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A dúvida e o regresso aos outros (Ao redor…; 08.11.2023)

O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante, por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento. Cada um de nós tem exemplos disso e não faltam histórias que o tratam, na nossa memória colectiva, umas reais, outras ficcionadas. Pensemos, por exemplo, no Titanic e na forma como a “White Star Line”, sua promotora, o promovia com uma narrativa assente numa suposta “inafundabilidade”, questionada pelas consequências sobejamente conhecidas do embate num iceberg meros quatro dias após o início da sua primeira viagem. Pensemos, por exemplo, no conto do “Patinho Feio” de Hans Christian Andersen e de como a narrativa evolui da ostracização e rejeição de um suposto “patinho” para o mais deslumbrante cisne do lago.

Sendo o Mundo em que vivemos desafiador e complexo, a dúvida é hoje, para muitas pessoas e usando das metáforas anteriores, um “patinho feio” e a ausência de dúvida, responsável por embates que as e nos afundam. Há diversas razões que o justificam. Da polarização, causa e consequência, também, da maior ausência de dúvida, à sobrecarga de informação e facilidade e rapidez de acesso à mesma, que estimula uma maior passividade na aceitação da informação. Passando pela forma como as redes sociais e os seus algoritmos tendem para a amplificação das crenças e opiniões próximas de quem procura informação ou pelo efeito descrito como Dunnig-Kruger, relacionado com a forma como os conhecimentos limitados das pessoas sobre determinados fenómenos podem conduzir, paradoxalmente, a crenças fortes e a uma confiança injustificada da pessoa nas suas próprias capacidades de compreensão desse fenómeno. Como um menor conhecimento sobre algo pode, ao invés de suscitar dúvida e estimular a curiosidade e procura de mais informação, gerar certezas e encerramento nas mesmas.

Estes factores contextuais potenciam-se e potenciam estas características profundamente humanas, às quais acrescem, ainda, a nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social e um conjunto de heurísticas (por exemplo de disponibilidade, que nos conduz a considerar como mais provável um evento que facilmente podemos evocar face a outros não tão automáticos) e de vieses (por exemplo de confirmação e ancoragem, respectivamente a forma como procuramos ou damos mais atenção a informação que confirme as nossas crenças e opiniões e como confiamos na primeira informação, informação âncora, que recebemos sobre um determinado fenómeno) que, ao simplificarem e automatizarem processos cognitivos e mentais geram, muitas vezes, erros sistemáticos no pensamento e na tomada de decisão.

Os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.

É neste quadro que cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam. Devemos fazê-lo ao longo da vida e conjugá-lo com o desenvolvimento da capacidade de escuta, de relação e de competências socio-emocionais, que garantam níveis de auto-estima e auto-confiança. Devemos fazê-lo com a promoção do interesse, da curiosidade e de literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação e, ainda, com a promoção de contextos que promovam a segurança psicológica e uma comunicação aberta. Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.

Deixo um exemplo, também porque curioso, o “RTO – Return to Office” [Regresso ao Escritório]. Com o irromper do teletrabalho, necessariamente exponenciado pela pandemia que recentemente enfrentamos, muitas pessoas, incluindo “especialistas”, afirmaram que as transformações no mercado de trabalho e no modo de trabalhar seriam, sem dúvida, permanentes. Sabemos que, no geral, os seres humanos não são bons a prever o futuro mas, ainda que o saibamos, não deixa de ser assinalável que em 2023 as maiores empresas, incluindo consultoras ou tecnológicas como a “Zoom” (cujo negócio principal é exactamente a disponibilização de ferramentas que permitem e facilitam o trabalho à distância), estejam a solicitar aos e às trabalhadoras que, com algumas condições, regressem ao trabalho presencial, ao menos em parte do tempo de trabalho, considerando, entre outros, os impactos que o teletrabalho em exclusivo demonstra ter na vinculação, qualidade de trabalho e produtividade de equipas. Que este “RTO”, possibilitado pela dúvida, informado pela ciência e respeitando a diversidade de trabalhadoras e trabalhadores, seja estímulo para um outro “RTO”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa. Assume um papel muito relevante, protegendo-nos de heurísticas, vieses e de um contexto que nos rodeia que periga a sua utilização e utilidade, cristalizando-nos e polarizando-nos. A dúvida, particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva… Dúvida que nos permite melhores tomadas de decisão, sobre as quais versará o próximo texto deste “Ao redor”.

