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Solidão… Um problema de saúde pública.

“Quantas/os amigas/os realmente próximos necessitamos?” Num artigo publicado no The New York Times, Catherine Pearson discute este importante e estruturante tema do nosso tempo a partir da constatação do declínio das relações de amizade próximas nos últimos anos e, particularmente, durante a pandemia. Inquéritos da Gallup demonstram que se há 30 anos apenas 3% das/os americanas/os referia não ter amigas/os próximas/os, estudos mais actuais indicam que até cerca de 13% das americanas e 8% dos americanos assim o consideraram, hoje. Em Portugal o aumento é igualmente significativo, contribuindo para uma realidade onde cerca de 330 milhões de pessoas (mais de 3% da população Mundial) afirmaram não ter comunicado com pessoas próximas nas duas semanas anteriores a um estudo desta empresa.

A solidão e o isolamento social são dimensões relevantes de saúde pública e determinantes fundamentais do bem-estar e da saúde. São, nesse sentido, factores fulcrais a considerar e, fundamentalmente, devem informar a definição de políticas, a acção de diferentes entidades/organizações da sociedade civil e de cada pessoa na relação com outras pessoas. Merecem ser faladas, discutidas e ser promovida literacia para todas as pessoas em seu torno.

Foi o que se procurou com o nono episódio do programa online “Eu sinto.me” (https://eusinto.me), recentemente disponibilizado e que aqui partilho. Abordando a solidão, parte destes pressupostos e da realidade que a Julianne Holt-Lunstad (que esteve em Portugal aquando do IV Congresso da OPP) vem estudando há muitos anos, algo que lhe permite afirmar que o “impacto da solidão na saúde é equivalente ao de fumar 15 cigarros por dia ao longo da vida”. Episódio que conta, como habitualmente, com apresentação da Andresa Oliveira e com contribuições de Fabio Medina, Luísa Ribeiro e Júlio Machado Vaz.

“Pessoa jovem ou pessoa mais velha, a solidão não discrimina.” Assim é e assim afirmava Jo Cox, deputada do Reino Unido que criou a comissão para a solidão, sobre os impactos da solidão na sociedade. Criou-a pouco tempo antes de ser barbaramente assassinada por razões relacionadas com o ódio às e aos outros e à diversidade, combustível do que nos afasta e deslaça. Do que fragmenta a sociedade e fragiliza a coesão.

O trabalho da comissão que criou (que continuou depois do seu assassinato) originou uma estratégia intergovernamental nesta matéria e, mais tarde, uma Ministra da Solidão no Reino Unido. A primeira de um caminho que, entretanto, o Japão também trilhou e que, tudo indica, seja sobre a forma de estratégias, seja através de estruturas de decisão, continuará noutras latitudes, tamanhos são os determinantes solidão e isolamento social na saúde e no bem-estar e o problema de saúde pública que representam.

Esperemos que também em Portugal onde, apesar de uma recomendação da Assembleia da República ao Governo ter sido aprovada em Outubro de 2021 nesse sentido, continuamos sem uma estratégia de prevenção e combate à solidão.

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2023

2023. Entramos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio. Momento para pensarmos o ano que temos pela frente e para nos pensarmos nele.

Profissionalmente, a cada ano, faço-o também a partir das tendências da psicologia que a @American Psychological Association publica por estes dias. Resumo as para 2023:

1) ciência psicológica a chegar a mais (e mais diversas) pessoas com 2) investigação inovadora e mais inclusiva; 3) combate à desinformação; 4) promoção do bem-estar de trabalhadoras/es e 5) de lideranças que promovam na gestão a equidade, diversidade e inclusão; 6) foco na promoção da saúde mental de crianças/jovens e na 7) prevenção do suicídio; 8) financiamento significativo de apps de saúde mental e integração da inteligência artificial; 9) crescente abandono de carreiras académicas em psicologia [mais específico dos EUA/Canadá]; 10) maior contributo para a saúde pública, dirigindo intervenções para a promoção da saúde psicológica de toda a população e 11) reforço de parcerias no âmbito dos principais desafios societais.

