A semana começou com incríveis imagens do Brasil. Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.
“Afirmações extraordinárias necessitam de evidências extraordinárias”. Popularizada por Carl Sagan, esta expressão ajuda-nos a reflectir a improbabilidade de um pretenso fim da história, particularmente quando a ciência, a tecnologia e o que se passa ao nosso redor criam constantemente diferentes cenários e alterações à realidade vigente. Ciência esta proveniente de disciplinas que contribuem para a resolução de problemas de elevada complexidade, cada vez mais diluída entre diferentes áreas e com maior reconhecimento de uma parte da sociedade civil e de decisoras e decisores. Uma parte.
É assim com a psicologia com a particularidade de, simultaneamente, contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras. A este propósito, reflictamos sobre três exemplos de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora.
“Uma palmada não faz mal a ninguém.” Uma das grandes mudanças societais das últimas décadas resulta da condenação ampla e quase generalizada das várias formas de violência sobre as crianças. Porém, persiste em algumas franjas da população, a perspectiva de que uma “palmada” não provoca qualquer dano, mantendo-se estas práticas enraizadas em diversos países conforme, por exemplo, a UNICEF vem estudando e sublinhando. Nada mais errado. Além da inutilidade e da ineficácia desta acção no sentido da promoção da mudança comportamental (ao não contribuir para a interiorização e inscrição das regras), existem perigos significativos que resultam da utilização da punição física ou de castigos corporais ao invés de acções de disciplina e parentalidade seguras ou positivas. Efeitos negativos que incluem o perigo do aumento, escalada e banalização da agressividade, violência e dos comportamentos anti-sociais, a não aprendizagem do comportamento esperado e a legitimação da violência de grupos sobre outros. Ainda, dificuldades de aprendizagem, auto-regulação e de desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais (no presente e futuro), além de consequências no bem-estar, segurança (também afectiva) e saúde, incluindo saúde mental.
“As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”. Passa este mês dez anos sobre a publicação, por um hoje deputado à Assembleia da República, do livro “O colonialismo nunca existiu!”. Alguém que assim o defende, junto com colegas de partido que negam também a existência de racismo estrutural em Portugal, desconsiderando factos concretos e estudos de opinião ou barómetros, incluindo os da União Europeia e legitimando, politicamente, esta negação e as suas consequências. As palavras contam. Contam muito. Contavam no final do século XIX, quando se descreveu a drapetomania, uma suposta doença mental responsável, imagine-se, pelo facto de algumas e alguns escravos procurarem fugir da sua condição, algo que, segundo Cartwright, apenas poderia suceder com pessoas em escravidão não saudáveis. Contavam no século XX onde me e nos pediam que pintássemos com “lápis cor de pele”. Contam hoje, na terceira década do século XXI, onde se procuram utilizar expressões como a “ideologia de género” para desconsiderar, denegrir ou ilegitimar condições, pretensões ou direitos de pessoas. Há hoje ampla investigação que demonstra que e como as palavras e expressões podem reforçar e perpetuar cognições ou crenças que influenciam as nossas tomadas de decisões, formação de opiniões e comportamentos. O racismo estrutural existe, em Portugal e no Mundo. Dificilmente esquecerei um estudo que demonstra como nos EUA ser “branco” parece proteger mais da violência policial do que ser um/a menor. Este como outros estudos, em diferentes áreas e países, tornam clara a sua existência, as suas consequências sociais e o seu impacto em dimensões de saúde e bem-estar. Tornam claro como funciona como factor de risco/vulnerabilidade e, potencialmente, de exclusão de pessoas e grupos.
“Os seres humanos são animais racionais”. Desde há quase 2400 anos e de Aristóteles que esta expressão é parte do nosso imaginário. No entanto, a ciência tem demonstrado as suas insuficiências, porquanto é hoje claro que a nossa racionalidade é tendencialmente guiada pelas nossas motivações e emoções e limitada pelos nossos pontos de vista, opiniões e vieses. Ainda que a racionalidade seja fundamental, até porque podemos sempre raciocinar sobre a própria irracionalidade, devemos ter presente que somos “animais racionais não a tempo inteiro”. Que temos falências, vieses. Que cometemos erros e que existem individualmente ou em grupo, momentos e movimentos onde a racionalidade é condicionada por pensamentos, emoções ou influências sociais ou de grupo que condicionam, senão determinam, as nossas tomadas de decisão e comportamentos.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a história não tem fim. Mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis. Como a história, a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas, contribuindo para compreendermos o porquê de assim ser, como enquanto seres humanos nos comportamos e tomamos decisões e que é fundamental combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração. Contribuindo, simultaneamente, para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.
Tiago Pereira
Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”
in Sábado (Ao redor…); 11.01.2023
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/nem-fim-da-historia-nem-fim-da-ciencia-o-contributo-da-psicologia-e-tres-ideias-feitas