 

Tiago Pereira

A dúvida e o regresso aos outros

in Sábado (Ao redor…); 08.11.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-e-o-regresso-aos-outros

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A 21 de Outubro de 1879, Thomas Edison apresentou, formalmente, o pedido de patente para um projecto – a lâmpada incandescente – que viria a transformar a vida das pessoas. Creio-o um momento simbólico e creio-o, particularmente, num momento em que algum obscurantismo parece querer, metaforicamente, um regresso a alguma penumbra.

Num momento em que por cá e um pouco por todo o Mundo a saúde, particularmente a saúde mental, e o bem-estar são desafiados (veja-se as administrações hospitalares do Reino Unido a classificarem a “saúde mental como uma emergência nacional”), dados e informação científica sobre esta área, particularmente nas/os jovens (onde os desafios são muito significativos) é, julgo, como que uma “patente para uma lâmpada incandescente”, 144 anos depois.

É, também por isso, que venho partilhar o Ebook “Saúde Mental dos Jovens”. Coordenado pela Tania Gaspar, pelo Fábio Botelho Guedes e pelas Ana Cerqueira e Margarida Gaspar de Matos, resulta de um estudo colaborativo da World Health Organization sobre o bem-estar de adolescentes (6º, 8º, 10º e 12º anos), envolvendo 51 países e promovido em Portugal pela Aventura Social – Associação, com colaboração de um conjunto de entidades, incluindo a Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Os seus resultados sublinham o agravamento dos problemas de saúde mental e bem-estar, nomeadamente no que se refere às preocupações, relações interpessoais e expectativas futuras. Procuram detalhar e discutir as causas (e consequências), para melhor informar políticas públicas.

Conta com um capítulo (“Estatuto socioeconómico, saúde mental e bem-estar em adolescentes em contexto de pandemia”; página 45-67) para o qual contribui com as/os autoras/es e a que se juntaram, ainda, a Marta Barata e a Sofia Sousa. Artigo que analisa, especificamente, o impacto da condição sócio-económica na saúde mental e bem-estar, que surgem penalizados em populações com os mais baixos níveis, procurando, também, apresentar e reflectir outras variáveis que os condicionam, mais uma vez, para melhor informação às políticas públicas, numa matéria particularmente sensível.

Perguntava a Margarida Gaspar de Matos na sessão de apresentação o que podemos fazer para que esta informação chegue mais e com maior impacto a decisoras/es. Três curtas sugestões, tornar e manter “salientes” os determinantes sociais da saúde, bem-estar e sucesso educativo. Envolver todo o ecossistema no processo de investigação e acção. E, particularmente, reforçar um esforço e empenho conjunto de promoção da confiança, que permita mais possibilidade, quando justificada, de mudança e mais envolvimento e compromisso na mesma de todos. Todos.

Muito obrigado por este trabalho. Muito obrigado por terem procurado o meu contributo e por me darem esta oportunidade.

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Especiais interesses…

Não sei quantas e quantos de vós já estiveram dentro de uma pegada de dinossauro com cerca de 175 milhões de anos. Eu já estive e, além de fascinante, é uma sensação complexa, pela difícil concretização da ideia de estar, no presente, numa pequena cratera, produzida por um ser vivo de uma espécie extinta que, naquele caso, podia ter tido até 30 metros de altura e pesar 70 toneladas.

Mais quando a primeira vez que o fiz foi num momento em que ainda não abundava o acesso fácil à informação e à imagem que a internet e televisão/streaming proporcionam ou aos parques temáticos que, conjuntamente, permitem maior concretização.

Essa primeira vez seguiu-se a 3 acontecimentos significativos para mim naqueles anos próximos: um livro que recebi, hoje impossível pela crueza da informação e imagem e, até, pela informação hoje existente e não existente à época, livro que esteve no meu quarto de infância até ao dia em que mudou para o quarto do meu filho mais velho; o filme e todo o “universo Jurassic Park”; e todo o debate em torno da Pedreira do Galinha, ali a poucos km da minha aldeia, onde se tinham descoberto os trilhos de pegadas e onde meses (anos até) de debate se prolongaram até à abertura do parque das “Pegadas dos Dinossauros da Serra de Aire”. Hoje serão poucas as crianças que não visitaram já uma exposição ou um parque temático com reproduções próximas de diferentes dinossauros e/ou que não tenham acedido a ampla informação, imagens, vídeos sobre dinossauros. Mas…

O meu fascínio, o nosso fascínio, é o fascínio dos meus e nossos filhos, das crianças de hoje e, penso, de amanhã. Aqui e Mundo fora.