2023 será, também, o terceiro ano com as minhas actuais responsabilidades e, também na @Ordem dos Psicólogos Portugueses, acompanharemos parte destas tendências, contribuindo na relação com as congéneres internacionais e pela nossa actividade específica. Dela, e da que mais directamente me envolverá/caberá, destaco:

Contributo para a construção de locais de trabalho saudáveis, com prevenção e gestão dos riscos psicossociais e sensibilização das lideranças para as questões da equidade, diversidade, inclusão e bem-estar nas organizações; parceria com entidades e organizações diversas (incluindo seguradoras) no sentido melhorar o acesso da população (e a equidade de acesso) a serviços de psicologia; a criação de mais e melhores condições (incluindo para as/os profissionais) de prevenção, promoção e intervenção na área da saúde mental, particularmente nas crianças/jovens; processos de desenvolvimento profissional e especialização em psicologia e valorização dos actos e das/os profissionais; promoção da literacia em saúde psicológica e da ciência com evidência; contributo da psicologia para a saúde pública e para desafios societais complexos como a crise climática, demográfica, as migrações e…

Como o Presidente da República ontem disse na comunicação ao país, 2022 trouxe o “agravamento da pobreza e das desigualdades sociais”. Antes havia dito que “haver menor desigualdade e menor pobreza” era um dos três “grandes desejos e votos” do Presidente para 2023. Diria de todas e todos. Uma parte significativa do meu ano será a procurar contribuir para a definição (e concretização) da estratégia, que a partir do https://finalapobreza.pt, procurará estimular um maior e mais decisivo contributo da psicologia e das/os psicólogas/os para este desígnio. Para um país com menos pessoas em situação de pobreza, menos exclusão e desigualdade.

Venha de lá 2023. Que ele nos aproxime, aqui e fora daqui.

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres (Sábado; Ao redor…; 07.12.2022)

“Não há provas. Não há testemunhas. Mas para uma pessoa, não existe dúvida.” É esta a frase de apresentação do filme “A dúvida” realizado por J. Shanley e baseado numa peça de teatro por si escrita, que lhe valeu o prémio Pulitzer Drama em 2005. A peça (“Dúvida: Uma parábola”) tinha um nome que reflectia uma dimensão visual da dúvida, associada ao seu dinamismo e à forma como, diferentes momentos e circunstâncias, podem produzir diferentes olhares sobre algo. Dúvida, elemento poderoso nas dimensões cognitivas, emocionais e de comportamento das pessoas, triângulo estruturante da vida, das relações connosco e com as outras e os outros e da sociedade.

Embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso a dúvida é explorada, da indústria à política. Do memorando, outrora secreto, da indústria tabaqueira que afirmava que “a dúvida é o nosso produto”, estimulando o financiamento de campanhas (e até de “ciência”) que introduzissem dúvidas nas cada vez mais evidentes nocivas consequências do consumo de tabaco, à forma como políticas/os, como é exemplo Donald Trump, têm procurado suscitá-la face aos processos democráticos dos seus países. No seu caso, abundam exemplos, desde a legitimação de grupos violentos como os Proud Boys, à frase aquando da sua aceitação da nomeação para recandidatura a Presidente na Convenção Republicana de Agosto de 2020 (“A única forma que eles [Partido Democrata] têm de nos retirar a eleição é através de eleições fraudulentas”) ou à forma como nos últimos dias pediu a “extinção da Constituição” e, mais uma vez, a anulação das eleições presidenciais de 2020. Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e até dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna” ou que “vemos, sistematicamente, a população a desconfiar destes relatórios” existindo agora “um grupo parlamentar que também desconfia destes relatórios”.

Este movimento, com exemplos históricos com décadas e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito por todas e por todos e para a convivência e acção conjunta dos povos face aos desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando as possibilidades de actuação sobre a mesma das instituições e autoridades do Estado. Ao paulatinamente desacreditarem as instituições e os pilares da vida democrática, estes movimentos e partidos pretendem espaço de crescimento e propagação do seu ideário utilizando a percepção de injustiça e da perda de qualidade de vida de algumas pessoas, o medo do desconhecido e diverso, a revolta ou o ódio à outra e ao outro. Pretendem minar a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.

