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Isaac Asimov

Isaac Asimov é, para muitas pessoas, a figura mais importante da “ficção científica moderna”. Foi um cientista e um autor extraordinário, com uma obra vasta e um legado muito relevante no pensamento e comunicação da ciência, na literatura e, através deles, no desenvolvimento tecnológico, com particular incidência nas áreas da robótica, da inteligência artificial (IA) e da reflexão ética sobre os seus impactos nas pessoas e sociedade. Morreu em Abril de 1992, 15 anos antes do primeiro iPhone.

Mathias Théry, realizador francês, montou em documentário (“Isaac Asimov, Uma mensagem para o futuro”) um trabalho interessantíssimo que resulta da IA, hoje, tão proficuamente imaginada por Asimov há muitas décadas. Partindo de trabalhos escritos, participações na comunicação social, aulas e outras intervenções públicas, é construído um texto dito por um Asimov cujo rosto foi recriado e animado por IA.

Um texto que começa sublinhando que a “ficção científica, para a maioria dos não familiarizados com o tema, significa livros de comics e filmes de terror”. Diz, Asimov que, é muito mais que isso e que sendo um “ramo recente da literatura, uma criação com dois séculos, preenche as mesmas necessidades que durante milhares de anos tinham pertencido aos antigos mitos e lendas… A necessidade de histórias colectivas, o anseio pelo espantoso e o desejo de decifrar os mistérios do Mundo.” Diz, Asimov, “todos os dias escrevi de modo a imaginar o que vos [a nós, seres humanos no século XXI] poderia acontecer porque estava convencido que a ficção científica pode ajudar a humanidade por conter poderes que são mais do que nunca necessários à sobrevivência da espécie”.

Ao longo do documentário procura-se explorar esta questão, particularmente a partir da assunção de Asimov que é o facto da ficção científica aceitar e propor pensar as histórias numa sociedade diferente – futura e com mudanças – que nos ajuda a preparar e a participar, intervir e condicionar essa mudança. “Ilumina a condição humana”, diz.

O documentário termina com Asimov a referir que não tem pena de não ver nenhum dos “futuros possíveis”, porque estudou, imaginou e escreveu sobre muitos futuros deles como se tivesse lá estado. “A minha mensagem é que a ciência e as novas tecnologias, se bem direccionadas, conseguem resolver os sérios problemas que enfrentamos hoje. E que também conseguem aniquilar a sociedade. É por isto que penso que as gerações jovens têm uma missão, de adquirir o conhecimento que lhes permita influenciar o uso que será dado a estas tecnologias.”

É por isso que acrescento que todos, mas em particular as gerações jovens, têm a missão de contribuir para uma sociedade melhor para todas as pessoas, conhecendo-a, participando e influenciando-a, também politicamente. Para imaginarmos futuros, melhores.

Para não apenas respondermos à pergunta que abundantemente Asimov fazia – “Para onde vamos? Para onde vamos?” – mas influenciarmos decisivamente a sua resposta.

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A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal

“Mas, mais do que estas coincidências, queria reflectir sobre três temas superiormente tratados por Roth no “Conspiração contra a América” e profundamente actuais e decisivos em Portugal: a complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a”. Assim começo, depois de assinar que Roth nasceu no dia do referendo constitucional que em Portugal “validou a constituição de 1933 e institucionalizou o Estado Novo” e que Charles Lindberg, figura chave do livro, tem um monumento em Valença que assinala uma amaragem forçada que fez no Rio Minho também em 1933.

“A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal”, 76º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre “como compactuarmos e sermos complacentes, particularmente em momentos de crise, divisão e polarização, negando, justificando ou desconsiderando propostas, sinais e comportamentos anti-democráticos, autoritaristas ou anti-direitos humanos, pode resultar em ameaças sérias ao bem-comum.”

Descreve “como ao contrário do que podemos por vezes pensar, as ameaças constroem-se muito antes dos dias das votações, num processo decremental, de enfraquecimento das instituições democráticas, da confiança e dos valores, que decorre capilarmente na sociedade. Rua-a-rua, em conversas e reuniões, normalmente primeiro privadas, depois em conversas e debate públicos com laivos de bizarrice e estranheza, para, em seguida, serem legitimados, normalizados e naturalizados, mesmo por quem os considerava impróprios porque, tendo entrado na ordem do dia social e política, são fundamentais às audiências, ao debate de determinados temas ou a determinadas estratégias políticas.”

Portanto, como “todas e todos temos nesse processo um papel, sendo-nos exigida uma posição activa de não aceitação, de não complacência e de acção para preservação e defesa do bem-comum, chave para o bem-estar individual e colectivo presente e futuro.”

