Categories
Comportamento COVID-19 Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

Ciência e Evidência na Administração e Políticas Públicas

Ontem, com os discursos de encerramento do congresso do PS e da cerimónia de formalização da AD, ouvimos os principais candidatos a primeiro-ministro.

Partilho, a esse propósito, duas reflexões sobre o pensar da política pública no momento que vivemos:

a) Continuamos a ter dificuldade para, enquanto país e comunidade, conforme nos mobilizamos para responder a desafios, estabelecermos planos e medidas de resposta às consequências dos mesmos. Isto penaliza grupos específicos, a justiça intergeracional, o legado e a equidade. Foi assim com a geração que viveu a Guerra Colonial. Foi assim com o impacto da crise socioeconómica do início da década passada, cujas consequências são visíveis hoje na demografia, trabalho ou nos problemas de saúde mental da população. Parece ser assim com as consequências da COVID-19 nos processos de desenvolvimento de bebés/crianças em situação de maior vulnerabilidade, com consequências graves para o seu (e nosso, comunidade) futuro. Todos os estudos o comprovam mas convido a ouvirem as equipas de intervenção precoce que, em muito difíceis condições e com uma falta de recursos gritante, acompanham monte a monte, lugar a lugar, apartamento a apartamento estes bebés e crianças. No Reino Unido, também a caminho de eleições, é um assunto central da campanha e dos partidos, pensando-se o presente, projectando-se o futuro (ver aqui). Será assim, desta vez, em Portugal?

b) Estas relevantes iniciativas carecem de incorporação de ciência e evidência. Fala-se, e bem, de transferência de ciência, conhecimento e tecnologia para as empresas. Fala-se, menos, da sua transferência e incorporação nas práticas da administração e nas políticas públicas. Isso é essencial para evoluirmos, verdadeiramente, de práticas assistencialistas (acesso) nas dimensões sociais para práticas de promoção da equidade, inclusão e capacitação (acesso + qualidade, eficiência e eficácia). É necessário, possível, crucial, que ao crescimento da possibilidade de acesso à creche (importantíssima) se associe a melhoria da qualidade da educação dos 0-3 anos; que à dinamização de mais e mais variadas respostas de acompanhamento de pessoas idosas se associe qualidade nas práticas; que aos processos de desinstitucionalização se associe a capacitação a qualificação das respostas de proximidade; que ao reconhecimento do estatuto de cuidador/a informal se associe a possibilidade de autocuidado e desenvolvimento de competências de cuidadoras/es.

Fazendo-o estaremos mais próximos de responder a necessidades e expectativas das pessoas, num quadro democrático, de confiança nas instituições, pessoas e ciência. Fazendo-o criaremos antídoto para o crescimento de forças que colocam em causa a democracia, a confiança nas instituições, pessoas (todas) e ciência.

Aqui e em qualquer lugar do Mundo isso é e será decisivo para defendermos uma sociedade de coesão e direitos humanos, capaz de promover a possibilidade de bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Trends

Ontem voltei a Évora para reflectir com cerca de 200 jovens o conceito de trabalho e o que ele significa hoje e poderá significar no futuro. Manhã cedo, na viagem, pensei sobre a “falácia do trabalho árduo” e a ideia que permanece, culturalmente intrincada, que se nos esforçarmos e dedicarmos mais seremos capazes. Não me entendam mal, o compromisso, a dedicação e o empenho são muito importantes e, quem me conhece reconhecerá que são elementos fundamentais no que sou enquanto pessoa e profissional. Mas, o “trabalho árduo” não permite tudo, não resolve tudo e, fundamentalmente, não torna abordagens/práticas inadequadas correctas. A ideia do “trabalho árduo” pode ser uma enorme falácia.

Sermos com isto consequentes, creio, implica termos capacidade de nos questionar, de olhar ao redor e, essencialmente, de estarmos abertos a mudar. Sermos com isto consequentes, creio, implica também percebermos tendências e compararmos como se alteram de contexto para contexto e tempo para tempo. Por estes dias fiz este exercício com as “Top Psychology Trends” da American Psychological Association, anualmente publicadas desde de 2018, comparando as desse ano com as de 2024 (que aqui partilho) e como se relacionam com os desafios/características da psicologia em Portugal.