Estes processos condicionam significativa e negativamente a saúde pública e o bem-estar das pessoas. São hoje relativamente claras as relações existentes entre a liberdade e direitos económicos, sociais e culturais e os indicadores de saúde e bem-estar das populações. Tal qual é claro que a democracia por si, ainda que suportada na capacidade de empoderamento das pessoas, se não for acompanhada de direitos humanos estruturantes como o direito à habitação, à educação de qualidade e a condições equilibradas de subsistência e de satisfação e propósito no trabalho, não resulta eficaz de igual forma.

Esta consciência, e os sinais que temos destes movimentos até em países que porventura consideraríamos a eles mais imunes (e.g. países do Norte da Europa), devem-nos motivar e impelir a uma atitude proactiva de prevenção e mitigação destes fenómenos, considerando a sua importância e o seu papel nas sociedades democráticas, de Direitos e livres. É fundamental que tal dependa, é certo, do reforço da dimensão social que toque e abarque questões fundamentais como a habitação, a precariedade e pobreza ou a educação de qualidade e trabalho digno, mas, também, outras áreas, hoje talvez ainda emergentes, mas que importa acompanhar e desenvolver. Dois exemplos.

A Finlândia introduziu no currículo das suas Escolas a literacia mediática. A invasão da Crimeia pela Federação Russa em 2014 e os níveis de desinformação e de notícias falsas particularmente significativos que se lhe seguiram, conduziram a esta alteração e a um mais intencional investimento no desenvolvimento do pensamento crítico de crianças e jovens. Juntando-se à abordagem à educação mediática, parte já antes do currículo do ensino pré-escolar e elementar, e com os impactos que sabemos que continuam das crianças/adolescentes para as suas famílias/sociedade, segundo o instituto Open Society a Finlândia é hoje o país da Europa mais resistente à desinformação. A Suécia que recentemente criou a “Agência de Defesa Psicológica”, uma estrutura pública que visa organizar e operacionalizar um conjunto de acções de protecção da sociedade democrática e livre e da formação livre de opinião, a partir da identificação, análise e combate à influência da má informação ou desinformação estrangeira direccionada à Suécia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje novas e crescentes ameaças às pessoas, sociedades e instituições e estes são dois exemplos concretos de como melhor nos prepararmos para os desafios do presente e do futuro. Para apoiar, também, o que a OCDE define como fundamental para o desenvolvimento da verdade, confiança e reforço da democracia: o combate à má informação e desinformação; uma maior representação e participação das pessoas na vida pública; o assumir de responsabilidades globais e a resiliência à influência externa nas sociedades; a transição verde e digital. Tudo áreas para as quais, também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, a psicologia pode e deve, a par com outras ciências e profissionais, contribuir. Tudo áreas que devemos valorizar e investir, considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.

 

Tiago Pereira

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

in Sábado (Ao redor…); 07.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-a-literacia-e-a-defesa-psicologica-das-sociedades-democraticas-de-direitos-e-livres

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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

Hoje passa um ano e um dia da publicação um artigo que escrevi de título “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”. Escrevi-o porque o sentia importante, necessário, considerando as ameaças potenciais à Paz a que assistíamos e que intuía. Estava, porém, longe de perspectivar a amplitude do que 58 dias depois viria a suceder e de ver imagens de tanques russos nas ruas de Kyiv nos momentos que se seguiram ao trágico 24.02.22. Hoje, um ano depois, passa um dia de que foi publicado um outro artigo, de “desejo” e próximo na “arquitectura”.

“Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos”, 48º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte dos “sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso”, no caminho de melhoria da possibilidade de bem-estar em Portugal. “A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país.”

No artigo reflicto sobre como o que nos torna “destino turístico de excelência, nos aproxima de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar” e, a partir de dois índices internacionais, o que parece fazermos bem, menos bem e que podemos significativamente melhorar para tal, sublinhando cinco factores de investimento essenciais que se interligam:

  1. considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas;
  2. melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população;
  3. em períodos de crise e dificuldade, proteger e apoiar a população mais vulnerável;
  4. maior envolvimento e participação da sociedade civil, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforçando os níveis de conexão e suporte social da população;
  5. criação de condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental.

Caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme prevê a Constituição Portuguesa, “depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar”.

Que o priorizemos e promovamos, mais, em 2023.

Obrigado a quem neste 2022 aqui me acompanhou. Bom 2023 e que nos possamos continuar a encontrar, aqui e noutros lugares.