Fascínio que nos une, também porque atravessa gerações, reforçando a nossa curiosidade pelo que nos rodeia, pelo nosso passado, pela nossa história, pelo nosso planeta. Ainda, porque trata de seres vivos poderosos e gigantes, algo particularmente magnético para crianças e que se associa à atracção destas por meios de transporte / veículos de grandes dimensões (algo que também, hoje, testemunho) como autocarros, camiões, tractores, comboios ou aviões, estes últimos “voadores” como alguns dinossauros.

Podemos chamar-lhe “hiperfixação” ou “um especial interesse”. É comum, natural, talvez até desejável, seja face a dinossauros, como em tantas crianças, seja face a outro tema. Estimula o jogo baseado na imaginação e conceptualização, sendo particularmente benéfico para o desenvolvimento cognitivo das crianças pois requer (mais) atenção, persistência e aprofundamento da informação, além de relacionamento com outra informação e memória.

As férias, incluindo as “férias grandes”, são momentos relevantes para as famílias percorrerem estes especiais interesses das crianças. As escolas, aí à porta, em qualquer ciclo de estudo incluindo o pré-escolar, são instituições relevantes para reconhecerem e validarem os especiais interesses de cada aluna/o e garantirem espaços para o seu desenvolvimento, por exemplo, através de trabalho em equipa, grupo ou de projecto.

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The kids are not all right

Vivemos um momento muito complexo relativo à prevalência de problemas de saúde mental nas crianças e jovens. Em rigor, vivêmo-lo em todas as faixas etárias, mas, muito especialmente, na população mais jovem.

Problema que não é problema apenas em Portugal. Há sensivelmente um ano fiquei profundamente impactado ao assistir a um evento muito a propósito intitulado “The kids are not all right”, sobre o declínio da saúde mental na população jovem nos EUA. Tal qual fico ao reflectir sobre o aumento das perturbações depressivas e de ansiedade na última década na Europa, com países como a França ou o Reino Unido a aumentarem 2 a 4 vezes a incidência. Ou quando observo dados portugueses sobre comportamentos autolesivos ou dados globais sobre suicídio na adolescência. Quando um relatório do Centers for Disease Control and Prevention indica que em 2021 13% das alunas do ensino secundário nos EUA tentaram o suicídio (30% consideraram-no seriamente), 20% se considerarmos o universo das/os estudantes LGBTQ+ (45% consideram-no seriamente), existindo dados consistentes também sobre a maior prevalência em jovens com pertenças comunitárias distintas.

Desigualdade(s). Exclusão. Nas suas antigas e novas formas, enquanto determinantes do passado e presente fundamentais para os problemas referidos, potenciados pelas novas formas de desigualdade e exclusão decorrentes da relação com as outras e outros (também por via das novas tecnologias e de uma sociedade focada no presente, no imediato e numa “ditadura” da felicidade), da pressão das notas e do mérito, da ausência de previsibilidade, controlo e de alguma segurança face ao futuro. Isto a par da carência de suporte e apoio consistente e contingente que acompanhe esta pressão e desafio à saúde mental e o capital social hoje existente que faz com que as/os jovens “exijam”, bem, respostas mais significativas e eficazes neste âmbito.

Sobre isto conversei com a Margarida Gaspar de Matos e a Tânia Monteiro Neves no Encontro Nacional de Psicólogos Ubuntu a 22.06, momento que aqui partilho: https://www.youtube.com/watch?v=qzRJWQvmqBs. Sobre isto conversei, com amigas/os e colegas de sempre, a convite da Cláudia Espiguinha Guerra, no meu primeiro Agrupamento de Escolas, onde estagiei e trabalhei os primeiros 7 anos enquanto psicólogo, reflectindo sobre os “Desafios na promoção da saúde mental de crianças e jovens”.

