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(Prefácio) Ser Psicólogo – O Início da carreira em Psicologia Pistas para que está a dar os primeiros passos numa carreira em Psicologia

Uma pandemia por COVID-19 de impacto global, porventura apenas comparável com a pandemia pelo vírus influenza de há um século. Uma Guerra na Europa apenas comparável com Guerras de há várias décadas. Uma crise socioeconómica no horizonte, que a muitas e muitos lembra a crise que vivemos há cerca de uma década. A inversão de um caminho de maior liberdade e democracia, pelo crescimento, nos últimos anos, do autoritarismo.

Tudo a lembrar-nos que o passado conta, que o passado “não está morto”, que “nem sequer é passado”, como escreveu Faulkner. Tudo a lembrar-nos os enormes e complexos desafios que, no presente e para o futuro, se colocam à sociedade e às pessoas e a necessidade da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, sistematicamente, se desenvolverem e adaptarem a novos desafios e realidades, para melhor lhes responderem.

Este e-book procura, também, reflectir este cenário. Porque parte, e é parte, de uma história, de muitas pessoas e vontades, que desde há anos, empenhada e corajosamente, permitem e suportam o sólido investimento da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) no processo de desenvolvimento profissional e na capacitação de psicólogas e psicólogos para se pensarem nos desafios dos diferentes momentos da sua carreira. Este investimento, em todo o ciclo (desde quando ainda estudantes de psicologia) e com múltiplas e diversificadas iniciativas, tem apresentado resultados significativos (também, mas não apenas, na empregabilidade) e é diferenciador no quadro da acção das associações públicas profissionais. É-o, exactamente porque assenta numa perspectiva de valorização de cada etapa (do passado, presente e futuro), da identidade da profissão e de cada profissional. É-o, porque se liga à necessidade constante de adaptação da ciência e prática a novos desafios, realidades e áreas, apenas possível com o envolvimento permanente, intencional e suportado de cada psicóloga e psicólogo, na gestão do seu percurso profissional.

Que este primeiro volume da colecção de artigos Psicarreiras da OPP, deliberadamente dirigido aos “primeiros passos”, possa ser mais um contributo nesse sentido. Que possam, como eu, rever-se e reflectir, dando dessa forma sentido e significado ao testemunho, partilha e contributo de pares que vive(ra)m desafios próximos. Desafios, mas também o desejo que partilho e partilhamos de enquanto psicólogas e psicólogos contribuirmos com a nossa ciência e com a nossa prática para uma sociedade mais justa, coesa e equitativa e para a saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de cada uma das pessoas que a constitui.

 

Tiago Pereira

Prefácio | Ser Psicólogo – O início de carreira em Psicologia

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_ebookpsicarreiras_serpsicologo_oiniciodacarreiraempsicologia.pdf

SET2022

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Comportamento Desafios da Psicologia Emergência Climática Política Psicologia Tomada de Decisão

COP27

Poderemos “vencer” o(s) desafio(s) da crise climática? Sim, podemos.

Datam do ano em que nasci (1983) duas publicações que me ajudam a pensar a crise climática no período que levo de vida:

a) O relatório “Changing climate” [Mudança climática] da Comissão de Avaliação do Dióxido de Carbono que no sumário executivo já dizia/previa: “se um alarme global relativo ao aumento de 3 ou 4 graus acontecer nos próximos 100 anos, é provável um aumento do nível do mar de 70cm (…) devido às enormes incertezas e implicações significativas, é importante confirmar os preditores das alterações climáticas o mais precocemente possível para melhorar a sua precisão (…) e o desenho de programas de monitorização;

b) O artigo de B. Page e R. Shapiro “Effectts of Public Opinion on Policy” [Efeitos da Opinião Pública na Política] que demonstrava o quanto e a forma como a opinião pública pode influenciar a política e as políticas.