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A Argentina e a culpa…

A Argentina é agora três vezes campeã do Mundo em três Mundiais de futebol marcados por três “imagens”: as faixas pretas dos postes do Argentina 78, em plena ditadura militar; a mão de Deus no México 86; a mão na boca dos jogadores da Alemanha no Qatar 2022, país onde Direitos Humanos continuam por cumprir.

Quem acompanha o fenómeno do futebol sabe o quão importante é a vitória de ontem para as e os argentinos e quanto o triângulo música–tango–futebol marcou e marca a sociedade e cultura Argentina. Recordar a Mercedes Sosa é evocar este triângulo. Cantora notável, marcou a música (ouça-se o Gracias a la vida), o tango (veja-se e sinta-se o Vuelvo al sur) e o futebol, pela sua relação com a sua Argentina e com um dos seus ícones. Maradona dizia terem “uma relação praticamente de mãe e filho” e que ela o “protegia quando estava mal”, se “preocupava” e “elogiava quando estava bem”. Essa Mercedes que cantou a “culpa” como poucas/os, conforme em “Diosito” que assim termina: “Não se esqueceu de amá-la / Terá entendido a minha música / E perdoado a minha tristeza / Deus, não é nossa a culpa”.

Não é nossa a culpa. Da pobreza ao racismo. Da violência à exclusão. Dos conflitos não-construtivos, à desconfiança e ao extremismo há, na narrativa que acompanha os principais desafios societais contemporâneos, a omnipresença da culpa. A culpabilização das outras e outros, o “passa culpas”, mas, também, os processos de autoculpabilização que, particularmente vítimas destas situações ou pessoas que vivenciam estes fenómenos, se impõem. A culpa sempre foi (e ainda é) fundamental à compreensão dos processos relacionais em sociedade, das políticas que os enquadram e dos comportamentos das pessoas.

Recentemente, num trabalho da jornalista Sara Rodrigues (Revista Visão Saúde DEZ22/JAN23), procurei dar um contributo para a percepção do comportamento, hoje, relativamente às infecções por COVID-19 e às medidas de protecção. “COVID quê”, título da peça, trata diversos aspectos da situação actual em Portugal (números, vacinas ou COVID longa) e a forma como o levantamento de medidas restritivas implica responsabilidade individual, particularmente aquando de infecções ou da percepcão do risco da sua existência. Procuro reflectir sobre, também como noutros áreas, existe uma distinção entre comportamentos que nos possam responsabilizar directamente (estarmos com uma pessoa de risco acrescido) face  a comportamentos que apenas nos podem responsabilizar indirectamente (estarmos com alguém que, por sua vez, estará com uma pessoa de risco acrescido), considerando, particularmente, a diluição da responsabilidade e a forma como tendemos a justificar o comportamento com base no comportamento das outras e outros (efeito de grupo). De certa forma a (eventual) culpa sob a forma de responsabilidade directa ou indirecta a determinar ou não mudanças de comportamento e diferenças na adopção de medidas de protecção de outras e outros.

“Deus, não é nossa a culpa”… Obrigado, Mercedes Sosa.

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3 Tina(s)

Três Tina(s). Base do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal” e base da minha intervenção na sua apresentação, na passada semana.

Tina 1: Tina Fey. Actriz vencedora de um Emmy. Fez a sua formação na “The Second City”, escola onde se procura, activamente, o desconforto, enquanto elemento essencial à improvisação, mudança e desenvolvimento pessoal. No fundo, como acontece com a igualdade de género, que, em contextos de segurança (psicológica), de confiança interpessoal e de transparência, quando intencionalizada, activamente promovida e legal e socialmente estimulada, é essencial, mesmo quando provoca potenciais desconfortos, à improvisação e capacidade de resolução de problemas, à adaptação e mudança e ao desenvolvimento e florescimento das pessoas, das organizações e da sociedade.