Ora, se para 2018 se considerava a psicologia como “mais popular que nunca”, em 2024 assume-se “a elevada procura de cuidados em saúde mental e como podem novas práticas clínicas e a tecnologia apoiar na resposta a esta maior procura”, bem como o “crescimento das psicólogas e psicólogos em contexto escolar” e no “ensino superior”. Se em 2018 se salientava “o custo e impacto de locais de trabalho não saudáveis”, em 2024 sublinha-se o papel da psicologia na promoção de locais de trabalho garantes de “propósito, significado e estabilidade”. Se em 2018 se referia o crescimento do impacto da “psicologia aplicada” e o foco na “defesa, desenvolvimento e abertura da ciência”, em 2024 destaca-se o papel da psicologia “no combate à desinformação em ano eleitoral”, na intervenção junto do “uso de substâncias” e no “desenvolvimento cerebral e promoção do envelhecimento saudável”.

Mas mais, se em 2018 se destacava a urgência que a “igualdade de género” representava para a psicologia, em 2024 sublinha-se como a psicologia pode apoiar a promoção da “inclusão e equidade” nos contextos de trabalho ou nas políticas públicas. Ou, se em 2018 se destacavam “os determinantes (sociais) da saúde e bem-estar”, o papel da psicologia numa ideia de “saúde mais global” e se pensava a “personalização de intervenções” e como a “tecnologia revolucionaria as práticas”, em 2024 aborda-se o impacto e papel da psicologia na “Inteligência Artificial generativa” e como “serão valorizadas, também monetariamente, as tecnologias e aplicações em saúde mental”.

Questionarmo-nos, olharmos ao redor e mudar, quando mudarmos nos aproxima de um melhor contributo.

Venha daí 2024 e obrigado por nos irmos encontrando, aqui e/ou noutro lugar.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica

Depois de aqui ter desejado “Construirmos mais Paz” em 2022 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz) e “Promovermos mais bem-estar para todas e todos” em 2023 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos)…

“Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica”, 73º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte da memória de um concerto que assisti no dia do meu aniversário de 2023 onde a cantora leu cada nome de cada Mulher assassinada em Portugal em 2022. Por cada nome, centenas de outras ocorrências comunicadas e outras tantas não comunicadas. “A violência doméstica, em particular no contexto das relações de intimidade, é um sério problema de saúde pública e condiciona decisivamente a vida e o bem-estar das pessoas que a vivem, directa e indirectamente, afectando a sua possibilidade de desenvolvimento e o desenvolvimento social e económico do país.”

“Por isso necessitamos de um país mobilizado contra a violência doméstica. Capaz de produzir mudanças definitivas nas normas culturais, sociais e religiosas que, por vezes, ainda concorrem para uma cultura de tolerância ou de não aplicação de Leis na violência, particularmente na violência doméstica. Um país mobilizado para mudar a cultura de medo e estigma ainda persistente e dar passos firmes no sentido da verdadeira igualdade de género. Mobilizado para mudar também na e pela Educação, prevenindo precocemente ciclos de reprodução geracional destes comportamentos.”

“Tudo isto é fundamental num país em que, apesar de tudo, parte das forças políticas parece desperta para esta realidade e tem procurado actuar, quer via legislação, quer via mecanismos de apoio social, casas de abrigo ou de respostas de apoio psicológica para crianças e jovens vítimas de violência doméstica (…) Onde associações profissionais e profissionais têm dado um contributo na consciencialização, literacia, prevenção e na intervenção junto deste problema (veja-se o “Memorial Mapa” do António Castanho).”

“Mas muito mais há a fazer, incluindo não retroceder em progressos nesta área (…) Tal implica o combate a ideias e forças políticas (como o “Partido Chega”) que, cinicamente, criam condições para a perpetuação de desigualdades que estruturalmente determinam estes problemas. Além de votarem declaradamente contra medidas de apoio a pessoas vítimas de violência (…) “utilizam” a percepção de perda de poder de determinados grupos na sociedade com fins políticos, visando ganhos eleitorais momentâneos e desconsiderando as implicações sociais e políticas do uso do medo, ódio e do nós vs. outras/os.”