Termino mencionando os impactos potenciais destas questões na aspiração do país e Mundo à “equidade, justiça social e desenvolvimento sustentável”, defendendo que “o momento que vivemos implica que nos tornemos activistas do ideário democrático, de paz e de direitos humanos. Que, como R. Reich recentemente escreveu, “não sucumbamos à complacência e ao cinismo”, que confrontemos “as mentiras e falsidades com verdades e factos”, que não aceitemos “a intolerância e o ódio”, que sejamos “compassivos” com as pessoas que apoiam ideias contrárias a este ideário, mas “firmes na sua oposição”. Que não nos “distraiamos com histórias sensacionalistas” sobre as pessoas “providenciais” de cada país e, essencialmente, não esqueçamos que a “acção é mais que a manifestação”.

Uma “acção fundamental e quotidiana de cada um/a, junto das pessoas ao nosso redor, da nossa família, amigos e colegas de trabalho ou grupo. Nas conversas privadas e públicas. Nos debates, quaisquer que sejam. Acção firme, combativa, construtiva e com propósito.”

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Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência (Ao redor…; 30.01.2024)

Estou a ler um livro cuja epígrafe é dedicada “aos professores de humanidades, que, seguindo os passos de Ulisses, nos protegem dos lotófagos e do esquecimento”. A ilha dos “lotófagos” é uma construção de Homero acerca de um povo que, ingerindo a flor de lótus, viveria em permanente estado de amnésia induzida, mas, simultaneamente e por via desse estado, sempre com possibilidade de “começar de novo”. Uso parte dessa epígrafe para a epígrafe do artigo: que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência dos Hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

As sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus Serviços de Urgência, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes – decisoras/es políticos, gestoras/es, profissionais, entidades parceiras e utentes. Fazê-lo e assumirem-se os sucessos, mas, também, os naturais erros e falhas destes processos para, em consequência, se melhorar, progressiva e incrementalmente, adaptando e aproximando os Serviços às necessidades e expectativas das pessoas e potenciado a sua articulação eficiente e eficaz com os diversos níveis do sistema.

Escrevia o Francisco Mendes da Silva, há dias, num artigo sobre imigração em Portugal – mas, acrescento eu, podia dizer sobre os Serviços de Urgência – que não existe um debate, antes “uma simulação de debate. Uma vozearia desordenada, uma espécie de ruído branco provocado por gente que trata o tema a partir de conclusões, não de premissas”. Conclusões lotófagas, quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência disponível, sempre influenciadas por casos específicos, desde as dificuldades de resposta sazonais ou picos de crise, a casos trágicos e/ou mediáticos. Conclusões pautadas por uma espécie de amnésia sobre as causas que aprofundam os problemas, causas que, em grande medida, em Portugal e em parte significativa do Mundo com o qual para estes fins nos procuramos comparar, apenas têm piorado (falta de profissionais de saúde, particularmente de médicas e médicos e de valorização dos profissionais existentes, por exemplo) e piorarão com o passar dos anos (envelhecimento da população e carga de doença/medicação, maior complexidade das doenças, …).

Estas conclusões são ainda pautadas pelo esquecimento do fundamental do que há a fazer, do quão existe conhecimento e qualificação no país para o fazer e confiança dos cidadãos no SNS que, apesar de todas as situações menos positivas dos últimos anos, continua a ser um serviço que no quadro dos países da OCDE é avaliado pelos portugueses como mais positivo do que a avaliação média dos cidadãos dos países da OCDE face aos seus serviços de saúde públicos. Como acima escrevi, Homero atribuía aos lotófagos esta esperança, sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.

O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos. Como qualquer processo desta natureza, beneficia de debate público e de contributos, particularmente os que resultem da experiência de quem dia-a-dia enfrenta os desafios que se colocam, hoje, aos Serviços de Urgência. Beneficia da melhor evidência disponível e da observação e reflexão de diferentes experiências, desde as que demonstram resultados às que os não demonstraram. Necessita, pois, de ser faseado e particularizado, em virtude não apenas da importância da experimentação, mas, particularmente, do quão diferentes são as realidades de necessidades e recursos de Hospital para Hospital e de região para região.

Processo que pode e deve ser suportado na utilização das transformações em curso como estímulo e não obstáctulo. Dos investimentos na digitalização na área da saúde, previstos no PRR, ao potencial da inteligência artificial e dos avanços na realidade virtual e aumentada, passando pela nova organização da Direcção Executiva do SNS, pelos níveis crescentes de literacia da população e, até, apesar dos riscos da desinformação e desconfiança na ciência e instituições, dos elevados níveis de vacinação da população e de adesão a comportamentos pró-saúde se promovidos pelas autoridades.

