
Se hoje temos mais informação, mais literacia e se temos melhores condições (socioeconómicas), porque temos mais problemas? Conversava sobre saúde mental com um conjunto de estudantes de medicina e, já perto do final da sessão, isto mesmo me perguntaram, a propósito da saúde mental da população jovem, particularmente das e dos estudantes de ensino superior. Questão que julgo merecedora de especial atenção e cuja reflexão procuro estimular a partir dos quatro pontos cardeais.
N(otas). Uma das mais importantes e significativas transformações de Portugal nas últimas décadas prende-se com o aumento da escolaridade da população, especialmente da população mais jovem. De 1981 a 2021, e apesar da diminuição considerável do número de jovens em Portugal, as e os estudantes a frequentarem o ensino superior aumentaram quase 5 vezes de 84 para 412 mil. Hoje, Portugal tem 44% da população entre os 30 e 34 anos com o ensino superior completo, percentagem já superior à média da União Europeia (42%). Este ano, apenas na primeira fase, candidataram-se mais de 61 mil pessoas (para pouco mais de 55 mil vagas), números que reforçam a competição para a entrada, que acresce à competição, “à décima”, para determinados cursos de determinadas instituições.
A centralização nos resultados, medidos pelas classificações internas no ensino secundário e pelas provas de ingresso (exames nacionais), impacta significativamente o período de ensino secundário no que ao bem-estar respeita. O excessivo foco nos exames e nos resultados, com prejuízo do desenvolvimento de outras competências, incluindo as sócio-emocionais, bem como uma lógica que procura premiar o mérito mas que, não raras vezes, desconsidera a falta de oportunidades e as situações de vulnerabilidade prévias de estudantes, acaba por resultar na promoção da competição e competitividade ao invés da colaboração e coesão, importantíssimas à percepção de suporte social enquanto factor protector da saúde mental fundamental nestas idades.
O programa do actual governo prevê “avaliar a melhoria a introduzir no acesso ao ensino superior, com vista à separação entre a certificação do ensino secundário e o acesso ao ensino superior”. Algo essencial, ainda pouco discutido em Portugal, apesar da recente aprovação de uma reforma em Espanha que, progressivamente, concretizará a mudança de sistema, com redução das tradicionais provas de acesso (exames) pela introdução de uma prova centrada na “maturidade académica”, nas competências e na interrelação de conteúdos, inspirada no modelo PISA da OCDE. Importa acompanhar esta experiência porquanto é fundamental que Portugal possa vir a ter um sistema mais responsivo ao conhecimento hoje existente (na avaliação, mas também nos processos de ensino-aprendizagem e estudo), melhor prevenindo problemas de saúde mental (nomeadamente stress, ansiedade ou depressão) também resultantes do actual sistema e da pressão associada à (imposta) necessidade de determinado tipo de resultados.
(O)utras e Outros. Um inquérito recente demonstra que 73% de estudantes respondem “sim” quando questionadas/os se procuram “sempre parecer positivas/os e felizes com tudo o que se associe ao seu nome verdadeiro”. Esta constante exigência, especialmente quando as redes sociais, as relações e o reconhecimento no espaço virtual são tão importantes, acrescentam uma pressão significativa às e aos jovens, potencialmente estigmatizante, penalizadora e até violenta para as e os que estão em situação de maior vulnerabilidade, que estão mais tristes, mais tímidas/os, questionadora da sua autoestima e da integração social.
Mais e melhor informação e investigação sobre redes sociais, a sua organização e as suas consequências. Mais e melhor literacia para as crianças, jovens e seus responsáveis sobre a sua utilização consciente e sobre formas de prevenir os seus impactos, incluindo para a saúde mental. Uma nova atitude em torno do sucesso e da sua obstinada associação à felicidade e mérito. Todos elementos essenciais a uma sociedade mais inclusiva, respeitadora da diversidade e de suporte à vulnerabilidade. De uma sociedade mais capaz de apoiar aquando da adversidade, de crises individuais e colectivas e de promover a saúde mental, o bem-estar e a possibilidade de futuro das e dos jovens.
S(uporte). Recentemente um outro estudo apontou a saúde mental como terceira maior preocupação da população jovem, depois do custo de vida e da crise climática. Também a Agenda da Juventude para a Saúde 2030 lhe confere especial enfâse, destacando que “não devem existir barreiras à (…) saúde mental”, que “a promoção do bem-estar psicológico deve ser especialmente considerada em todos os momentos de contacto com os serviços de saúde e deve articular-se agilmente com o meio escolar” e que a “capacitação de jovens em meio escolar para a promoção do bem-estar físico e psicológico deve recorrer a estratégias aliadas à aprendizagem social e emocional”.
É importantíssimo o capital social associado à aspiração da população jovem a uma outra resposta, mais contingente e com mais recursos, aos desafios que a sociedade contemporânea coloca à saúde e à saúde mental. Desde logo para concluir o caminho de diminuição do estigma, visível no facto das respostas que, passo a passo, têm vindo a ser criadas e/ou reforçadas terem elevada procura – veja-se nas Escolas, o sucesso do programa Cuida-te+ ou o facto do Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24 ser maioritariamente utilizado por população jovem e/ou em situação de desemprego. Mas, também, para um verdadeiro reforço de recursos que perpasse diversas áreas e inclua um real acesso a serviços de psicologia e saúde mental no SNS e nos seus cuidados de saúde primários, o reforço dos recursos nas Escolas, nas Comunidades e no Ensino Superior, neste contexto particularmente dirigidos à prevenção e promoção, conforme o recente programa da FLAD (Saúde Mental no Ensino Superior), que conta com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, procura estimular e apoiar.
E(stabilidade). Numa fase de constante necessidade de adaptação à transformação e de resposta a desafios e crises sucessivas, de procura e construção de autonomia, de saída de casa e transição, é fulcral que o país possa ter uma estratégia concertada de apoio, procurando garantir mais estabilidade e previsibilidade à população jovem. Tal investimento é essencial ao futuro do país e implica pensar a habitação, a remuneração e reconhecimento no trabalho, os vínculos e o combate à precariedade e a promoção da saúde, saúde mental e do bem-estar. É essencial, porque condiciona significativamente o futuro da população jovem, incluindo a tomada de decisão de manutenção ou não no país, de ter ou não filhas/os e as oportunidades e capacidades de desenvolvimento, florescimento, empreendedorismo e produtividade.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os pontos cardeais são pontos de referência que se associam e complementam. Assim é também com as notas, as outras e outros, o suporte e a estabilidade (ou as suas ausências), elementos essenciais a pensarmos a rosa dos ventos da saúde mental da população jovem e à resposta aos seus problemas e aos seus desafios. Assim é, pois, conforme na rosa dos ventos, “um mínimo desvio inicial torna-se cada vez maior, à medida que vai aumentando a distância”, desvio com forte impacto na saúde e bem-estar da população mas também em alguns dos principais desafios do país, nomeadamente o envelhecimento da população, a (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança social ou a produtividade.
(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem
in Sábado (Ao redor…); 02.09.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/rosa-dos-ventos-da-saude-mental-da-populacao-jovem