Sobre isto, finalmente, volto a partilhar o artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” que escrevi na rubrica “Ao redor” em Setembro de 2022: https://www.linkedin.com/pulse/rosa-dos-ventos-da-saúde-mental-população-jovem-tiago-pereira/.

Também para lembrar que a pandemia continuou/aprofundou alguns destes problemas, nomeadamente as suas manifestações comportamentais. Apenas continuou/aprofundou, não explica por si o aumento consistente da última década, pelo que há muito mais a fazer que a simples (e importante) recuperação da pandemia.

Para isso, todos contamos. Todos somos fundamentais.

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A morte da COVID é manifestamente exagerada

O jornal Inevitável desta semana volta ao tema da pandemia e dedica a sua edição a pensar e a reflectir o momento actual da COVID-19 e os diversos e múltiplos impactos da pandemia. Sob o mote “A morte da COVID é manifestamente exagerada”, reúne um conjunto de contributos, incluindo uma conversa/entrevista minha com a jornalista @Sónia Peres Pinto, que abaixo partilho.

Ao destaque da capa do jornal (“A ansiedade e os ataques de pânico aumentaram muito nas crianças e jovens”), a partir de um relato meu do que as colegas psicólogas e psicólogos referem relativamente às questões da saúde mental na população mais jovem, junta-se o destaque do interior da entrevista (“Não regressámos todos ao que éramos em 2019”), reflexão minha sobre a forma (diversa) e o tempo (diverso) do regresso à “normalidade” (dos eventos, das comemorações, do trabalho, …).

Além destes destaques, a entrevista foca outros aspectos, como são exemplo a ideia de que “o regresso a determinas as rotinas é um momento de celebração e de partilha”, fundamental à nossa identidade, ao bem-estar e à saúde mental ou a de que “não há hoje um psicólogo no SNS que tenha tempo para receber mais pessoas”, discutindo a necessidade de um investimento mais significativo e assertivo do Serviço Nacional de Saúde no reforço de profissionais de saúde mental, também porque as “pessoas com menos recursos são as que têm maior dificuldade em aceder-lhes”.

A quem possa interessar, partilho links para a entrevista completa nos sites Jornal i e Nascer do Sol.

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De pequenino é que se torce o ecrãzinho (Ao redor…; 16.05.2023)

“Quero ir a todas maternidades do país e quero que, quando um bebé nascer, alguém de forma aleatória, coloque uma etiqueta na testa que determinará a sua condição nos seus primeiros, digamos, 50 anos de vida. Baseado na cor da etiqueta organizaremos os bebés através de diferentes condições de exposição a ecrãs e redes sociais e acompanharemos o seu progresso e comportamento ao longo da vida.” Foi a proposta experimental impossível que Adam Alter apresentou quando Malcolm Gladwell o desafiou para um desenho experimental com uma “varinha mágica de investigação”. Fê-lo considerando a lacuna de conhecimento relativo aos que poderão ser os efeitos a longo prazo da exposição a ecrãs e redes sociais, em diferentes momentos da nossa vida.

Havendo quem entenda que as preocupações com estes temas são excessivas, creio importante reflectirmos sobre os seus impactos, particularmente em bebés, crianças e adolescentes e sobre o que sabemos do seu efeito a curto/médio prazo. Senão, vejamos.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, pudemos recentemente comparar resultados de provas de aferição de 2º ano entre crianças sem (2019) e com (2022) dois anos de pandemia COVID-19 e dos seus impactos no relacionamento interpessoal e na Educação. Em Português, na Oralidade, a percentagem de alunas/os que “conseguiram” caiu 46,4 pontos percentuais, de 59,7% para 13,3%, aumentando 42,8 pontos a percentagem de crianças que revelaram dificuldade ou não conseguiram / não responderam (de 16,1% para 62,9%). Valores que confirmam o que ouvimos ao redor e preocupa as equipas técnicas que trabalham com estas idades: um aumento considerável de dificuldades na área da fala e na aquisição da “língua materna”, menor número e diversificação de palavras e maior utilização de “estrangeirismos”, associados a vídeos e jogos online, observados cada vez mais precocemente.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, podemos também comparar as alterações ao nível dos problemas de saúde mental das e dos jovens nos últimos anos. Alguns estudos demonstram aumentos progressivos e significativos, com a prevalência a duplicar no Reino Unido ou a quadriplicar, se considerarmos apenas a depressão, em França. E, ao contrário do anterior, estes últimos anos remetem para mais de uma década, com início entre os anos 2010 e 2012, momento em que, entre outras mudanças, se generalizaram os smartphones, a utilização de redes sociais e recursos tipo “Like” e “Retweet”. Um artigo recente do “Finantial Times” apresenta-o, graficamente. Nele, três linhas sobem consistentemente de 2010 a 2022: a de jovens dos EUA que referem não se ter encontrado presencialmente com amigas/os no último mês (de 4% para 12%); a dos que referem não se “sentirem bem por viver” (de 6% para 11%) e a do aumento do suicídio na adolescência. Gráficos em linha com as já consideráveis investigações que demonstram correlação, mais significativa no sexo feminino, entre longos períodos de exposição a redes sociais e a deterioração da saúde mental na população jovem.