Nesta transformação há espaço para o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos. Desde logo, para uma melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza, incluindo em situações que, como se esperam, irão implicar o deslocamento de utentes e acompanhantes para outras unidades de saúde e/ou momentos de atendimento. Também, no necessário reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis. Ainda na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no Serviço de Urgência, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo, fundamentais a uma melhor gestão de expectativas, estabilidade e bem-estar especialmente em momentos particularmente sensíveis.

Noutro prisma, a integração de psicólogas/os nas equipas das urgências resulta num melhor apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais. Resulta, também e em equipa multidisciplinar, num contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas. Parte destes contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do Serviço de Urgência, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é imprescindível tornar urgente a reestruturação dos Serviços de Urgência em Portugal, país com maior número de episódios de urgência anuais per capita da OCDE, onde mais de 40% desses episódios são classificados como não urgentes e onde essas urgências não têm permitido a urgência dessa transformação. Como é imprescindível que esta reestruturação parta da compreensão dos factores psicológicos, comportamentais e organizacionais que determinam os indicadores anteriores e seja capaz de alterar os estímulos e obstáculos que se colocam às mudanças, também pela facilitação e melhoria do acesso e da equidade de acesso às verdadeiras portas de entrada de maior proximidade do sistema – o SNS24 e os cuidados de saúde primários. Para todo este processo, todas as pessoas e profissionais são relevantes e devem (poder) assumir os seus papéis e disponibilizar os seus contributos, incluindo as psicólogas e psicólogos e a ciência que ajudam a produzir, que tanto informa sobre como decidimos e nos comportamos.

 

Tiago Pereira

Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência

in Sábado (Ao redor…); 30.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/como-tornar-urgente-o-que-as-urgencias-nao-permitem-ser-urgente-nos-servicos-de-urgencia

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Blitz…

Depois da ocupação da França pela Alemanha dirigida e governada pelo Partido Nazi, a partir 7 de Setembro de 1940 e durante cerca de 8 meses, centenas de aviões da Luftwaffe, brigada das Forças Aéreas Alemães, utilizaram cerca de 80.000 bombas para destruir centenas de milhares de edifícios na região de Londres e noutras cidades do Reino Unido.

Esta operação, apelidada de Blitz (provém de “Blitzkrieg“- Guerra Relâmpago), é, ainda hoje, alvo de particular interesse histórico, também pela forma como a sociedade britânica se procurou “adaptar” às circunstâncias e resistir ao medo, à destruição e à perda, sendo célebres a forma como, por exemplo, o comércio e os estabelecimentos de rua em Londres se mantiveram a funcionar e os famosos cartazes “More open than usual” [(Ainda) mais aberto que habitualmente], numa referência aos estabelecimentos continuarem a trabalhar e a “servir”, muitas vezes sem fachadas, telhados, vidros…

Um exemplo de resiliência colectiva, claro está, mas resultante de uma “união muito forte” e de mobilização conjunta, sem polarizações, num momento em que todas e todos, independentemente da classe social, do partido, do clube, (…) se uniram para, antes de mais, vencerem o medo, o desânimo, a incerteza e, depois, o inimigo.

Mais de 80 anos volvidos, dizia há pouco, permanece como um caso de estudo, caso de estudo que penso devermos evocar. Com as naturais e expressivas diferenças, a população mais jovem, hoje profundamente desafiada na sua saúde mental e bem-estar, olha o futuro e a sua complexidade com significativos receios… E, também aqui, duas notas:

a) A união, a relação, a construção de propósito são os principais antídotos para vencer o medo, o desânimo, a incerteza e, depois, os inimigos, aqui corporizados nas dificuldades que a população mais jovem enfrenta hoje e enfrentará no futuro mais próximo e mais de médio e longo prazo;

b) A necessidade de promovermos pensamento, reflexão e perspectiva (incluindo histórica) também como fundamentos centrais para a população mais jovem pensar e garantir alguma segurança, controlo e a previsibilidade possível (fundamental ao bem-estar) face aos desafios hoje e no futuro mais próximo e mais de médio e longo prazo.