 

Sim, podemos. Tornando saliente e prioritária a crise climática e as medidas (e monitorização) para a sua mitigação. Aumentando a informação e literacia da opinião pública e procurando promover atitudes pró-ambientais nas pessoas, que, simultaneamente, estimulem mudanças comportamentais individuais e na sociedade e pressionem governos e organizações para a mudança, valorizando-a e recompensando-a.

 

Sim, podemos. De 2019 a 2022 mantemo-nos “numa auto-estrada para o inferno com o pé no acelerador”, conforme apropriadamente A. Guterres referiu na COP27. Daí para cá, com a “International Summit on Psychology and Global Health – A leader in climate action” (Lisboa; 2019) e com a participação, já através da Global Psychology Alliance resultante da Summit, na COP26 e agora na COP27, temos procurado, mais regular e assertivamente, afirmar o contributo indispensável da psicologia enquanto ciência e profissão neste complexo desafio societal.

 

Sim, podemos. Com maior compreensão de como as pessoas se comportam e tomam decisões e do que pode estimular mudanças assentes nas comunidades, na solidariedade e no bem-estar. Com mais investimento nos processos de adaptação e promoção de resiliência individual e comunitária para responder às incertezas e iniquidades que advirão. Com mais e mais eficaz suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes. Com mais políticas públicas informadas pela ciência (também psicológica). Cuidando, particularmente na população mais jovem e com maiores vulnerabilidades, das consequências na saúde mental e bem-estar da interiorização e do confronto no presente e para o futuro com os problemas ambientais.

 

Sim, Podemos. E sim, devemos reforçar o contributo de cada um/a para tal.

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Comportamento Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais

“Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior.” Excerto do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), mote (final) da conversa de ontem, a propósito de como a complexidade, a incerteza e os desafios individuais e societais do tempo que vive(re)mos implicam maior interdisciplinariedade e beneficiam de uma psicologia porto de abrigo.

“O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais” foi o título da conferência e mesa (com a Dora Pereira) do “II Congresso dos Psicólogos da Madeira | Resiliência e Superação – A Psicologia na construção da paz, do bem-estar e da coesão social”. Conferência que resulta (muito agradeço pela confiança e oportunidade) do convite do Renato Gomes Carvalho e da equipa da Delegação Regional da Madeira, que tem desenvolvido um especialmente meritório e impactante trabalho na sociedade da RA da Madeira, conforme foi reconhecido e valorizado pelos Presidente da Câmara do Funchal, do Governo Regional e da Assembleia Legislativa da Madeira.

A conferência partiu do que atrás referi, do artigo do J. Cacioppo (“Psychology as a hub science”) e de 3 constatações suas: desde 2005 a psicologia é considerada um dos 7 hubs de ciência; enquanto ciência e prática é muito mais que a visão que dela existia, muito baseada no Dr. Phil; embora não totalmente compreendida, tinha já muito a oferecer (e a aprender) a/com outras áreas científicas. Tocou ainda o crescimento exponencial da investigação em psicologia (700% de 1980 a 2014) e do número de psicólogas e psicólogos no Mundo (+19%) e em Portugal (+67%), previsto para a década 2014-2024.

Passou pelo símbolo de infinito, não pelo crescimento potencial futuro, antes pelo pensamento sobre a relação passado-presente-futuro e a perspectiva de diferentes momentos de intervenção da psicologia. De complementariedade entre a procura da mudança individual (muitas vezes com intervenções clínicas, remediativas e individuais) e da mudança societal (macro), particularmente sobre os determinantes da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas e de equidade, justiça e coesão social.

Terminei com 6 pistas para um hub profissão: equipas multidisciplinares; consultoria a lideranças; trabalho com decisoras/es; capacitação e desenvolvimento das pessoas; psicólogas/os cidadã(o)s; assunção de papéis de liderança e tomada de decisão. Tudo num caminho de uma psicologia porto de abrigo, como recurso fundamental do país e espaço de apoio às pessoas nos seus desafios individuais e à sociedade nos desafios societais. Porto de abrigo que implica que cada psicóloga e psicólogo, cada dia e em cada contexto, reforce a identidade, o reconhecimento (de erros) e aprendizagem, a confiança, a valorização e desenvolvimento profissional e o auto e heterocuidado.