“Mobilizarmo-nos contra a violência doméstica é uma forma de promovermos a liberdade, aumentando as condições para cada ser humano se procurar cumprir, também nas suas relações (…) Que 2024 veja essa acção. Que 2024 seja o ano que precisamos.”

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

(Prefácio) Carreira em Psicologia num Mundo Imprevisível – Pistas para Navegar com Confiança e Adaptabilidade

Tudo a lembrar-nos que o passado conta, que o passado “não está morto”, que “nem sequer é passado”, como escreveu Faulkner. Isto escrevi no prefácio do primeiro volume desta colecção, intitulado “Ser Psicólogo – O Início da carreira em Psicologia Pistas para que está a dar os primeiros passos numa carreira em Psicologia”. Palavras que aqui recupero, convidando, também, à sua leitura e evocando-o na relação com este segundo volume desta colecção de “Artigos PsiCarreiras da Ordem dos Psicólogos Portugueses”.

Numa relação que diria estreita, pois escrevi-o, lembrando os enormes e complexos desafios que vivemos e sublinhando “a necessidade da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, sistematicamente, se desenvolverem e adaptarem a novos desafios e realidades, para melhor lhes responderem”. Reforçando, portanto, o quão fundamental resulta a forma como, cada psicóloga e psicólogo, individual, mas também colectivamente, pensa e projecta a sua carreira e o desenvolvimento pessoal e profissional e como a confiança e a adaptabilidade são factores chave neste processo.

Numa relação estreita, também porque a confiança e a adaptabilidade são chave no início como em toda a carreira e, arrisco, sê-lo-ão ainda mais no futuro, particularmente num contexto em que a incerteza, a imprevisibilidade e a rápida mudança contemporâneas se agudizem, Mundo fora. Num contexto em que a ciência psicológica, qual hub de ciência, e a prática de psicólogas e psicólogos, cresçam em relevância e impacto na medida da complexidade dos desafios que se colocam e colocarão à saúde, ao bem-estar e à possibilidade de autodeterminação das pessoas. Que se colocarão ao respeito pela diversidade de diferentes pessoas e comunidades. Que se colocarão à equidade, à justiça e coesão social de sociedades.

Estamos perante, portanto, um volume que, valendo por si, é parte de um todo mais amplo, em construção permanente a partir de múltiplos e relevantes contributos de tantas e tantos psicólogos que dia-a-dia apoiam pessoas, comunidades e a sociedade e a quem, enquanto psicólogo, mas também enquanto cidadão, muito agradeço. O seu contributo é fundamental na construção e desenvolvimento da identidade da profissão e de cada um e uma das profissionais que a compõem.

Nas páginas seguintes encontrarão espaço de encontro, de reflexão e estímulos vários à partilha e à criação de comunidade. Comunidade que, a par da confiança e da adaptabilidade, nos pode proteger e preparar para o que enfrentamos e enfrentaremos e suporte para o contributo importante, quiçá decisivo, que lhe e nos é reservado.

 

Tiago Pereira

(Prefácio) Carreira em Psicologia num Mundo Imprevisível – Pistas para Navegar com Confiança e Adaptabilidade

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_ebook_carreiraempsicologianummundoimprevisivel.pdf

DEZ; 2023

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Psicologia

2023 – Odisseia na Pseudociência

Recentemente recebi um convite para realizar uma “Masterclass” no âmbito dos Mestrados em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (agradeço a confiança do Ricardo Barroso que primeiro me contactou). Pediram-me que tratasse o tema da “Pseudociência e Psicologia”, algo que fiz na 4ªF passada. Aí comprometi-me com quem participou que, ao invés de deixar uma lista de artigos, livros ou um power point, me comprometia a procurar traduzir o conteúdo partilhado num artigo de opinião e, logo, num contributo para o tema reflectido, para que pudessem “confrontar” a apresentação e discussão com esse modelo de conteúdo.