Os ecrãs e as redes sociais, pela sua aditividade, pelo “negócio” envolvido e com o “impulso” que resultou do isolamento em períodos da pandemia, estão a pressionar a substituição de interacções presenciais pela socialização em ambiente digital. Alterações que, particularmente se precoces e/ou excessivas, tenderão a reproduzir-se mais intensamente mais tarde e que têm e terão impactos no bem-estar, na conexão com outras e outros, nos processos de aprendizagem (social), no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor, no feedback e resposta emocional e comportamental face a situações quotidianas e, até, nas dimensões da actividade física e do sono.

Atendendo a que esta é uma área onde a regulação dos meios/plataformas não tem sido intensa e eficaz (por exemplo, nos limites de idade de utilização de tecnologias ou de aplicações), o papel das e dos cuidadores adultos é absolutamente preponderante. Mas, se conforme os dados de fenotipagem digital do “Sistema de Vigilância e Monitorização da Actividade Física e Desportiva”, 71,2% da população adulta em Portugal cumpre as recomendações de actividade física da Organização Mundial da Saúde (OMS) e um número superior as de vacinação, qual é a percentagem que cumpre as recomendações da OMS para a exposição a ecrãs de crianças com menos de 5 anos a seu cargo? A OMS recomenda que crianças até aos 2 anos não estejam expostas a ecrãs (televisão, computador, tablets e telemóvel) e que entre os 2 e os 4 anos a exposição seja pelo menor tempo possível e com supervisão, indicando como tempo máximo uma hora diária. Ora, das cadeirinhas de bebé com suporte para tablet, às mesas de cafés e restaurantes à nossa volta, creio sabermos que, ao contrário de outras recomendações da OMS, estas não são, infelizmente, particularmente consideradas.

Sabemos porquê. Pela própria utilização e pressão que se coloca a quem cuida e pela facilidade, adequação ao estilo de vida e resultado da utilização de ecrãs. É muito mais simples, por exemplo, quando se conjuga com a necessidade de trabalhar, realizar tarefas domésticas, fazer uma refeição ou, simplesmente, mantermos bebés e crianças sentadas e minimamente sossegadas. É muito mais simples para que nós, adultos, possamos prevenir conflitos e desfrutar de diferentes momentos. Muito mais simples hoje, mas muito mais difícil amanhã. Como com alguns alimentos, é assim com os vídeos online, com os jogos online e, mais cedo ou mais tarde, com as redes sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, tendemos a olhar este desafio e os problemas que dele resultam em dimensões iminentemente individuais, não considerando que estas alterações profundas marcam hoje a sociedade e uma geração de bebés, crianças, adolescentes, jovens, mas também de quem cuida. Com a presença fortíssima de ecrãs há menos pessoas disponíveis para interacções presenciais, facto que reforça a dificuldade e os desafios que se colocam às mesmas. Com a presença fortíssima de ecrãs acresce a pressão para a sua utilização como meio de entretenimento e lazer, pressão que decorre quer das próprias crianças que querem como as outras fazê-lo e participar nesse meio, quer de quem cuida dessas crianças que pretendem que as nossas se mantenham, desde logo, sentadas e sossegadas nos espaços públicos, mas não apenas. Quando a pressão social concorre para incumprirmos recomendações algo está errado e precisa, rapidamente, mudar, sob pena do que hoje verificamos poder ser mais grave no futuro, também pelo que aí vem com a inteligência artificial, com níveis potenciais de aditividade, “negócio” e impacto ainda imprevisíveis. Aceitam que estamos perante um problema? Aceitam o desafio de mudarmos e partilharmos o Mundo ao redor com os ecrãs de forma mais equilibrada?

