
O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante, por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento. Cada um de nós tem exemplos disso e não faltam histórias que o tratam, na nossa memória colectiva, umas reais, outras ficcionadas. Pensemos, por exemplo, no Titanic e na forma como a “White Star Line”, sua promotora, o promovia com uma narrativa assente numa suposta “inafundabilidade”, questionada pelas consequências sobejamente conhecidas do embate num iceberg meros quatro dias após o início da sua primeira viagem. Pensemos, por exemplo, no conto do “Patinho Feio” de Hans Christian Andersen e de como a narrativa evolui da ostracização e rejeição de um suposto “patinho” para o mais deslumbrante cisne do lago.
Sendo o Mundo em que vivemos desafiador e complexo, a dúvida é hoje, para muitas pessoas e usando das metáforas anteriores, um “patinho feio” e a ausência de dúvida, responsável por embates que as e nos afundam. Há diversas razões que o justificam. Da polarização, causa e consequência, também, da maior ausência de dúvida, à sobrecarga de informação e facilidade e rapidez de acesso à mesma, que estimula uma maior passividade na aceitação da informação. Passando pela forma como as redes sociais e os seus algoritmos tendem para a amplificação das crenças e opiniões próximas de quem procura informação ou pelo efeito descrito como Dunnig-Kruger, relacionado com a forma como os conhecimentos limitados das pessoas sobre determinados fenómenos podem conduzir, paradoxalmente, a crenças fortes e a uma confiança injustificada da pessoa nas suas próprias capacidades de compreensão desse fenómeno. Como um menor conhecimento sobre algo pode, ao invés de suscitar dúvida e estimular a curiosidade e procura de mais informação, gerar certezas e encerramento nas mesmas.
Estes factores contextuais potenciam-se e potenciam estas características profundamente humanas, às quais acrescem, ainda, a nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social e um conjunto de heurísticas (por exemplo de disponibilidade, que nos conduz a considerar como mais provável um evento que facilmente podemos evocar face a outros não tão automáticos) e de vieses (por exemplo de confirmação e ancoragem, respectivamente a forma como procuramos ou damos mais atenção a informação que confirme as nossas crenças e opiniões e como confiamos na primeira informação, informação âncora, que recebemos sobre um determinado fenómeno) que, ao simplificarem e automatizarem processos cognitivos e mentais geram, muitas vezes, erros sistemáticos no pensamento e na tomada de decisão.
Os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.
É neste quadro que cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam. Devemos fazê-lo ao longo da vida e conjugá-lo com o desenvolvimento da capacidade de escuta, de relação e de competências socio-emocionais, que garantam níveis de auto-estima e auto-confiança. Devemos fazê-lo com a promoção do interesse, da curiosidade e de literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação e, ainda, com a promoção de contextos que promovam a segurança psicológica e uma comunicação aberta. Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.
Deixo um exemplo, também porque curioso, o “RTO – Return to Office” [Regresso ao Escritório]. Com o irromper do teletrabalho, necessariamente exponenciado pela pandemia que recentemente enfrentamos, muitas pessoas, incluindo “especialistas”, afirmaram que as transformações no mercado de trabalho e no modo de trabalhar seriam, sem dúvida, permanentes. Sabemos que, no geral, os seres humanos não são bons a prever o futuro mas, ainda que o saibamos, não deixa de ser assinalável que em 2023 as maiores empresas, incluindo consultoras ou tecnológicas como a “Zoom” (cujo negócio principal é exactamente a disponibilização de ferramentas que permitem e facilitam o trabalho à distância), estejam a solicitar aos e às trabalhadoras que, com algumas condições, regressem ao trabalho presencial, ao menos em parte do tempo de trabalho, considerando, entre outros, os impactos que o teletrabalho em exclusivo demonstra ter na vinculação, qualidade de trabalho e produtividade de equipas. Que este “RTO”, possibilitado pela dúvida, informado pela ciência e respeitando a diversidade de trabalhadoras e trabalhadores, seja estímulo para um outro “RTO”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa. Assume um papel muito relevante, protegendo-nos de heurísticas, vieses e de um contexto que nos rodeia que periga a sua utilização e utilidade, cristalizando-nos e polarizando-nos. A dúvida, particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva… Dúvida que nos permite melhores tomadas de decisão, sobre as quais versará o próximo texto deste “Ao redor”.
Tiago Pereira
A dúvida e o regresso aos outros
in Sábado (Ao redor…); 08.11.2023
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-e-o-regresso-aos-outros