Assumamo-nos – com determinação, motivação e empenho, com responsabilidade e competência – porto de abrigo no presente e futuro.

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Comportamento Psicologia

Halloween e a… psicologia.

Mais logo cumpre-se a noite do Halloween. Entre os “doce ou travessura”, os sustos e as histórias e filmes de terror, permitam-me partilhar 2 notas que envolvem esta celebração e a psicologia:

1) Um dos países que mais entusiasticamente a vive são os EUA onde, segundo um estudo do “Pew Forum on Religion and Public Life”, 3 em cada 4 pessoas acreditam em pelo menos um fenómeno que não é explicável pela ciência. 55% na “cura espiritual”, 41% na “percepção extrassensorial”, 37% em “casas assombradas” e 32% em “fantasmas”. Além da preocupação que estes números representam para a saúde pública (pelo que implicam em diversas áreas), têm uma falácia (da conjugação) interessante: conforme Pinker sublinha, há mais pessoas a acreditar em casas assombradas (por fantasmas) do que em fantasmas, o que resultará em pessoas que acreditam em cassas assombradas (por fantasmas) mas não em fantasmas. A falácia da conjugação foi descrita por Tversky e Kahneman (anos 80) e sublinha que pormenores conjunturais, que pelas leis da probabilidade tornam cenários menos prováveis, acabam por torná-los mais convincentes pela “irracionalidade humana”, particularmente face ao que se acredita ou “mexe connosco”. Se o Cristiano Ronaldo estivesse no topo das suas capacidades, quantos de nós acreditaríamos que Portugal fosse Campeão do Mundo? E campeão do Mundo com o Cristiano Ronaldo como melhor marcador do torneio? E, qual a probabilidade de António Costa deixar de ser primeiro-ministro antes do final da legislatura? E deixar de o ser para ir presidir à Comissão Europeia? Algo importante a reflectirmos, pelas implicações que tem, por exemplo, nos processos de desinformação, polarização ou no testemunho;

2) A noite comporta também a ideia da máscara/disfarce (em Portugal, como o Carnaval) que pode, quando contextualizadamente, diminuir as inibições, promover a autoconfiança e permitir alguma “transgressão” (importante, porque contextualizada) face ao regular. E, porque uma apenas por ano e, mais uma vez, contextualizada, é um momento relativamente seguro (por isso importante) para se “brincar” com medos e ansiedades, porque “envolve” todas as pessoas, independentemente das condições (vulnerabilidades) próprias de cada uma.

Antes desta noite, estarei de volta a Aveiro (pós 5º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses) e ao Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia (noutra condição, depois de participar como estudante primeiro e depois como dirigente da ANEP (Associação Nacional de Estudantes de Psicologia), para uma “improvável” mesa com pessoas que muito estimo e admiro (Telmo Mourinho Baptista, Miguel Ricou e Jose Pais-Ribeiro) sobre “o paralelismo da Psicologia de ontem e de hoje”. Na mesa e num momento de networking.

Depois desta noite, um muito importante momento do meu ano, de todos os meus anos. De proximidade. De família. Também por isso o meu Halloween, com ou sem celebração, sempre foi especial. Como o será, este ano.

[Imagem – University of British Columbia]

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Comportamento Desafios da Psicologia Educação Psicologia

20.10.22, Dia Mundial de Combate ao Bullying

“Porque o amor pela vida, gera amor pela vida.” Assim fecha um dos mais interessantes livros que li nos últimos anos. Uma frase muito marcante no contexto do livro e que, parecendo simples, encerra uma enorme complexidade associada ao facto de podermos substituir “amor pela vida” por diferentes e diversas expressões. Dois exemplos: complacência/aceitação do bullying | não-complacência/não-aceitação do bullying.