“2023 – Odisseia na Pseudociência”, 72º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) é o resultado desse exercício. Nele começo por tratar como duas características profundamente humanas (a dificuldade de reconhecermos que não sabemos de algo de que não sabemos em temas que nos despertem interesse e a ilusão da profundidade explicativa) “ajudam a explicar, em parte, porque é que, muitas vezes, em matérias que remetem para o comportamento humano, tomada de decisão, saúde e bem-estar (…) somos suscetíveis à procura de respostas simplistas, imediatas e absolutas para desafios e problemas complexos e por vezes interconectados. Porque somos suscetíveis, mesmo num período de forte desenvolvimento da ciência, a fazer atribuições “místicas”, particularmente face a fenómenos naturais como catástrofes, e à pseudociência.”

Procuro, depois, enquadrar o conceito e nele “as terapias alternativas e complementares como a homeopatia e pseudo-terapias, incluindo algumas apresentadas como “holísticas” ou mesmo psicológicas, como a aromaterapia”, destacando que a pseudociência é uma “actividade económica com valor já significativo e em expansão” e um desafio, em algumas situações, para a saúde e segurança das populações.

Abordo o contexto que determina “mais espaço e oportunidade para a pseudociência” e para quem o navegando, usa das inseguranças e vulnerabilidades das pessoas, vendendo (caro) soluções simplistas, não baseadas na ciência, mas invariavelmente assentes na crença de que “se acreditarmos e quisermos tudo conseguimos”, apelando a um conjunto de falácias (associadas à natureza, à ancestralidade ou à autoridade), heurísticas, confusões entre correlação e causalidade e escondendo o “efeito placebo”.

Antes de terminar com Kubrick e a sua eventual “dificuldade de imaginar e perspectivar” o Mundo hoje, penso a forma de prevenir os impactos negativos destas práticas. A necessidade de um “papel activo e até activista das disciplinas científicas”, da promoção da literacia da população e do reforço da “protecção de clientes, incluindo relativamente à comunicação/marketing “abusivo” e à necessidade de utilização de consentimentos informados”. Penso, finalmente, a importância do reforço da “informação à população via sistemas “what works” e da dimensão ética e de cidadania de pessoas e, também, deontológica de profissionais”.

Categories
Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

All in the Mind

meiro apenas na rádio @BBC 4, hoje ainda nesta rádio e em podcast, o “All in the Mind” será um dos programas que semanalmente tratam temas da psicologia com maior longevidade no Mundo, indo a caminho dos 20 anos de edições.

Aprendi e pensei muito, portanto, a partir de vários dos seus episódios, particularmente desde que, via podcast, é mais simples seguir e acompanhar o programa. Foi por isso com uma certa emoção que conheci a sua actual apresentadora (@Claudia Hammond) em Julho, quando apresentou o meu keynote no European Congress of Psychology 2023 (Brighton, UK), conforme aqui havia referido: https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_quando-estou-fora-de-portugal-num-pa%C3%ADs-onde-activity-7084070839926628353-UPqL?utm_source=share&utm_medium=member_desktop

Foi também com emoção que, fará amanhã 15 dias, ouvi um dos seus episódios, apresentado pela @Claudia Hammond e produzido pela @Lorna Stewart. Episódio cujo link partilho e que conta com um contributo meu a propósito do papel da psicologia enquanto ciência e prática para um “ponto final à pobreza”, a partir da estratégia da @Ordem dos Psicólogos Portugueses que venho coordenando, conjuntamente com um grupo de colegas. Episódio cuja sua descrição refere a forma como procuro sublinhar como “as psicólogas e psicólogos estão numa posição fulcral para comunicar acerca das causas e consequências da vivência em situação de pobreza e para usar essa informação para exigir mudanças e contribuir para melhores políticas públicas”.