Ainda há semanas, após um simpático convite de uma colega e amiga, estive numa Escola de Évora, com um conjunto de turmas de 9º ano, para assinalar o início simbólico do Programa de Desenvolvimento Vocacional de um Agrupamento de Escolas a pensar estes temas. Estive, portanto, com jovens a olhar o passado, o presente e a procurar pensar o futuro, em torno da forma como tomamos decisões (e o que também o influencia), como nos comportamos e como tendemos a olhar-nos, a olhar as outras e os outros e o Mundo.

No fundo, a procurar reforçar (e a contribuir nesse sentido, espero) como precisamos, hoje, de estar “more open than usual” e unidas/os.

Todas e todos.

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10 resoluções de Ano Novo para salvar a democracia Americana

“1. Torne-se um/a activista para nos assegurarmos que Trump não é eleito.

2. Não sucumba à tentação da complacência ou do cinismo. Os riscos são demasiado elevados.

3. Confronte as mentiras e falsidades com verdades e factos.

4. Não aceite a intolerância e o ódio.

5. Não recorra a insultos, bullying, intimidação, violência ou qualquer outra táctica que as/os apoiantes de Trump podem estar a usar.

6. Seja compassiva/o com as/os apoiantes de Trump mas firme na sua oposição.

7. Não perca tempo e energia a compadecer-se com pessoas que já concordam consigo.

8. Não decida ficar de fora desta eleição ou votar num candidato de um terceiro partido só porque não gosta especialmente de Biden e está cansada/o de votar no “menor de dois males”.

9. Manifeste-se, mas não esqueça que a acção política é mais que a manifestação.

10. Não se distraia com a mais recente publicação ou história sensacionalista do ou sobre o Trump.“

Partilho uma tradução possível das “10 resoluções de Ano Novo para salvar a democracia Americana”, partilhadas num artigo de Robert Reich, passa hoje 1 mês.

Com e face a Trump, mas…

Algo a retermos, a reflectirmos, quando, em Portugal, mais uma sondagem, ontem, confirmava uma força política com slogan “Limpar Portugal” como terceira força política em Portugal, eventualmente a caminhar para o mais alto resultado de sempre de uma terceira força política, nas eleições legislativas de Março próximo. Algo a retermos, a reflectirmos, quando, em Portugal, amanhã, está agendada para Lisboa uma XXXXXXXX [por favor escolher o nome] de pessoas com o mote “Contra a islamização da Europa”.

Robert Reich diz também no artigo: “Se quer fazer algo positivo, use a sua energia para combater a possibilidade de voltarmos a ter Trump como presidente”.

Com o final da semana à porta, aconselho, vivamente, o artigo e a reflexão de como devemos usar a nossa energia para combater a possibilidade de voltarmos a ter… Isso e recordarmo-nos, sempre, do quanto devemos a tantas e tantos que, abnegadamente e por nós, lutaram e arriscaram muito (por vezes a réstia de liberdade, outras mesmo a vida) para que em Abril próximo possamos comemorar 50 anos do 25 de Abril.

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Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência

“Que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência (SU) dos Hospitais do SNS”, passagem que, baseada na epígrafe do livro que me encontro a ler, escolhi para epígrafe do…

“Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência”, 75º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) que reflecte como “as sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus SU, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada, com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes.”

Explicando porque entendo que esquecimentos e conclusões “lotófagas”, “quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência e sempre influenciadas por casos específicos” não o permitem. Mas na “ilha dos lotófagos” de Homero, além da amnésia auto-induzida, existia esperança, “sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.”

“O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, onde qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos” (…), beneficia (entre outros, detalhados no artigo) da observação e reflexão de diferentes experiências e das transformações em curso na área da saúde, nomeadamente da digitalização e de outros avanços tecnológicos.

Beneficia, ainda, do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos:

  1. Para melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza;
  2. No reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis;
  3. na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no SU, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo;
  4. no apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais;
  5. no contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas.

“Parte destes (importantes) contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do SU, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.”

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A desconfiança, a negatividade, a ética e os próximos 54 dias (Ao redor…; 16.01.2024)

Este ano que agora começou será particularmente importante para a Democracia no Mundo. Esta minha afirmação resulta, não apenas dos complexos desafios que enfrentamos globalmente, como a crise climática, migratória e da desigualdade ou dos conflitos armados e tensões geopolíticas em diversas regiões. Resulta, também, da sua conjugação com um 2024 com um número de eleições impressivo, com a ascensão de partidos/personalidades populistas e radicais com condições de ganharem ou influenciarem decisivamente eleições, particularmente à direita do espectro político, e, destas, com a crescente polarização da sociedade e utilização do ressentimento, do medo e do ódio, também via redes sociais, como veículos de apelo ao voto e mobilização para acções, nomeadamente de protesto ou confronto, por vezes violentas.