A forma como conseguimos (ou não) construir uma cultura de Escola e de sociedade que considere, sem qualquer ambiguidade, inaceitável a violência e o bullying em crianças e jovens (tal qual consideramos chover numa sala de aula) é factor preponderante para a prevenção deste grave fenómeno social que impacta significativamente as vítimas (muitas vezes, também no seu futuro), as e os agressores (idem) e os e as observadoras.

Esta foi uma das mensagens que procurei transmitir em entrevista à TSF que partilho a propósito do Dia Mundial de Combate ao Bullying, onde procurei sublinhar a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola, naturalmente com ênfase e especificidades nas vítimas, mas também nas e nos agressores e observadores, bem como as características distintivas do bullying face a outras práticas agressivas (repetição; desequilíbrio de forças e/ou de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s)).

Também na entrevista foco o aumento de denúncias caracterizadas pelas forças de segurança como “ameaças e injúrias” (que ocorreu mesmo em anos onde a denúncia de agressões físicas diminuiu), para reforçar que a crescente sensibilização também leva a que hoje se considerem (bem) determinadas práticas como agressão ou violência quando antes assim não se considerariam (ou quem poderia denunciar não percepcionava que pudesse vir a produzir efeitos). Foco ainda o papel que a pandemia por COVID-19 terá tido no aumento de situações reportadas, quer no que se refere a alterações de comportamento resultantes da mesma e de uma intensificação dos problemas de saúde mental na população mais jovem, quer no aumento de situações de cyberbullying pela intensificação da utilização dos meios digitais (já pré-pandemia, mas principalmente com a pandemia). Algo que, conforme referi, comporta um “acréscimo de desafio” ao problema.

Outro desafio, que no mesmo dia mas em 2021 havia procurado sublinhar trata o papel de quem observa, no que aos impactos em si tem mas, particularmente, na baixíssima percentagem de observadoras/es que decide e concretiza a denuncia das situações. Enquanto comunidade, devemos dar segurança para esta denuncia e, essencialmente, dar significado à mesma…

Porque a não-complacência/não-aceitação do bullying, gera não-complacência/não-aceitação do bullying. Porque o seu contrário gera o seu contrário.

Mais informação: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_vamosfalarsobrebullying_documento.pdf

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Dia Internacional da Erradicação da Pobreza

“Continuamos amanhã?”, perguntava ontem a fechar o artigo que escrevi para a @CNNPortugal (ver abaixo) a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

“Continuamos amanhã?”, pergunto, porque, nele refiro que “o dia que hoje [ontem] se celebra deve ser o nosso dia-a-dia. Toda e qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição socioeconómica, é impactada pela sua situação de pobreza actual, potencial ou pelas situações de pobreza ao seu redor. Toda e qualquer pessoa tem um papel na sua erradicação, algo possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas no Mundo demonstra, mas que depende de essa ser (a) prioridade das prioridades de todas e todos.”

“Continuamos amanhã?”, pergunto, porque, “ao contrário do futebol, a pobreza não tem um lado que vence e outro que perde ou lados que empatam. Com a pobreza, todas e todos perdem.” Pessoas, sociedade e instituições (democráticas). Também, porque, enquanto país, “previmos, mas podemos prever muito mais [nomeadamente o impacto de medidas na taxa de (risco de) pobreza, não considerada no quadro macroeconómico ou Orçamento do Estado]. Decidimos e aplicamos medidas, algumas delas relevantes, mas podemos decidir e fazer muito mais [particularmente na pobreza infantil e nas pessoas em situação de desemprego, sem apoios sociais]. Desenhamos e publicamos estratégias, mas podemos operacionalizar e concretizar muito mais. Tudo “isto implica priorizarmos o combate à pobreza, intencionalizá-lo e considerá-lo em todas as políticas (públicas). Implica uma atitude de não complacência com a pobreza, com a não utilização e operacionalização dos instrumentos ao nosso dispor para a sua erradicação e com a ineficácia de políticas (públicas) neste âmbito.”