Na conversa com a @Claudia Hammond procuro também reflectir o porquê deste contributo ser diferenciador e como podem as psicólogas e psicólogos, dia-a-dia, nos seus diversos contextos de intervenção, também contribuir para este gigante mas tão importante desafio societal, salientando o seu papel na promoção da transformação social e a forma como, nas suas intervenções, nos seus últiplos contextos, devem considerar a especificidade das dimensões sócio-económicas e adaptar as intervenções, procurando ser mais sensíveis a estas dimensões e, logo, potencialmente mais eficazes e efectivas/os nos seus objectivos. Procurei, ainda, tratar as questões dos impactos da pobreza na infância e dos ciclos intergeracionais de pobreza, bem como explicitar o período específico (e a janela de oportunidade) que constitui os (primeiros) “1000 dias”, conceito e abordagem que neste artigo há meses desenvolvi: https://www.linkedin.com/pulse/1000-dias-tiago-pereira/

Termino, como terminei. Perguntou-me se estava optimista que as psicólogas e psicólogos poderiam “erradicar a pobreza”. Respondi que não, certamente que não, mas… Que estou optimista que, se isso for nossa prioridade, enquanto sociedade podemos efectivamente caminhar para a erradicação da pobreza e que será sempre mais simples fazê-lo se usarmos mais o conhecimento da ciência psicológica e o contributo da prática das psicólogas e psicólogos.

Assim o disse. Assim o sinto. Assim o espero que o sintam.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Sozinho na Organização: Segurança Psicológica, bem-estar e potencial humano (Ao redor…; 05.12.2023)

Vivemos um momento do Mundo que nos recorda a cada dia, não necessariamente pelos melhores motivos, que a história se pode repetir. Ou, pelo menos, conforme a frase que se atribui a Mark Twain, que a história, não se repetindo, rima. Penso várias vezes nesta frase quando me confronto com os mesmos problemas base em algumas sociedades ou organizações que se manifestam, depois, de formas diversas. Não, de facto não se repetem, rimam porém.

Senão vejamos. Pensemos em dois nomes: George Floyd e Rodney King. Ambos cidadãos norte americanos, brutalmente espancados por polícias numa situação banal das suas vidas (após conduzirem uma viatura). Ambas situações filmadas, partilhadas publicamente e desencadeadoras de impressionantes e, por vezes, violentas manifestações. Manifestações como as do movimento “Black Lives Matter” que, como a tantas outras pessoas, estou certo, muito me impactaram. Ou como os “Distúrbios de Los Angeles de 1992”, parte do meu imaginário, também documental, pós-absolvição em tribunal dos polícias envolvidos na agressão a Rodney King e que conduziram a mudanças significativas, incluindo um novo julgamento que resultou na condenação de dois dos polícias envolvidos e a uma frase profundamente impactante do advogado de King: “Finalmente conseguimos filmar o Monstro do Lago Ness.”

O racismo, portanto, numa das suas expressões. Mas outros exemplos poderia partilhar, de misoginia ou desigualdade de género, homofobia, desrespeito pelas diversas expressões e orientações sexuais, fundamentalismo religioso ou idadismo. Trago, no entanto, outro “monstro”. Por vezes invisível, mas perturbador, impactante, bloqueador, que rima entre tempos e equipas e organizações. A insegurança psicológica.

Falamos em baixos salários, e ainda bem. Em precariedade, e ainda bem. Falamos em desmotivação das equipas, e ainda bem. Em dificuldades de conciliação da vida pessoal, familiar e profissional, e ainda bem. Falamos de cansaço, de burnout, e ainda bem. De modelos de trabalho, e ainda bem. Não falamos, geralmente, da segurança psicológica enquanto elemento fundamental ao bem-estar no contexto de uma equipa ou organização, ao desenvolvimento, ao potencial humano e à produtividade.

Falamos muito pouco de como os nossos contextos, particularmente os de trabalho, são organizados no sentido de estimularem verdadeiramente a inclusão de todas as pessoas quando estão nos seus melhores, mas também nos seus menos bons, momentos. Falamos muito pouco da criação de ambientes seguros para trabalhadores e trabalhadoras expressarem e vivenciarem as suas ideias e a sua identidade, quer seja social, cultural, religiosa ou outra. Como os contextos promovem ou não promovem a possibilidade da pessoa, numa equipa ou numa organização, correr riscos interpessoais, criticar construtivamente, ter abertamente opiniões e assumir posições não maioritárias sem que a percepção da consequência destes actos resulte no seu evitamento ou numa penalização que acometa sofrimento ou outras consequências negativas.