Ruchir Sharma sublinhava há dias no Finantial Times que 2024 será o ano desde que há registos em que mais população será chamada a votar (46% da população mundial, incluindo as legislativas em Portugal e as eleições nos EUA, Índia e Indonésia, três das “maiores” democracias). Paralelamente assinalava também ser um dos momentos históricos em que é mais prejudicial ser-se primeira/o-ministra/o ou presidente em exercício para se ser reeleita/o. É deveras impressionante a mudança dos últimos 20 anos: considerando as 50 maiores democracias, se em 2003, em média, 70% das/os incumbentes ganhava eleições, hoje são apenas 30%, algo que inverte a vantagem que historicamente existia para quem se recandidatava. Mas mais, são também historicamente baixas as taxas de aprovação no geral das/os líderes políticas/os globalmente, sendo a taxa de aprovação de Biden a mais baixa de sempre neste momento do mandato (39%, no último estudo da Gallup), mas comparável às de Kamala Harris e do “Speaker” Mike Johnson (40%), do líder Democrata no Senado (Chuck Schumer, 43%) e superior, ainda assim, à do líder Republicano (Mitch McConnell, 27%).

São diversos, complexos e interrelacionados os motivos desta alteração. Desde logo os acima expostos e sobre os quais nesta rubrica e em diferentes artigos já reflecti. Outros também já aqui tratados como são exemplo a crise da confiança e a menor proximidade percebida dos maiores partidos (“catch all parties”) às pessoas, suas necessidades, desejos e expectativas. Mas há também na sociedade, hoje, uma menor tolerância ao erro, mais elevadas expectativas e rápidas e profundas alterações sociais, culturais e demográficas. Tudo questões centradas ou que impactam no comportamento humano, nos processos de tomada de decisão e que ganham maior importância num tempo em que as novas tecnologias de informação e comunicação influenciam decisivamente como socialmente nos informamos, comunicamos, posicionamos e relacionamos.

Tudo elementos que aprofundam o facto de notícias, informações e experiências negativas terem mais relevância, serem mais recordadas e evocadas por nós e determinarem mais a nossa percepção da realidade e o nosso comportamento face a notícias, informações e experiências positivas. Um fenómeno psicológico chamado “viés da negatividade”, explorado por partidos e personalidades populistas que, ampliando e fazendo uso das causas atrás descritas, as aprofundam. Um exemplo: usam, com fins eleitorais, a desconfiança dos cidadãos nas instituições – algo que, só por si, contribui para mais desconfiança, num ciclo perigoso para a democracia, coesão social e para uma sociedade de bem-estar, direitos e possibilidade de autodeterminação para todas/os.

As consequências desta situação, particularmente (mas não apenas) em quem se recandidata, são também diversas, (potencialmente) complexas, interrelacionadas e reforçadoras destes ciclos. São, desde logo, um estímulo para uma tentativa de maior controlo do ambiente mediático e político, colocando em risco uma mais ampla participação e debate. São um incentivo para “tudo se prometer”, independentemente da capacidade ou possibilidade para se cumprir, desvirtuando programas e ideologias políticas, “fulanizando” as campanhas e diminuindo a capacidade de atração de eleitoras/es pela adesão ao projecto, reforçando-se a atração por “repulsa” aos adversários, geradora de mais conflito não construtivo, de maior volatilidade e menor comprometimento. Provocam, também, mais e maior instabilidade política, menor capacidade de desenvolvimento de políticas públicas com sucesso e desincentivam a participação na política, diminuindo o apelo e a capacidade de atração das funções públicas e, logo, a qualidade potencial média das e dos decisores e da governação.

Mas há mais. Há quem tudo isto use abundantemente e, simultaneamente, se promova, qual cereja no topo do bolo, como o “único” capaz de introduzir ética na política. Isto mesmo quando tudo o atrás é, porventura, o que mais obstaculiza a percepção da associação entre ética e (decisão) política pelas pessoas. Quem o faz, fá-lo, também, recorrendo ao viés na negatividade, explorando a situação, o caso, a dúvida e o facto de hoje, particularmente em Portugal, existir uma associação entre falhas/erros na dimensão ética e questões legais/criminais, nomeadamente com a corrupção (convido a verificarem no Google Trends a evolução do número de pesquisas dos termos e de como hoje, em Portugal, praticamente se equipararem, numa quebra progressiva e significativa das pesquisas por ética e num aumento das pesquisas por corrupção).