“Continuamos amanhã?”, porque, conforme terminei a conversa de Sábado com a @Carla Rocha (Quarto do Fundo; Renascença) há, felizmente, “muitas pessoas e organizações sensibilizadas para esta problemática” e para um contributo para um ponto final à pobreza, título do projecto da @Ordem dos Psicólogos Portugueses (https://finalapobreza.pt) que visa um maior contributo da psicologia enquanto ciência e profissão para este complexo, mas possível, desafio societal.

“Continuamos amanhã?”, porque, pela relação cíclica e forte existente, conforme terminei a intervenção (que partilho) na Antena Aberta (@Antena 1) de ontem, o combate à pobreza depende de priorizarmos o apoio económico às pessoas em situação de escassez e maior vulnerabilidade, mas também de priorizarmos a promoção da saúde mental e bem-estar e apoiarmos de forma próxima e contingente as pessoas em sofrimento psicológico ou com doença mental.

Continuamos hoje, amanhã e depois?

Que o façamos pois, juntas e juntos, podemos contribuir para um ponto final à pobreza.

…

“7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza?” [CNN Portugal: 17.10.2022]

 

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Comportamento Congresso COVID-19 Psicologia

10.10.2022

O tema do Dia Mundial da Saúde Mental de 2022 que hoje se comemora (Tornar a saúde mental e o bem-estar uma prioridade global) foca a importância da saúde mental como prioridade global (em todas as áreas e todos os países) e de priorizarmos e internacionalizarmos nas políticas (públicas) a possibilidade de bem-estar de todas e todos. Talvez paradoxalmente, o tema permite-nos reflectir sobre o papel da ciência e da prática da psicologia como não apenas cingido à saúde mental. Antes à saúde e bem-estar amplos, no dia-a-dia de comunidades e pessoas, ao longo de todo o ciclo de vida mas também junto de acontecimentos de vida ou em períodos de crise. Um exemplo? O contributo da psicologia na pandemia que, tendo sido/sendo essencial na área da saúde mental, foi/vai muito além desta.

Sobre ele – curiosamente no dia em que o governo decidiu não renovar o estado de alerta – e o meu papel enquanto coordenador do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses fui entrevistado pelo Mésicles Berenguel no 5º congresso da OPP (participação a par de outras na área da pobreza – https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_terminou-na-6%C2%AAf-o-5%C2%BA-congresso-da-ordem-dos-activity-6982604315689406464-wUtA?utm_source=share&utm_medium=member_desktop – ou da promoção da saúde mental no Ensino Superior – https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_passa-amanh%C3%A3-uma-semana-do-fim-do-5%C2%BA-congresso-activity-6983688804071030784-GSIe?utm_source=share&utm_medium=member_desktop)

Na entrevista, explicitando os objectivos da criação do gabinete a 13.03.2020, frisei o papel da equipa de trabalhadoras/es da OPP na manutenção de toda a estrutura e atribuições da Ordem. Foquei a mobilização de centenas de psicólogas e psicólogos no desenvolvimento de recursos e ferramentas de apoio à prática profissional, nomeadamente linhas de orientação, documentos de apoio, webinares/debates ou fóruns, bem como a forma como procuraram formação (em 2020 e 2021 em maior número que a soma de todos os anos desde 2013). Sublinhei contributos junto da sociedade civil, particularmente na literacia em saúde (e saúde mental) e um conjunto de colaborações, algumas produzindo acções transformadoras (FLAD; RTP, Seguradoras, …). Ainda o papel junto de decisoras/es, contribuindo no desenho de políticas, respostas de apoio psicológico e de promoção da saúde e bem-estar (Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24, Task Force Ciências Comportamentais, CIG, CNPDPCJ ou Instituto Português do Desporto e Juventude, IP, onde hoje estarei numa sessão do relevantíssimo CUIDA-TE+, …).