 

Tiago Pereira

De pequenino é que se torce o ecrãzinho

in Sábado (Ao redor…); 16.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/de-pequenino-e-que-se-torce-o-ecrazinho

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Um pausa…

Um, dois… Um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz. Ontem acordamos com a notícia do desaparecimento de José Duarte, porventura o mais importante divulgador do jazz em Portugal. O seu “Cinco minutos de jazz”, que sempre assim começa, oferece uma pausa diária com uma música há já 57 anos, pausa que muito fez e faz pelo reconhecimento/gosto da música jazz.

Foi também uma pausa, neste caso para a saúde mental, que o Gabinete de Apoio ao Estudante/Espaço S da @Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa propôs. Dois dias para reflectir uma questão hoje fundamental no Ensino Superior, com forte impacto no bem-estar de toda a comunidade educativa e com consequências diversas no presente e futuro do país.

Na mesa em que participei, com a @Catarina Ruivo e a @Olga Cunha, moderada pelo @Diogo Telles Correia, realcei a importância de discutirmos este tema, neste contexto. Alertei para a importância de atendermos não apenas à urgência de apoiarmos quem, em sofrimento ou com um problema de saúde mental, necessita de suporte mas também pensarmos as causas do significativo aumento destas situações. Olharmos, como fiz no artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” para:

  1. (N)otas e para o foco nos resultados e competitividade, com claro prejuízo do desenvolvimento de outras competências, incluindo as sócioemocionais, e do auto e heterocuidado;
  2. (O)utras e Outros e a necessidade da população jovem estar (sempre) “feliz”, porquanto as redes sociais, as relações e o reconhecimento no espaço virtual são importantes, acrescentando uma pressão significativa, potencialmente estigmatizante e penalizadora;
  3. (S)uporte e sua ausência, considerando que ao capital social associado à aspiração da população jovem a mais e mais contingentes respostas na saúde mental não correspondeu um significativo aumento do acesso e da equidade de acesso;
  4. (E)stabilidade também ausente, manifesta na falta de previsibilidade sobre o futuro e na ausência de segurança e controlo, pelo aumento do custo de vida/habitação e pela elevada precariedade.

Tudo a acrescentar pressão e factores de stresse a uma transição/adaptação existente, num momento de vida desafiante. Tudo com impacto desproporcional nas e nos com maiores vulnerabilidades. Tudo a contribuir para elevadas taxas de abandono no ensino superior (11% nas licenciaturas; 16% nos mestrados) e de mudança de curso/instituição (9%). Tudo grave, mas tudo menos grave do que o que se espera nos próximos anos, considerando o agravamento da condição dos e das agora adolescentes.

Obrigado à @Carla Vale Lucas e a toda a equipa que organizou o evento por o trazerem a debate, por me confiarem um papel e por procurarem mobilizar respostas para esta situação.

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Menina – Rapariga – Mulher

“O que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Y. Arthus-Bertrand e A. Mikova. Nele agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. “Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.”

“Menina – Rapariga – Mulher”, 46º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) “viaja” a várias latitudes do Mundo para assinalar exemplos de retrocessos na igualdade de direitos que justificam a afirmação/inquietação anterior, sublinhando quanto a desigualdade de género impacta diversos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, além ODS5 (Igualdade de Género). “Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por ex.), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (por ex. na pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência.”

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades (…) Também estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor representatividade e qualidade das suas instituições.”

Termino o texto sugerindo que nos interpelemos, envolvamos e que “enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género”. Procurei fazê-lo, também, num artigo que escrevi (“O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações”) no livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado por @Susana Almeida Lopes e @Margarida Couto e, cuja apresentação amanhã (29.11) partilharei com a @Helena Pita Soares, @José Sintra e @Paulo Simões (informações/inscrições aqui).