Tina 2: Tina Turner. “Eu não existia. Mas sobrevivi.” Relato da violência prolongada que sofreu na sua relação conjugal (e profissional) até à sua separação que resultou numa tremenda insegurança financeira, antes de superar estas condições, com os resultados que (re)conhecemos. A não exposição a situações de violência (explícita, mas também implícita) e a liberdade económica são, além de direitos, necessidades fundamentais ao bem-estar e factores fundamentais à equidade social e de poder de pessoas e grupos na sociedade. Para tal é essencial promover apoio psicológico e social, protecção social, regulamentação na área do trabalho, educação psicológica deliberada e literacia na área da igualdade de género e do bem-estar nas organizações, algo fulcral, também, na mudança de crenças erróneas que condicionam meninas, raparigas e Mulheres, particularmente as relativas à “genialidade de género” (percepção do maior talento de Homens face a Mulheres, mesmo perante actividades onde existe melhor desempenho de Mulheres).

Tina 3: There is no alternative. Expressão recentemente recuperada para o dicionário político e social. Não há alternativa a um caminho de maior equidade na sociedade e igualdade de género nas organizações. Não apenas porque de um Direito Humano se trata e porque é um dos ODS (5), impactando muitos outros. Também porque, essencial, à produtividade e sustentabilidade das organizações, mas não sem riscos que decorrem, por exemplo, da integração da Inteligência Artificial e dos seus vieses próprios, das crises que nos esperam num Mundo complexo e volátil e que impactam mais significativamente as meninas, raparigas e Mulheres ou dos 10 últimos anos de crescimento de governos autoritários no Mundo com consequente perda de Direitos.

Por tudo isto creio essencial que inscrevamos (conforme José Gil define) este tema na sociedade. O livro para isso contribui. Volto a agradecer às coordenadoras (Susana Almeida Lopes e Margarida Couto) o convite e a confiança, à Helena Pita Soares o acolhimento e à Paula Valente (Editora d’Ideias) a sua edição.

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Menina – Rapariga – Mulher (Sábado; Ao redor…; 23.11.2022)

“Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas”. Penso em nomes, em todos os nomes. Penso na minha família, nas meninas, depois raparigas, hoje Mulheres. A promoção da igualdade de género é o objectivo 5 dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) mas… “o que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova. Na resposta, que no fundo é também o próprio documentário, agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.

Por exemplo, no Afeganistão onde as Mulheres deixaram de poder entrar em parques ou feiras populares, frequentar todo o sistema educativo ou ter determinadas profissões. No Irão, onde raparigas e Mulheres são detidas e enviadas para supostos “centros de reeducação” pela não utilização ou “utilização incorrecta” do hijab. Nos Estados Unidos da América, onde uma sociedade profundamente polarizada faz da discussão sobre a (i)legalidade da interrupção voluntária da gravidez, incluindo em situações de especial complexidade (más formações do feto, perigo para a Mulher ou gravidez resultante de abuso sexual), tema, não de saúde pública, mas de política e de afirmação ideológica, quando não de tribalismo. Também na Polónia, onde a interrupção voluntária da gravidez não é hoje permitida, mesmo em situações de malformações ou de doenças incuráveis, ou na Hungria, onde um decreto governamental procura “obrigar” as Mulheres a ouvirem o batimento cardíaco do feto antes de interromperem voluntariamente uma gravidez. Ainda no Reino Unido onde Liz Truss, na sua curta passagem pelo Governo, propôs a dispensa das organizações com menos de 500 trabalhadoras/es de publicarem o seu relatório sobre o “gender pay” (disparidade salarial por género), justificando-o com a necessidade de diminuição de burocracia. Ou, finalmente, em Portugal, onde apesar das Mulheres serem ainda mais expostas a situações de precariedade e pobreza e existir uma enorme desigualdade salarial, o Acordo de Médio Prazo de Melhoria de Rendimentos, recentemente assinado pelo Governo e um conjunto significativo de parceiros sociais, estranhamente exclui a igualdade salarial do seu objecto e das suas metas.

Nesta rápida viagem pelo Mundo creio ficar claro que a desigualdade de género, além do objectivo 5 dos ODS, impacta outros. Da erradicação da pobreza às cidades e comunidades sustentáveis, passando pela redução das desigualdades. Do trabalho digno e crescimento económico à saúde de qualidade. Da paz, justiça e instituições eficazes à educação de qualidade. Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por exemplo), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (conforme aconteceu com a pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência, conforme se assinalará no próximo dia 25 de Novembro, quando se comemorar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres. Uma sociedade em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades.

Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições. Uma sociedade que necessita reconhecer o trabalho invisível não remunerado, quer seja doméstico ou de cuidado informal, maioritariamente exercido por Mulheres. Trabalho que, além dos condicionalismos e desafios que comporta para a conciliação de papéis das Mulheres, se considerado, poderia significar um aumento de cerca de 36% no PIB de Portugal, aumento próximo do que tivemos nos últimos 30 anos. Uma sociedade que deve estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade que deve permitir que mais Mulheres participem em processos de decisão, melhorando a inclusão, diversidade e representatividade das instituições e a sua qualidade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, “acabar com todas as formas de discriminação contra todas as Mulheres e meninas em todos os lugares; eliminar todas as formas de violência contra todas as Mulheres e meninas nas esferas pública e privada, incluindo tráfico, exploração sexual e outros tipos; reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públicos, infraestrutura e políticas de proteção social, bem como a promoção da responsabilidade partilhada dentro do lar e da família, conforme os contextos nacionais; e garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades de liderança” são a explanação e operacionalização da igualdade de género enquanto meta dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. São-no, mas são também garantes do cumprimento da dignidade e dos Direitos Humanos de todas as pessoas, particularmente as meninas, raparigas e Mulheres, conheçamos ou não os seus nomes e história, enquanto algo essencial ao bem-estar de cada um e uma de nós e a uma sociedade mais justa e coesa. Interpelemo-nos, envolvamo-nos e enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género e a não-discriminação pois, como Baldwin afirmou, “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

 

Tiago Pereira

Menina – Rapariga – Mulher

in Sábado (Ao redor…); 23.11.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/menina—rapariga—mulher

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Agnotologia

Agnotologia: um termo desaparecido para descrever a produção cultural da ignorância (e o seu estudo). Este é o título do 1º capítulo do livro “Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância”, escrito por R. Proctor e L. Schienbinger a partir, também, da reflexão sobre o potencial impacto na saúde pública das práticas da indústria do tabaco. Discute-se um memorando de 1979, primeiro secreto, hoje público, que reúne um conjunto de iniciativas de empresas – “O tabagismo e a proposta de saúde”. Nele assumia-se que “a dúvida é a melhor maneira de competir com o volume de informação que existe na mente do público em geral” e ser fundamental promover e financiar (também usando a ciência) a dúvida e intencionalizar a “criação de controvérsia” sobre os “impactos nocivos do consumo de tabaco”. Sendo este um caso “extremo” creio que temos presente que, também em 2022, talvez nunca com tantos recursos e de forma tão estrutural e complexa, a agnotologia é estimulada e alimentada, com profundas consequências na sociedade, nas relações entre pessoas e comunidades, na resposta aos principais desafios societais e na saúde (pública) e bem-estar.

E, se este movimento ocorre em muito patrocinado por organizações, empresas e até países que pretendem que os seus produtos / matérias-primas continuem a ser vendidos/utilizados, também decorre no seio político, na procura de agregação de pessoas a grupos/ideais políticos, não raras vezes usando a dúvida e as dimensões emocionais (como a raiva ou o ódio a outras/os) como força de mobilização. Num Mundo com complexidade e incerteza crescente e com redes sociais que permitem (e estimulam) a propagação “supersónica” da informação (particularmente a movida a emoções, dúvidas e “polarizadora”), creio fundamental o termos presente e, individual e colectivamente, contribuirmos para mitigação da agnotologia, algo só possível com mais e melhor ciência (inclusive nas políticas públicas), mais e melhor transferibilidade da ciência (inclusive junto das políticas públicas), mais e melhor comunicação da ciência (inclusive junto de decisoras/es) e mais e melhor informação e literacia científica da sociedade, possibilitando a reflexão consciente e a prevenção dos efeitos de grupo e massas, pela mudança de atitudes e comportamentos através da informação.

Por isso quem, por exemplo aqui, me lê/ouve sabe que, na medida das minhas possibilidades, o procuro fazer. Sabe, também, que estimulo, particularmente, psicólogas e psicólogos a fazerem-no mais, a partir da nossa ciência e prática. Sabe, ainda, que o procuro fazer junto de problemas societais complexos que muito influenciam a sociedade e a possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas. Partilho um exemplo, uma entrevista à Revista Visão (13.11) que toca estes pontos – um singelo contributo meu, focando a pobreza e a saúde mental; um estímulo a outras e outros para o fazerem/fazermos mais).