Também por isso, todas e todos, candidatas/os ou não, comentadoras/es ou não, jornalistas ou não, cientistas ou não, activistas ou não, temos um papel fundamental nestes 54 dias que nos levarão às eleições. O de prevenir que se utilize a desconfiança, a negatividade e se use o conceito de ética apenas com intuitos políticos e populistas, desconsiderando-os efectivamente. O de utilizar o conhecimento disponível sobre como nos comportamos e tomamos decisões como antidoto para este impulso e como força para combatermos uma política de ressentimento, de medo, de ódio, de promoção da impossibilidade de construção conjunta e de debate e conflito construtivo e salutar.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos pensar e perguntar-nos sobre o que poderia ter acontecido de diferente, com comportamentos e decisões diferentes das tomadas, entre a data possível de confirmação do primeiro caso de COVID-19 em Wuhan a 01.12.2019 (data referida por entidades e organizações internacionais, mas não confirmada, sendo mesmo negada pelas autoridades da China) e o dever de recolhimento obrigatório decretado nesta região 54 dias depois, em 23.01.2020. Podemos perguntar-nos o que mudaria. Como podemos pensar de que forma podemos, enquanto pessoa e enquanto parte de uma comunidade, chamando a este tempo mais ciência, evidência, respeito, ética e centralidade às instituições, à Constituição portuguesa e aos Direitos Humanos, contribuir para 54 dias que nos levem a umas legislativas que reforcem a confiança, a esperança, o compromisso e a ética. Para 54 dias que promovam um foco, também, no bem-estar de todas e todos e no bem-comum. Que nos permitam ver outras e outros ao redor, em Portugal e no Mundo, e ter presente, sempre, o legado e a justiça intergeracional para com as gerações que nos sucederão.

 

Tiago Pereira

A desconfiança, a negatividade, a ética e os próximos 54 dias

in Sábado (Ao redor…); 16.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-desconfianca-a-negatividade-a-etica-e-os-proximos-54-dias

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Imprevisibilidade?

Há dias, Boris Johnson manifestando o seu apoio a Trump e referindo não acreditar que este, se eleito, retire o apoio à Ucrânia, defendeu que passariam assim a existir “todas as opções para que o Ocidente seja mais forte [com Trump] e para que o Mundo seja mais estável”. Disse, também, que é necessário “um líder Americano que esteja disposto a usar a força e que seja imprevisível para actuar como um dissuasor para os inimigos do Ocidente.” A usar da força e que seja imprevisível…

Imprevisível, portanto.

Num momento de profunda incerteza e de alta volatilidade pretendem, forças e personalidades políticas populistas, que abandonemos quadros de referência, estabilidade e direitos por uma nova “Lei”, baseada na força, na intimidação verticalizada do ou dos mais fortes e na imprevisibilidade. Imprevisibilidade que vai de mudanças drásticas em acordos ou políticas por decisão individual ou pouco transparente a discutir ou debater não cumprindo regras mínimas de civilidade e democracia, da confusão de factos com opiniões, da não aceitação da ciência à promoção do ódio e da desconfiança em pessoas, grupos e/ou instituições, prometendo, pelo caminho, tudo e o seu contrário. Trump, menos polido, sabe-o. Usa-o. Outros, alguns mais polidos, outros nem tanto, cá e noutros países, também.

Imprevisível, portanto.

Também por isso, talvez, 15 dos 27 países da UE têm, hoje, partidos da direita radical, populista ou mesmo da extrema-direita com 20 ou mais por cento de intenções de voto. E como isso impacta e nos impacta, hoje e para o futuro, a nós e a quem nos seguirá. Como impacta a coesão social e esse objectivo maior desta minha profissão, a procura, com os seus contributos, promover a possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas, num quadro de direitos (humanos). Como, parte destes partidos, alguns com responsabilidades governativas, são hoje desfavoráveis aos principais fundamentos da ideia de UE, alguns mesmo, como a AfD (essa referência para personalidades do partido da direita populista português e cujas posições estimularam a manifestação da fotografia da “AP Photo”), onde a líder abertamente aborda a possibilidade de saída da Alemanha da UE, apresentando o “Brexit” como “um modelo para a Alemanha” para ser “possível tomar uma decisão soberana”.

A previsibilidade, o controlo e a segurança (psicológica) são fundamentais à saúde mental e bem-estar. São, também, fundamentais a uma sociedade delas promotora, para todas as pessoas. Já a imprevisibilidade… Pensemos a Polónia, por exemplo, a partir deste texto do Timothy G. Ash (O Mundo deve aprender com a tragédia da Polónia: Restaurar a democracia é ainda mais difícil de que criá-la).