No fundo, de como a segurança psicológica é fundamental à boa comunicação, importantíssima em contextos de e com diversidade. À coesão, fulcral à flexibilidade, honestidade e confiança, tão relevantes, por exemplo, aos modelos de trabalho híbrido e personalizados a cada trabalhador/a. À possibilidade de expressão emocional, de diferentes emoções, de podermos estar sem estar sempre bem, estar com as nossas vulnerabilidades, sentindo-nos apoiados, suportados e não ameaçados e julgados. Como é fundamental ao trabalho em equipa, à aprendizagem e desenvolvimento profissional de trabalhadoras/es e equipas. À boa tomada de decisão, à exploração de cenários, soluções e ao pensamento crítico. À investigação. À criatividade.

Como, ao contrário, a ausência de segurança psicológica obstaculiza o envolvimento, a relação, o auto e heterocuidado. Como promove a desresponsabilização individual e colectiva e a desconfiança.

A segurança psicológica, muitas vezes mais do que aquilo de que quotidianamente falamos e ouvimos ser discutido, é base e suporte de tudo isto e de todas e todos. É base de desenvolvimento, de prosperidade e de produtividade de equipas e organizações, porque empodera as pessoas, potenciando-as. Porque cria verdadeiros caminhos para mais e maior propósito sentimento de pertença e significado. Para maior possibilidade de bem-estar e saúde, incluindo mental, a partir do local de trabalho.

É por ser um elemento central hoje numa organização que julgo relevante sublinhar que a formação e desenvolvimento de lideranças de equipas e organizações deve atender à priorização, intencionalização e a competências, valores e comportamentos chave para a promoção da segurança psicológica. Deve, portanto, apoiar a criação de climas organizacionais inclusivos e positivos, onde cada pessoa possa ser validada e considerada no seu contributo, também por via de estilos de liderança mais suportivos ou participados, onde as emoções e o exemplo sejam parte. Ou, noutro prisma, pela forma como as orientações e processos de trabalho são organizados, co-construidos e partilhados ou como o próprio espaço físico de trabalho permite lugares de interacção e relação securizantes e, logo, pensados e desenhados com essa intenção.

Devemos, neste sentido, caminhar no sentido de mais organizações falarem sobre este tema, se comprometerem com a criação de locais de trabalho promotores da segurança psicológica e, mais importante, serem consequentes com esse compromisso. Prevenindo dessa forma que tenhamos, na vida real das organizações, adaptações de histórias ficcionais clássicas que nos habituamos a ver e rever em período de Natal.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, entramos em Dezembro e com Dezembro chega um imaginário de filmes, músicas, casas e ruas decoradas. Chegam momentos de encontro e reencontro que, infelizmente não para todas as pessoas, trazem conforto, afecto, carinho. Trazem segurança, incluindo psicológica. Que esta época nos inspire a um maior compromisso com a promoção da segurança psicológica nos diversos contextos, equipas e organizações. Que nos inspire a rimar a época ao longo do ano, projectando o conforto, afecto e carinho. Possibilitando mais bem-estar, florescimento e maior potencial de cada pessoa se cumprir com o apoio e suporte de todos nós.

Tiago Pereira

Sozinho na Organização: Segurança Psicológica, bem-estar e potencial humano

in Sábado (Ao redor…); 05.12.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sozinho-na-organizacao-seguranca-psicologica-bem-estar-e-potencial-humano

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

(Des)equilíbrios em Saúde Mental

“Aqui e a vós voltarei quando, muito em breve, a RTP Açores transmitir o debate”, escrevi aqui há dias. E… Aqui estou, para partilhar convosco a série “Mental Talks”, integrada no “Lo(u)cotório”, um projecto promovido pela ARTAC na Região Autónoma dos Açores, que tem como principal objectivo “contribuir para uma comunidade mais informada em saúde mental e participativa no combate ao estigma associado à doença mental.”

