabilidade da própria organização. No representa, significa e permite de valorização e desenvolvimento profissional às psicólogas e psicólogos que o integram. A quem agradeço por demonstrar que não é muito cedo, mas também não é tarde demais, para generalizarmos o modelo e disso beneficiarem pessoas e sociedade.

Um momento mais para reflectirmos juntos, espero, que devemos intervir e agir muito cedo, para que não seja tarde… Ou, ao mesmo, cedo para que não seja tarde demais.

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7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza? (CNN Portugal; 17.10.2022)

Ao contrário do futebol, a pobreza não tem um lado que vence e outro que perde ou lados que empatam. Com a pobreza, todas e todos perdem. As pessoas que a vivem e que são privadas da sua dignidade, da sua possibilidade de saúde e bem-estar, de desenvolvimento e autodeterminação. As pessoas que, neste momento, não a vivendo, são parte da sociedade que a gera, reproduz e, por vezes, a esconde, tornando-se mais desigual, menos justa e coesa e logo menos promotora de equidade e de possibilidades para todas as pessoas. As instituições, particularmente os governos democráticos, que, não a erradicando, se desacreditam e fragilizam, geram desconfiança e menor participação e distanciam-se das necessidades e expectativas das pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, alimentando a polarização e o ódio às outras e aos outros. A pobreza, conforme alguns partidos procuram ser, é um fenómeno catch all, “apanha” todas e todos.

Os “7-0”, ironia de António Costa a propósito da maior aproximação das previsões económicas do Governo face às do FMI, não tem paralelo com as previsões do Governo face às de outros organismos a propósito da evolução anual do risco de pobreza e exclusão. A razão? O governo não prevê. Estabelece um objectivo para 2030 (“redução para 10% da população”), expresso no Programa de Governo com remissão para a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 mas, apesar de estimar no quadro macroeconómico e no Orçamento do Estado o PIB, a inflação, a evolução da taxa de desemprego, remunerações médias e até o preço do petróleo não prevê o impacto das medidas a que se propõe e da evolução dos indicadores socioeconómicos na percentagem de pessoas que em Portugal viverão em situação de pobreza (ou risco de pobreza) e exclusão em 2023.

Não o faz. Como, e apesar de ter já implementado um conjunto de importantes medidas que nela constam, não teve ainda oportunidade de nomear a coordenação e a comissão de acompanhamento da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, estratégia aprovada e publicada ainda em 2021 e que prevê, no seu articulado, que até Junho de 2022 essa comissão (ainda inexistente) apresentaria o Plano de Acção 2022-2025. Nem coordenação, nem comissão, nem plano, duas propostas de Orçamento do Estado (2022 e 2023) depois para anos com a maior taxa de inflação das últimas três décadas (2022) e, em previsão, uma das maiores deste período (2023) e quando sabemos que a “inflação real” que incide sobre a população com maior escassez económica é significativamente superior à taxa de inflação (média). Nem coordenação, nem comissão, nem plano, num período em que a trajectória descendente dos indicadores de pobreza, consistente de 2014 a 2019, se inverteu, tendo a taxa de risco de pobreza (após transferências sociais) medida pelo INE aumentado de 16.2% em 2019 para 18,4% em 2020 e a de risco de pobreza ou exclusão social medida pelo Eurostat aumentado de 20% em 2020 para 22,4% em 2021, passando Portugal do 13º para o 8º país da União Europeia com maior percentagem de população nesta situação.

Previmos, mas podemos prever muito mais. Decidimos e aplicamos medidas, algumas delas relevantes, mas podemos decidir e fazer muito mais. Desenhamos e publicamos estratégias, mas podemos operacionalizar e concretizar muito mais. Isto implica priorizarmos o combate à pobreza, intencionalizá-lo e considerá-lo em todas as políticas (públicas). Implica uma atitude de não complacência com a pobreza, com a não utilização e operacionalização dos instrumentos ao nosso dispor para a sua erradicação e com a ineficácia de políticas (públicas) neste âmbito.

Assim pode ser amanhã. Dia que se segue ao dia em que celebramos globalmente o objectivo da erradicação da pobreza e em que, um pouco por todo o Mundo e em Portugal existirão manifestações de intenções, apresentação de propostas e debate público neste domínio. Amanhã e depois podemos concretizar as intenções, implementar as propostas e, particularmente, continuar e aprofundar este debate, tornando-o persistente e saliente, onde hoje é estranhamente ausente, considerando que a pobreza e a pobreza multidimensional (a que não se refere apenas à dimensão económica e que remete para a escassez de acesso à educação, saúde e condições de vida consideradas mínimas necessárias) é um dos principais determinantes da saúde (e da saúde mental), da educação ou da justiça. Amanhã comecemos por mobilizar a sociedade civil e considerar os diversos contributos, porque apenas com todas e todos podemos tornar o combate à pobreza desígnio nacional (conforme a Estratégia bem prevê) e vencer este complexo desafio. Complexo, mas possível, assim o queiramos e assim, com determinação, estimulemos, permitamos e utilizemos o contributo de pessoas e organizações investidas neste objectivo.

Um exemplo, as psicólogas e psicólogos em Portugal e a Ordem dos Psicólogos Portugueses. Considerando os contributos da ciência psicológica nesta área (nomeadamente os impactos da escassez no desenvolvimento, capacidade cognitiva e de planeamento e tomada de decisão) e a associação cíclica e forte entre situações de pobreza e exclusão e problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão), a Ordem dos Psicólogos Portugueses encontra-se a promover o projecto .Final à Pobreza, visando um mais intencional e informado contributo da ciência e da profissão para um ponto final à pobreza. Projecto que resultará numa estratégia que visará mais e melhor formação e recursos para a prática de psicólogas e psicólogos nesta área e contributos para a promoção de literacia na sociedade civil sobre este fenómeno, as suas causas, consequências e formas de o mitigar. Projecto que contribuirá para melhor informação para o desenho de políticas públicas nesta área e para promover redes de cooperação nacional e internacional junto do que é, não por acaso, o primeiro dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Tudo porque o dia que hoje se celebra deve ser o nosso dia-a-dia. Toda e qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição socioeconómica, é impactada pela sua situação de pobreza actual, potencial ou pelas situações de pobreza ao seu redor. Toda e qualquer pessoa tem um papel na sua erradicação, algo possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas no Mundo demonstra, mas que depende de essa ser (a) prioridade das prioridades de todas e todos.

Continuamos amanhã?

Tiago Pereira

 

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza?

in CNN Portugal; 17.10.2022

https://cnnportugal.iol.pt/tiago-pereira/pobreza/tiago-pereira-7-0-ao-fmi-mas-que-resultado-no-combate-a-pobreza/20221017/634d2ca80cf2f9a86ebafb96