Timothy G. Ash que um dia disse que “precisamos de um idealismo realista e de um realismo idealista”, ambos dependentes do contributo, do empenho e do compromisso de todas e todos. Porque, se precisamos… Se precisamos.

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Pacto, compromisso, consequência.

Tinha acabado de minutos antes concluir a minha intervenção usando de uma fantástica frase do Gonçalo M. Tavares no ensaio “O futuro do clima, o clima do futuro” – “mudar o possível na direccão do excelente”.

Essa intervenção, na “Mental Health in Workplace Summit” e com o título “SP500 – Segurança Psicológica e o seu papel nas organizações” (mais informações aqui) teve como objectivo maior sublinhar a centralidade da segurança psicológica em contexto organizacional como base e suporte de toda e qualquer acção de promoção da saúde mental e bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores.

Minutos depois o Frederico Fezas-Vital pediu-me um contributo de apelo à participação de outras organizações, que pudessem e possam somar às já largas dezenas que subscreveram o “Pacto pela Saúde Mental nos Locais de Trabalho”, promovido inicialmente a partir do CRBL da Católica Lisbon School of Business and Economics. Fi-lo conjuntamente com a Katia Almeida, o James Mackie, a Mariana Ribeiro Ferreira e o Filipe Santos. Fi-lo, conforme agora partilho, procurando reforçar ser este o momento para um compromisso, também cívico e societal, das organizações se envolverem e se comprometerem com este tema e com esta dinâmica. Se comprometerem, pela sua produtividade e pelo seu desenvolvimento, claro está, mas também por toda a sociedade.

Fi-lo, depois e finalmente, apelando a que participem, façam parte, mas, essencialmente, sejam consequentes, porque…

Este é o momento de “mudar o possível na direccão do excelente”.

 

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Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica (Ao redor…; 02.01.2024)

 Creio não errar muito ao assumir que, para quem habitualmente cumpre esta tradição, este não terá sido um ano especialmente complexo para se pensar em 12 desejos, tais os desafios pessoais, profissionais e societais com que estamos, no geral, confrontados. Também não o é para cumprir esta minha pequena tradição de partilhar convosco um desejo para o novo ano que agora começa.

Poderiam, naturalmente, ser vários, incluindo o que partilhei para 2022 (“Construirmos mais Paz”[i]), poucas semanas antes do início da actual fase da invasão da Ucrânia pela Federação Russa, Guerra que persiste até hoje, a par de outras, incluindo civis, e, agora, da trágica situação no Médio Oriente. Ou o que partilhei para 2023 (“Promovermos mais bem-estar para todas e todos”[ii]), de actualidade premente, quando assistimos a movimentos sociais/políticos em ascensão que questionam o caminho de progressão das últimas décadas no sentido de maior equidade e do cumprimento dos direitos das crianças e humanos. Poderia desejar em torno da pobreza, da desigualdade, da crise climática ou das migrações. Tudo questões fundamentais, mas, o meu desejo para 2024 é caminharmos no sentido de termos um país mobilizado contra a violência doméstica.

Em 2023, no dia do meu aniversário, assisti a um concerto com os meus dois filhos, onde a cantora mostrou e leu um conjunto de nomes. Letras escuras em folhas brancas, um após o outro. Nomes de mulheres assassinadas em 2022, em Portugal. 28 Mulheres no total, 22 cujas vidas foram violentamente terminadas no contexto de relações de intimidade. 28 que somam a milhares de vidas, primeiro condicionadas, depois interrompidas, e a que se juntaram, até 15 de Novembro deste ano, 25 outras Mulheres.

Por cada morte, dezenas de episódios de violência são comunicados às autoridades (8443 apenas no terceiro trimestre de 2023) onde, muito maioritariamente, as Mulheres são vítimas. Mas, todas e todos sabemos, por cada ocorrência comunicada muitas outras passam por algo “não violento”, são “desculpadas” ou, muitas vezes, simplesmente escondidas, durante um tempo que invariavelmente conduz à vez sucessiva, à repetição, à cristalização. A violência doméstica, em particular no contexto das relações de intimidade, é um sério problema de saúde pública e condiciona decisivamente a vida e o bem-estar das pessoas que a vivem, directa e indirectamente, afectando a sua possibilidade de desenvolvimento e o desenvolvimento social e económico do país.