Conforme o compromisso, partilho a ligação ao primeiro episódio onde eu, o Daniel Rijo e a Marta Bulhões, sob o mote “(Des)equilíbrios em Saúde Mental”, discutimos os determinantes socais da saúde/doença mental e o papel do estigma, da literacia e do auto e heterocuidado na promoção da saúde mental. Fizêmo-lo reflectindo, também, sobre estratégias e factores de risco de risco e protecção, incluindo questões associadas ao binómico vida pessoal e familiar/trabalho e o impacto do mesmo na saúde mental, além, claro está considerando as especificidades da Região Autónoma dos Açores, da reflexão de como a ciência pode informar as políticas públicas nestas áreas (saúde, social, educação, …) e de como os primeiros anos de vida são fundamentais para promover mais oportunidades de bem-estar e autodeterminação ao longo da vida.

Voltando a agradecer a confiança e o convite para dar o meu contributo para o projecto à sua coordenador científica (Célia Maria Barreto Carvalho) e à sua equipa de produção (Sara Ponte e Filipe Tavares), deixo também a ligação do 2º episódio, onde sob o mote “(Des)construir a identificação e o tratamento da doença mental” participaram a Joana Moura Cabral, o João Mendes Coelho e a Vanessa Goulart Amaral (https://www.rtp.pt/play/p12510/e732936/mental-talks-2023).

Deixo, ainda e finalmente, o convite para assistirem amanhã na RTP Açores (ou depois na plataforma RTP Play) ao 3º e último episódio, onde sob o mote “(De)stressar e conviver com a ansiedade” participam a @Maria do Céu Salvador, a Marta Rebelo e o Pedro Morgado.

Dizia, também no texto que mencionei na abertura, que este era um “projecto com uma imagem forte, com qualidade, pertinência, seriedade e, creio, impacto. Um projecto a seguir, a continuar e com potencial de inspiração para a acção de outras pessoas e entidades, de outros territórios, nesta importante área.” Dizia-o e reforço-o. Conforme reforço o meu – e penso, nosso, de todas as pessoas que participaram no projecto – compromisso com a missão de contribuir, dia-a-dia, “para uma comunidade mais informada em saúde mental e participativa no combate ao estigma associado à doença mental”. Para uma sociedade mais sensível e inclusiva, com maior equidade e com mais possibilidades de saúde, bem-estar e autodeterminação para todas as pessoas.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Sozinho na Organização: Segurança Psicológica, bem-estar e potencial humano

“Vivemos um momento do Mundo que nos recorda a cada dia, não necessariamente pelos melhores motivos, que a história se pode repetir. Ou, pelo menos, conforme a frase que se atribui a Mark Twain, que a história, não se repetindo, rima. (…) Pensemos em George Floyd e Rodney King. Ambos cidadãos norte americanos, brutalmente espancados por polícias num momento banal das suas vidas, situações que desencadearam o “Black Lives Matter”, os “Distúrbios de Los Angeles de 1992” e a célebre frase do advogado de King: “Finalmente conseguimos filmar o Monstro do Lago Ness.”

“Sozinho na Organização: Segurança Psicológica, bem-estar e potencial humano”, 71º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) não trata o racismo, a misoginia ou o fundamentalismo religioso, antes outro “monstro”. “Por vezes invisível, mas perturbador, impactante, bloqueador, que rima entre tempos e equipas e organizações. A insegurança psicológica.”

É que “falamos em baixos salários e precariedade, e ainda bem. Falamos em desmotivação das equipas, e ainda bem. Em dificuldades de conciliação da vida pessoal, familiar e profissional, e ainda bem. Falamos de cansaço, de burnout, e ainda bem. De modelos de trabalho, e ainda bem. Não falamos, geralmente, da segurança psicológica enquanto elemento fundamental ao bem-estar no contexto de uma equipa ou organização, ao desenvolvimento, ao potencial humano e à produtividade.”

No artigo abordo, com detalhe, a importância da segurança psicológica. Como é “fundamental à boa comunicação, importantíssima em contextos de e com diversidade. À coesão, fulcral à flexibilidade, honestidade e confiança, tão relevantes, por exemplo, aos modelos de trabalho híbrido e personalizados a cada trabalhador/a. À possibilidade de expressão emocional, de diferentes emoções, de podermos estar sem estar sempre bem, estar com as nossas vulnerabilidades, sentindo-nos apoiados, suportados e não ameaçados e julgados. Como é fundamental ao trabalho em equipa, à aprendizagem e desenvolvimento profissional de trabalhadoras/es e equipas. À boa tomada de decisão, à exploração de cenários, soluções e ao pensamento crítico. À investigação. À criatividade.”