Terminei a referir que, quando comunico, particularmente nos media, sinto representar a profissão (e ciência) e a responsabilidade que isso acarreta. Particularmente quando, face aos desafios do presente e futuro da sociedade, a psicologia é e será um importante valor e recurso e a confiança nela e nos e nas psicólogas é um bem valioso que a todas e todos (e por todas e todos) compete preservar.

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Comportamento Congresso Democracia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Da capilaridade e interdisciplinariedade…

Foi também em Junho (1712) que Rousseau nasceu. Considerado um dos grandes influenciadores da Revolução Francesa e dos seus valores (Igualdade, Liberdade e Fraternidade), o seu mais importante livro (“Do contrato social”) defende que a liberdade, bem-estar e a segurança dos seres humanos depende e é preservada pelo contrato social. Além de sustentar ideias próximas da justiça social e direitos humanos, Rosseau introduziu o conceito de “interesse público”. Deixou-nos um intenso legado quando desapareceu, também, a 2 de Julho (1778).

Foi em Junho (mas de 2022, 310 anos após o seu nascimento) que uma menina perdeu trágica e precocemente a possibilidade de viver e se cumprir. Mês em que a CMTV superou “o recorde de audiências”, conforme assinala a capa do “Correio da Manhã” de 2 de Julho (mas de 2022, 244 depois da morte de Rosseau) e após 10 dias em Junho com uma cobertura inenarrável e deontologicamente questionável desse desaparecimento, com consequências nas pessoas, comunidade e instituições.

Ao contrário do interesse do público, o “interesse público de Rosseau”, resulta da vontade geral das pessoas e, grosso modo, do contrato social. Advogo que o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos na possibilidade de autodeterminação, de saúde e bem-estar das pessoas se faz com intervenções e apoios directos (às pessoas) mas, complementarmente, com maior capilaridade da psicologia. Capilaridade e interdisciplinariedade, contribuindo para uma sociedade mais sensitiva e responsiva à compreensão do comportamento das pessoas e grupos e dos impactos na saúde (e saúde mental) e bem-estar, presentes e futuros, de determinadas experiências/acontecimentos.

Isso faz-se, a meu ver, com participação cidadã e profissional de psicólogas/os no “contrato social”, como é exemplo o contributo da Ordem dos Psicólogos Portugueses na “Diretiva para a cobertura informativa televisiva de guerras e conflitos armados” que afirma que “na exibição de declarações de pessoas em manifesta situação de vulnerabilidade física, emocional ou psicológica, deve assegurar-se o seu obrigatório consentimento, preservar a sua identidade e garantir a sua segurança.”

Faz-se, a meu ver, com psicólogas e psicólogos a dinamizarem e se envolverem em conversas com outras disciplinas e em torno dos contributos da psicologia em áreas e desafios diversos, conforme objectivo do nosso 5º Congresso onde se discutirá, por exemplo, o “Jornalismo e desafios societais”. Este e dezenas de outros temas em sessões, incluindo práticas, visitas, debates, entrevistas, cinema… Oportunidades para “sair do dia-a-dia” e apoiar a nossa reflexão enquanto psicólogas/os “contribuidores” para a mudança social.

No congresso ou não, permitamo-nos ir além do nosso dia-a-dia para irmos além do muito que já contribuímos. As pessoas esperam-no. Os desafios societais exigem-no.

 

 

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem (Ao redor…; Sábado; 02.09.2022)

Se hoje temos mais informação, mais literacia e se temos melhores condições (socioeconómicas), porque temos mais problemas? Conversava sobre saúde mental com um conjunto de estudantes de medicina e, já perto do final da sessão, isto mesmo me perguntaram, a propósito da saúde mental da população jovem, particularmente das e dos estudantes de ensino superior. Questão que julgo merecedora de especial atenção e cuja reflexão procuro estimular a partir dos quatro pontos cardeais.

