A Argentina é agora três vezes campeã do Mundo em três Mundiais de futebol marcados por três “imagens”: as faixas pretas dos postes do Argentina 78, em plena ditadura militar; a mão de Deus no México 86; a mão na boca dos jogadores da Alemanha no Qatar 2022, país onde Direitos Humanos continuam por cumprir.
Quem acompanha o fenómeno do futebol sabe o quão importante é a vitória de ontem para as e os argentinos e quanto o triângulo música–tango–futebol marcou e marca a sociedade e cultura Argentina. Recordar a Mercedes Sosa é evocar este triângulo. Cantora notável, marcou a música (ouça-se o Gracias a la vida), o tango (veja-se e sinta-se o Vuelvo al sur) e o futebol, pela sua relação com a sua Argentina e com um dos seus ícones. Maradona dizia terem “uma relação praticamente de mãe e filho” e que ela o “protegia quando estava mal”, se “preocupava” e “elogiava quando estava bem”. Essa Mercedes que cantou a “culpa” como poucas/os, conforme em “Diosito” que assim termina: “Não se esqueceu de amá-la / Terá entendido a minha música / E perdoado a minha tristeza / Deus, não é nossa a culpa”.
Não é nossa a culpa. Da pobreza ao racismo. Da violência à exclusão. Dos conflitos não-construtivos, à desconfiança e ao extremismo há, na narrativa que acompanha os principais desafios societais contemporâneos, a omnipresença da culpa. A culpabilização das outras e outros, o “passa culpas”, mas, também, os processos de autoculpabilização que, particularmente vítimas destas situações ou pessoas que vivenciam estes fenómenos, se impõem. A culpa sempre foi (e ainda é) fundamental à compreensão dos processos relacionais em sociedade, das políticas que os enquadram e dos comportamentos das pessoas.
Recentemente, num trabalho da jornalista Sara Rodrigues (Revista Visão Saúde DEZ22/JAN23), procurei dar um contributo para a percepção do comportamento, hoje, relativamente às infecções por COVID-19 e às medidas de protecção. “COVID quê”, título da peça, trata diversos aspectos da situação actual em Portugal (números, vacinas ou COVID longa) e a forma como o levantamento de medidas restritivas implica responsabilidade individual, particularmente aquando de infecções ou da percepcão do risco da sua existência. Procuro reflectir sobre, também como noutros áreas, existe uma distinção entre comportamentos que nos possam responsabilizar directamente (estarmos com uma pessoa de risco acrescido) face a comportamentos que apenas nos podem responsabilizar indirectamente (estarmos com alguém que, por sua vez, estará com uma pessoa de risco acrescido), considerando, particularmente, a diluição da responsabilidade e a forma como tendemos a justificar o comportamento com base no comportamento das outras e outros (efeito de grupo). De certa forma a (eventual) culpa sob a forma de responsabilidade directa ou indirecta a determinar ou não mudanças de comportamento e diferenças na adopção de medidas de protecção de outras e outros.
“Deus, não é nossa a culpa”… Obrigado, Mercedes Sosa.