Também, como, “ao contrário, a ausência de segurança psicológica obstaculiza o envolvimento, a relação, o auto e heterocuidado. Como promove a desresponsabilização individual e colectiva e a desconfiança.” Ainda, como a formação de lideranças lhe deve, necessariamente, atender, estimulando, entre outros, a “criação de climas organizacionais inclusivos e positivos”.

Que Dezembro, momento de encontro e reencontro para muitas pessoas, de segurança, incluindo psicológica, “nos inspire a um maior compromisso com a promoção da segurança psicológica nos diversos contextos, equipas e organizações. Que nos inspire a rimar a época ao longo do ano, projectando o conforto, afecto e carinho. Possibilitando mais bem-estar, florescimento e maior potencial de cada pessoa se cumprir com o apoio e suporte de todos nós.”

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

+ Jornadas SPC

“D’antigamente à livre mente”, foi o mote das II Jornadas do Serviço de Psicologia Clínica do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa . Encontro que fez do passado 29 de Novembro, dia de partilha, reflexão e de desenvolvimento profissional, é certo, mas também pessoal, porque foi momento de (re)encontro de um conjunto alargado de psicólogas/os e outras/os profissionais.

Tive duas intervenções nestas Jornadas. A primeira, na sessão de abertura, permitiu que reforçasse o pioneirismo da equipa do Centro Hospitalar em fazer crescer e consolidar o Serviço de Psicologia Clínica e fazer dele, há anos, o primeiro de Portugal Continental a receber e financiar anualmente um conjunto de psicólogas/os júnior, alguns hoje plenamente integrados na equipa.

Sublinhei o momento que vivemos na saúde (nomeadamente a organização da ULS) que, comportando naturalmente a complexidade da mudança, traz também oportunidades, particularmente na área da psicologia, reforçando a disponibilidade de contributo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, também com a equipa que tem apoiado este processo coordenada pelo Eduardo Carqueja. Finalmente, deixei um estímulo a que o pioneirismo continuasse numa melhoria e capacitação do Serviço para o aprofundamento da diferenciação das suas respostas; para a consolidação de intervenções baseadas na melhor evidência disponível (what works), para a forma como devemos atender, mais, aos acontecimentos / momentos de transição desenvolvimental e ter uma atitude de prevenção dos problemas de saúde mental ancorada na promoção e na protecção em momentos chave; e, finalmente, para o imperativo do investimento no desenvolvimento profissional e na possibilidade de auto e heterocuidado da equipa.

Fi-lo agradecendo o acolhimento na pessoa do presidente do CA, Carlos Alberto, a toda a equipa. Fi-lo, ainda, na pessoa da Marcia Mendes a todo o Serviço, a organização das Jornadas e o convite para a segunda intervenção.

Esta na mesa “Locais de Trabalho Saudáveis – Motivação das Equipas”, moderada pela filipa carneiro e que contou com interessantes intervenções, experiências e perspectivas do Hugo Lopes e do Ricardo Costa.

Na intervenção, que apelidei de “+ Jornadas SPC”, foquei-me nestas iniciais do Encontro, transformando-as para sublinhar a importância da jornada (conjunta) e do incrementalismo na motivação das equipas. Motivação enquanto factor importante mas não único responsável pelo nosso comportamento, reforçando o papel da capacidade, oportunidade e do envolvimento que, necessariamente, decorre também da Segurança Psicológica dos contextos (de trabalho), para terminar com a importância da Comunidade (equilibrando a hiperespecialização e dispersão de actos) e da Confiança, fundamental a todas as equipas/processos.

Espero que tenham sido contributos interessantes e espero, também, pelas III Jornadas, enquanto marco do caminho de afirmação do Serviço de Psicologia na resposta integrada de promoção de saúde e bem-estar daquela grande comunidade.