É um problema de saúde pública e, apesar disso, invariavelmente, tendemos a ser complacentes com este problema, enquadrando-o como de “duas pessoas” e não da sociedade. Partindo de um suposto equilíbrio, quase sempre inexistente, que pressupõe que cada decisão tomada no âmbito dessa relação seria totalmente livre, negligenciando perigos e potenciais intervenções sobre os mesmos, também de mitigação de riscos, e culpabilizando muitas vezes a pessoa mais vulnerável por “não resolver a situação”, quando carece de recursos internos e externos que lhe permitissem fazê-lo.

É um problema de saúde pública e, apesar disso, invariavelmente, tendemos para algum cinismo, não o discutindo publicamente e não lhe dando a visibilidade que merece e que permitiria, verdadeiramente, uma discussão e acção com potencial de alteração colectiva de comportamentos e atitudes sobre o mesmo. Em Espanha, por exemplo, é hoje assunto permanente na sociedade, não deixando ninguém indiferente, presente em debates políticos e envolvendo diversas entidades da sociedade civil mesmo quando os números são mais baixos se considerados proporcionalmente face a Portugal.

Por isso necessitamos de um país mobilizado contra a violência doméstica. Capaz de produzir mudanças definitivas nas normas culturais, sociais e religiosas que, por vezes, ainda concorrem para a minimização, para uma cultura de tolerância ou de não aplicação de Leis na violência, particularmente na violência doméstica. Um país mobilizado para mudar a cultura de medo e estigma ainda persistente e dar passos firmes no sentido da verdadeira igualdade de género, também nas matérias que envolvem a violência, em todas as suas formas. Mobilizado para mudar também na e pela Educação, prevenindo precocemente ciclos de reprodução geracional destes comportamentos, da violência nas relações de namoro às relações na idade adulta, sejam de intimidade ou profissionais.

Tudo isto é fundamental num país em que, apesar de tudo, parte das forças políticas parece desperta para esta realidade e tem procurado actuar, quer via legislação (a violência doméstica é crime público já desde 2000), quer via mecanismos de apoio social e casas de abrigo para vítimas ou mesmo das importantíssimas respostas de apoio psicológica para crianças e jovens vítimas de violência doméstica, operacionalizadas durante a pandemia, período particularmente sensível para as vítimas. Onde, também localmente, as Autarquias têm investido recursos e dado saliência ao fenómeno (veja-se o memorial construído pelo Município de Cascais) e onde associações profissionais e profissionais têm dado um contributo na consciencialização, literacia, prevenção e na intervenção junto deste problema (veja-se o “Memorial Mapa – Lembrar as Vítimas do Homicídio em Violência Doméstica”, criado pelo psicólogo António Castanho).

Mas muito mais há a fazer, incluindo não retroceder em algumas das conquistas e progressos nesta área. Tal implica mais e melhor educação e consciencialização. Mais e melhor sociedade civil, actuante e não complacente com esta matéria. Tal implica o combate a ideias e forças políticas que, cinicamente, criam condições para a perpetuação de desigualdades que estruturalmente determinam estes problemas. Forças políticas como o “Partido Chega” que, além de votarem declaradamente contra medidas de apoio a pessoas vítimas de violência (veja-se a proposta de atribuição de subsidio de desemprego a pessoas vítimas de violência doméstica e a justificação “moralista” e duplamente estigmatizante do voto contra – se “não se tiver cuidado poderá levar a que tudo seja vítima de violência doméstica” pelo que as pessoas têm que justificar “como são vítimas”, diria depois o seu líder parlamentar), procuram usar de transformações no sentido da maior equidade para, “utilizando” a percepção de perda de poder e controlo de determinados grupos na sociedade, o “acicatarem” com fins políticos, visando ganhos eleitorais momentâneos e desconsiderando as implicações sociais e políticas no presente e futuro do uso do medo, do ódio e do nós vs. outras/os.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, mobilizarmo-nos contra a violência doméstica é uma forma de promovermos a liberdade, aumentando as condições para cada ser humano, mas muito particularmente as Mulheres que mais sofrem, se procurar cumprir, também nas suas relações. “Metermos a colher”, sim, também porque muito do sofrimento que resulta de um país com indicadores sociais e económicos e de problemas de saúde mental muito preocupantes, decorre de anos e anos de violências várias e cíclicas e do sofrimento que delas resulta, sofrimento que uma acção concertada e mobilizada do país pode, verdadeiramente, mitigar, melhorando vidas de pessoas e criando outros futuros. Que 2024 veja essa acção. Que 2024 seja o ano que precisamos.

 

[i] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

[ii] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos

 

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica

in Sábado (Ao redor…); 02.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2024-um-pais-mobilizado-contra-a-violencia-domestica