Pois como Baldwin afirmou: “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

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COP27 e as comemorações dos dias Universal dos Direitos da criança e da memória das vítimas da estrada

Quando na principal via de acesso à bonita cidade de Évora olhamos à esquerda, ali o encontramos. Ali, onde tantas vezes passei, a caminho ou no regresso da Escola e bairro onde trabalhei os primeiros (significativos) anos, enquanto psicólogo e coordenador de um projecto. Jardim da memória, memória de tantas vidas interrompidas, brutalmente perdidas na e pela estrada. Bairro e Escola, memória minha de como as circunstâncias, também e ainda em Portugal, desafiam e limitam Direitos das crianças. Ontem, dia final da COP27, comemorou-se o Dia Mundial em memória das vítimas da estrada e o Dia Universal dos Direitos das crianças.

Comemorações que, creio, podem dar-nos uma importante pista para reflectir sobre os limitados resultados da COP27. “Foi dado um passo muito curto para os habitantes do Planeta” disse Guterres. Apesar da declaração final afirmar finalmente a “necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis” às alterações climáticas, não tem avanços significativos (pelo contrário) na redução de emissões de gases com efeito estufa. Acordo e consenso mínimo, na compreensão do problema, seus impactos e da necessidade de reparação. Desacordo na mudança e transformação necessária à redução de emissões, também pela dificuldade em conceber a mudança de foco nos combustíveis fósseis em simultâneo com a promoção da possibilidade de bem-estar.

A pista resulta da forma como estas comemorações demonstram a compatibilidade potencial das mudanças estruturais com a maior possibilidade de bem-estar. Assim foi e é com a progressiva operacionalização da Carta dos Direitos das crianças, quando se coloca o foco, exactamente, nas crianças. Assim foi e é com a redução das vítimas da estrada, particularmente quando se desenham cidades com o foco na pessoa (peões) e não no carro (tráfego).

Em 2019 (2020/21 são anos atípicos) morreram em Portugal 74 pessoas atropeladas. Nos últimos anos, mais de 10 pessoas por ano em média apenas em Lisboa. Também em 2019, Oslo e Helsínquia não tiveram qualquer morte por atropelamento e Londres está a implementar um plano com esse objectivo. Procura mudar o foco da “melhoria do tráfego” para as “pessoas primeiro” e, além de uma redução significativa dos atropelamentos (e mortes), tem resultado na diminuição do número de carros por família, dos crimes na rua e na maior utilização do espaço público para brincar e andar.

Num e noutro caso exemplos de como mudar o foco pode estimular (e não diminuir) a possibilidade de bem-estar. Um e outro caso a fazerem-nos recordar que mudar é difícil, mas possível, particularmente se envolver as pessoas. Que um foco em energias renováveis e nas possíveis e necessárias reduções, com apoio aos países com maiores vulnerabilidades, é exequível e pode, em simultâneo, ser promotor da possibilidade de bem-estar e do desenvolvimento sustentável de cada país e do Mundo.

Pelo que esperamos?

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1000 dias (Sábado; Ao redor…; 26.10.2022)

“Há mais 256 mil pessoas em Portugal a viver em risco de pobreza e exclusão” em 2021, face a 2020, de acordo com os dados do inquérito às condições de vida e rendimento do Eurostat. Mais 256.000 pessoas, em grande parte, resultado da pandemia por COVID-19, que contribuiu decisivamente para a interrupção de um período de decréscimo entre 2014 e 12019 deste e de outros indicadores relacionados com a pobreza, risco de pobreza e exclusão. Ouvimos e revimo-nos neste aumento do número de pessoas e famílias expostas a situações de escassez e pobreza. Também a exclusão e privação material e social, que também aumentou, tal como a desigualdade. Revimo-nos, porque o sentimos, grande parte de nós nas nossas famílias, todos na sociedade. Revimo-nos porque muitas vezes lhes acrescentamos nomes e situações concretas. Isto, pese embora, como o economista Carlos Farinha Rodrigues bem disse num debate em que participei a propósito do tema da pobreza, quando olhamos estes dados, “olhamos sempre pelo espelho retrovisor”.

Há? Havia, porque, em Outubro de 2022, quando conhecemos estes dados relativos a 2021, considerando agora os efeitos da crise socioeconómica resultante da maior inflação das últimas três décadas, podemos intuir que o número de pessoas nestas situações será, certamente, bem diferente dos números que discutimos e resulta num aumento de situações de privação, muitas vezes de desespero, em muitas famílias. E, importando olhar os dados, ainda que retrospectivamente, pensar a actual situação implica olhar prospectivamente o que poderemos esperar de consequências deste exigente momento. Destaco, além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social, duas que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais de situações de pobreza nos mesmos agregados familiares.