N(otas). Uma das mais importantes e significativas transformações de Portugal nas últimas décadas prende-se com o aumento da escolaridade da população, especialmente da população mais jovem. De 1981 a 2021, e apesar da diminuição considerável do número de jovens em Portugal, as e os estudantes a frequentarem o ensino superior aumentaram quase 5 vezes de 84 para 412 mil. Hoje, Portugal tem 44% da população entre os 30 e 34 anos com o ensino superior completo, percentagem já superior à média da União Europeia (42%). Este ano, apenas na primeira fase, candidataram-se mais de 61 mil pessoas (para pouco mais de 55 mil vagas), números que reforçam a competição para a entrada, que acresce à competição, “à décima”, para determinados cursos de determinadas instituições.

A centralização nos resultados, medidos pelas classificações internas no ensino secundário e pelas provas de ingresso (exames nacionais), impacta significativamente o período de ensino secundário no que ao bem-estar respeita. O excessivo foco nos exames e nos resultados, com prejuízo do desenvolvimento de outras competências, incluindo as sócio-emocionais, bem como uma lógica que procura premiar o mérito mas que, não raras vezes, desconsidera a falta de oportunidades e as situações de vulnerabilidade prévias de estudantes, acaba por resultar na promoção da competição e competitividade ao invés da colaboração e coesão, importantíssimas à percepção de suporte social enquanto factor protector da saúde mental fundamental nestas idades.

O programa do actual governo prevê “avaliar a melhoria a introduzir no acesso ao ensino superior, com vista à separação entre a certificação do ensino secundário e o acesso ao ensino superior”. Algo essencial, ainda pouco discutido em Portugal, apesar da recente aprovação de uma reforma em Espanha que, progressivamente, concretizará a mudança de sistema, com redução das tradicionais provas de acesso (exames) pela introdução de uma prova centrada na “maturidade académica”, nas competências e na interrelação de conteúdos, inspirada no modelo PISA da OCDE. Importa acompanhar esta experiência porquanto é fundamental que Portugal possa vir a ter um sistema mais responsivo ao conhecimento hoje existente (na avaliação, mas também nos processos de ensino-aprendizagem e estudo), melhor prevenindo problemas de saúde mental (nomeadamente stress, ansiedade ou depressão) também resultantes do actual sistema e da pressão associada à (imposta) necessidade de determinado tipo de resultados.

(O)utras e Outros. Um inquérito recente demonstra que 73% de estudantes respondem “sim” quando questionadas/os se procuram “sempre parecer positivas/os e felizes com tudo o que se associe ao seu nome verdadeiro”. Esta constante exigência, especialmente quando as redes sociais, as relações e o reconhecimento no espaço virtual são tão importantes, acrescentam uma pressão significativa às e aos jovens, potencialmente estigmatizante, penalizadora e até violenta para as e os que estão em situação de maior vulnerabilidade, que estão mais tristes, mais tímidas/os, questionadora da sua autoestima e da integração social.

Mais e melhor informação e investigação sobre redes sociais, a sua organização e as suas consequências. Mais e melhor literacia para as crianças, jovens e seus responsáveis sobre a sua utilização consciente e sobre formas de prevenir os seus impactos, incluindo para a saúde mental. Uma nova atitude em torno do sucesso e da sua obstinada associação à felicidade e mérito. Todos elementos essenciais a uma sociedade mais inclusiva, respeitadora da diversidade e de suporte à vulnerabilidade. De uma sociedade mais capaz de apoiar aquando da adversidade, de crises individuais e colectivas e de promover a saúde mental, o bem-estar e a possibilidade de futuro das e dos jovens.

S(uporte). Recentemente um outro estudo apontou a saúde mental como terceira maior preocupação da população jovem, depois do custo de vida e da crise climática. Também a Agenda da Juventude para a Saúde 2030 lhe confere especial enfâse, destacando que “não devem existir barreiras à (…) saúde mental”, que “a promoção do bem-estar psicológico deve ser especialmente considerada em todos os momentos de contacto com os serviços de saúde e deve articular-se agilmente com o meio escolar” e que a “capacitação de jovens em meio escolar para a promoção do bem-estar físico e psicológico deve recorrer a estratégias aliadas à aprendizagem social e emocional”.