Mais e mais, individual e colectivamente. Por todas e por todos. Sim?

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Menina – Rapariga – Mulher

“O que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Y. Arthus-Bertrand e A. Mikova. Nele agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. “Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.”

“Menina – Rapariga – Mulher”, 46º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) “viaja” a várias latitudes do Mundo para assinalar exemplos de retrocessos na igualdade de direitos que justificam a afirmação/inquietação anterior, sublinhando quanto a desigualdade de género impacta diversos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, além ODS5 (Igualdade de Género). “Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por ex.), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (por ex. na pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência.”

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades (…) Também estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor representatividade e qualidade das suas instituições.”

Termino o texto sugerindo que nos interpelemos, envolvamos e que “enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género”. Procurei fazê-lo, também, num artigo que escrevi (“O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações”) no livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado por @Susana Almeida Lopes e @Margarida Couto e, cuja apresentação amanhã (29.11) partilharei com a @Helena Pita Soares, @José Sintra e @Paulo Simões (informações/inscrições aqui).

Pois como Baldwin afirmou: “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

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COP27 e as comemorações dos dias Universal dos Direitos da criança e da memória das vítimas da estrada

Quando na principal via de acesso à bonita cidade de Évora olhamos à esquerda, ali o encontramos. Ali, onde tantas vezes passei, a caminho ou no regresso da Escola e bairro onde trabalhei os primeiros (significativos) anos, enquanto psicólogo e coordenador de um projecto. Jardim da memória, memória de tantas vidas interrompidas, brutalmente perdidas na e pela estrada. Bairro e Escola, memória minha de como as circunstâncias, também e ainda em Portugal, desafiam e limitam Direitos das crianças. Ontem, dia final da COP27, comemorou-se o Dia Mundial em memória das vítimas da estrada e o Dia Universal dos Direitos das crianças.

Comemorações que, creio, podem dar-nos uma importante pista para reflectir sobre os limitados resultados da COP27. “Foi dado um passo muito curto para os habitantes do Planeta” disse Guterres. Apesar da declaração final afirmar finalmente a “necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis” às alterações climáticas, não tem avanços significativos (pelo contrário) na redução de emissões de gases com efeito estufa. Acordo e consenso mínimo, na compreensão do problema, seus impactos e da necessidade de reparação. Desacordo na mudança e transformação necessária à redução de emissões, também pela dificuldade em conceber a mudança de foco nos combustíveis fósseis em simultâneo com a promoção da possibilidade de bem-estar.

A pista resulta da forma como estas comemorações demonstram a compatibilidade potencial das mudanças estruturais com a maior possibilidade de bem-estar. Assim foi e é com a progressiva operacionalização da Carta dos Direitos das crianças, quando se coloca o foco, exactamente, nas crianças. Assim foi e é com a redução das vítimas da estrada, particularmente quando se desenham cidades com o foco na pessoa (peões) e não no carro (tráfego).

Em 2019 (2020/21 são anos atípicos) morreram em Portugal 74 pessoas atropeladas. Nos últimos anos, mais de 10 pessoas por ano em média apenas em Lisboa. Também em 2019, Oslo e Helsínquia não tiveram qualquer morte por atropelamento e Londres está a implementar um plano com esse objectivo. Procura mudar o foco da “melhoria do tráfego” para as “pessoas primeiro” e, além de uma redução significativa dos atropelamentos (e mortes), tem resultado na diminuição do número de carros por família, dos crimes na rua e na maior utilização do espaço público para brincar e andar.

Num e noutro caso exemplos de como mudar o foco pode estimular (e não diminuir) a possibilidade de bem-estar. Um e outro caso a fazerem-nos recordar que mudar é difícil, mas possível, particularmente se envolver as pessoas. Que um foco em energias renováveis e nas possíveis e necessárias reduções, com apoio aos países com maiores vulnerabilidades, é exequível e pode, em simultâneo, ser promotor da possibilidade de bem-estar e do desenvolvimento sustentável de cada país e do Mundo.

Pelo que esperamos?