A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos. Assim, é possível prever que, caso suceda o que sucedeu na crise socioeconómica do início da anterior década, quando não houve reforço do apoio na área da saúde mental às pessoas em maior vulnerabilidade, esta situação resulte num aumento e agravamento dos problemas de saúde mental. E, consequentemente, numa maior probabilidade de manutenção ou queda destas pessoas em situação de precariedade, exclusão ou pobreza. Este ciclo resultará em níveis superiores de sofrimento, conduzirá a uma menor disponibilidade emocional das pessoas para o processo de recuperação (económica) que se sucederá à crise e a custos superiores no potencial apoio à saúde mental destas pessoas mais tarde, pela maior complexidade da intervenção se o problema se instalar e cristalizar. Neste sentido, importa, no presente, além de priorizar o apoio económico às pessoas com maior vulnerabilidade, priorizar também a disponibilização de apoio em proximidade e contingência na área da saúde mental, preferencialmente reforçando com urgência o número de profissionais da área da saúde mental associados aos centros de saúde e restantes unidades de cuidados de saúde primários e investindo no desenvolvimento de competências sócioemocionais, particularmente, mas não apenas, junto de crianças e jovens.

A segunda toca um conceito que tem ganho maior densidade, a partir de um conjunto cada vez mais significativo de investigação: os 1000 dias. Por 1000 dias entende-se o período dos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade com impacto ao longo de toda a vida, porquanto impacta o desenvolvimento neurológico (cerebral) e biológico. Ora, a investigação tem demonstrado com acutilância a forma como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão e/ou pobreza, tem um impacto significativo no desenvolvimento do bebé. Estes bebés, no seu dia 0 de vida, têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse dela resultante. Este processo é, muita vezes, continuado e aprofundado nos primeiros dois anos de vida quando se mantém este stresse e, a ele, não raras vezes, se associam dificuldades de alimentação e má nutrição, falta ou uma menor estimulação e a ausência de capacidade ou oportunidade de mobilização de competências parentais por parte das cuidadores e dos cuidadores, resultando numa desvantagem no final dos 1000 dias já particularmente significativa entre crianças expostas a contextos com níveis de adversidade distintos. Esta desvantagem impacta todo o processo de desenvolvimento, a educação e a saúde ao longo de todo o ciclo de vida, conforme estudos longitudinais têm demonstrado.

A ideia de um bebé nascer já com uma desvantagem, expressa no desenvolvimento (menor) das suas estruturas biológicas e neurológicas, corresponde a uma gravíssima injustiça social que nos deveria mobilizar. Particularmente num país de baixa natalidade e com desafios exigentes na sua demografia, deveríamos procurar, no presente para não condicionar o futuro de novos cidadãos, respostas assertivas que pudessem proteger e apoiar com maior intensidade os “agregados familiares dos 1000 dias”, reduzindo a sua exposição a situações de escassez, potenciando as licenças de maternidade e paternidade e melhorando o acesso e a qualidade das creches.

Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro e maior possibilidade de mobilidade social de pessoas e famílias da actual geração e das gerações seguintes. Duas áreas de actuação que apontariam a dois problemas estruturais do país (a elevada prevalência de problemas de saúde mental; a elevada pobreza e a sua reprodução geracional), que condicionam o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, a equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental, conforme objectivo da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 21-30, fazermos da erradicação da pobreza desígnio. Um objectivo exigente, mas possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas. Um desígnio que exige a participação de todos e que se inicia com as conversas que podemos ter e que devemos promover em diversos contextos. Que se inicia tornando este assunto saliente e presente no espaço público, na acção de diversos grupos profissionais, na investigação de diversas equipas de investigação e no dia-a-dia de lideranças e de decisoras e decisores. Que se concretiza com a mobilização da sociedade civil e com políticas públicas mais informadas pela ciência e, por isso, mais eficazes e eficientes no presente, que contribuam para um futuro melhor para todos.

 

1000 dias

in Sábado (Ao redor…); 26.10.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/1000-dias