É importantíssimo o capital social associado à aspiração da população jovem a uma outra resposta, mais contingente e com mais recursos, aos desafios que a sociedade contemporânea coloca à saúde e à saúde mental. Desde logo para concluir o caminho de diminuição do estigma, visível no facto das respostas que, passo a passo, têm vindo a ser criadas e/ou reforçadas terem elevada procura – veja-se nas Escolas, o sucesso do programa Cuida-te+ ou o facto do Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24 ser maioritariamente utilizado por população jovem e/ou em situação de desemprego. Mas, também, para um verdadeiro reforço de recursos que perpasse diversas áreas e inclua um real acesso a serviços de psicologia e saúde mental no SNS e nos seus cuidados de saúde primários, o reforço dos recursos nas Escolas, nas Comunidades e no Ensino Superior, neste contexto particularmente dirigidos à prevenção e promoção, conforme o recente programa da FLAD (Saúde Mental no Ensino Superior), que conta com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, procura estimular e apoiar.

E(stabilidade). Numa fase de constante necessidade de adaptação à transformação e de resposta a desafios e crises sucessivas, de procura e construção de autonomia, de saída de casa e transição, é fulcral que o país possa ter uma estratégia concertada de apoio, procurando garantir mais estabilidade e previsibilidade à população jovem. Tal investimento é essencial ao futuro do país e implica pensar a habitação, a remuneração e reconhecimento no trabalho, os vínculos e o combate à precariedade e a promoção da saúde, saúde mental e do bem-estar. É essencial, porque condiciona significativamente o futuro da população jovem, incluindo a tomada de decisão de manutenção ou não no país, de ter ou não filhas/os e as oportunidades e capacidades de desenvolvimento, florescimento, empreendedorismo e produtividade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os pontos cardeais são pontos de referência que se associam e complementam. Assim é também com as notas, as outras e outros, o suporte e a estabilidade (ou as suas ausências), elementos essenciais a pensarmos a rosa dos ventos da saúde mental da população jovem e à resposta aos seus problemas e aos seus desafios. Assim é, pois, conforme na rosa dos ventos, “um mínimo desvio inicial torna-se cada vez maior, à medida que vai aumentando a distância”, desvio com forte impacto na saúde e bem-estar da população mas também em alguns dos principais desafios do país, nomeadamente o envelhecimento da população, a (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança social ou a produtividade.

 

(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem

in Sábado (Ao redor…); 02.09.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/rosa-dos-ventos-da-saude-mental-da-populacao-jovem

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia

Violências…

“Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu.”

“Violências”, 37º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte deste mote para “pensar” as violências enquanto fenómenos complexos e diversos que, no Mundo e em Portugal, tanto condicionam a saúde e bem-estar das pessoas e a sociedade, sendo também por ela condicionados. Faço-o procurando reflectir a partir de quatro elementos enquadradores e de quatro acções possíveis para a sua prevenção e mitigação dos seus impactos.

Quando aos elementos enquadradores: a) “a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência”; b) uma certa “naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade”; c) “a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos”; e d) “a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências”.

Quanto às quatro acções, dependentes de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, serão tão mais possíveis “quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta”: a) “melhor compreender o fenómeno [também quanto a questões associadas à pobreza / exclusão e saúde mental], para melhor informar as respostas e as políticas públicas”; b) “necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades”, onde a vulnerabilidade, qualquer que seja, deverá ser validada, não penalizada; c) o reforço da intervenção psicológica e psicossocial de “reparação e apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência”, enquanto direito de justiça social e fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência; e d) “a integração, articulação e inovação de respostas” caminhando “de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal pelas violências, para a identificação dos mecanismos sociais delas justificativos e de como os podemos modificar”.

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.”